descobriu a trama.
Se a trama era polêmica, a forma de filmá-la não ficava atrás: Hitch fez um filme contínuo, sem cortes, utilizando longas seqüências de 10 minutos (que era o máximo de tempo que as fitas da época permitiam, sendo que os cortes nos finais foram disfarçados, com a câmera indo até uma substância plana e escura, como as costas de algum personagem ou a madeira de um móvel). As dificuldades para este tipo de filmagem foram muitas. Hitchcock nos descreve a filmagem:
"A técnica da câmera móvel tinha sido ensaiada antes nos seus menores detalhes. Trabalhava-se com o Dolly e no chão, havia pequenas marcas, números muito discretos escritos no solo e todo o trabalho do câmera com o Dolly era chegar sobre tal número, e assim por diante. Quando passávamos de um cômodo a outro, a parede da sala ou da entrada sumiam sobre trilhos silenciosos; os móveis também, montados sobre rodinhas, eram empurrados pouco a pouco. Era realmente um espetáculo assistir uma tomada desse filme!" (1)
A técnica de longos planos era completamente contrária à filosofia do próprio Hitchcock, que, até então, conseguia suspense com a montagem (pequenos planos diferentes juntados). Embora " Festim Diabólico" tenha sido um filme empolgante e inteligente, não foi um grande sucesso. E o diretor iria tentar outra vez a técnica de longas tomadas no seu próximo filme, " Sob o Signo de Capricórnio" ("Under Capricorn", 1949).
Fascinado por conseguir Ingrid Bergman para o papel principal, Hitchcock filmou um romance de época, assim como tinha sido com "Rebeca, a Mulher Inesquecível". A contratação de Bergman desequilibrou o orçamento e, ao mesmo tempo, fez o diretor sofrer com o mau humor da atriz, que reclamava constantemente da filmagem dos longos planos.Além das dificuldades dos atores para decorar suas longas falas, qualquer problema técnico (e muitos aconteciam) fazia com que tudo fosse filmado outra vez, o que aumentava o desgaste de todo o elenco. Hitch admitiu a derrota e utilizou a técnica de longos planos em algumas partes do filme  | |
Mesmo assim, o filme foi um grande fracasso. Uma crítica do Hollywood Reporter sobre
"Sob o Signo de Capricórnio" revela o principal problema do filme:
"Precisamos esperar cento e cinco minutos para ter um primeiro calafrio nesse filme." Esse "primeiro calafrio" tornou-se clássico: Ingrid Bergman levanta a colcha de sua cama e aparece uma cabeça encolhida. Francis Ford Coppola iria copiar essa cena no seu clássico
"O Poderoso Chefão" ("The Godfather", 1972), quando um produtor de cinema levantaria sua colcha e encontraria uma cabeça de cavalo cortada. Tanto uma cena quanto a outra continuam fortes e clássicas.
Depois do fraco desempenho nas bilheterias de "
Festim Diabólico" e do retumbante fracasso de "
Sob o Signo de Capricórnio", a Transatlantic Pictures faliria e Hitchcock iria fixar-se no mundo dos estúdios. Jamais tentaria algo fora deste esquema.
A Grande Fase
 | Hitchcock amargaria outro fracasso, agora pelos estúdios Warner, com " Pavor nos Bastidores" ("Stage Fright", 1950). Para o mundo de Hollywood, era praticamente uma sentença de morte: poucos diretores conseguiram se recuperar depois de tantos fracassos em seguida. Mas Hitch iria inverter a lógica, recuperando-se com o clássico " Pacto Sinistro" ("Strangers on a Train", 1951).
Baseado numa obra de Patricia Highsmith (que não gostou do filme), com a colaboração (pouco produtiva) de Raymond Chandler, um dos maiores escritores da literatura policial norte-americana, Hitch fez um dos seus mais intensos e famosos filmes. Guy (Farley Granger), um tenista famoso, que está tendo dificuldades com sua mulher (ele está em vias de separação), encontra um estranho num trem, Bruno (Robert Walker), que faz uma proposta: Bruno mataria a esposa de Guy e este mataria o pai de Bruno. |
Seria perfeito: o fator motivação não existiria. Bruno assassina a esposa de Guy (vivida por Patricia Hitchcock, filha do diretor) e vem cobrar o cumprimento do pacto, que nunca foi aceito por Guy.
