ALFRED HITCHCOCK: VIDA E OBRA DO MESTRE DO SUSPENSE
Texto escrito por Orivaldo Leme Biagi

PARTE 1 - A FASE INGLESA
Introdução
 | Alfred Hitchcock foi um dos maiores cineastas do século XX. O "Mestre do Suspense" realizou uma série de filmes magníficos e influentes para o cinema durante toda a sua carreira, angariando milhões de fãs. Hitch (como era chamado nos Estados Unidos) sempre foi uma pessoa complexa, apesar da imagem de simplicidade que gostava de cultivar. |
Em seus filmes sua complexidade ficava mais evidente, sendo que a sua timidez e os seus medos ficavam ligados à sua figura obesa e irônica (como ele mesmo se apresentava nas aberturas de seu programa de televisão), pois seus filmes respiravam sexo e violência, elementos sempre apresentados com elegância e refinamento. Poucos cineastas conseguiram dominar as técnicas do seu ofício para produzir os efeitos desejados na platéia como Hitch o fez durante toda a sua carreira.
Pretendemos, nesta série de artigos, contar um pouco da vida e da obra de Hitchcock.
A Formação do Cineasta e Alma Reville
Alfred Hitchcock nasceu em 13 de agosto de 1899, filho de uma família católica, tendo sido matriculado num rigoroso colégio da mesma religião, o "Saint Ignatius College". O garoto Hitchcock era tímido e calado, mas um fato proporcionado pelo seu pai o marcaria profundamente. Como punição por ter chegado mais tarde em casa, o pai mandaria o menino Hitchcock, carregando um bilhete, para uma delegacia próxima. O delegado (que era amigo do pai de Hitch) leria o bilhete e deixaria o apavorado menino alguns minutos preso numa cela do distrito, dizendo as seguintes palavras ao soltá-lo: "Veja o que te pode acontecer, se não fores um bom menino". O terror que passou o menino iria refletir-se na sua obra cinematográfica (os policiais seriam retratados nos seus filmes, quase sempre, como figuras sem brilho e inexpressivas).
O adolescente Hitchcock sabia os horários dos trens norte-americanos, pois colecionar os catálogos destes horários era seu hábito favorito - o que mostrava sua admiração pelos Estados Unidos, admiração esta que iria manifestar-se nos seus futuros filmes, inclusive os realizados na Inglaterra. Além disso, ele era freqüentador assíduo de teatros e, principalmente, de cinemas. Em 1920, Hitch entraria na "Famous Players-Lasky", companhia cinematográfica norte-americana que tinha aberto um estúdio em Londres, como escritor e desenhista de legendas. Ele iria subir rápido no cinema inglês, mesmo quando a companhia norte-americana fechou sua filial em Londres: diretor de arte, roteirista e, logo, assistente de diretor, sob o comando do produtor Michael Balcon, que, em 1925, ofereceria o trabalho de diretor para Hitch.  | |
 |
Hitchcock aumentaria seu aprendizado do cinema no começo dos anos 20 quando, a trabalho como assistente de diretor, visitou os estúdios UFA, a meca do cinema expressionista alemão. Hitch aprenderia diretamente com os mestres Fritz Lang e F. W. Murnau a buscar novos ângulos e efeitos para as imagens, além de valorizar as sombras e os espaços. Hitchcock aprendeu uma lição valiosa com os cineastas expressionistas: a imagem na tela é mais importante do que qualquer outro aspecto de um filme, naquilo que Hitch chamaria de "cinema puro", ou seja, apenas as linguagens do cinema (técnica, efeitos, imagens, etc.) deveriam conduzir uma história. Outra fonte de inspiração fundamental para Hitchcock foi o cinema soviético, principalmente a chamada técnica de montagem, que pode ser definida como a superposição de cenas dinâmicas. |
Vários cortes rápidos e intensos juntados numa seqüência - eis a receita para o suspense que Hitch aplicaria em quase todos os seus filmes, com as honrosas exceções de " Festim Diabólico" ("Rope", 1948) e " Sob o Signo de Capricórnio" ("Under Capricorn", 1949) com seus planos longos, algo que discutiremos nos próximos artigos.
Neste ínterim, ele conheceria a mulher da sua vida: Alma Reville, uma continuista e conhecedora do cinema como poucas mulheres inglesas o eram na época. Hitch esperou ser promovido a assistente de diretor para convidá-la a sair e, pouco tempo depois, casaram-se. Alma Hitchcock foi uma pessoa fundamental na vida do cineasta, pois ela, além dos profundos conhecimentos sobre cinema, tinha uma sinceridade espantosa (sempre dizia na hora e para quem quisesse ouvir suas opiniões) e era extremamente inteligente. Alma sempre criticava com disposição e sabedoria a obra de Hitch - assim como defendia esta mesma obra com iguais disposição e sabedoria.
