ABSURD - ANTROPOPHAGOUS 2

por Felipe M.Guerra

O filme ruim de Joe D'Amato que NÃO é continuação do famoso ANTROPOPHAGOUS!


Quando se fala em cinema de horror italiano, é muito comum cair nos chavões habituais e citar Mario Bava, Dario Argento e Lucio Fulci. Outros, como Ruggero Deodato, Michele Soavi e Umberto Lenzi, até podem ser lembrados volta-e-meia, mas é muito difícil alguém começar citando Joe D’Amato, cujo nome de batismo é Aristide Massaccesi. Claro, o homem fez mais pornô e exploitation do que horror na sua vida (que terminou em 1999), porém tem vários filmes conhecidos e, por que não?, “clássicos” em seu currículo. Além disso, produziu uma penca de títulos daquela época, inclusive o debut cinematográfico de Michele Soavi, O PÁSSARO SANGRENTO, entre outros. O maior problema de D’Amato é que ele produzia e dirigia tanto - às vezes ao mesmo tempo - que não podia pensar na qualidade ou num acabamento mais profissional. Entretanto, de uma forma ou outra, sempre conseguia imprimir seu “toque pessoal” em cada obra, por pior que
fosse - e, neste aspecto, lembra outro incansável artesão, o espanhol Jesus “Jess” Franco.
Assim como Franco, D’Amato passava com a maior facilidade de um gênero a outro nas mais de 190 produções que dirigiu. É muito comum encontrar bombas na sua filmografia, mas também momentos memoráveis. Principalmente entre seus poucos filmes de horror: mesmo que seja um tanto lento e irregular, quem já não se pegou pensando em ANTROPOPHAGOUS (sim, aquele do feto devorado pelo monstro canibal) na hora de fazer sua lista dos clássicos do cinema italiano dos anos 80? Quem nunca ouviu falar da “beleza necrófila” de BUIO OMEGA? Quem não se espantou com a mistura de sexo (às vezes explícito) e violência brutal em EMANUELLE AND THE LAST CANNIBALS, PORNO HOLOCAUST e EROTIC NIGHTS OF THE LIVING DEAD? E quem nunca ouviu a lenda de que as cenas "snuff" de EMANUELLE IN AMERICA são reais, compradas de mafiosos russos?
Pois é, pode-se acusar D’Amato de tudo, menos de ser um cineasta convencional. Seja mesclando trepadas com zumbis e mutilações (PORNO HOLOCAUST e EROTIC NIGHTS...), seja filmando cenas que ultrapassam todos os limites do bom gosto (o “aborto” de ANTROPOPHAGOUS ou o embalsamamento do cadáver em BUIO OMEGA), ele sempre consegue ser discutido, seja elogiado ou criticado. É o tal do “falem bem, falem mal, mas falem de mim”. ABSURD, filmado em 1981, se encontra na lista dos filmes mais irregulares e pobres do prolífico diretor (lista bastante numerosa, diga-se de passagem). Mesmo assim, como é comum na obra de D’Amato, chamará a atenção dos amantes do horror europeu por uma série de fatores: seja pelo elenco (encabeçado pelo gigantesco Luigi Montefiori, ou “George Eastman”), seja pela extrema violência, seja pela picaretagem do filme ter sido lançado, em alguns lugares, com o título ANTROPOPHAGOUS 2!!! Ou seja, tem um pouco do que é bom e "um muito" do que é ruim na carreira do sujeito.
Você não leu errado: realizado no ano anterior ao “clássico”, e sem ter qualquer relação com este, ABSURD manteve, durante muitos anos, a alcunha de ser uma seqüência direta e oficial de ANTROPOPHAGOUS - seqüência sem lógica no caso, já que o vilão do original tinha morrido no final daquele! Até existem alguns pontos em comum entre ambos: além do diretor ser o mesmo Joe D’Amato, ambos têm George Eastman no papel de vilão (e um vilão grego, ainda por cima!) e ambos têm roteiro assinado pelo próprio Eastman. Os dois filmes também têm uma cena onde o vilão fica com as tripas de fora!!! Mas é só. Se em ANTROPOPHAGOUS Eastman era um assassino canibal deformado que matava (e devorava) turistas numa ilha grega, em ABSURD ele é um psicopata mutante imortal (!!!) que não devora ninguém; em compensação mata adoidado - e das formas mais sangrentas. Logo, para justificar o título de seqüência, os produtores teriam que incluir pelo menos uma cenazinha de canibalismo, o que não acontece.