A transferência de culpa, um dos temas preferidos do diretor, ganhou a expressão máxima neste filme. Os dois personagens são, rigorosamente, a mesma personalidade: o equilíbrio de Guy não se contrapõe à loucura de Bruno, mas complementa-a. Mesmo inocente, Guy carrega a culpa - todos são culpados de alguma coisa, defendia o católico Alfred Hitchcock.
O filme foi um imenso sucesso, mas carregaria uma tragédia que, curiosamente, ligaria outra vez o diretor ao seu antigo patrão, David Selznick: Robert Walker era marido de Jeniffer Jones na época em que ela estava tendo um caso com Selznick. A separação foi tão traumática que Walker chegou a ficar internado por depressão e excesso de drogas e álcool. Foi quando o ator recebeu alta do hospital, com sua figura amargurada e destruída, que Hitch o escolheu para viver o papel do psicopata Bruno. Pouco depois das filmagens terem sido encerradas e do filme lançado, Walker morreu de excesso de drogas e álcool.
Antes da total recuperação de Hitch, o diretor sofreria um "tropeço": "
A Tortura do Silêncio" ("I Confess", 1952), história de um padre (vivido por Montgomery Clift) que sabe da autoria de um assassinato, mas não pode revelar o segredo pois foi dito a ele em confissão pelo próprio assassino. E, para piorar as coisas, o assassinado chantageava o padre, fazendo com que este também fosse um suspeito. O padre tinha tido um caso com uma mulher anos antes - "todos tem suas culpas", defendia Hitch.
Além dos problemas de convívio do diretor com Clift (que atuava conforme o "método", buscando as razões psicológicas mais profundas do personagem, algo que não interessava ao diretor), o público norte-americano não entendeu o sentido do padre guardar o segredo, pois a confissão não é um ato religioso típico nos Estados Unidos. Mas o filme fez relativo sucesso em países católicos, como o Brasil, onde a representação católica de confissão é aceita.
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1954 foi um ano chave na vida cinematográfica do diretor: ele realizou o grande sucesso "Disque M para Matar" ("Dial M for Murder") e encontrou sua "casa" na Paramount Pictures, local onde realizaria seus melhores e mais populares filmes: " Janela Indiscreta" ("Rear Window"), ainda em 1954; " Ladrão de Casaca" ("To Catch a Thief"), 1955; " O Terceiro Tiro" ("The Trouble Whit Harry?") e o " O Homem que Sabia Demais" ("The Man Who Knew Too Much", refilmagem de seu próprio filme de maior bilheteria da "fase inglesa", de 1934), ambos de 1956; " Um Corpo que Cai" ("Vertigo"), 1958; e " Intriga Internacional" ("North by Northwest"), em 1959, este |
produzido pela MGM. "
Janela Indiscreta", "
Um Corpo que Cai" e "
Intriga Internacional" foram suas grandes obras-primas deste período.




"
Janela Indiscreta" é, essencialmente, um filme sobre cinema: o personagem Jeff (interpretado por James Stewart), que está preso numa cadeira de rodas e torna-se observador da vida das pessoas no prédio da frente, pode ser visto como o próprio espectador de cinema, sempre desejando ver a vida do outro na tela. O final, onde o suspeito de um assassinato vai até o observador, Jeff, foi um dos grandes momentos do suspense e do terror do século XX: a impotência do personagem perante este ataque (impotência esta reforçada no filme inteiro através da presença da maravilhosa Grace Kelly) deveria fazer com que o espectador se sentisse igualmente atacado. O grande sucesso comercial do filme mostrou que o objetivo de Hitchcock foi atingido.
