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Como eu comecei a assistir filmes de horror bem cedo, ainda na tenra idade, posso dizer que minha infância foi acompanhada de todo tipo de barbaridade - de zumbis esquartejando pessoas a serras elétricas decepando pedaços de gente e canibais mastigando vísceras ensangüentadas. Por isso, é irônico que a simples imagem de uma mão agonizante saindo de uma parede metálica, clímax do filme 4D MAN, seja uma das primeiras coisas que me vêm na cabeça quando lembro dos filmes de horror que assisti quando era criança. A cena em si não tem nada de horrível, tampouco de chocante; mesmo assim, até hoje aquela mão saindo da parede me assombra. E quando alguém falou sobre o filme 4D MAN num blog que visito assiduamente (o Boizeblog; acessem que vale a pena), caiu a ficha: eu precisava procurar essa obra rara para rever aquilo que tinha me marcado na infância, até porque não revia o filme há pelo menos 15 anos.
Quem hoje está na faixa dos 30 certamente lembra que o SBT reprisava o 4D MAN com freqüência no Cinema em Casa. |
A dublagem, inclusive, era pavorosa e bem antiga, o que me leva a acreditar que a película já era exibida na TV brasileira muito tempo antes. No país, o filme ganhou o título QUARTA DIMENSÃO, ao invés do mais correto O HOMEM DA QUARTA DIMENSÃO. Ambos, entretanto, são muito longos, e 4D MAN sempre me pareceu mais simples e marcante, por isso vou manter o título original ao longo do artigo. Esta obra continua inédita em VHS e DVD no Brasil, graças à incompetência de nossas distribuidoras, e desaparecida há pelo menos uma década da grade de programação da TV brasileira. Felizmente, é para estas emergências que existe o Emule, e graças ao programa de compartilhamento de arquivos foi possível recuperar um pedaço perdido da minha infância.


Antes de mais nada: o que é
quarta dimensão? Para explicar, torna-se necessária uma rápida lição de física. Sabe-se que existem três dimensões físicas: comprimento (ou profundidade), largura e altura. A quarta dimensão, para alguns teóricos, seria simplesmente o tempo (ou dimensão temporal). Para outros, entretanto, haveria uma quarta dimensão espacial. Exemplificando de maneira bem simples e direta: nós, seres tridimensionais, normalmente enxergamos o mundo em duas dimensões. Se existisse um homem quadridimensional, ele enxergaria tudo em três dimensões. Ao olhar para um dado, por exemplo, ele veria simultaneamente as suas seis faces e também o que está DENTRO dele. Logo, um observador quadridimensional poderia, literalmente, enxergar a estrutura interna de objetos sólidos. Parece complicado, mas não é...
Na verdade, este é um assunto riquíssimo e muito interessante, que já deu muito pano para manga na ficção científica. Também rendeu curiosas histórias reais: em 1877, em Londres, um médium chamado Henry Slade foi a julgamento após declarar que possuía o poder de manipular objetos na quarta dimensão - dessa forma, ele poderia retirar dinheiro de dentro de um cofre fechado sem deixar qualquer sinal. Claro que a existência da quarta dimensão só existe na teoria, e mesmo a teoria não traz todas as explicações - virtualmente, a quarta dimensão não existe. Mesmo assim, o físico francês Henri Poincaré já dizia:
"Não quebrem a cabeça com a questão da quarta dimensão. É absolutamente impossível imaginá-la, mas mesmo assim ela existe".


Mas voltemos ao mundo do cinema para que este artigo não se transforme numa chata lição de física...
Na segunda metade dos anos 50, o americano Jack H. Harris, que até então produzia peças de teatro, resolveu investir no cinema. Ele contratou um pastor da Igreja Presbiteriana (!!!), de origem alemã, que vivia na zona rural da Pennsylvania, para dirigir alguns filmes. Seu nome era Irwin Shortess Yeaworth Jr., um visionário que resolveu espalhar a palavra de Deus através do cinema. O produtor Harris descobriu, praticamente por acaso, que Yeaworth Jr. e sua turma tinham criado um pólo de produção de filmes religiosos baratos em 35 mm, e percebeu que naquela cidadezinha, usando cenários do interior e o talento do cineasta/pastor, ele poderia realizar filmes por uma fração do preço das produções de Hollywood.


