ALFRED HITCHCOCK: VIDA E OBRA DO MESTRE DO SUSPENSE

Texto escrito por Orivaldo Leme Biagi



PARTE 2 - Alfred Hitchcock como "Propriedade" de David O. Selznick

Introdução

A vinda de Alfred Hitchcock para os Estados Unidos não significou apenas a aquisição de um grande diretor europeu para o universo cinematográfico de Hollywood: tal ato acabaria por se transformar numa verdadeira revolução. Hitch já era famoso mundialmente como o "Mestre do Suspense" quando emigrou da Inglaterra para os Estados Unidos, em 1939, sob a segurança de um contrato de 7 anos assinado com David O. Selznick, o todo-poderoso produtor de "... E o Vento Levou" ("Gone With the Wind", 1939). Segurança falsa, entretanto. Trabalhar para Selznick significava dar a ele, o produtor, o controle total da obra, algo que Hitchcock fazia questão de manter sob seu próprio domínio. A tensão entre os dois homens foi intensa e produziu inúmeros choques, o que mudaria a história do cinema: o poder passaria das mãos do produtor às mãos do diretor.

O Produtor David O. Selznick

Tanto Hitch como Selznick eram homens determinados naquilo que faziam. David O. Selznick nasceu em 1902, filho de um milionário produtor de cinema de Nova Iorque, Lewis J. Selznick. Lewis sempre ensinou aos filhos que eles deveriam viver além das suas possibilidades e a fazer de tudo para conseguir o que quer que quisessem, inclusive blefar, mentir e trapacear - foi assim que Lewis fizera sua fortuna. David freqüentava pouco a escola, participando da vida cinematográfica do pai, editando o jornal interno da empresa e chegando a dar conselhos sobre as possibilidades de sucesso das novas estrelas. Com a formação dos novos e grandes estúdios em Hollywood no começo dos anos 20 (Fox, Paramount, MGM, etc.), a Lewis Pictures faliu. David e Myron, seu irmão mais velho, foram para Hollywood "acertar as contas" com a indústria do cinema pela falência do pai.



David começou como revisor de roteiros da MGM (cargo conseguido depois de muito esforço e várias trapaças) e, logo nos primeiros dias de trabalho, ele inundou a direção com memorandos sobre como o estúdio deveria ser dirigido. Tal comportamento chamou a atenção da direção e, logo, David fazia parte dos altos escalões da MGM. Ele se casaria com Irene Mayer, a filha de Louis B. Mayer, vice-presidente da MGM. O casamento provocou uma onda de boatos em Hollywood especulando sobre as reais intenções do ambicioso David, que ofendia-se com tais comentários: ele tinha idéias e capacidade para vencer sem precisar casar com a filha de um dos poderosos do cinema. Logicamente que o casamento com a filha de uma das pessoas mais poderosas da indústria cinematográfica ajudou consideravelmente na realização de muitos dos seus projetos.
David tinha uma idéia muito firme sobre a produção de filmes: a visão tinha de ser a do produtor. O "sistema de estúdios" até então dava riqueza aos produtores, mas sua participação era mínima. Roteiristas eram contratados em grande número, enquanto que os diretores eram contratados poucos dias antes do início das filmagens, tendo pouca importância de um modo geral - eles conduziam o que já estava determinado. Os filmes passavam pelo clivo de uma série de executivos antes de serem distribuídos e exibidos. David queria controlar todos os aspectos da produção de um filme, dando a sua visão. Dentro desta lógica, Selznick realizou alguns clássicos (ele era o chefe do estúdio RKO Pictures quando "King Kong" foi lançado em 1933), mas nada superou "... E o Vento Levou", já produzido pelo seu próprio estúdio, o Selznick International.
Três anos de produção, 3 diretores, um elenco tenso (cuja único ponto em comum era o ódio que todos sentiam em relação ao produtor) e uma média de 18 horas de trabalho por dia conduzidos por estimulantes e memorandos terríveis - fica difícil imaginar como o filme conseguiu ser terminado. Mas seu sucesso foi incontestável: foi o maior filme da era clássica de Hollywood. Tudo o que os outros filmes apenas insinuaram, "... E o Vento Levou" concretizou: produção primorosa, história tensa, personagens carismáticos e a maior bilheteria da história até então. Enquanto milhões de pessoas por todo o mundo viviam "o sonho americano" de Hollywood através do filme de Selznick, Hitch já trabalhava no seu primeiro filme norte-americano: "Rebeca, a Mulher Inesquecível" ("Rebecca", 1940).