Sendo assim, ANTROPOPHAGOUS 2 é só mais um dos títulos errôneos dados à obra. Por mais incrível que possa parecer, ele também foi lançado, por algumas distribuidoras, como ZOMBIE 6 (!!!), forçando uma relação inexistente com o famoso ZOMBIE de Lucio Fulci - mesmo que não existe um único morto-vivo na trama!!! No original, o filme se chamava ROSSO SANGUE ("Sangue Vermelho", ou "Vermelho-Sangue", como preferir), mas ABSURD é, ao lado de ANTROPOPHAGOUS 2, seu nome comercial mais popular. Outros títulos conhecidos são HORRIBLE, THE GRIM REAPER 2 e MONSTER HUNTER. Cada versão, dependendo do título e da distribuidora, costuma ser diferente da outra, com variados cortes da censura (a mais conhecida tem 90 minutos, a "uncut" tem 96 e a mais cortada não chega a 83 minutos). A versão mais completa foi lançada em DVD na Alemanha, justamente com o título ANTROPOPHAGOUS 2.
Eu tinha prometido a mim mesmo parar de escrever artigos sobre filmes ruins, já que há uma infinidade de bons filmes sobre os quais dissertar. Por este motivo, não escrevi nem uma linha sobre os horrendos DAY OF THE DEAD 2 - CONTAGIUM ou LAND OF DEATH (uma das novas "superproduções" do cineasta italiano Bruno Mattei). Para a minha surpresa, meus cinco leitores vivem me cobrando mais artigos sobre filmes ruins, pois dizem que é engraçado ver como eles são esculhambados impiedosamente através de minhas piadas sem graça. Este seleto público gosta de ler sobre podreiras como QUADRILHA DE SÁDICOS 2 e BLACK DEMONS, então resolvi dar-lhes mais uma dose de cinema podre e escrever também este artigo sobre ABSURD, que está longe, mas muito longe de ser um bom filme.

É perceptível a tentativa de D'Amato de fazer uma produção classe Z italiana com cara de produção americana, obviamente tentando lucrar no mercado internacional, como se fosse uma produção "made in USA". Assim, além da dublagem em inglês tradicional nas produções macarrônicas da época, ABSURD tem um ator "respeitável" no elenco (o inglês Edmund Purdom), várias citações ao "american way of life" (inclusive jogo de futebol americano exibido na TV) e quase toda a equipe técnica escondida atrás de pseudônimos em inglês. O próprio D'Amato, sabendo que seu pseudônimo americanizado já era conhecido nos States, inventou um novo, "Peter Newton", e assina a direção de fotografia com um terceiro pseudônimo (!!!), "Richard Haller". Eastman também resolveu trocar seu nome falso, assinando o roteiro como "John Cart". Hahahaha. Entendeu? Os caras acumulavam várias funções e depois ficavam trocando de pseudônimos americanizados para todo mundo pensar que tinha um montão de gente envolvida na produção!!! Esses carcamanos cada dia me surpreendem mais...
Mas vamos à trama: o psicopata interpretado por Eastman - que, volto a salientar, não é o mesmo canibal de ANTROPOPHAGOUS - chama-se Mikos Stenopoulos. Pouco sabemos sobre sua vida pregressa, já que ele começa o filme correndo, sem muita disposição, de um misterioso personagem vestindo um sobretudo preto, que mais tarde descobriremos ser um padre (Purdom, numa pequena participação). Após longos minutos de uma perseguição frouxa - onde parece que os dois estão fazendo cooper -, Mikos tenta pular a cerca de uma mansão e tem seu pé agarrado pelo perseguidor. Cai, então, com o peito sobre uma das lanças de ferro no topo do portão, que lhe abre um rombo cirúrgico no tórax.