Lembre-se que, naqueles tempos, era muito comum lançar filmes bagaceiros e baratíssimos sobre invasões alienígenas ou monstros criados pela ciência, que estavam na moda; foi a época de ouro para gente como
Roger Corman e
Ed Wood, por exemplo. E, basicamente, foi assim que um ministro da Igreja Presbiteriana foi contratado para fazer filmes de horror/ficção científica a toque de caixa. Conta a lenda que Yeaworth Jr. só aceitou filmar alguns dos projetos de Harris visando juntar dinheiro para poder continuar fazendo seus próprios filmes religiosos (o que lembra a forma como
Ed Wood enganou a Igreja Batista para conseguir dinheiro para filmar seu
PLAN 9 FROM OUTER SPACE!).
Naqueles milagres que acontecem volta-e-meia, produtor e cineasta de primeira viagem acertaram logo na estréia: o filme inaugural da parceria da dupla foi o clássico
A BOLHA (1958), que custou 240 mil dólares e rendeu milhões. Harris vendeu sua obra barata para um grande estúdio e faturou uma bolada para continuar produzindo. Assim, já no ano seguinte, a dupla voltou com
4D MAN. O final do contrato entre produtor e diretor foi marcado por
DINOSAURUS! (1960), aventura pré-histórica repleta de monstros em stop-motion.


Depois, Yeaworth Jr. abandonou o cinema comercial e partiu para seus filmes religiosos. Desnecessário dizer que ele simplesmente desapareceu do mapa e nunca mais falou-se do sujeito até sua morte recente, num acidente de carro acontecido em 2004... E embora o filme mais lembrado de Yeaworth Jr. seja
A BOLHA (que entrou para a história como o primeiro trabalho do astro Steve McQueen e sempre foi renegado pelo cineasta, que não gostou do resultado),
4D MAN é, de longe, mais interessante e bem-feito. Particularmente, nunca gostei de
A BOLHA e prefiro infinitamente a sua refilmagem de 1988, chamada
A BOLHA ASSASSINA.
O roteiro de
4D MAN foi assinado por Theodore Simonson e Cy Chermak, baseados numa idéia do próprio produtor Harris. Curiosamente, a trama é muito parecida com
O HOMEM INVISÍVEL, dirigido por James Whale em 1933, e baseado em história de H.G. Wells. Assim como Jack Griffin, cientista que usa a fórmula da invisibilidade, o homem da quarta dimensão no filme de Yeaworth Jr. fica malvado ao descobrir que seus fantásticos poderes deram-lhe liberdade para fazer tudo o que sempre sonhou e até o que nunca imaginou fazer.

4D MAN começa com a tétrica narração de um locutor e seu
"alerta" sobre os perigos da ciência. Como nos filmes de
Ed Wood, o narrador narra até aquilo que o espectador está vendo e, teoricamente, não precisaria narrar (é a chamada
"narração para cegos"... hehehe)! Enquanto as cenas mostram um homem sentado num laboratório, por exemplo, o locutor diz:
"Um homem, uma idéia, o equipamento, um lugar para trabalhar em segredo... Todos os ingredientes estão aqui". Ótimo, ainda bem que ele me avisou...


O homem, que logo descobriremos ser o jovem cientista Tony Nelson (James Congdon, um inexpressivo ator de TV), está operando uma máquina esquisita e tentando atravessar um lápis num bloco de metal. Novamente, o narrador entra em cena com sua voz tenebrosa:
"O trabalho de passar um lápis por um bloco de metal está sendo realizado por um homem que sabe que isso não pode ser feito. Mas talvez possa esta noite... O que ele não sabe é que sua obsessão irá transformar um homem em um monstro!". Brrrrr... Que medo!!!
Enquanto faz sua experiência, Tony não consegue de forma alguma atravessar o lapis no metal. Consegue, entretanto, fazer o equipamento todo explodir, provocando um incêndio em todo o laboratório - na verdade, uma maquete das mais fajutas. Os bombeiros chegam e tentam controlar a situação, mas é muito tarde. E o dono do laboratório, o sr. Wells (será uma homenagem a H.G. Wells?), interpretado por Jasper Deeter, ironiza:
"Esta é sua grande contribuição para a ciência, Nelson?". Nem precisa dizer que nosso amigo Tony Nelson será sumariamente demitido e exageradamente expulso da cidade.