Rebeca, a Mulher Inesquecível

Inicialmente Hitch fora contratado para dirigir uma versão do naufrágio do Titanic - sendo que Selznick cogitou comprar um velho barco da marinha norte-americana para afundá-lo. Mas o preço da empreitada era exorbitante e os planos iniciais foram alterados, e o primeiro filme norte-americano de Hitchcock teria como base o romance Rebecca, de Daphné du Maurier, romance este que o próprio Hitch lera na Inglaterra. E também começariam os primeiros problemas entre o diretor inglês e o produtor norte-americano.
Hitchcock ofereceu-se para fazer o roteiro e utilizou o método que fizera sucesso na Inglaterra: ele pegava a boa idéia do livro e jogava o resto fora. Quando Selznick leu o trabalho de Hitch, enviou-lhe um memorando com mais de 3 mil palavras desqualificando o roteiro. A visão de David era que o livro deveria ser retratado na tela e ele sentiu-se ofendido com a abordagem de Hitch. O novo roteiro foi feito por Robert E. Sherwood e Joan Harrison.
A escolha de Joan Fontaine como protagonista também foi motivo de aborrecimentos para o diretor. Não por causa da atriz em particular, que o diretor viu excelentes potencialidades dramáticas (que seriam muito bem exploradas no filme), mas por causa de uma estratégia publicitária realizada por Selzinic durante "... E o Vento Levou" que seria repetida: fazer testes para escolher a personagem principal. Assim, Hitch teve de fazer testes com inúmeras atrizes sabendo de antemão que a atriz principal já estava escolhida.
O início das filmagens começou 5 dias após a Inglaterra ter declarado guerra à Alemanha, o que foi um momento difícil para Hitchcock pois ele tinha parentes em Londres. E a situação ficou ainda pior quando Hitch descobriu o seu papel como diretor em Hollywood e, principalmente, numa produção de David Selznick.
David reclamava que Hitchcock filmava pouco. Na verdade, Hitch filmava exatamente o que queria, em fragmentos, como um quebra-cabeças que apenas fazia sentido na cabeça do diretor. Selznick irritava-se com isso, naquilo que chamou de "maldito corte de vai-vem", pois ele gostava de contar com uma grande quantidade de filme para ele, Selznick, poder realizar a edição.
Quanto mais brigas, mais interferências aconteciam, deixando o clima do estúdio bastante nervoso. A cena final do filme também foi disputada: a mansão dos Winter pegava fogo e o espectro de Rebecca passava sobre os amantes dissolvendo-se para sempre, libertando-os. Selznick queria que a fumaça fizesse a letra "R" no céu, idéia que Hitchcock considerou absurda, convencendo o produtor que um travesseiro com a letra "R" bordada pegando fogo teria um efeito visual melhor. Hitch venceu neste ponto mas, de um modo geral, sentiu-se ofendido com a interferência, chegando a dizer que "Rebecca" não era um filme de Hitchcock. Nas suas palavras: "Não é um filme de Hitchcock. É uma espécie de conto de fadas e a própria história pertence ao fim do século XIX. Era uma história bastante antiquada, bem fora de moda. Havia muitas mulheres escritoras naquela época: não sou hostil a elas, mas Rebeca é uma história que carece de humor." (1)
Hitchcock exagerou um pouco nas suas críticas, pois o filme possui elementos notoriamente hitchcockianos, como o jogo de luz e sombras bastante tenso e a perspectiva cada vez mais fechada sobre a protagonista, sendo encurralada pelo espectro de Rebecca. A sensacional atuação de Judith Anderson como a governanta Sra. Denvers, que insistia em mostrar a inferioridade da nova esposa de Maxime de Winter (vivido por Laurence Olivier, numa interpretação bastante irregular) em relação a Rebecca, transformou o filme num dos mais aterrorizantes momentos do cinema.
Num último confronto entre os dois homens sobre "Rebecca", Selznick ganhou: na entrega do Oscar, Hitchcock, que concorreu como melhor diretor, não ganhou, mas o produtor Selznick sim. Pela primeira (e última) vez um mesmo produtor ganhou dois Oscars seguidos. Foi o máximo da carreira de Selznick, que iria começar a decair, enquanto que a carreira de Hitch começaria a subir.