Na cena seguinte, somos apresentados à família que mora na mansão em questão: o casal Bennett (Ian Danby e Hanja Kochansky), a babá Vicky e os filhos Katia (Katya Berger) e Willy (Kasimir Berger). Katia se recupera de um acidente que afetou sua coluna cervical, e passa o tempo todo imobilizada na cama, recebendo os cuidados da enfermeira Emily (interpretada pela belíssima Annie Belle, de BLACK EMANUELLE). É o pirralho Willy quem ouve um barulho na porta da frente e vai abrir... apenas para ter a visão infernal de Mikos cambaleando para dentro da casa, o peito escancarado, com as tripas de fora. Uma cena semelhante àquela realizada pelo mesmo ator no final de ANTROPOPHAGOUS; porém, desta vez, torna-se visível o desleixo de D’Amato, já que é perceptível que as "tripas" estão enfiadas por dentro das calças do ator, e não dependuradas de um buraco no peito! De todo jeito, a gravidade do ferimento faz com que Mikos desmaie na cozinha da família, espalhando seus intestinos pelo chão. Arghhh!
O vilão é levado para o hospital, onde passa longos minutos sendo submetido a uma cirurgia de recolocação das tripas em seu devido lugar. O espectador, por sua vez, é submetido a uma verdadeira sessão de tortura, já que a cena é longa e xarope, com a edição repetindo takes dos médicos furungando na barriga aberta do vilão e closes nos instrumentos cirúrgicos (detalhe: deve ter umas 418 tesouras sobre a mesa de cirurgia, e a enfermeira passa cada uma delas aos médicos a cada cinco segundos!!!). Os médicos duvidam que Mikos vá sobreviver. Mas, para sua surpresa, as células e tecidos do misterioso paciente vão se regenerando a uma velocidade impressionante, à medida que a cirurgia é realizada!!! O responsável pela operação, o dr. Kramer (Ted Rusoff, hoje trabalhando com Bruno Mattei), chega a comentar com Emily que o organismo do paciente parecia estar se "auto-reparando" enquanto a cirurgia era realizada.

Enquanto isso, o padre que perseguia Mikos está perambulando pelo hospital e é preso pela polícia para prestar explicações sobre as suas "atitudes suspeitas". Ele então explica a “pré-trama”, dizendo que, além de padre, é bioquímico (!!!) e fazia parte da equipe de um laboratório de pesquisas genéticas na Grécia, onde Mikos era usado como cobaia. A experiência, claro, era para fazer um “super-homem imortal” (o típico clichê das experiências malucas de filmes de horror). Como conseqüência dos testes a que foi submetido, Mikos passou a ter avançada regeneração celular - um fator de cura semelhante ao do Wolverine -, além de seu sangue coagular muito rapidamente, evitando que morra por hemorragia. Dessa forma, ele tornou-se virtualmente imortal - basta colocar a cueca por cima da calça e sair por aí gritando que é o Superman. Porém, Superman não suporta a kriptonita, e Mikos também tem um ponto fraco: se o seu cérebro for destruído, não há como seu organismo realizar a regeneração celular (não que isso tenha lá muita lógica). Captou? A única forma de eliminar o malvadão é dar-lhe um belo tiro no meio dos cornos, ou decapitá-lo! O roteiro só não explica porque é que usaram um psicopata como cobaia da experiência (ou se foi a dita cuja que o transformou em louco homicida), e nem o porquê do padre não ter destruído o cérebro de Mikos quando ele caiu da cerca com as tripas de fora e estava sem condições de se defender... Bem, vamos adiante.
No mesmo momento em que o padre se justifica para a polícia, Mikos acorda na mesa de cirurgia e não perde tempo, aniquilando a pobre enfermeira que iria trocar seu curativo - e que leva um susto ao ver que o ferimento feio de minutos atrás já estava completamente cicatrizado, graças ao “poder Wolverine” do vilão. Numa das primeiras cenas absurdamente violentas da película, Mikos usa uma broca cirúrgica para furar a cabeça da coitadinha de uma têmpora à outra - cena que, um ano antes, D'Amato deve ter visto, de maneira melhor encenada e mais realista, em PAVOR NA CIDADE DOS ZUMBIS, de Lucio Fulci, onde John Morghen tinha a cabeça atravessada por uma broca! Depois de fazer o serviço, o vilão escapa do hospital e começa uma onda de crimes pela cidade, sendo atraído, de alguma maneira, para a tal mansão onde perdeu as tripas no começo.