O Primeiro Filme e o sucesso de "The Lodger"
 | Em 1925 Hitchcock iria dirigir seu primeiro filme, "The Pleasure Garden", cujas filmagens das externas no continente europeu foram mais emocionantes e dramáticas do que o filme propriamente dito: constante falta de dinheiro; furto (do dinheiro da carteira de Hitch); contrabando de filmes virgens e equipamento (estes últimos foram transportados debaixo da cama de Hitch no trem para que não fossem pagas as tarifas alfandegárias, para desespero do sempre medroso ocupante da cama); uma estrela norte-americana, Virginia Valli, e sua inusitada amiga gastando horrores enquanto Hitch procurava não deixar que ela soubesse que era o seu primeiro filme na direção, entre outros problemas. Mas os três grandes "momentos" da saga de suas primeiras filmagens externas envolveram uma simples cena onde uma atriz deveria pular na água do mar e ser salva pelo ator principal: a atriz escalada não podia fazer a cena pois estava menstruada, assunto que Hitch jamais ouvira falar até aquele instante; |
uma outra atriz foi escalada para o papel, mas o ator não conseguia tirá-la d'água pois ela era um pouco mais pesada do que a atriz anterior, para risos gerais do público ao redor; quando, finalmente, o ator conseguiu tirar a atriz da água, uma senhora idosa parou na frente da câmera, olhando fixamente a objetiva, estragando a cena.
Apesar dos problemas, o filme foi terminado e, mesmo não sendo uma obra-prima, o resultado foi satisfatório e Hitch começou a construir o seu nome como cineasta. Mas foi com seu 3o filme, produzido em 1926, que o jovem diretor iria destacar-se.
" The Lodger - A Story of the London Fog", estrelado pelo astro inglês da época, Ivor Novello, versava sobre um psicopata em Londres e o terror da sua presença na cidade - e numa estalagem, onde os donos desconfiam da real identidade do novo inquilino (Novello). Neste filme, que o próprio Hitch considerava o "primeiro filme de Hitchcock", o diretor pode usar o que tinha aprendido dos expressionistas e do cinema soviético, apresentando um conjunto de imagens e suspense até então nunca vistos no cinema britânico. Apesar das dificuldades, pois " The Lodger" quase foi engavetado (os produtores temiam que sua temática afastasse o público), o filme, depois de lançado, foi um imenso sucesso e aclamado como o melhor filme inglês já feito até então.  | |
Hitch também iria inaugurar uma prática comum nos seus filmes: ele sempre faria uma breve aparição. As razões iniciais deste procedimento eram bastante práticas: era necessário encher a tela com pessoas e toda a equipe de filmagens participava como figurantes. Logo suas aparições ficaram famosas e o diretor resolveu transformá-las em atrações dos filmes. Mas, preocupado com a atenção do público (muitos ficariam procurando suas aparições sem prestar atenção ao filme), Hitch começou a aparecer logo no início na maioria das vezes.
"Chantagem e Confissão": o Primeiro Filme Sonoro Inglês
 | Depois do sucesso de " The Lodger", Hitchcock foi criando uma série de sucessos, tendo, inclusive, o privilégio de dirigir o primeiro filme sonoro inglês, "Chantagem e Confissão" ("Blackmail", 1929). Neste filme Hitch mostrou sua genialidade cinematográfica, pois a presença do som criava novos problemas para o até então cinema mudo, problemas estes que o diretor solucionou, aprimorando a linguagem do cinema. " Chantagem e Confissão" começou mudo, pois o filme já estava sendo realizado, sendo que o som foi incorporado no decorrer das filmagens. Hitch não gostou da voz da atriz principal, Anny Ondra, mas uma grande parte do material já estava filmado, o que impedia uma substituição. Para solucionar o problema, Hitch colocou a voz de Joan Barry no lugar da voz de Ondra, numa dublagem perfeita, considerando-se o momento. Conforme as palavras do próprio Hitchcock para François Truffaut: "Barry ficava numa cabine colocada fora do enquadramento e recitava o diálogo diante de seu microfone enquanto a Srta. Ondra fazia a mímica das palavras" (1). |
Mas seria na "seqüência da palavra faca" que Hitch mostraria o quanto o som estava incorporado na sua linguagem. Um dia depois de esfaquear o homem que tentou estuprá-la, Alice, a personagem principal, senta-se na mesa de sua casa para o café da manhã e uma vizinha muito faladora encontra-se lá, comentando sobre o crime da noite anterior. Alice não escuta praticamente mais nada, com o som transformando-se numa pasta sonora confusa, onde apenas a palavra "faca" fica inteligível e é ouvida várias vezes. Logo, o pai de Alice pede a ela que lhe passasse a faca de pão, faca semelhante àquela com a qual ela cometera o crime. Pouco depois de continuar a ouvir a palavra "faca" algumas vezes, Alice vê a luz da lâmina e, com o som da palavra "faca" soando bem alto neste instante, ela solta a faca de pão no chão, para surpresa dos presentes. A integração imagem/som/emoção foi perfeita.