Hitchcock "Emprestado"

O problema entre os dois homens não se limitaria ao controle da obra cinematográfica: o diretor inglês também seria explorado economicamente. Selznick o alugava para outros estúdios por um valor maior do que pagava, ficando com a diferença. Neste "empréstimo", Hitchcock conseguiria liberdade, fazendo, inclusive algumas novas experiências, como a comédia "Um Casal do Barulho" ("Mr. And Mrs. Smith", 1941) e uma filmagem inteira no mesmo set, num barco, em "Um Barco e Nove Destinos" ("Lifeboat", 1943). Mas foi com o suspense que Hitch iria se destacar. "Correspondente Estrangeiro" ("Foreign Correspondent", 1940) e "Sabotador" ("Saboteur", 1942) não acrescentariam muito à obra do diretor. Mas suas obras-primas do período "emprestado" foram "Suspeita" ("Suspicion", 1941) e "A Sombra de uma Dúvida" ("Shadow of a Doubt" 1943). "Suspeita" trabalhava com a suspeita que a esposa Lina (Joan Fontaine) tinha em relação ao seu marido Johnnie (Gary Grant, na sua primeira colaboração com Hitchcock), pois este poderia ser um assassino. A cena onde Johnnie leva o leite para a esposa, podendo ou não conter o veneno fatal, é uma das mais importantes da história do cinema: o leite que representa pureza (foi colocado uma lâmpada dentro do copo para que enfatizasse a cor branca, a cor pura) e que dá vida poderia levar à morte, num jogo de extremos típicos de Hitch. Mas o final é feliz, pois o astro Gary Grant não poderia ser um assassino. Hitch havia pensado em outro final, onde Gary Grant daria o copo de leite envenenado para Joan Fontaine e ela, então, lhe pediria para colocar uma carta (que o incrimina) para sua mãe. Ela bebe o copo de leite e morre. Ele, assobiando, abre uma caixa de correio e joga a carta dentro, carta esta com sua culpa. Também seria um belo final, sem dúvida.



"A Sombra de uma Dúvida", que o próprio diretor considerava seu melhor trabalho, conta a história de um assassino de viúvas, Charlie Oakley (Joseph Cotten, numa interpretação sensacional), que, ao ser perseguido, vai refugiar-se na casa de sua família no interior, para alegria de sua sobrinha, também chamada Charlie (Teresa Wright), que tem verdadeira adoração pelo tio. Aos poucos ela vai suspeitando que o tio Charlie seja o tal assassino e ele tenta matá-la duas vezes. Na terceira vez, com ambos dentro de um trem, ele morre esmagado por um outro trem que vinha em direção no sentido contrário. No seu enterro, ela é a única que conhece o segredo do tio, partilhando-o com seu novo amor, o detetive do caso.



Com roteiro do premiado Thornton Wilder (completado por Alma Reville e Sally Benson), Hitch criou uma de suas obras mais intensas. A ligação do tio com a sobrinha é praticamente telepática, quase que sobrenatural, a começar por terem o mesmo nome. Na verdade, o filme é sobre sexo e a perda da inocência: a sobrinha ama seu tio como uma criança e, à medida que a inocência vai sendo perdida (com o aumento da suspeita da culpa do tio), ela deixa de ser criança para transformar-se em mulher, inclusive tendo um amor adulto (com o detetive). O filme é um retrato perfeito de uma típica cidade do interior dos Estados Unidos, mostrando, também, que Hitch já estava integrado no novo país.
Embora estivesse fazendo filmes mais ao seu gosto, a exploração econômica que Hitch sofria de Selznick o irritava profundamente. Os vários problemas pessoais deste último uniriam outra vez estes dois homens numa produção: "Quando Fala o Coração" ("Spellbound", 1945).