A estas alturas, o casal Bennett saiu para um compromisso noturno emocionante (ver uma partida de futebol americano pela TV com amigos, enquanto fumam cigarros e falam bobagem!!!), deixando as crianças com a baby-sitter Vicky e com a enfermeira Emily. Quando Mikos ataca, sobra para a garotada a tarefa de tentar escapar com vida do homicida furioso, numa espécie de versão hardcore de ESQUECERAM DE MIM. Por sorte, as crianças poderão contar com a ajuda do dr. Loomis... ops!, do padre que persegue o vilão obsessivamente, e que aparecerá para salvar o dia - ou não.
ABSURD, como o próprio nome já diz, é um filme absurdo - e ainda absurdamente ruim. A trama não tem grandes lances de criatividade; as explicações aparentemente ficaram perdidas nas páginas não-filmadas do roteiro, e o suspense se resume a loooooooongos takes do assassino espreitando suas vítimas, filmados com perceptível má vontade por D’Amato. Para o espectador ter uma idéia da lentidão com que a trama se desenrola, Mikos tem acesso à mansão onde estão as crianças aos 45 minutos; mas, depois de matar a babá, fica perambulando pelo casarão por uns bons 20 minutos antes de matar alguém novamente. E isso que estão todos ali, ao seu alcance, indefesos e sem escapatória, para serem mortos com a maior facilidade. Porra, a casa nem é tão grande assim, para justificar 20 minutos de andanças pelos corredores! O que o vilão ficou fazendo este tempo todo antes de voltar a atacar, o filme não explica...

O próprio roteiro é inverossímil e - lá vamos nós de novo - absurdo. Embora seja louvável a tentativa de dar uma explicação científica para o fato do vilão nunca morrer (ao contrário de Michael Myers e Jason, que são imortais e pronto!), a trama esquece de explicar muitas outras coisas, mas principalmente como Mikos e o padre chegaram aos Estados Unidos se a experiência que tornou Mikos um vilão indestrutível aconteceu na Grécia. Como a primeira cena mostra o assassino fugindo de seu perseguidor, será que eles vieram correndo da Grécia? Porque, sinceramente, não consigo imaginar como um psicopata descontrolado, que não fala uma palavra o filme inteiro e mata qualquer pessoa que cruzar à sua frente, pode pegar um avião da Grécia para os States... Outro “detalhe” que o roteiro não se preocupa em explicar é porque, com tantos lugares para ir e pessoas para matar, Mikos resolve voltar para a maldita mansão onde perdeu as tripas, e que fica do outro lado da cidade. Por fim, o maior rombo na lógica é quando Katia, depois de ficar durante toda a trama imobilizada na cama, simplesmente se levanta e sai correndo na maior agilidade para escapar do vilão!!!
Além disso, ABSURD desperdiça o detalhe mais interessante da trama: justamente o "fator de cura" de Mikos. Que graça tem colocar um assassino indestrutível e que pode se auto-regenerar numa história onde este "poder" é pouquíssimas vezes explorado? Seria legal ver Mikos tomar facadas, machadadas, tiros, ter os braços arrancados, e mesmo assim ir se regenerando para continuar perseguindo suas vítimas, tal qual um zumbi... Mas uma das únicas oportunidades onde o "fator de cura" é testado é completamente gratuita: o assassino invade um açougue, nas cercanias do hospital, e tenta matar o açougueiro (interpretado por Goffredo Unger, de DEMONS) com um cutelo. Este consegue desviar do faconaço mortal - exibindo um talento digno do Demolidor, já que usei tantas citações a super-heróis dos quadrinhos - e corre para um cabide onde está pendurada sua jaqueta; pois de lá o cara puxa um... três-oitão carregado (!!!) para passar chumbo em Mikos. Com seu sangue coagulado e poder de regeneração, o vilão nem sente os tiros, apenas fica mais furioso. É no mínimo engraçado o fato de um açougueiro ter um revólver carregado na jaqueta em pleno local de trabalho. Será que o açougue fica na Baixada Fluminense, ou o açougueiro era, na verdade, um agente secreto trabalhando disfarçado?
Graças a bobagens como esta, a grande atração do filme são as mortes absurdamente (hehehe, de novo) exageradas, que na maioria das vezes não têm qualquer lógica. Por exemplo: se Mikos pode facilmente esganar alguém em poucos segundos com as próprias mãos - como faz à certa altura, matando um motoqueiro interpretado pelo futuro cineasta Michele Soavi -, por que é que ele sempre tenta matar suas vítimas da forma mais complicada possível? O açougueiro anteriormente citado, por exemplo, é arrastado até uma daquelas máquinas de cortar carne, com serra-fita, onde Mikos abre um talho na cabeça do sujeito. É uma cena grotesca, talvez a mais famosa, mostrada on-screen (a mesma cena seria "copiada" anos depois no slasher americano INTRUDER - VIOLÊNCIA E TERROR, de Scott Spiegel, só que de forma ainda mais sangrenta e exagerada). Num outro momento, que demonstra como o vilão gosta de complicar, Mikos agarra uma garota na sala da mansão da família Bennett e tem o maior trabalhão para arrastá-la até a cozinha da mansão - quando poderia facilmente ter quebrado seu pescoço antes. Na cozinha, com dezenas de opções de objetos para machucar (inclusive facas afiadas), o que é que Mikos faz? Liga o forno e enfia a cabeça da pobre moça lá dentro, segurando-a ali por uns bons 10 minutos até que seu rosto asse, literalmente!!! Não tem a menor lógica, e a cena só existe para criar um momento sensacionalista e exageradamente grotesco, com os vários takes que se alternam mostrando o estrago que o fogo faz no rosto da moça - mas, volto a lembrar, seria muitooooo mais fácil quebrar-lhe o pescoço ou agarrar uma faca para acabar logo com a coisa.
Claro que se Mikos optasse pelo “mais fácil”, a coisa não teria a menor graça. Afinal, a única coisa que vale uma olhada em ABSURD é justamente a sangreira desatada. Em todos os sites que visitei antes de escrever este artigo (inclusive o IMDB), não há qualquer menção ao responsável pelos efeitos especiais do filme (será que mataram as pessoas de verdade? hehehe). De qualquer forma, seja lá quem for o sujeito, ele não tem a mesma perícia de um "mago" como Giannetto De Rossi ou Tom Savini, mas ainda assim impressiona - principalmente na cena da serra-fita. A última imagem também é forte e marcante, principalmente pela coragem de envolver uma criança em cena de tamanha violência, algo que nos dias atuais jamais seria realizado.