Cabeça-dura como todos os cientistas do cinema, Tony muda-se para a Pennsylvania e vai procurar emprego num gigantesco laboratório de pesquisas, o
Fairview Research Center, onde trabalha seu irmão, o dr. Scott Nelson (Robert Lansing, também visto em
O IMPÉRIO DAS FORMIGAS, e falecido em 1994). Juntamente com uma equipe que inclui a bela Linda Davis (Lee Meriwether, que foi a Mulher-Gato no velho filme do Batman de 1966) e o invejoso Roy Parker (Robert Strauss, morto em 1975), Scott está trabalhando no projeto de um material virtualmente indestrutível e impenetrável para a indústria armamentista. O metal chama-se
cargonite em
"honra" ao chefe do laboratório, o dr. Theodore W. Carson (Edgar Stehli, morto em 1973), apesar de toda a pesquisa ter sido realizada por Scott.
Depois de um teste com a cargonite, Scott reencontra o irmão. À noite, os dois, acompanhados por Linda, vão jantar num restaurante chique, quando Tony conta ao casal o que anda pesquisando: ele rabisca num papel o desenho do lápis atravessando a placa de metal. Olhando para o horizonte, o jovem cientista filosofa:
"Acho que este é meu destino".


De cara, o espectador percebe que Scott ama Linda, mas a moça, por sua vez, está irremediavelmente atraída por Tony. Isso fica ainda mais evidente numa tola e ingênua (para os padrões atuais) cena do trio passeando no campo, quando Tony e Linda aparecem brincando como crianças num parquinho infantil (hehehehe). Ao presenciar a cena, e perceber que o interesse entre os dois pombinhos é mútuo, Scott fica com ciuminho e vai embora fazendo cara feia. Já o casal continua seu passeio no bosque até que começa a chover. Aí, claro, é questão de tempo para eles encontrarem uma casa abandonada, pintar um clima e rolar o beijo - um beijinho de nada, bem tímido, e logo depois Tony simplesmente afasta Linda e diz, seco:
"Vamos, te levo pra casa". hahahaha
No dia seguinte, no laboratório, o dr. Carson reúne a imprensa para apresentar a cargonite como criação sua, e nem ao menos lembra de citar o nome de Scott, que fez todo o trabalho sozinho. Conversando com o irmão, Tony o provoca dizendo que duvida que a cargonite seja mesmo impenetrável, e que se conseguir concluir o aparelho em que está trabalhando, poderá atravessar a cargonite e qualquer outro material do universo. Para provar que suas teorias não são maluquice, ele exibe ao irmão uma prova: um pedaço de metal com um lápis atravessado, resultado de uma experiência que teria realizado quatro anos antes e que nunca conseguiu repetir. Tony conta, ainda, que naquele momento DESEJOU fortemente que o lápis passasse através do metal, e por isso acredita que há algum tipo de relação entre o poder da mente e o aparelho que ele criou.


Enquanto isso, a disputa dos dois irmãos pelo interesse de Linda continua. Tony quer se mandar para outra cidade, dizendo à garota que, no passado, já havia roubado uma namorada de Scott - a mulher com quem o irmão ia se casar. Mas, apesar do seu conflito interior, o jovem cientista está mesmo apaixonado e beija Linda novamente, desistindo dos seus planos de abandonar tudo. E, no dia seguinte, consegue um emprego no mesmo laboratório onde seu irmão trabalha, onde pode continuar com suas pesquisas de atravessar o lápis no metal.
Alheio ao affair de Tony e Linda, Scott flagra os dois conversando e escuta frases como
"Quando você vai falar para ele?". Afetado pela radiação dos testes com a cargonite, o corno-manso vai até seu médico, Brian Schwartz (o maquiador Dean Newman, não-creditado), queixando-se de fortes dores de cabeça. Os testes acusam que não há nenhum traço de radiação em seu corpo e nenhum dano cerebral, mas o médico diz que os
"impulsos cerebrais" de Scott estão muito fortes, e seriam a razão das dores de cabeça. Brian quer que ele passe por uma nova bateria de exames, mas o cientista se recusa, dizendo que tem muito trabalho para fazer.