Psicanálise e Salvador Dali

Depois de seu imenso sucesso, Selznick tornou-se amargo e sua vida (tanto pessoal quanto financeira) descontrolada. Ele tornou-se depressivo, quase que se punindo pelo sucesso, pois já tinha tudo o que era possível dentro da vida cinematográfica de Hollywood e nem chegara aos 40 anos. O que ele poderia fazer? Ele jogava baralho (perdendo somas enormes), praticamente desistiu da construção de seu próprio estúdio (que era para ser chamado de "Selznick City") e foi negociando sua parte cinematográfica com outros estúdios (como o empréstimo de Hitchcock).
Mas uma tragédia iria abalar a sua vida: seu irmão Myron, corretor de talentos, morreria de tanto beber, frustrado por não conseguir produzir filmes como o pai e o irmão. David sentiu muito a morte do irmão, a ponto de não conseguir mais andar. Em Nova Iorque, sem conseguir sair do quarto, David disse para sua esposa que estava ficando louco. Irene, preocupada com o estado mental do marido, contratou a psiquiatra May E. Romm. Selznick não era um paciente realmente sério mas, se ela não conseguiu tratá-lo adequadamente, pelo menos conseguiu fazer com que ele levantasse e voltasse a trabalhar.
Entusiasmado com a Psicanálise, Selznick resolveu fazer um filme sobre o tema, um suspense onde a Psicanálise era fundamental para a resolução da trama. Ele, então, chamou Hitch para a empreitada, e este último decidiu que o filme seria como ele desejava. Mas, como em "Rebecca", Selznick não permitira muitas liberdades ao seu diretor.
O romance de Francis Beeding, Hilary St George Saunders e John Palmer, The House of Dr. Edwardes, era uma história bizarra com bruxaria e assassinato dentro de um asilo suíço. Hitch fez um roteiro dentro da sua perspectiva de trabalho, ou seja, desprezou o texto original e enxertou suas próprias idéias (como a de um paciente que acreditava que estava retrocedendo no tempo e que chegou aos 10 anos de idade). Selznick deu uma olhada no texto de Hitch e arrumou-lhe um colaborador, o experiente roteirista Ben Hecht, amigo pessoal de David, que tinha a função de melhorar o texto e, principalmente, de controlar Hitchcock.
Para garantir a coerência da parte psiquiátrica, foi contratada, como conselheira, May Romm, o que não ajudaria muito a vida do diretor.
A Psicanálise entrava em choque com Hitchcock em dois pontos: 1º - ele era reservado demais para acreditar que a Psicanálise pudesse fazer algum efeito nele ou no seu cinema; 2º - era difícil transformar em imagens algo caracterizado essencialmente pela palavra, pelo verbal, como era o caso da Psicanálise (a "cura pela fala"). Hitch tentou transformar o verbal em imagens (o que justifica a presença da obra surrealista de Salvador Dali na parte dos sonhos), mas esbarrava em May Romm, que procurava enquadrar o roteiro e filme dentro das normas psicanalíticas. A frase preferida de Hitch para alguém que o aborrecia durante as filmagens,"É apenas um filme!", foi dita inúmeras vezes para May Romm.
As pressões de Selznick (exigindo mais mistério e mais romance entre Gregory Peck e Ingrid Bergman) e as interferências de May Romm deixavam o trabalho de Hitch e Hecht difícil, situação que piorou com o início das filmagens. A questão mais complicada ocorreu quando May quis que a parte de sonhos de Dali fosse diminuída, ou simplesmente retirada, por ser uma visão excessivamente sexual, e Selznick atendeu sua conselheira, e não seu diretor. Uma parte do trabalho de Salvador Dali foi mantida e tornou-se famosa (Selznick apenas contratou Dali pois estava convencido de que Hitchcock o queria para aumentar a publicidade, o que não era verdade: Hitch desejava que os sonhos fossem apresentados com traços agudos e claros, características de Dali, o que daria boas imagens para representar as falas).
Apesar de envelhecido nos seus conceitos de Psicanálise, o filme ainda continua forte. Além da seqüência de sonhos de Dali, outras três cenas do filme tornaram-se famosas: Gregory Peck, totalmente fora de controle, segurando uma navalha; o personagem de Peck quando criança escorregando e empurrando uma outra que seria empalada numa cerca; e Ingrid Bergman na mira de um revólver através do olhar da câmera. O filme, quando lançado, tornou-se o maior sucesso de Hitchcock desde "Rebecca", com uma repercussão maior do que todos os filmes que Hitch tinha feito "emprestado". A ligação com Selznick, neste ponto, beneficiava Hitch, embora este apenas olhasse o lado negativo. Hitchcock percebeu que, se quisesse ter o domínio sobre os seus filmes, teria de ser também o produtor.
Logo eles iriam colaborar juntos em outro filme, mas o caos que estava a vida de Selznick mudaria tudo.

