1408
(1408, Estados Unidos, 2007)

Direção: Mikael Håfström
Roteiro: Mikael Håfström; Scott Alexander; Larry Karaszewski, baseado em conto de Stephen King
Produção:Lorenzo di Bonaventura
Música: Gabriel Yared
Edição: Peter Boyle
Elenco: John Cusack (Mike Enslin); Samuel L. Jackson (Gerald Olin); Mary McCormack (Lily Enslin); Tony Shalhoub (Sam Farrell); Jasmine Jessica Anthony (Katie Enslin); Len Cariou (pai do Mike); Isiah Whitlock Jr.; Paul Birchard; Margot Leicester; Walter Lewis; Eric Meyers; David Nicholson; Holly Hayes; Alexandra Silber; Johann Urb; Andrew Lee Potts


SINOPSE
Baseado num conto de Stephen King homônimo, 1408 apresenta o estudioso em paranormalidade e cético, Mike Enslin, autor de dois livros que desvendam os truques por trás de eventos sobrenaturais. Como pesquisa para seu novo livro, Enslin está determinado a investigar os mistérios existentes no quarto 1408 de um hotel de Nova Iorque. Sua intenção é mostrar que o quarto possui mais mitos e lendas do que assombrações verdadeiras. Alertado pelo gerente do hotel sobre as tragédias ocorridas no local, ainda assim o insistente Enslin resolve passar a noite por lá, ignorando o fato de que ninguém sobreviveu à experiência...

"13? 666? *cof* 23? Nada disso. O novo número do terror é 1408!”.


Já faz um tempo razoável que não podemos ver uma boa adaptação do Mestre Stephen King nas telonas (a última foi JANELA SECRETA, em 2004, e a anterior foi O APANHADOR DE SONHOS, de 2003, e, bem, é melhor esquecer isso...) e mesmo as boas histórias de terror de uma maneira geral estavam escassas.

Convenhamos que o gênero anda inflacionado ultimamente, sofrendo de uma falta de criatividade imensa, de modo que produções com histórias simples e eficientes, dirigidas de forma que te mantém preso e entretido o tempo todo - sem tentar chocar o espectador à toa e tampouco chamar o público de idiota - devem ser recebidas com certa empolgação.

É até para se admirar que o filme 1408, que chegou aos cinemas nacionais no último dia 2 de novembro, possa surpreender uma boa parcela do fã de horror, pois muitos
faróis amarelos estavam acesos para a produção: Mikael Håfström é um diretor sueco cuja experiência não é muito grande (seu último filme foi FORA DE RUMO, de 2005); a censura PG-13 nos Estados Unidos que quase sempre significa filmes repletos de sustos fáceis; os testes de audiência que exigiram um final menos pessimista (detalhes no final do artigo); e mais pessoalmente eu não ia com a cara do protagonista John Cusack, até agora, hehehe...

E o próprio conto 1408 encontrado no livro "Tudo é Eventual", de 2002, não é uma história das melhores de Stephen King e como se não bastasse lembra muito O Iluminado. E quando falamos de adaptações de contos de King para o cinema aí que a coisa vai por água abaixo: COMBOIO DO TERROR, A MALDIÇÃO DE QUICKSILVER, MANGLER, a infinita série COLHEITA MALDITA...

Contudo esta história é das boas e trata essencialmente sobre a vida do escritor Mike Enslin (John Cusack de IDENTIDADE e ALTA FIDELIDADE). Ele é um profissional prodigioso, mas não muito bem sucedido que ganha a vida escrevendo sobre locais que se supõem ser assombrados. Todavia nenhum dos locais que visitou - entre hotéis, mansões e cemitérios - conseguiu provocar no homem mais do que bocejos.



Dono de um humor ácido, Enslin é um homem amargo e cético, que deixou a mulher Lily (Mary McCormack, de IMPACTO PROFUNDO e FULL FRONTAL) em Nova York após a morte de sua filha Katie (Jasmine Jessica Anthony do seriado de TV Commander in Chief) por uma doença incurável e hoje vive em Los Angeles. Sua reputação é conhecida e todos os dias se dirige religiosamente aos correios onde recebe folhetos dos locais assombrados cujos proprietários tentam com sua visita ganhar publicidade gratuita.

Num destes dias comuns, o escritor recebe um folder do hotel Dolphin, em Nova York, cuja fama é feita sobre o quarto 1408 (não é coincidência que a soma dos algarismos do quarto dá 13, uma das várias referências ao número no filme) local que ninguém é autorizado a se hospedar.

Conforme se aprofunda nas pesquisas sobre o hotel, Mike se interessa cada vez mais e tenta sem sucesso se hospedar no quarto obscuro. Seu agente Sam Farrell (Tony Shalhoub, o protagonista da série MONK) sabe disso e revela, durante conversa com Enslin, que há uma lei que obriga o hóspede a ficar em qualquer quarto desde que esteja vago, conseguindo assim uma reserva no famigerado 1408.

