ALFRED HITCHCOCK: VIDA E OBRA DO MESTRE DO SUSPENSE

Texto escrito por Orivaldo Leme Biagi



PARTE 4 - O DECLÍNIO E A MORTE DO MESTRE

Introdução

Sempre fica difícil comentar os momentos de decadência de um gênio, ainda mais quando o gênio chama-se Alfred Hitchcock. Seus últimos 20 anos de vida foram bastante complicados, tanto do ponto de vista profissional quanto pessoal. Hitchcock sempre gostou de uma vida controlada, algo que, nestes últimos anos, não aconteceu.

"Os Pássaros"... e os Problemas

O estrondoso sucesso de "Psicose" deu uma inusitada confiança ao diretor. Seus assessores diretos ficaram surpresos pelo excessivo otimismo de Hitch, pois acostumaram-se a ver nele uma pessoa sempre cautelosa. Muitos projetos de filmagem foram pensados pelo diretor e ele parecia sentir-se capaz de realizar todos eles.
Mas o sucesso de "Psicose" também trouxe alguns pontos que não poderiam ser desprezados, em particular a criação de dois públicos distintos: um deles era aquele que gostava do diretor antes de "Psicose", desejando a volta de seus filmes mais sutis; o outro, que se formou a partir de "Psicose", desejava mais sexo e violência - ou, em outras palavras, queria um novo "Psicose". O próprio Hitchcock reclamaria que estava "concorrendo com ele mesmo", o que era verdade, situação esta que o deixava tenso. Seu próximo filme, "Os Pássaros" ("The Birds", 1963), aumentaria sua tensão.
Baseado na obra de Daphne du Maurier, "Os Pássaros" levava Hitchcock ao (quase) inédito terreno do sobrenatural, ao contar a história de ataques de pássaros contra seres humanos, em particular em Bodega Bay, local que concentra a ação do filme. Não foi apresentada razão alguma para os ataques, o que aumentou o suspense do filme. Embora fossem levantadas hipóteses fantásticas e simbolismos duvidosos em relação ao comportamento violento dos pássaros (a revolta da natureza contra o homem e seus abusos; uma versão do diretor sobre a Terceira Guerra Mundial, não travada entre homens, mas sim entre os homens e a natureza; referências a uma dominação comunista, etc.), este comportamento está relacionado à psicologia (problemas e traumas) dos personagens principais: Lydia, interpretada por Jessica Tandy, mãe de Mitch, vivido por Rod Taylor e Cathy, na pele de Veronica Cartwright; e, logicamente, da protagonista Melaine Daniels, interpretada pela novata Tippi Hedren.
Cansado das recusas de suas loiras preferidas (leia-se Ingrid Bergman e Grace Kelly), Hitchcock quis ter a "sua loira" particular e, aparentemente, a encontrou em Tippi Hedren, que, até então, era uma garota propaganda. Assim como o personagem Scottie de "Um Corpo que Cai" tentava "construir" uma mulher morta, Hitchcock tentou "construir" a sua loira: deu-lhe aulas de interpretação, ensinou-lhe posturas, comprou-lhe roupas e a escalou como protagonista de "Os Pássaros". Apesar da sua imensa beleza, sua falta de carisma é notória. Mas neste filme em particular a sua falta de carisma não era um problema, pois a atenção estaria nos pássaros, que foram os personagens principais.



Com efeitos especiais inéditos e caríssimos (como o uso de pássaros mecânicos, pássaros treinados e arte gráfica) e a total ausência de trilha sonora (a supervisão dos efeitos sonoros ficaria a cargo de Bernard Herrmann, realizando um trabalho magnífico), o filme é perfeito e o terror domina cada quadro do filme. A violência (desejada pelos novos admiradores do diretor) estava presente: o ataque do pássaro na cabeça de Melaine; o fazendeiro com os olhos vazados, descoberto por Lydia; o ataque dos pássaros na festa de aniversário de Cathy; o fulminante ataque dos pássaros na cidade e, depois, na casa dos protagonistas e, mais tarde ainda, contra Melaine; e o final desolador, com os personagens abandonando a casa cercados por pássaros, sem o habitual "The End", ressaltando que o suspense não acabou com o filme - com certeza, um dos finais mais espetaculares realizados numa obra artística do século XX.
Mas nem tudo foi glória. Os problemas com o filme começaram já nas filmagens, pois Hitch sentia-se inseguro em relação ao roteiro. De acordo com suas próprias palavras: "Eu sempre me gabo de nunca olhar o roteiro enquanto rodo um filme. (...) Mas fiquei muito agitado, o que é raro, pois habitualmente brinco muito durante a filmagem. À noite, quando voltava para casa e reencontrava minha mulher, ainda estava alterado, emocionado. Algo muito novo para mim aconteceu: eu me pus a estudar o script durante a filmagem e encontrei fraquezas nele. Essa crise que atravessei despertou em mim alguma coisa nova do ponto de vista da criação. Entreguei-me a improvisações. Por exemplo, toda a cena do ataque externo sobre a casa, do cerco da casa pelos pássaros que não são vistos foi improvisada no estúdio" (1)