Hitchcock seria um dos críticos do cinema falado, em particular do início desta técnica, onde, para explorá-la, foram produzidos muitos filmes no estilo "fotografia de gente que fala", imobilizando a forma cinematográfica em uma forma teatral. Hitch tentaria sempre valorizar o visual, utilizando-se apenas do diálogo quando fosse absolutamente necessário. Ou, em suas próprias palavras: "Quando se escreve um filme, é indispensável separar nitidamente os elementos de diálogo e os elementos visuais e, sempre que possível, dar preferência ao visual sobre o diálogo." (2) Hitch acreditava que os filmes mudos eram a forma mais pura de cinema.
Filmes Itinerários, o MacGuffin e o Travelling
Nesta sua chamada "Fase Inglesa", Hitchcock celebraria uma fórmula infalível de sucesso: suspense, ação e romance em até uma hora e meia de duração. Obras como " Os Trinta e Nove Degraus" ("The Thirty-Nine Steps", 1935) e " Jovem e Inocente" ("Young and Innocent", 1937) celebrariam um tema caro à Hitch: a transferência de culpa, pois os heróis são acusados injustamente e, enquanto são perseguidos por toda a Inglaterra (iniciava-se os chamados filmes itinerários, sendo que " Intriga Internacional" /"North By Northwest", 1959, viria ser sua melhor expressão), tanto pela polícia quanto pelos verdadeiros culpados, eles tentam provar sua inocência. Não que eles fossem totalmente inocentes de alguma coisa - a culpa, no sentido católico do termo, sempre está presente na obra de Hitchcock, pois alguém sempre tem algo a esconder, algo que virá à tona de acordo com as circunstâncias.
  
Nestes dois filmes em particular, Hitch também desprezaria as razões vitais dos personagens para a ação, naquilo que ele chamou de MacGuffin. De acordo com o próprio Hitchcock: "Agora, de onde vem o termo MacGuffin? Isso evoca um nome escocês e se pode imaginar uma conversa entre dois homens em um trem. Um diz ao outro: "O que é esse pacote que você colocou na sacola?". O outro: "Ah, isso! É um MacGuffin". Então, o primeiro: "O que é um MacGuffin?". O outro: "Pois bem! É um aparelho para apanhar leões nas montanhas Adirondak". O primeiro: "Mas não há leões nos Adirondak". Então, o outro conclui: "neste caso, não é um MacGuffin". Essa anedota mostra-lhe o vazio do MacGuffin... o nada do MacGuffin." (3)
Em outras palavras: para o "cinema puro" o que importa é maneira de se apresentar o filme, indiferentemente aos detalhes e motivações dos personagens. O MacGuffin deve ser importante para os personagens, mas não para quem está contando a história. Esse comportamento iria produzir muitos problemas entre Hitch e seus atores, estes últimos muitas vezes preocupados com as motivações dos seus personagens, algo que o diretor não se importava: o ato do personagem virar a cabeça para esquerda ou para a direita era para facilitar o corte da cena na sala de montagem. Quando um ator perguntou ao diretor qual era a motivação do seu personagem, Hitch respondeu imediatamente: "O seu salário!" |
Hitchcock iria além ao afirmar que não se importava com o conteúdo do filme, que o filme poderia ser sobre qualquer coisa, pois o que importava para ele era o efeito que a linguagem do cinema produziria na platéia. Este aspecto iria irritar muitos críticos cinematográficos, que não encontrariam "substância" ou verossimilhança nos filmes de Hitchcock, o que sempre foi um erro por parte deles. De acordo com Hitchcock (na pergunta, Truffaut lembrou-lhe de um dos slogans preferidos de Hitch, "Certos filmes são pedaços de vida, os meus são pedaços de bolo."): "Jamais filmo um pedaço de vida pois, isso, as pessoas podem muito bem encontrar em casa ou na rua, ou até diante da porta do cinema. Não precisam pagar para ver um pedaço de vida. Por outro lado, afasto igualmente os produtos de pura fantasia, pois é importante que o público possa reconhecer-se nos personagens. Rodar