Chegando ao hotel Dolphin, o escritor é levado para uma conversa tensa com o gerente Gerald Olin (Samuel L. Jackson, SERPENTES A BORDO e CORPO FECHADO), que tenta de todas as formas impedir que Enslin passe a noite naquele quarto, contando toda a história do 1408: desde sua inauguração 58 pessoas morreram no quarto (5+8=13, sacou?) - desde suicídios bizarros até "causas naturais" - uma camareira arrancou os próprios olhos enquanto gargalhava histericamente - ninguém consegue permanecer mais de uma hora lá dentro.



Relutante ao extremo, Olin lhe dá a chave, uma garrafa de conhaque que custa 800 dólares e os arquivos do hotel. Enslin entra no 1408 munido de seu pequeno gravador e sua camisa havaiana tirando sarro da atitude esquisita do gerente. Para ele Olin só quer atrair a mesma propaganda dos outros hotéis em que ficou.

O quarto a primeira vista é como tantos outros, com quadros de gosto duvidoso, frigobar e televisão com opção de compra de filmes pornográficos. Enslin fica entediado e grava tudo. Todavia as coisas começam a mudar rapidamente em uma nuvem de terror crescente até que o escritor se vê preso dentro do quarto, e seja lá o que habita aquele lugar quer colocar Mike em "maus lençóis".

Então... Chega de contar... Saibam apenas que no 1408 nada é o que parece, repetidos flashbacks mostram outros ângulos de Enslin e que We've Only Just Begun, do The Carpenters nunca pareceu tão terrivelmente assombroso... :-)

Se 1408 é um filme basicamente sobre um homem em um quarto assombrado, as escolhas destes dois "personagens" cruciais fazem toda a diferença para o sucesso da película: a parte "inanimada" fica garantida pelo excepcional trabalho do diretor de fotografia, Benoît Delhomme, e a outra parte é John Cusack.

E John Cusack é um nome que merece todo o nosso respeito: seu Mike Enslin transpira todo o sarcasmo que logo se transforma em paranóia e, finalmente, evolui para o simples medo. Claro que não poderíamos deixar de citar o sempre excelente Samuel L. Jackson e dizer que, ainda que apareça pouco, Tony Shalhoub faz um ótimo trabalho. Quem fica num patamar bem abaixo é Mary McCormack - sua participação é pequena e não chega a comprometer.

ATENÇÃO: A FINAL ALTERNATIVA DO FILME 1408 É REVELADO NO PRÓXIMO PARÁGRAFO, NÃO LEIA CASO AINDA NÃO TENHA ASSISTIDO A VERSÃO DE CINEMA!

Como havia adiantado ao início deste artigo, a produção passou por alguns problemas durante os testes de audiência, que achou o final original excessivamente pessimista: nele, Enslin morre queimado junto com o quarto, mas satisfeito por ter acabado com a "maldição". Olin se aproxima de Lily durante o funeral do escritor que recusa receber a caixa com os pertences chamuscados de Enslin. Olin ouve a fita no gravador enquanto está no carro, ouve a vóz de Katie e tem um lampejo da figura queimada de Enslin pelo retrovisor. O filme termina com o escritor desaparecendo depois de ser chamado pela voz de sua filha e com o som de uma porta se fechando.
Esta final alternativa já está disponível na edição especial de 1408, em DVD duplo, já disponível em seu país de origem. O novo final filmado por sua vez também é muito bom e se aproxima mais do término do conto.

A propósito as saídas que complementam o conto, escritas a seis mãos pelos roteiristas Matt Greenberg, Scott Alexander e Larry Karaszewski são genuinamente uma extensão do trabalho original e acabam trazendo o "espírito" de King como poucas vezes aconteceu no cinema.

Por fim, mas não menos importante, crédito merecido para o diretor Håfström, que conseguiu criar uma atmosfera sinistra aplicando a mistura de CGI com efeitos convencionais na medida certa.
Existem alguns defeitos de edição, porém o maior deles fica na comparação que alguém pode fazer com o irretocável filme de Kubrick, O ILUMINADO. Apesar de ambos serem histórias de fantasmas em hotéis envolvendo insanidade e birita, os enfoques são diferentes: o primeiro é uma obra de arte sobre uma família em perigo enquanto o outro é apenas um homem cético num quarto amaldiçoado. Håfström aparenta saber até onde quer ir e não é pretensioso o bastante para tentar fazer um novo clássico, contribuindo para que a experiência seja ainda mais satisfatória.

Na minha opinião 1408 é a maior surpresa do ano até agora e mesmo que não concordem não se pode negar que é diversão de primeira para assustar genuinamente ao fã do gênero, puristas de Stephen King, e a grande audiência, o que para quem apostas as fichas no futuro do terror na franquia JOGOS MORTAIS e similares é um ótimo negócio.