No documentário JOE D'AMATO TOTALLY UNCUT, que traz entrevistas com o cineasta antes da sua morte, ele conta que ABSURD foi criado como uma "prequel", contando eventos anteriores a ANTROPOPHAGOUS, com o vilão canibal antes de ele ficar deformado como no filme de 1980. Depois, à medida que a produção ia avançando, resolveram criar mesmo uma história independente, porém mantendo certa relação com o original (como George Eastman no papel de vilão). Demonstrando ter sua parcela de picareta, D'Amato não parece, no documentário, estar chateado com o fato de ABSURD ser considerado uma seqüência de ANTROPOPHAGOUS. Já Eastman, que também deu seu depoimento, afirma que começou a filmar entusiasmado, mas depois percebeu que o filme iria virar uma verdadeira bagunça e, como se diz por aqui, "se jogou nas cordas".
Em 1981, ano em que ABSURD era filmado, D'Amato também dirigiu e lançou outros sete (!!!) filmes, entre eles o bizarro PORNO HOLOCAUST (mais um da safra que mistura pornografia com zumbis decompostos). Sabendo que um ano tem 12 meses, imagine quanto tempo o malucão dedicou a cada uma das sete produções (menos de dois meses), entre pré-produção, filmagens, edição e lançamento! Assim torna-se até compreensível a falta de cuidado vista na tela. Cada cena de ABSURD não deve ter sido filmada mais de uma vez, no máximo duas. Até a edição é desleixada: numa cena em que Mikos enfia uma picareta na cabeça de uma mulher (aliás, estou até agora pensando onde o cara encontrou aquela picareta...), é só passar em câmera lenta para perceber que a ponta da ferramenta (ou seja lá o que usaram no seu lugar) atinge a cabeça da vítima, mas não fica cravada; pelo contrário, ela "pica". Na cena seguinte, entretanto, vemos a picareta bem enterrada na cabeça da moça, com o sangue jorrando e tudo mais!!! hahahaha.

