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Em 1992, na era paleolítica dos computadores, a produtora francesa Infrogrames realizou o primeiro jogo da franquia " Alone in the Dark", misturando o gênero "RPG" com ação, mistério e muitas doses de terror. Uma revolução para os gráficos da época - o Windows 3.1 era o sistema operacional mais moderno -, o jogo conseguia ser realmente assustador sendo bem difícil qualquer tentativa de experimentá-lo "sozinho no escuro". Bastante imitado ( Resident Evil, da Capcom, é um filho bastardo), o game fez tanto sucesso que logo se tornou uma franquia lucrativa com três seqüências igualmente interessantes - e com mais qualidade nos gráficos e nos quebra-cabeças - para a alegria dos fãs do gênero.
Em 22 de junho de 1965, nasceu na Alemanha Uwe Boll, um fã de jogos de computador e aspirante a cineasta, que iria se tornar um dos mais polêmicos diretores da atualidade. |
"Se Ed Wood fosse influenciado pela MTV, Plane Nine From Outer Space poderia ser Alone in the Dark"
Depois de fazer sucesso em sua terra - curiosamente seu primeiro trabalho como diretor foi realizado em 1991, um ano antes de "
Alone in the Dark" invadir os computadores -, Boll veio para a América com a promessa de se tornar um dos maiores especialistas em adaptação para o cinema de jogos de computador. Quando "
House of the Dead" estava em pleno desenvolvimento, a possibilidade de sucesso era tão grande - seria o renascimento do gênero mortos-vivos - que o diretor já estava assinando diversos contratos para a realização de outras adaptações e continuações - "
House of the Dead 2", "
Alone in the Dark", "
BloodRayne",
"Far Cry" -, fortalecido pela longa demora na estréia de seu primeiro trabalho nos Estados Unidos.
No dia 10 de outubro de 2003, com um orçamento estimado em doze milhões, chegou aos cinemas americanos "
House of the Dead", uma das maiores bombas já produzidas na história do cinema. O longa faturou dez milhões nas bilheterias americanas e saiu de cartaz em um
"bullet time" de segundos, mas a desgraça já estava completa: Uwe Boll já estava trabalhando em outros projetos com orçamento ainda maiores e contando com um elenco cheio de nomes conhecidos. Só para provar a perspicácia do diretor: as filmagens de "
Alone in the Dark" começaram em 14 de julho de 2003 e terminaram no dia 2 de agosto do mesmo ano, meses antes da estréia de "
House of the Dead" na América, quando o nome Boll ainda era símbolo de boa adaptação de games.


A expectativa de ver um interessante "
Alone in the Dark" nos cinemas consistia apenas na possibilidade do diretor ter aprendido com os erros do trabalho anterior apesar dele nunca ter admitido qualquer falha e da crítica especializada não ter tido tempo de bombardear o longa antes dele iniciar a direção de seu segundo filme americano. Além disso, ao anunciar o nome de Christian Slater para o papel principal e o roteiro baseado no quarto jogo da franquia,
"Alone in the Dark: The New Nightmare", Uwe Boll trazia uma boa esperança aos jovens fãs do famoso game. Ainda mais sabendo que o jogo foi inspirado na literatura macabra de
H.P.Lovecraft e não tinha só zumbis, mas demônios, amuletos, uma mansão sinistra e interessantes enigmas. Se a história do game já seria suficiente para desenvolver uma trama assustadora num clima extremamente sombrio, bastava apenas mudar a linguagem utilizada no jogo e acrescentar os diálogos para nascer uma das melhores adaptações cinematográficas dos últimos tempos, superando inclusive o elogiado "
Resident Evil - O Hóspede Maldito".