CURIOSIDADES

- Kate Walsh era cotada para fazer o papel de Lily, porém não pode fazer devido a conflitos de agenda com o seriado "Grey's Anatomy". Ela foi substituída por Mary McCormack;

- Uma das vitimas do quarto 1408 chama-se Grady. Grady foi um personagem no livro O Iluminado;
- Em uma citação engraçada no filme, Mike veste um boné escrito "Paranoia is awareness" (Paranóia é consciência). Esta é uma referência a uma das frases favoritas de Stephen King, "Perfect paranoia is perfect awareness" (perfeita paranóia é perfeita consciência);

- Na cena em que Mike assina os livros, ele diz "Stay scared" (continue com medo). Esta é uma frase tradicionalmente usada pelo diretor George A. Romero, amigo de Stephen King, que a aplica como parte de seus autógrafos;

- O orçamento foi estimado em 25 milhões de dólares e já rendeu quase 100 milhões ao redor do globo.

Gabriel Paixão



por Marcelo Carrard

Stephen King é um dos escritores mais adaptados para o cinema e a televisão dentro do Gênero Fantástico. Em muitos casos o resultado dessas adaptações foi muito satisfatório, rendendo obras que se tornaram clássicas, como por exemplo: O Iluminado, dirigido por Stanley Kubrick, Carrie, A Estranha, de Brian de Palma, além de outros filmes muito interessantes como Cemitério Maldito, Christine, Conta Comigo, Olhos de Gato, entre muitos outros.

O nome do escritor virou uma marca seguida por uma legião de fãs mundo afora. Basta colocar o nome de Stephen King no cartaz de um filme que já vira sucesso de público. Mesmo sem o impacto de tempos atrás, a fecunda imaginação do escritor ainda consegue nos proporcionar boas histórias. No recente caso do filme 1408, vemos o autor, em um conto original, criar o suporte para um longa onde sua obra é revisada em muitas auto-citações, além de se utilizar do efeito da metalinguagem colocando em
cena a figura de um escritor como protagonista da trama.

1408 conta a história de Mike Enslin, muito bem interpretado por John Cusack, que é especializado em contar histórias sobre locais supostamente mal-assombrados. Ele não é um grande sucesso, mas tem seus fiéis leitores. Ao descobrir uma história sobre um famoso quarto de um hotel de Nova Iorque, percebe que chegou a chance de escrever seu grande livro que poderá se tornar seu primeiro grande sucesso de vendas. Parte então para uma viagem onde tenta inicialmente fazer uma reserva no quarto 1408, o tal quarto amaldiçoado, e descobre que parece ser impossível de se fazer uma reserva no tal apartamento. Tenta inúmeras vezes até chegar ao misterioso gerente do hotel, interpretado por Samuel L Jackson, que revela para ele que no tal quarto dezenas de pessoas sofreram diversos tipos de “acidentes”. De pessoas que caíram misteriosamente da janela até uma empregada do hotel que ao entrar no quarto para fazer uma faxina foi encontrada rindo histericamente após arrancar os próprios olhos. Mesmo com esse histórico, Mike consegue negociar e se hospeda no tal quarto 1408. Então o filme realmente começa.



Além da citação de O Iluminado, com a trama de um hotel macabro, 1408 ainda cita Christine. Se em um filme o carro era um ser assassino com vida própria, em 1408 o quarto do hotel é um ser vivo diabólico onde todos os seus objetos parecem interligados e onde os fantasmas dos muitos mortos que perderam a vida naquele quarto ainda perambulam atormentados pelo local. O rádio relógio marca o tempo de uma hora, o tempo que o quarto parece “propor” para seus hóspedes tentarem sobreviver. Nessa hora vemos a crescente paranóia do personagem sendo atormentado pelos seus próprios fantasmas, como a separação da mulher e a morte da filha, até acontecimentos aterrorizantes que o levam inclusive a andar fora da janela do quarto numa citação de um dos episódios de Olhos de Gato. O filme tem bons momentos de suspense, e as alucinações são representadas por efeitos especiais eficientes. Porém se o diretor escolhido fosse um asiático teríamos atmosferas de horror e tensão muito mais extremas. Em termos de violência gráfica o filme até supera as expectativas, mas seus maiores acertos estão na construção das cenas de suspense e nos interessantes movimentos e enquadramentos de câmera, além de uma excelente fotografia e uma trilha inspirada do famoso compositor Gabriel Yared.



Um filme indicado principalmente para fãs de Stephen King e para os que apreciam tramas sobrenaturais mais delirantes. A viagem por labirintos de horror e alucinação da personagem o levam para cenários absurdos e inacreditáveis onde o espectador chega a acreditar que o filme acabou de maneira óbvia mas somos enganados e descobrimos que o horror ainda continua por um bom tempo.



Marcelo Carrard






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