filmes, para mim, significa em primeiro lugar, e antes de tudo, contar uma história. Essa história pode ser inverossímil, mas jamais pode ser banal. | É preferível que seja dramática e humana. O drama, é uma vida da qual se eliminaram os momentos de aborrecimento. Em seguida, a técnica entra em jogo e, aí, sou inimigo do virtuosismo. É preciso reunir a técnica à ação. Não se trata de colocar a câmera em um ângulo que provoque o entusiasmo do chefe-operador. A única questão que me coloco é a de saber se a instalação da câmera em tal ou tal lugar dará à cena sua força máxima. A beleza das imagens, a beleza dos movimentos, o ritmo, os efeitos, tudo deve ser submetido e sacrificado à ação." (4)
" Jovem e Inocente" apresentaria um famoso travelling (literalmente "viajando" - tomada na qual a câmera se move, fora do seu eixo, ao lado do objeto enquadrado) que mostraria bem as noções de Hitchcock sobre suspense e cinema. A cena se passa num salão de festas com uma orquestra de jazz apresentando-se (os músicos brancos estavam pintados de negros, o que era comum de acontecer nos anos 30) e a testemunha, um velho vagabundo vestido com roupas elegantes para não chamar a atenção, pode salvar o herói identificando o criminoso, pois este último tem um tique nervoso no olhar. A câmera sai da mesa onde o velho e a heroína estão sentados, passa lentamente pelas pessoas dançando e pela orquestra, indo até o rosto do baterista, fixando-se nele por alguns segundos, quando, então, vemos o tique nervoso no olhar do músico, com a câmera retornando todo o percurso pouco depois. O público, com este travelling, é informado sobre a identidade do culpado, mas não os personagens, que continuam na sua angustiante busca, criando o suspense. Nem o culpado é informado: o baterista reconhece o velho vagabundo, além de policias no salão durante o seu intervalo (atrás do mocinho, e não dele) e, acreditando-se descoberto, ele começa a ficar nervoso e a errar suas passagens na bateria, chamando a atenção e sendo identificado e preso. Eis a essência do cinema hitchcockiano: belas e contundentes imagens, do mais distante para o mais próximo, com o público informado sobre a situação para identificar-se com ela e com os personagens.
Hitchcock também colecionaria fracassos nesta sua fase inglesa (como foi o caso do desastroso " Waltzes From Vienna", 1933, que quase encerrou sua carreira), mas conseguiria muitos sucessos, como foram os casos de " O Homem que Sabia Demais" ("The Man Who Knew Too Much", 1934, filme que o recuperou depois de " Waltzes From Vienna", sendo, inclusive, seu maior sucesso na Inglaterra; além disso, este filme marcou seu reencontro com o produtor Michael Balcon e apresenta uma das melhores interpretações de Peter Lorre, o ator principal de " M - o Vampiro de Dusserdolf", de Fritz Lang) e " A Dama Oculta" ("The Lady Vanishes", 1938), e tais sucessos colocariam Hitchcock como o mais famoso cineasta inglês dos anos 30 - na verdade, como um dos únicos diretores conhecidos fora de Hollywood.  | |
O cinema inglês começou a entrar em decadência no final da década de 30 apesar do sucesso dos filmes de Hitchcock, tendo verbas cada vez menores, além do pouco interesse do público e, em particular, da crítica. A Inglaterra estava para entrar na guerra contra a Alemanha e o destino de Hitchcock parecia incerto. Ele deixou claro seu interesse em trabalhar em Hollywood, mas poucos importaram-se com isso, com exceção de um famoso produtor norte-americano, que interessou-se pelo seu trabalho: David O. Selzinck. Nos Estados Unidos começaria uma nova fase na vida de Alfred Hitchcock.
(1) - Truffaut, François. Hitchcock/Truffaut - Entrevistas. São Paulo, Brasiliense, 1986, pg. 44;
(2) - Truffaut, François. Op. cit., pg. 41;
(3) - Truffaut, François. Idem, pg. 81-82;
(4) - Truffaut, François. Idem, ibidem. pg. 63.
Texto: Orivaldo Leme Biagi
|