(Pausa. Uma improvisação de ouro, pois é uma das cenas mais eletrizantes da história do cinema. Foi assistindo esta cena que George Romero criaria os terrores de um grupo de pessoas presas numa casa atacada por zumbis em "A Noite dos Mortos-Vivos" ("The Night of Living Dead", 1968). Uma improvisação maravilhosa, sem dúvidas. Fim da Pausa)


O roteirista do filme, Evan Hunter, argumenta que o diretor ouviu idéias de outras pessoas e procurou uma profundidade psicológica maior neste filme, resultando daí as "fraquezas" do roteiro. Em outras palavras, Hitchcock queria mostrar que o cinema puro poderia conviver com profundidade psicológica. O roteirista pode não estar muito errado em sua argumentação, pois podemos notar, em alguns momentos, um excesso de conversas "profundas" e relativamente desnecessárias. Mas o tempo foi justo: a ligação psicológica dos personagens aos ataques dos pássaros é perfeita, mesmo que não tenha uma explicação maior para tal. O maior resumo disto está na morte da personagem Annie Hayworth, vivida pela atriz Suzanne Pheshete: na verdade, ela já estava morta em vida.
Lançado em 1963, o filme teve acolhida fria entre os críticos e não foi o sucesso esperado. O filme estava muito à frente do seu tempo (cuja temática faria sucesso na década seguinte, como a linha de filmes "catástrofe" e de "Tubarão" de Steven Spielberg) e não foi devidamente valorizado no momento do seu lançamento.
A maior razão para seu relativo fracasso foi a tentativa do diretor em juntar seus dois públicos, sem sucesso: para o antigo público, o filme não tinha muita sutileza (apesar do magnífico jogo psicológico envolvendo os personagens e o comportamento dos pássaros); para o novo público, não era violento o bastante. Este relativo fracasso foi compensado por uma série de críticas favoráveis ao diretor vindas da Europa, em particular da França. O próximo filme do diretor seria decisivo para os destinos da sua vida.

"Marnie" e a Crise Artística

Mais uma vez baseado na obra de Daphne du Maurier, "Marnie, Confissões de uma Ladra" ("Marnie", 1964) era para ser o filme que calaria os críticos: um suspense psicológico profundo, onde a protagonista procurava compensar sua frigidez sexual cometendo furtos e roubos. O papel da cleptomaníaca Marnie foi pensando, inicialmente, para Grace Kelly, que o tinha aceitado inclusive, mas problemas políticos em Mônaco a impediram - Charles DeGaule, o presidente francês, fez um pronunciamento acusando Mônaco de ser um "paraíso fiscal", imagem esta que poderia ser piorada caso sua rainha fizesse o papel de uma ladra. Sem poder dispor da sua loira preferida, Hitchcock utilizou-se, então, de Tippi Hedren outra vez, tendo como parceiro o 007 Sean Connery, vivendo o milionário Mark Rutland.
A escolha da protagonista não poderia ser mais infeliz. Como vimos, a falta de carisma de Hedren foi compensada no filme anterior pelos terríveis pássaros.
Mas, em "Marnie", ela era a estrela principal e sua falta de carisma seria decisivo para o enfraquecimento do filme. Mas o pior aconteceu durante as filmagens: o estilo dominador do diretor acentuou-se sobre a atriz, tornando-se quase uma obsessão. O domínio que Hitch tentou exercer foi repelido pela atriz, chegando ela, inclusive, a criticar-lhe um dos seus pontos fracos: sua gordura. A última parte das filmagens foram tensas, com os dois não se falando.
Hitchcock também não gostou de Connery, pois queria alguém mais sutil e menos sexual para o papel. Mas neste ponto o diretor talvez tenha exagerado na crítica: a representação de Connery é mais do que perfeita, talvez o melhor desempenho da sua carreira, mostrando que ele tinha muito mais a oferecer ao mundo do cinema do que apenas representar James Bond.
Os atritos entre Hitch e Hedren e a insatisfação do diretor com Connery não impediram o término do filme e nem a sua beleza. Mas a já citada falta de carisma da protagonista e o andamento lento da história prejudicaram o filme de maneira decisiva, que fracassaria nas bilheterias.