"Os três astros tem tido melhores dias, mas eu gosto de imaginar que eles poderiam ainda fazer algo mais digno que isso. Como um filme pornô gay"
Infelizmente não foi o que aconteceu. Uwe Boll conseguiu destruir toda a essência do jogo ao transformar o filme numa produção sem graça em que equipes especiais enfrentam monstros com direito a muito tiro, música eletrônica e lutas de kung fu. Há tanta bobagem em "
Alone in the Dark" que é quase impossível citar apenas algumas e não fazer justiça a ruindade total da produção. Vejamos...
O erro já começa no primeiro segundo de filme, quando o diretor, ao imitar a introdução de "
Star Wars", coloca um letreiro enorme, que já faz com que você solte uma risadinha leve diante de tanta informação. Observe o exagero:

"Em 1967, mineiros descobriram os primeiros vestígios de uma antiga civilização indígena há muito tempo perdida: os Abkanis. Os Abkanis acreditavam que há dois mundos neste planeta: o mundo da luz e o mundo das trevas. Há dez mil anos, os Abkanis abriram um portal entre esses mundos. Antes que pudessem fechá-lo, algo maligno entrou...Os Abkanis desapareceram misteriosamente da Terra. Somente restaram alguns artefatos escondidos nos lugares mais remotos do mundo. Estes artefatos mencionam criaturas aterrorizantes que vicejam na escuridão esperando pelo dia em que o portal será novamente aberto.
Agência 713, a Agência Nacional de Pesquisas Paranormais, foi criada para desvendar os segredos sombrios desta civilização perdida. Sob o comando do arquéologo Lionel Hudges, a agência 713 começou a recolher os artefatos Abkanis. Quando o governo encerrou suas controversas pesquisas, Hudges construiu um laboratório escondido dentro de uma mina de ouro secreta. E lá ele fez experiências cruéis com crianças órfãs da tentativa de fundir o homem com as criaturas...
As vítimas de Hudges sobreviveram como dormentes, almas perdidas esperando a hora do chamado..."
O pior de tudo não é o excesso de informação da introdução e sim o fato delas serem repetidas no decorrer do filme, através de contato com outros personagens - até mesmo um segurança do museu conhecia a história dos Abkanis - e também com a ajuda do pensamento do herói, um recurso que só tem fundamento quando acrescenta informações e não simplesmente mostra o que o público já sabe. Assim, Boll consegue ofender o público com falas totalmente falsas, servindo apenas para trazer mais conteúdo cultural ao seu filme:
"Os Abkanis foram os primeiros a valorizar o ouro. Eles acreditavam que poderiam se proteger de forças malignas...", frases ditas por Hudges para um de seus ajudantes.
Para quem não conhece o jogo, Edward Carnby (Slater) é um detetive que investiga fenômenos paranormais. Sem medo do desconhecido, na solução dos mistérios, ele enfrenta diversas forças sobrenaturais como fantasmas, zumbis e monstros, sem usar muitas armas ou possuir super poderes.
"Há chances de você também se encontrar sozinho numa sala de cinema"
No filme, o personagem tenta ser um Indiana Jones que domina as artes marciais, sempre bem armado e com o único objetivo de realizar de pesquisas sobre a extinta tribo dos Abkanis. Por incrível que pareça o filme dá a impressão de que Carnby nunca fez outra coisa na vida a não ser pesquisar sobre essa misteriosa tribo. Quando era apenas um funcionário da Agência 713 (uma espécie de FBI que investiga o desconhecido), ele não conseguia ser feliz pois cada descoberta que ele realizava era passada para uma equipe especializada. Assim, Carnby abandonou seu posto e passou a trabalhar sozinho, desenvolvendo suas buscas arqueológicas com a ajuda de alguns amigos que trabalham na agência ou que fazem parte de seu passado.
Na primeira cena do filme acompanhamos a fuga de um garoto - o jovem Carnby - pela mata, enquanto é perseguido por vários soldados. Então, logo ficamos sabendo que há 22 anos o Dr.Hudges começou a realizar experiências científicas com 20 crianças de um orfanato, tentando fundir o metabolismo delas com o das criaturas que se escondem na escuridão. Exatamente como já foi mostrado no letreiro inicial, tendo como única novidade a natureza meio monstro (!!!) do herói...