Naquela noite, Scott vai à casa de Linda e pede sua mão em casamento. A garota, entretanto, diz que admira muito Scott, mas que não é o suficiente:
"O que você sente por mim não é amor, é hábito, de passar tanto tempo ao meu lado". Em outras palavras:
"Vá se foder, Scott, estou transando com seu irmão!". Agora assumidamente um corno-manso, Scott corre até o laboratório e arromba o armário onde Tony guarda seus materiais. Ali encontra o aparelho que ele reconstruiu para as suas pesquisas. Febrilmente, por algum motivo inexplicável, Scott tenta refazer a experiência do lápis atravessando o metal, como se quisesse provar que em alguma coisa é melhor que o irmão. E não é que realmente consegue? Além de atravessar o lápis, Scott atravessa a própria mão no bloco, na primeira cena do filme com efeitos especiais (e olha que já passou 40 minutos do tempo de projeção!).


Feliz da vida por ter triunfado onde o irmão tantas vezes falhou, Scott chama Tony ao laboratório e refaz o teste, mostrando como sua mão atravessa o metal. Tony, por sua vez, descobre que o aparelho que permitiria que Scott fizesse aquilo não está funcionando. Logo, seu irmão mais velho atravessou o metal por conta própria, sem a ajuda de qualquer aparelho. Scott chega à conclusão de que ganhou os novos poderes graças aos seus fortes impulsos cerebrais, detectados anteriormente pelo médico. Claro que Tony vai lhe pedir que faça alguns exames, para ver se não há efeitos colaterais. Scott, por outro lado, está curtindo a idéia de ter superpoderes, e resolve dar uma voltinha a pé pela cidade para aproveitar seu
"dom" - e isso inclui atravessar uma caixa de correio com a mão e puxar uma carta lá de dentro e entrar no cofre de um banco para roubar milhares de dólares. Se o diretor do filme não fosse um pastor religioso, talvez também tivéssemos algumas cenas com Scott entrando em vestiários femininos para ver adolescentes tomando banho! Puxa, eu ia adorar assistir uma versão deste filme dirigida pelo Paul Verhoeven... hahahahaha.
Mas como bem disse o tio do
Homem-Aranha,
"grandes poderes trazem grandes responsabilidades". E no dia seguinte, após roubar 50 mil dólares do banco (naquele tempo devia ser um dinheirão, mas hoje é trocado!) e se divertir atravessando paredes, Scott acorda com o cabelo grisalho e o rosto cheio de rugas, como se tivesse envelhecido 15 anos da noite para o dia. Assustado, ele volta ao médico, que nem o reconhece. Scott conta o que aconteceu e atravessa a mão na parede da casa de Brian para lhe provar que aquilo não é loucura. Depois, inocentemente, tenta agarrar os ombros do médico para pedir ajuda, mas suas mãos simplesmente atravessam o homem. Neste momento, Brian tem um treco, cai morto e começa a envelhecer rapidamente enquanto Scott rejuvenesce. É exatamente isso: o cientista pode
"roubar o tempo" das outras pessoas, matando-as no processo!