Os Fracassados "Cortina Rasgada" e "Topázio"

Hitchcock começava a se sentir superado. A linguagem do suspense e do seu domínio sobre o público que ele tanto desenvolvera nos anos 50 e ganhara forma absoluta em "Psicose", escorriam-lhe entre os dedos. Em crise, Hitch fez o seu chamado "run for cover", algo como "voltar para trás, para o seguro", tentando repetir uma fórmula de sucesso. "Cortina Rasgada" ("Torn Curtain", 1966), era um filme de espionagem com dois grandes astros da época, Paul Newman e Julie Andrews. Newman interpreta um cientista que finge trair os Estados Unidos, indo até Berlim Oriental para conseguir uma fórmula científica, e sua secretária e amante, Andrews, sem saber dos seus reais objetivos, vai atrás dele.
Apesar de belas cenas (duas em particular: um assassinato com quase 10 minutos de duração, mostrando que matar não é tão simples assim; e a fuga do casal da Alemanha Oriental dentro um ônibus falso criado por opositores políticos locais, que é eletrizante), o filme ficou muito aquém do que se esperava.
Infelizmente, para o diretor, a "química" entre os dois protagonistas não funcionou na tela, esvaziando o filme, além do custo dos dois ter sido bastante elevado, encarecendo a produção. Hitchcock, que já tinha enfrentado problemas com Montgomery Clift com o "método" de Stanislavski, brigou ainda mais com Newman, deixando as filmagens tensas.
Hitch sentia-se perdido. Para aumentar seus problemas, ele estava perdendo colaboradores antigos: George Tomasini e Robert Burks morreram depois deste filme; Bernard Herrmann, com quem o diretor se desentendeu por causa da trilha de "Cortina Rasgada". Hitchcock tentaria, ainda, uma cartada em 1967, com o projeto "Frenesi Caledoscópio" (nada tem a haver com o futuro "Frenesi") que seria sua tentativa de surpreender (e reconquistar) seu público. O filme contaria com um assassinato brutal logo nos seus primeiros minutos, tentando estimular o público que o venera desde "Psicose". A cena era tão chocante que os diretores da Universal Pictures disseram-lhe não, algo que não acontecia na vida do diretor desde os tempos de David Selznick. Eles queriam preservar o diretor que, com este filme, poderia destruir tudo o que tinha construído na sua carreira. Exagero deles, talvez: a violência dominaria o cinema nos anos vindouros.
Mas a decisão foi mantida, para desgosto de Hitchcock. Mesmo assim, os diretores da Universal continuariam incentivando o diretor: foi feito um trato silencioso que, enquanto Hitch quisesse continuar trabalhando, eles o apoiariam. E o apoiaram no seu próximo filme, "Topázio".
"Topázio" ("Topaz", 1969) foi o pior filme norte-americano do diretor. Lento e com raros momentos de suspense, a história de um grupo soviético infiltrado dentro de espionagem francesa foi pouco convincente, mesmo quando mostradas as passagens referentes a Cuba. Na pré-estréia aconteceu um fato insólito: uma cena onde dois personagens (o protagonista e o traidor) duelam por questões de honra produziu risos no público jovem. A moral de pós-1968 "esmaga" Hitchcock: o mundo está volátil demais para lutas por questões de honra. A cena seria retirada. Mesmo assim, o filme seria um desastre de bilheteria.

A Consagração Intelectual do Mestre do Suspense

Os anos 60 não seriam apenas de decadência para o Mestre do Suspense. Nestes anos ele seria, finalmente, reconhecido como um gênio do cinema. Muitos críticos especializados, em particular os norte-americanos, não valorizavam os filmes do diretor, pois este era considerado muito comercial, imagem realçada pela sua apresentação dos seus programas de televisão. Mas esta visão não era, de forma alguma, unânime: a nova geração do cinema francês, reunidos na revista "Cahiers du Cinema", cinéfilos por excelência, sempre admiraram a obra de Hitchcock. Um dos mais ardorosos fãs de Hitch, François Truffaut, realizou uma façanha fantástica, conseguindo uma extensa entrevista com Hitchcock.
Nesta entrevista, comovido com a devoção e admiração de Truffaut, Hitch mostrou a razão de ser o Mestre do Suspense e um gênio imagético, descrevendo em detalhes sua idéia de cinema, a construção de imagens clássicas e as intenções destas para os filmes. Fãs de cinema de todo o mundo começaram a olhar a obra de Hitchcock com mais respeito, inclusive os críticos.