" Um Corpo que Cai" é considerado pela crítica especializada como o seu melhor filme e sua grande obra-prima. Hitchcock quis contar a história de um homem que reconstrói uma mulher morta. Scottie (vivido por James Stewart) é um inspetor afastado da profissão por causa dos seus problemas com vertigem que persegue Madeleine (Kim Novak), esposa de um antigo amigo, que parece estar possuída por um espírito de uma suicida. Scottie a salva de uma tentativa de suicídio (a famosa cena da ponte de San Francisco) e apaixona-se por ela. Mas ele não pode salvá-la depois quando ela se atirou de uma torre, pois suas vertigens o impediram de subir as escadas. Sentindo-se culpado por ter perdido seu grande amor, Scottie afunda em depressão, até que encontra Judy, uma mulher parecida com Madeleine. O público é informado de que Judy é realmente Madeleine (o amigo de Scottie jogou a esposa verdadeira do alto da torre sabendo que Scottie não chegaria até lá e serviria como testemunha para apontar as tendências suicidas da mulher).  | |
Ela também está apaixonada por ele e, então, tenta conquistá-lo como Judy. Mas não seria tão fácil: Scottie começou a transformar Judy em Madeleine. O olhar de James Stewart é fabuloso: à medida que ele "veste" Judy como Madeleine, seu olhar é o mesmo de um amante vendo sua amada despir-se. Ao usar um colar de Madeleine, Scottie descobre a identidade de Judy e a leva para o mesmo lugar onde ocorreu o suicídio. Ele vence as vertigens subindo até a torre com Judy/Madeleine, mas ela acaba caindo, num dos finais mais tristes da história do cinema.
O filme seria revelador das idéias e fixações do diretor, em particular com as mulheres loiras. Na verdade, o filme carregava a idéia do diretor em construir sua atriz ideal. Na verdade, Kim Novak não era sua primeira escolha e ele nunca ficou muito satisfeito com sua interpretação. Provavelmente Hitch trabalharia sempre com Ingrid Bergman e Grace Kelly, se fosse possível, pois estas duas mulheres tinham imensa e sutil beleza. De acordo com o próprio Hitch: "Quando abordo as questões de sexo na tela, não esqueço que, também aí, o suspense comanda tudo. Se o sexo é demasiado gritante e demasiado evidente, não há mais suspense. O que me dita a escolha de atrizes loiras e sofisticadas? Procuramos mulheres no mundo, verdadeiras damas que se transformam em putas no quarto de dormir." (2)
Hitchcock preferia as mulheres britânicas (além de suecas, alemãs do norte e escandinavas), achando-as mais interessantes que as latinas, italianas e francesas:
"O sexo não deve ser exibido. Uma mulher inglesa, com seu ar de professora, é capaz de subir num táxi com você e, para sua grande surpresa, abrir a sua braguilha." (3)
O filme não chegaria a fazer o sucesso esperado por Hitchcock, sendo que este culparia, intimamente, James Stewart pelo seu abatimento no rosto. Nada mais injusto: Stewart esteve mais do que perfeito, talvez uma das melhores interpretações da história do cinema. É difícil dizer as razões do relativo fracasso do filme nas bilheterias, mas poderíamos arriscar duas hipóteses: 1º - o filme era muito mórbido para os padrões da época; 2º - e não tem um final feliz. Como quase sempre acontece na vida real, a realização do sonho original nem sempre é completa ou satisfatória, situação que o público tende a não aceitar num filme.
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Mas "Intriga Internacional" seria um grande sucesso, podendo ser considerado como seu melhor filme de viagem e perseguição (Gary Grant é confundido com um agente secreto e tenta provar sua inocência enquanto foge, por todos os Estados Unidos, da polícia e da organização secreta inimiga, temática semelhante aos filmes "Os 39 Degraus", "Jovem e Inocente" e "Sabotador"). Com um roteiro complexo e perfeito (o próprio Hitchcock adorava contar a história de que Gary Grant não tinha a menor idéia do que estava filmando), vilões sensacionais (com as notáveis interpretações de James Manson e Martin Landau) e seqüências sensacionais (o assassinato dentro da ONU; o avião atacando Gary Grant no deserto; a cena das Montanhas Rushmore, onde estão esculpidas as faces de quatro presidentes dos Estados Unidos), podemos dizer que este é o melhor filme de espionagem de todos os tempos. Muito do que foi feito na série 007 baseou-se neste filme.. |
Neste ínterim, o diretor teria uma série de televisão, Alfred Hitchcock Presents (no Brasil recebeu o nome de Alfred Hitchcock ou Suspense).. Com histórias criativas, cheias de humor negro e suspense, o seriado teria grande sucesso O próprio Hitchcock apresentaria os programas com entradas criativas e bem humoradas. Estas entradas retratando um Hitchcock levemente bobo tiveram um efeito duplo: popularizaram o diretor para um grande e novo público, mas o afastaria de vez do público mais intelectualizado.