Anoitece novamente, e no dia seguinte Tony acredita que existe alguma relação entre seu aparelho e os testes com a cargonite que Scott realizava. Scott, por sua vez, já se transformou num vilão com sede de poder bem semelhante ao
Homem Invisível. Primeiro, ele destrói a invenção de Tony para que ninguém mais possa ter os mesmos poderes que ele. Depois, naquela noite, entra na casa de Carson simplesmente atravessando a porta. Quando o chefe pergunta como ele entrou, Scott não mente:
"Pela porta". hehehehe. Primeiro ele joga na cara do velho todas as humilhações e explorações que sofreu enquanto trabalhava para ele; finalmente, o homem 4D mata o patrão com seu toque mortífero.
Tanto a morte de Carson como a de Brian são um mistério para a polícia, já que as vítimas envelhecem absurdamente num curto espaço de tempo - e a necropsia revela que morreram naturalmente, por idade extremamente avançada. Logo, Tony e Linda vão até a polícia e contam tudo o que sabem sobre Scott, mas os homens da lei não conseguem acreditar naquela história mirabolante - como acontece em todos os filmes de ficção científica até hoje!
Solto pela cidade, o homem 4D continua sua carreira criminosa. Rouba, atravessa paredes para eliminar desafetos, mata pessoas inocentes para roubar-lhes a energia vital... Tony explica à polícia o motivo das mortes:
"Toda vez que Scott atravessa alguma coisa, ele usa meses ou talvez anos de sua energia, mas ele pode roubar energia, tempo de outras pessoas. Para pegá-lo, temos que esperar que ele fique normal, e não no estado de quarta dimensão". O problema é esse: ciente de que está sendo perseguido, Scott utiliza seus poderes contra os perseguidores, fugindo através de paredes, tornando-se
"transparente" para que as balas lhe atravessem e passando por cercas eletrificadas como se elas não existissem. Após testemunhar o fracasso de uma operação policial que tentou prender seu irmão, Tony se desespera:
"Nada pode pará-lo! Um homem na quarta dimensão é indestrutível!!!". Será mesmo, ou o homem 4D tem algum ponto fraco ainda não explorado?


Na minha humilde opinião, uma das piores coisas quando você assiste filmes dos anos 50 ou mais antigos é que eles são muito ingênuos. Na época, a maioria dos produtores e diretores tinha medo de chocar o espectador, por isso quase tudo que acontece de
"ruim" era mostrado fora do ângulo da câmera, ou off-screen. Eu tinha medo que rever
4D MAN tanto tempo depois de tê-lo visto pela primeira vez (na minha infância) fosse acabar com a imagem positiva que eu tinha do filme, mas felizmente foi o contrário. Sim, este é um típico filme ingênuo dos anos 50, com todos os defeitos pertinentes. Para começar, não há violência. Mas, neste caso, a história é tão boa e interessante que a violência não se torna necessária - ao contrário, por exemplo, de
A BOLHA, este sim um porre pela falta de sangue e de cenas de pessoas sendo atacadas. Outra surpresa: embora exageradamente lento para os padrões atuais (Scott só começa a demonstrar seus fantásticos poderes após 50 minutos de tempo rolando!),
4D MAN nunca fica xarope, conseguindo prender a atenção do espectador até a última - e marcante - cena.
Claro, é um pouco difícil de engolir a insistência do diretor em tentar
"suavizar" a história com cenas engraçadinhas, que soam completamente deslocadas na trama. Quando vai ao centro de pesquisas pela primeira vez, por exemplo, Tony é abordado pelo policial que vigia o local e palermamente levanta as mãos, como se fosse um criminoso. Mais adiante, lembrando uma comédia pastelão dos tempos do cinema mudo, o mesmo Tony escorrega e rola de uma escada - uma cena completamente sem necessidade. O romance de Tony e Linda, com seus beijnhos inocentes (parece que o cara está beijando a própria mãe!), soa estranho ao público acostumado com o vale-tudo das produções recentes, e alguns diálogos também são risíveis, tipo quando Tony recusa uma dança com Linda e ela responde:
"Quer que eu me sinta velha e feia?". hahahahahaha.