Além destes erros crassos, a edição de ABSURD é simplesmente abominável, com longos e repetitivos takes onde nada acontece (numa tentativa frustrada de preencher o tempo de duração, ou de fazer suspense barato). É o mesmo problema do ANTROPOPHAGOUS original: enquanto a matança não começa, somos obrigados a ver os personagens zanzando e sem fazer nada de interessante. Se em outros de seus filmes, como EMANUELLE AND THE LAST CANNIBALS e EROTIC NIGHTS OF THE LIVING DEAD, D'Amato recorreu a cenas de sexo e mulher pelada para preencher o tempo entre uma morte e outra, em ABSURD não há nada disso, o que torna tudo simplesmente enfadonho (D'Amato insiste em cortar, por exemplo, para cenas supérfluas do casal Bennett assistindo ao jogo na casa dos amigos, várias vezes). Pior: o diretor também desperdiça a linda Annie Belle, que já tinha mostrado seus "atributos corporais" em BLACK EMANUELLE e HOUSE ON THE EDGE OF THE PARK (de Ruggero Deodato), e aqui não tira nem uma meia. E olha que D'Amato era diretor pornô, hein? Que vergonha!
Um detalhe a destacar são as absurdas (mais uma vez) semelhanças entre ABSURD e a série HALLOWEEN (que, naquela época, estava em seu segundo filme). Acredito até que Joe D’Amato e George Eastman tenham assistido a uma sessão dupla de cinema com HALLOWEEN e HALLOWEEN 2 para buscar a inspiração na hora de escrever e dirigir ABSURD. Mikos Stenopoulos é uma clara imitação mais “humana” de Michael Myers, que peca principalmente na caracterização. Se Myers é um personagem naturalmente assustador (principalmente pelo “uniforme” negro e a sinistra máscara branca), Mikos é apenas um mané de tênis, calça jeans e camisa abertona no peito, que nem mesmo a carranca de bandido de George Eastman consegue transformar em figura ameaçadora - bem diferente do vilão deformado, e assustador, que o mesmo ator interpretou em ANTROPOPHAGOUS, um ano antes.

Já o padre anônimo de Edmund Purdom (sim, eles nem se preocuparam em dar um nome ao personagem...) é uma claríssima imitação do dr. Loomis, interpretado por Donald Pleasence na franquia americana. Ambos, inclusive, andam armados, apesar de não ser do feitio de suas profissões (um é padre, o outro era o psiquiatra de Michael Myers!). Como Loomis nos dois primeiros HALLOWEEN, o padre fica o tempo todo perambulando pela cidade atrás do vilão, encontrando-o apenas no final para o “ajuste de contas” - e só faltou incluir uma frase do tipo “Ele é o Mal” para aproximar ainda mais o padre Purdom do dr. Loomis. Infelizmente, na comparação com o saudoso personagem de Pleasence, o padre sai apagado, já que praticamente não faz nada o filme inteiro. Ainda em JOE D'AMATO TOTALLY UNCUT, o cineasta conta que contratou (e pagou) Purdom para filmar apenas algumas poucas cenas. Acontece que ele queria um "nome de peso" no elenco, e sobrou para o decadente ator inglês, que, nos bons tempos, tinha feito sucesso em filmes como O EGÍPCIO (produção americana dos anos 50, dirigida por Michael Curtiz). Como muitos outros galãs de Hollywood, Purdom ficou velho e sem bons papéis, acabando em podreiras como esta e O TERROR DA SERRA ELÉTRICA, do espanhol Juan Piquer Simon. "Ele era um mau ator, mas tinha aparecido em O EGÍPCIO", justifica D'Amato no documentário, com a maior cara-de-pau.
Mas as semelhanças com a franquia HALLOWEEN não param na caracterização dos personagens: a seqüência que se passa no hospital, embora breve, lembra muito HALLOWEEN 2, bem como o final, onde, como Michael Myers, Mikos fica cego ao ter seus olhos perfurados (não a tiros, como em HALLOWEEN 2, mas com um... ai... compasso enfiado nos olhos!!!). Assim, como Myers, ele precisa caçar suas vítimas através dos sons que elas fazem! Outras cenas que lembram, e muito, a série HALLOWEEN são o pirralho Willy vendo Mikos e acreditando ser o “bicho-papão”, e a babá orientando uma das crianças a correr para fora da casa em busca de ajuda nos vizinhos - como fez Jamie Lee Curtis no final de HALLOWEEN. Qualquer semelhança com a série americana não é, aparentemente, uma mera coincidência. Os fãs de trash também vão perceber constrangedoras semelhanças entre ABSURD e FÚRIA SILENCIOSA, produção americana dirigida por Michael Miller, onde Chuck "The King" Norris é o xerife que enfrenta um psicopata indestrutível, tal qual Mikos; só que, neste caso, o terror americano veio depois (é de 1982).