No presente, em mais uma de suas buscas, Carnby encontra um novo artefato Abkani (o enredo apenas informa que ele passou seis meses na Amazônia e encontrou a peça em um mercado negro, sendo vendido por ex-militares chilenos), que pode ser muito importante para as pesquisas do, ainda vivo, Dr.Hudges. No entanto, antes que possa explorar a boa nova, tem seu táxi perseguido por um dos "capangas" do cientista maluco. Nesse ponto, temos uma das cenas de perseguição mais sonolentas da história do cinema: com um fundo eletrônico, os carros batem, derrapam, viram esquinas a todo momento, mas, tudo de forma bem mal filmada, tendo ainda o auxílio da péssima interpretação de Christian Slater, com sua cara de espanto diante de cada curva. O site IMDB ainda informa que nessa cena podemos ver a equipe de filmagem nos reflexos do táxi, porém fiquei com falta de vontade de revê-la e simplesmente acreditei que tal deslize existia.
E a cena de luta com o capanga, então? Excessivamente lenta, mal coreografada, com muito uso do efeito "bullet time", numa chatice sem tamanho. Esse mesmo recurso será utilizada em vários outros momentos, especialmente num episódio que ocorrerá mais adiante no museu com muitos tiros e câmeras giratória. È impressionante como os tiros de metralhadora para todos os lados praticamente não atingem ninguém. Se fosse no Rio...
"Nunca acredite num filme que inicia com um texto tão longo quanto os trabalhos de Tom Clancy"
Logo, conheceremos Aline Cedrac (interpretado pela sempre bela Tara Reid, que já fez muito filme ruim: "
Lenda Urbana", por exemplo), que será apresentada apenas como curadora e assistente do museu Abkani (no jogo, ela é uma etnologista e bióloga). No filme, fica evidente que Aline e Carnby já tiveram um relacionamento íntimo no passado, enquanto no jogo eles se conhecem no avião a caminho da
"Ilha das Sombras". Aliás, você me viu mencionar alguma vez essa ilha? Ah..e por falar em intimidade, aguardem o momento novela, quando tocar a clássica música
"Seven Seconds", de Youssou Ndour e Neneh Cherry. E Boll nem nos brindou com uma cena de nudez...
No jogo, Aline resolve procurar ajuda do professor Obed Morton para ajudá-lo a traduzir algumas tábuas indígenas. Assim, temos a maior parte da ação acontecendo no interior da mansão Morton. Já no filme, não temos o tal professor, nem muito menos mansão - um dos pontos altos do game "
Alone in the Dark". Se em "
House of the Dead" (Casa da Morte), o filme se passa inteiramente numa ilha com pouca citação à casa do título, em "
Alone in the Dark", em nenhum momento vemos o protagonista "sozinho no escuro". Será que o diretor nem sequer se esforçou para entender o nome do filme no qual estava trabalhando?


Além de Slater e Reid, outro que tem seu nome vergonhosamente associado a esse projeto é Stephen Dorff (do medonho
Medopontocom), que faz o papel de Richards, comandante que trabalha na Agência 713. O personagem é tão mal construído que fica difícil definir seu papel no filme. Há momentos em que ele parece sentir raiva de Carnby; há outros que ele nutre uma admiração e respeito pelo trabalho do ex-agente. Seria ele um vilão ou apenas alguém que sente inveja do herói? E o momento "clichê" reservado para esse personagem no final, numa tentativa de redenção inverossímil, só confirma o quanto a carreira de Dorff continua em queda livre.