O sucesso do seriado o tornaria o diretor de cinema mais rico e popular do final dos anos 50 e início dos anos 60. Esta fama iria confirmar-se ainda mais com "
Psicose" ("Psycho"), de 1960.
"Psicose"
 | Tendo de cumprir o seu contrato com a Paramount (o diretor já estava sendo sondado pela Universal), Hitchcock propôs um filme de baixo orçamento (mirando-se no exemplo da American International, produtora de filmes conhecida por trabalhar com orçamentos mínimos) baseado numa história macabra de Robert Bloch sobre uma ladra que encontra um rapaz esquisito, dominado pela mãe, que toma conta de um motel em ruínas. A Paramount não se interessou pelo projeto (assim como alguns colaboradores de Hitchcock, que viam este filme como algo pertinente para a sua série de televisão, mas não para a sua obra cinematográfica), fazendo com que o diretor o financiasse sozinho.
Aproveitando-se das mudanças de comportamento do público (essencialmente formado por jovens sedentos de ritmo, sexo e violência, quer Hitchcock aprovasse ou não estas mudanças)e do renascimento do terror no cinema |
(por causa do sucesso da produtora inglesa Hammer Films), Hitchcock deu ao mundo o seu filme mais violento e, nas suas palavras, sua primeira experiência com o objetivo de chocar o público. A influência da televisão na construção cinematográfica do filme tornou-se pioneira. Nas palavras do próprio Alfred Hitchcock sobre "
Psicose":
"É indiferente para mim que se pense que se trata de um pequeno ou de um grande filme. Eu não o empreendi com a idéia de fazer um filme importante. Pensei que podia me divertir fazendo uma experiência. O filme só custou oitocentos mil dólares e eis onde estava a experiência: 'Posso fazer um filme de longa metragem nas mesmas condições de um filme de televisão?'. Usei uma equipe de televisão para rodar muito rapidamente. Só reduzi o ritmo da filmagem quando rodei a cena do assassinato no chuveiro, a cena da limpeza e uma ou duas outras coisas que marcavam o escoamento do tempo. Todo o resto foi rodado como na televisão." (4)
Fazer com que a estrela do filme, Janet Leigh, morresse antes da metade do filme foi uma ousadia para a época, mas muito bem sucedida (as pessoas eram proibidas de entrar no meio das sessões de cinema para não perder a surpresa). Mas foi a
"cena do assassinato do chuveiro" que tornou-se a mais famosa, parodiada e estudada seqüência da história do cinema. A função desta seqüência era o de provocar o choque e, sem dúvida, conseguiu: ela levou uma semana para ser feita e contou com setenta posições de câmera e demorou aproximadamente 45 segundos na tela. A técnica de montagem foi usada com perfeição: várias pequenas cenas juntadas que, além de prender a tensão a níveis insuportáveis, davam a impressão de facadas - podemos perceber que a faca não penetra o corpo da atriz Janet Leigh, praticamente sequer a toca. Em outras palavras: as facadas estavam nas imagens produzidas pela montagem. O sangue escorrendo pelo ralo justificou, além do baixo orçamento, a realização do filme em preto-e-branco.


Com um enredo perfeito, um eficiente e inesquecível elenco (Anthony Perkins seria "perseguido" por Norman Bates até o fim dos seus dias, isso sem contar que Janet Leigh conseguiria a sua "imortalidade" no cinema através da
"cena do assassinato do chuveiro") e o Mestre em sua melhor forma cinematográfica (aproximadamente metade do filme é mudo, apenas acompanhado de imagens e música, perfeita, composta pelo genial Bernard Herrmann), o filme foi uma das melhores demonstrações do "cinema puro" que Hitchcock sempre defendeu.
Os resultados de bilheteria foram mais do que satisfatórios: "
Psicose" foi o filme de maior público e renda de Alfred Hitchcock. O diretor, agora na Universal, sentia-se confiante para realizar qualquer projeto. Mas a sorte viraria para o Mestre nos seus últimos anos de vida.
(1) Truffaut, François. Hitchcock/Truffaut - Entrevistas. São Paulo, Brasiliense, 1986, pg. 109; (2) Op. cit., pg. 134; (3) Idem, pg. 135; (4) Idem, ibidem, pg. 167.
Texto: Orivaldo Leme Biagi