O Último Sopro de Vida: "Frenesi"

Os anos 70 seriam terríveis para Hitchcock. A idade e a saúde debilitada (não apenas dele, mas também de sua esposa Alma) iriam fazê-lo sofrer: ele iria usar um marca-passo e sofria de artrite crônica nos joelhos. O diretor iria receber um Oscar especial (destinado àqueles que nunca o receberam) e pensou se estava superado. "Frenesi" ("Frenzy", 1971) mostraria que não.
A história é simples e eficiente: o psicopata, o ruivo e comerciante de alimentos Rusk (Barry Foster), joga a culpa no seu amigo Blaney (Jon Finch) ao matar sua ex-esposa, numa das cenas mais violentas da obra de Hitchcock, e sua atual namorada. O inspetor Oxford encarregado do caso (Alec McCowen), comovido com os apelos de inocência feitos por Blaney, vai investigar mais a fundo e descobre a culpa de Rusk. A seqüência final é sensacional: Blaney escapa da prisão e vai se vingar de Rusk, indo até seu apartamento e o golpeando na cama com uma barra de ferro, mas, para surpresa de Blaney, não era Rusk quem estava na cama, mas sim outra vítima.
O inspetor chega e vê Blaney com a barra de ferro na mão. Pouco depois, Rusk chega em casa com uma caixa grande (para colocar o corpo da mulher) e sua culpa, então, pode ser provada.
"Frenesi" pode ser dito como um grande resumo da obra de Hitchcock: encontramos um assassinato brutal (como em "Psicose"); a transferência de culpa (como "Intriga Internacional"); muito bom humor (nos momentos em que a esposa do inspetor o tortura com seus pratos exóticos) e suspense (chegamos a torcer por Rusk quando ele tenta recuperar seu pingente em forma de R preso na mão de uma de suas vítimas, cujo corpo fora colocado num caminhão carregado de batatas); um travelling sensacional (quando o assassino Rusk leva outra vítima sua, a namorada de Blaney, até seu quarto e, ao fechar a porta, a câmera desloca-se lentamente pela escada até as ruas do mercado); e sua fixação por mulheres (não por loiras, curiosamente, mas por mulheres comuns ou, como alguns críticos se referiam, feias).

A Morte do Gênio

Infelizmente "Frenesi" não foi seu último filme. "Trama Macabra" ("Family Plot", 1975), embora agradável, está longe de ser uma obra-prima. Hitchcock ainda tentaria realizar outro filme, "The Short Night", em 1978, mas seu estado de saúde não permitiu. Em maio de 1979 a produção de The Short Night" foi interrompida e Hitchcock, pouco tempo depois, fechou seu escritório na Universal Pictures. Em 1980, Sir Alfred Hitchcock morreu. Dois anos depois, Alma, sua fiel escudeira e esposa, iria seguí-lo.
Poucos artistas foram tão importantes para sua arte como Alfred Hitchcock foi para o cinema. Ele valorizou a linguagem da imagem, do som, da forma, ou seja, do próprio cinema.
Amor, morte, culpa, humor, terror e, logicamente, suspense foram o "cardápio" que o Mestre servia de maneira genial, mesmo nos piores momentos da sua obra e da sua vida. Muitos tentaram copiá-lo (como, por exemplo, Brian de Palma), mas poucos conseguiram chegar perto da sua sutileza e genialidade. O mundo mudou e, logicamente, sua obra sofreu com as mudanças, em particular nos últimos 20 anos da sua vida. Mas, fazendo uma espécie de resumo, a "ferrugem do tempo" não conseguiu destruir uma das obras mais geniais da cultura do século XX.

(1) - Truffaut, François. "Hitchcock/Truffaut - Entrevistas". São Paulo, Brasiliense, 1986, p. 171.

NOTA: Esse artigo foi publicado originalmente no fanzine JUVENATRIX.

Texto: Orivaldo Leme Biagi


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