Uwe Boll também aproveitou para deixar de lado os mortos-vivos, personagens típicos dos jogos de horror, e utilizou o que ele chama de "dormentes". São pessoas que na juventude estiveram presentes no orfanato e que foram vítimas das experiências do Dr.Hudges. O cientista colocou uma espécie de larva na coluna vertebral das crianças para que elas pudessem servir a seu propósito no futuro - sem a menor explicação científica para essa atitude. Enquanto não são "convocadas", as vítimas agem normalmente - constituem família, trabalham - num estado real de dormência, mas na "hora do chamado", elas largam tudo o que estão fazendo e passam a trabalhar como soldados a serviço do cientista. Os dormentes possuem muita força e são quase imortais (sabe-se lá porquê), sendo que alguns aparentam palidez extrema num aspecto que lembra a morte. Carnby também devia agir a esse modo, mas devido a um acidente na infância, conseguiu se libertar desse martírio.
"Este é definitivamente um filme para pessoas que 1) amam o videogame; 2) acreditam que Slater e Dorff são assistíveis, sem se importar na ruindade do filme em que estão; 3) estejam usando protetores de ouvido".
Com muito mais recurso do que quando filmou "
House of the Dead", Boll fez questão de acrescentar monstros feitos puramente em CGI nessa produção. Ele até disse em entrevista o quanto acha muito melhor os efeitos gerados por computador do que o uso de criaturas animatronicas - uma idéia que vai de encontro com o que qualquer fã do gênero pensa a respeito. Os tais monstros parecem dragões ou até mesmo alienígenas, com uma enorme cauda e garras, e possuem a habilidade de se camuflar facilmente no ambiente a qual se encontra. Para torná-las mais reais, as criaturas sempre aparecem à noite e se movimentam rapidamente, dificultando a visualização e servindo para "enganar" o espectador. Para os fãs de nojeiras, elas são responsáveis pelas cenas de gore do filme (cabeças cortadas ao meio, partes do corpo expostas), em muito mais intensidade do que foram vistas no trabalho anterior do diretor. Sem que isso seja motivo para tornar o filme melhor...
"
Alone in the Dark" é um filme muito ruim mesmo. Acreditem. Mas ainda assim consegue ser um pouquinho melhor do que o abominável "
House of the Dead". Você fica com sono e até ri das bobagens do diretor - como num episódio no final do filme em que uma personagem morta se levanta achando que a cena acabou, constituindo um dos furos mais bizarros do longa -, porém você consegue, se tomar muito guaraná, assisti-lo por completo - para poder falar mal depois. E ainda pode se divertir com as críticas internacionais sobre esse filme. Alguns trechos estão ilustrando este artigo.
Se você é fã do jogo, de filmes de terror, possui um parentesco com o diretor, ou simplesmente é meu pior inimigo, ainda assim não recomendo "
Alone in the Dark". Instale mais uma vez o primeiro jogo em seu computador e sinta muito mais emoção com as aventuras sobrenaturais do investigador Edward Carnby em cenários quadriculados...
Vale muito mais a pena...
Marcelo Milici
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ALONE IN THE DARK - O DESPERTAR DO MAL(Alone in the Dark, Canadá/EUA/Alemanha, 2005). 96 minutos
Direção: Uwe Boll
Roteiro: Elan Mastai; Michael Roesch; Peter Scheerer
Produção: Shawn Williamson
Produção Executiva: Wolfgang Herold
Fotografia: Mathias Neumann
Música: Reinhard Besser; Oliver Lieb; Bernd Wendlandt; Peter Zweier
Edição: Richard Schwadel
Desenho de Produção: Tink
Direção de Arte: Peter Stratford
Elenco: Christian Slater (Edward Carnby); Tara Reid (Aline Cedrac); Stephen Dorff (Comandante Richards); Frank C. Turner (Fisher); Mathew Walker (Prof. Lionel Hudgens); Will Sanderson (Agente Miles); Mark Acheson (Capt. Chernick); Darren Shahlavi (John); Karin Konoval (Irmã Clara); Craig Bruhnanski; Kwesi Ameyaw; Dustyn Arthurs (jovem Edward); Catherine Lough Haggquist; Ed Anders; Brad Turner
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