Mas o maior defeito de
4D MAN talvez seja a sua trilha sonora, com jazz, composta por Ralph Carmichael, totalmente deslocada em quase todas as cenas. Não há uma música de suspense, de tensão ou de terror: toda vez que o vilão ataca, toca jazz; às vezes até parece um episódio do seriado
TWIN PEAKS. É bom lembrar que Yeaworth Jr. já havia feito coisa semelhante em
A BOLHA, que tem outro ridículo tema musical de Burt Bacharach.
Felizmente,
4D MAN tem muito mais qualidades do que defeitos. O principal deles, e que me surpreendeu, é que o filme é dirigido por um pregador religioso, mas não fala em Deus e religião toda hora, nem seus personagens tentam passar mensagens edificantes e religiosas - basta lembrar do excessivamente carola
GUERRA DOS MUNDOS, de 1953, onde os personagens cantavam músicas religiosas, corriam para a igreja a cada momento e soltavam frases como a narração
"Mas Deus, em sua infinita sabedoria...".
No caso de
4D MAN, o roteiro também não busca soluções fáceis. Seria muito simples, por exemplo, regenerar Scott no final, já que ele era um personagem simpático aos olhos do público no começo do filme (outra surpresa, já que todos imaginam que o homem 4D será Tony, e não o seu irmão). Entretanto, o roteiro prefere seguir por uma trilha mais tortuosa, o que nos leva a uma conclusão nada previsível. Inteligentemente, os roteiristas Simonson e Chermak ainda incluíram uma cena que mostra ao espectador que Scott pode controlar seus poderes de quarta dimensão, conseguindo ficar
"sólido" para abrir uma maçaneta ao invés de simplesmente atravessá-la com a mão. Essa única cena de 10 segundos corrige o que poderia ser um grande furo do roteiro: no estado de quarta dimensão, Scott teoricamente não poderia caminhar normalmente, ele atravessaria a Terra de um pólo a outro, pois não teria mais forma sólida!!!


Por fim, se há algo que brilha em
4D MAN são os seus efeitos especiais, criados por Bart Sloane (que só trabalhou neste filme e no anterior
A BOLHA). Pode até soar estranho elogiar os
"efeitos especiais" de um filme barato dos anos 50, quando nem se pensava em CGI e o departamento de FX ainda engatinhava. Não raras vezes, os diretores daquela época preferiam cortar a cena no meio e deixar tudo na imaginação do espectador a tentar reproduzir façanhas mirabolantes com os efeitos jurássicos que tinham em mãos. Mas, no caso de
4D MAN, as cenas em que Scott atravessa objetos ou paredes são muito bem realizadas, numa mistura de truques fotográficos (a mão do ator passa POR TRÁS do objeto, e não PELO MEIO DELE, mas a câmera é posicionada de forma a não permitir que o espectador perceba a trucagem) e efeitos em chroma-key, os mesmos utilizados à exaustão no seriado
CHAPOLIM.
Segundo o
Internet Movie DataBase, há exatamente 14 takes do personagem atravessando superfícies que são feitos em chroma-key - percebe-se que o ator fica com um contorno azulado, como se estivesse
"saltando" da cena, mas isso não tira os méritos da produção. Se hoje algumas destas cenas do cara passando por portas e paredes continuam legais, fico imaginando a surpresa dos espectadores na época em que o filme foi lançado nos cinemas! E a maquiagem de
"envelhecimento" dos atores mortos por Scott também ficou bem legal. Novamente, nada de computação gráfica aqui, o que comprova que não precisamos dessa praga para fazer bons filmes.
Mas o mais interessante é como o roteiro conduz a transformação de um cara gentil e legal, como Scott Nelson, num homicida megalomaníaco e com planos de dominação mundial. Se em
O HOMEM-INVISÍVEL o cientista Jack Griffin passava para o
"lado negro" simplesmente porque podia, e porque seus poderes permitiam, Scott vira o vilão após perder tudo o que mais ama. Neste aspecto, o roteiro inclui a figura de seu próprio irmão, Tony, como um antagonista natural: Tony não só rouba o interesse romântico de Scott pela segunda vez, como ainda surge com uma experiência de atravessar superfícies justamente no momento em que o irmão mais velho acabou de desenvolver um novo metal supostamente invulnerável, a cargonite. E quando Tony diz que, com seu experimento, nem mesmo a cargonite poderá segurá-lo, é como se estivesse desafiando Scott. Some a isso ainda a exploração que o nobre cientista sofre nas mãos de seu superior, que lhe rouba o crédito das criações, e pronto: Scott Nelson tem motivos mais do que suficientes para se transformar num criminoso com sede de poder e de vingança. E o falecido Robert Lansing consegue interpretar o personagem de maneira contida, sem fazer caretas ou apelar para gargalhadas sinistras, compondo assim um vilão de respeito, e até cínico em determinadas cenas.