Para finalizar, vale destacar algumas curiosidades:
- Os dois atores que interpretam os pirralhos, Katya e Kasimir Berger, são irmãos na vida real e filhos do ator austríaco William Berger (falecido em 1993), outra figurinha carimbada do cinema italiano dos anos 60, 70 e 80 - fez, por exemplo, KEOMA e DAY OF THE COBRA, de Enzo G. Castellari, e HÉRCULES, de Luigi Cozzi. Já a atriz que interpreta a mãe das crianças, Hanja Kochansky, era esposa de Berger e mãe das crianças na vida real.

- Na metade do filme, Willy assiste, na TV, a uma cena onde Mark Shannon e Lucia Ramirez conversam. Para quem não sabe, a dupla protagonizou os filmes de D'Amato que mesclam putaria com zumbis. Acredito que a cena em questão tenha sido retirada ou de EROTIC NIGHTS OF THE LIVING DEAD ou de PORNO HOLOCAUST, e é no mínimo engraçado imaginar uma destas duas tranqueiras passando na televisão! hahaha

- A música de Carlo Maria Cordio (que só tem trabalhos fracos no currículo, como a trilha sonora de SHOCKING DARK, de Mattei) é irritante, xarope e toca o filme inteiro. Na tentativa de fazer um tema de suspense imitando a música simples composta por John Carpenter para HALLOWEEN, Cordio simplesmente repete duas ou três notas o tempo todo, aparentemente num daqueles velhos sintetizadores, deixando o espectador com saudades dos tempos do cinema mudo. Diz a lenda que o compositor copiou trechos da trilha de MANSÃO DO INFERNO, de Dario Argento, mas eu, sinceramente, não percebi... Se copiou, copiou muito mal!
Parado e chato, ancorado em meia dúzia de cenas de extrema violência, ABSURD é um filme no mínimo frustrante, que não gerou nem metade da "má fama" de seu antecessor, ANTROPOPHAGOUS. Aliás, fico imaginando como seria uma verdadeira seqüência do clássico canibalístico, com George Eastman repetindo seu papel de vilão deformado e faminto. Excelente ator, Eastman é um grande injustiçado, que nunca fez o sucesso que merecia. Somente bons atores conseguem fazer interpretações marcantes mesmo nas piores bombas em que atuam, e é o caso de nosso amigo Luigi Montefiori em ABSURD: as expressões sádicas e ameaçadoras de seu Mikos Stenopoulos são fantásticas e, se o filme fosse melhorzinho, o vilão indestrutível bem que poderia aparecer nas antologias dos melhores caras maus do cinema de horror oitentista. Claro que não foi o caso. Mikos Stenepolis pode ser indestrutível; mas o saco do espectador, obrigado a acompanhar 1h30min de lenga-lenga para algumas poucas cenas interessantes, não é!

Felipe M.Guerra

ABSURD - ANTROPOPHAGOUS 2
(Absurd / Rosso Sangue, Itália 1981). 90 minutos
Direção: Joe D'Amato
Roteiro: George Eastman
Produção: Joe D'Amato; Donatella Donati
Música: Carlo Maria Cordio
Fotografia: Joe D'Amato
Edição: George Morley
Figurino: Helen Crosby
Desenho de Produção: Helen Crosby
Elenco: George Eastman (Mikos Stenopolis); Annie Belle (Emily); Charles Borromel (Ben Engleman); Katya Berger (Katia Bennett); Kasimir Berger (Willy Bennett); Hanja Kochansky (Sra. Bennett); Ian Danby (Sr.Bennett); Ted Rusoff (Dr. Kramer); Edmund Purdom (Padre); Lucia Ramirez (mulher na TV); Mark Shannon (homem na TV); Michele Soavi (biciclista); Martin Sorrentino (deputado); Goffredo Unger



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