Interlúdio
Pouco depois de terminadas as filmagens de "Quando Fala o Coração", Hitchcock e Hetch começaram o roteiro para "Interlúdio" ("Notorious", 1946), que contava a história de uma prostituta alcoólatra (Ingrid Bergman) que, a mando de um agente secreto norte-americano (Gary Grant) iria seduzir um agente nazista (Claude Rains) para tentar descobrir segredos atômicos dos nazistas no Brasil. A prostituta e o agente norte-americano iriam se apaixonar, aumentando a tensão da trama. Na verdade, era uma história de redenção: a prostituta perdida na bebida transformando-se numa heroína e sendo salva pelo amor. O final, inicialmente, era trágico: existiam duas versões do roteiro, sendo que em uma versão morria Gary Grant e na outra morria Ingrid Bergman. Selznick não permitiu: o final deveria ser feliz e sua vontade foi satisfeita. Mas foi sua última intervenção no filme.
Selznick apaixonou-se pela atriz Jeniffer Jones, uma das suas "criações", descobrindo nova energia para sua vida - e o sexo outra vez.
Para mostrar esta nova fase da sua vida (e tentar superar "... E o Vento Levou", a grande ambição do produtor na época), David iria produzir um filme enfatizando a sexualidade de Jones. Selznick realizaria gastos exorbitantes na produção do faroeste "Duelo ao Sol" ("Duel in the Sun", 1946) e teria problemas com o diretor contratado, King Vidor, importunando-lhe com memorandos e mais memorandos. As filmagens estavam muito atrasadas e Selznick precisava de mais dinheiro. Ele, então, vendeu o ainda inacabado "Interlúdio" para a RKO Pictures. Uma das cláusulas da venda era que o produtor não poderia interferir com o trabalho do diretor. Hitchcock, mesmo não ganhando nada em termos financeiros, conseguia, assim, ser seu próprio produtor e sua liberdade.
Os resultados dos dois filmes foram bem diversos. O filme de Selznick afundaria: King Vidor abandonaria as filmagens (cansado da interferência de David) e, cinco dias depois, Irene também iria se separar do marido; o produtor iria ter uma crise nervosa na trabalhosa edição do filme, chegando a dizer, depois de uma edição particularmente desastrosa, que o problema era que quando ele morresse os obituários iriam escrever "Morre o produtor de "... E o Vento Levou", e que ele estava lutando para "rescrever" isso; e o filme, depois de lançado, seria hostilizado pela crítica (considerado "luxúria no pó"). Por sua vez, Hitchcock tinha uma obra-prima que faria muito sucesso. Este sucesso abriria uma nova fase para o diretor, pois mostrava para Hollywood que ele poderia prosperar como produtor. Mas antes de tentar novos caminhos, ele teria de cumprir seu contrato e fazer mais um filme para Selznick.

Agonia de Amor e o Fim da Relação com Selznick

"Agonia de Amor" ("The Paradine Case", 1947), baseado no romance de Robert Hichens, era uma história sobre um advogado inglês casado que se apaixona por sua cliente acusada de matar o marido cego. Ela o convence da sua inocência, mas ele começa a ter dúvidas disto no decorrer do julgamento. Selznick, quando leu o romance nos anos 30, imaginou um filme tenso com um amor proibido, além de seqüências arrepiantes nos tribunais, e convocou Hitchcock para a direção. E, estranhamente, deixou que Hitchcock fizesse o roteiro.
Alguns meses depois o texto ficou pronto e chocou Selznick: não existia nada do que ele desejara no roteiro de Hitchcock. Na verdade, Hitch estava totalmente desinteressado do projeto e seu texto refletiu seu estado de espírito. No pior momento da sua vida, Selznick resolveu ser seu próprio roteirista - ele sempre acreditou que era um escritor.
O texto chegava para os atores um dia antes das filmagens, quando não na mesma manhã, e Hitchcock recolhia-se enquanto os atores decoravam as falas e dormia (ou fingia dormir) durante as tomadas, tal era o seu tédio. Quando as filmagens terminaram, Hitch montou um copião razoável e terminou sua relação com o filme - e com David Selznick. Descontando a inflação, este foi o filme mais caro da carreira de Hitchcock, sendo que seu fracasso artístico e financeiro foi atribuído a Selznick pela crítica (uma delas foi bastante cruel com Selznick: "Existe muito David Selznick neste filme, mas o toque de Hitchcock está lá.").
Selznick ainda tentou fazer outro contrato com Hitchcock, mas este recusou-se: o diretor queria ser seu próprio produtor e, para tal, iria criar a sua própria companhia, a Transatlantic Pictures, inaugurando uma nova fase na sua vida. Já Selznick viu seu nome sumir no decorrer dos anos, enquanto o de Hitchcock apenas subia. Mais do que isso: os diretores seriam considerados autores, relegando os produtores a um segundo plano.
Selznick se casou com Jennifer Jones e continuou produzindo filmes, embora sem impacto ou sucesso. Sua ex-esposa, Irene, iria se transformar numa das grandes produtoras teatrais dos Estados Unidos, valorizando peças modernas e vigorosas - tudo o que faltava à obra de seu ex-marido. David O. Selznick morreu vítima de um ataque cardíaco fulminante em 1965 e foi tratado pela imprensa do jeito que mais temia: "Morreu David O. Selznick, o produtor de '... E o Vento Levou'".

(1) - Truffaut, François. Hitchcock/Truffaut - Entrevistas. São Paulo, Brasiliense, 1986, pg. 77.

Texto: Orivaldo Leme Biagi


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