Recentemente, no fórum de discussão da Boca do Inferno, um dos usuários comentou o artigo sobre um filme dos anos 60 dizendo não entender como as pessoas conseguem assistir filmes antigos nos dias de hoje. Eu sempre levo em consideração a importância destas produções, principalmente as mais clássicas, mas concordo em parte com o comentário: certos filmes antigos, principalmente os MAIS antigos, são muito chatos de ver nos dias atuais, a não ser que a trama realmente prenda a atenção do espectador. Mas
4D MAN é um destes casos de filme que não foi tão afetado pela idade avançada (e olha que ele já tem quase 50 anos, caramba!). Descontando os cortes de cabelos, roupas e algumas frescuras típícas daqueles tempos ingênuos (como o casal fazendo um comportado piquenique, algo deslocado nesta nossa época de sexo quase explícito no cinema), a obra de Yeaworth Jr. continua tão boa e impressionante quanto na época em que foi lançada - ao contrário dos dois outros filmes do cineasta, que envelheceram muito mal.
Inclusive eu lamento que a parceria entre o diretor Yeaworth Jr. e o produtor Harris tenha encerrado prematuramente com apenas três filmes. Fico imaginando o que viria numa quarta produção conjunta dos dois, depois de uma bolha assassina do espaço sideral, um homem que atravessa paredes e rouba tempo das pessoas e uma aventura pré-histórica com dinossauros em stop-motion... Infelizmente, o chamado religioso levou embora um criativo e pouco conhecido cineasta do mundo da fantasia. Talvez Yeaworth Jr. tenha sido mais feliz dirigindo seus filmes evangélicos dos quais ninguém nunca ouviu falar. Mas o cinema de horror e ficção científica, definitivamente, perdeu um nome com bastante potencial...
E num mundo atual onde produtores inescrupulosos estão refilmando até produções feitas há meros 15 anos, confesso que acharia interessante uma versão moderna de
4D MAN. Com os efeitos maravilhosos dos tempos atuais, o homem da quarta dimensão poderia realizar façanhas ainda mais estrambólicas do que aquelas dos anos 50 - como fugir a pé por uma rodovia simplesmente atravessando pelo meio dos carros, que tal? Se o anteriormente citado Paul Verhoeven conseguiu fazer uma atualização respeitável de
O HOMEM INVISÍVEL no seu
O HOMEM SEM SOMBRA, bem que algum outro cineasta de respeito (e não um cabeça-de-bagre ou videoclipeiro qualquer) poderia resgatar o homem da quarta dimensão de sua aposentadoria e nos surpreender com suas aventuras nos dias de hoje.
Mas, claro, incluindo sangue, sexo e mulher pelada desta vez, porque os tempos, definitivamente, são outros.
Felipe M.Guerra
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4D MAN (4D Man, EUA, 1959). Duração: 085 minutos
Direção: Irvin S. Yeaworth Jr.
Roteiro: Theodore Simonson e Cy Chermak, a partir de idéia original de Jack H. Harris
Produção: Jack H. Harris
Fotografia: Theodore J. Pahle
Música: Ralph Carmichael
Maquiagem: Dean Newman
Direção de Arte: William Jersey
Efeitos Especiais: Bart Sloane
Edição: William B. Murphy
Elenco: Robert Lansing (Dr. Scott Nelson); Lee Meriwether (Linda Davis); James Congdon (Dr. Tony Nelson); Robert Strauss (Roy Parker); Edgar Stehli (Dr. Theodore W. Carson); Patty Duke (Marjorie Sutherland); Guy Raymond (Fred); Chic James (B-girl); Elbert Smith (Capt. Rogers); George Karas (Sgt. Todaman); Jasper Deeter (Mr. Welles); John Benson; Jack H. Harris; Dean Newman; Jack Tinsley
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