ALTERED

por Marcelo Milici

Dirigido com competência pelos amigos Eduardo Sanchez e Daniel Myrick, o amado/odiado “A Bruxa de Blair” (1999) chamou a atenção do mundo e dos diretores de Hollywood para a possibilidade de assustar e cativar o público sem precisar gastar muito, trabalhando unicamente com a criatividade. Com câmeras emprestadas e alugadas, comandadas pelos próprios atores até então desconhecidos – que, curiosamente, usaram seus nomes verdadeiros -, eles contaram como três estudantes desapareceram nas proximidades de Burkittsville, Maryland, seguindo as pistas de uma lenda local.



Com um orçamento pífio, o filme fez sucesso através de sua eficaz campanha de marketing, que incluía sites na internet e documentários na TV, referentes ao projeto de cinema dos estudantes e seu fim trágico e misterioso registrado em vídeo. A idéia do vídeo amador já havia sido trabalhada antes, há 20 anos, no genial “Cannibal Holocaust”, com suas imagens chocantes de violência e morte que impressionam até hoje. O diferencial de “A Bruxa de Blair” era a sua total realização com câmeras caseiras, os sustos verdadeiros dos atores na mata escura e a ausência da trilha sonora, fatores que intensificaram sua natureza real.

O sucesso trouxe a inevitável pergunta: será que, diferentemente dos personagens, os diretores conseguirão sobreviver ao fenômeno “A Bruxa de Blair”? Um ano após o lançamento, antes que os americanos esquecessem a lenda, foi realizada uma continuação, “A Bruxa de Blair 2: O Livro das Sombras”, que apresentou, com criatividade, a idéia de que a fita não era real e que o local onde tinham realizado as filmagens agora era um espaço de exploração comercial e passeios turístico. Por sorte, Sanchez e Myrick apenas roteirizaram a seqüência, que foi um verdadeiro fracasso nas bilheterias, diminuindo bastante a popularidade dos novos diretores.



Com apenas a promessa do lançamento de um terceiro filme sobre a Bruxa, cada diretor foi para um lado realizar seus projetos pessoais. Daniel Myrick dirigiu um drama em 2006, ,B>“The Strand”, e agora está de volta ao gênero terror com dois filmes ainda inéditos, “Believers” e “Solstice”. Já o cubano Eduardo Sanchez teve que esperar seis anos para lançar seu filme solo, a produção de horror e ficção científica, “Altered”, com história própria em parceria do novato Jamie Nash.

A espera valeu a pena. “Altered” é um filme bem divertido que explora o velho tema da invasão alienígena com absoluta competência e, mais uma vez, criatividade. Sanchez deixa evidente seu talento em criar histórias interessantes e diferentes, fazendo o caminho inverso do que fariam nove em dez diretores da atualidade.



Quando o filme tem início, logo após o título, já estamos numa seqüência intensa de ação no interior de uma floresta - sem a total escuridão do original “A Bruxa de Blair”. Três amigos acabam de chegar à Fazenda do Nixon e já estão caçando uma misteriosa e ágil criatura. Temos o medroso Otis (Michael C. Williams) - que carrega correntes e cordas -, o esquisito Cody (Paul McCarthy-Boyington) - com sua estranha arma que mistura uma espingarda, um arpão e a lanterna -, além do simpático Duke (Brad William Henke) – com uma velha espingarda e lanterna. O local está repleto de armadilhas de caça, que eles mesmos haviam espalhados, o que torna a missão dos rapazes ainda mais perigosa.

Apesar de cometer alguns erros - quando Duke prende o pé numa armadilha de urso ou quando Cody quase acerta uma flecha em Otis -, o grupo consegue capturar o que procuravam há quinze anos. No caminho, dentro de uma van, amarram a criatura com correntes e tapam a sua cabeça com um capacete de proteção. “Não olhe nos olhos dessa coisa. Ela é muito perigosa.”, avisa Duke.

Perto dali, um quarto amigo acaba de pressentir a chegada dos companheiros. Wyatt (Adam Kaufman) acorda de um pesadelo e prepara suas armas, mesmo contra a vontade de sua namorada Hope (Catherine Mangan). “Querido, volte para a cama. Não há nada lá fora. Nunca houve.”



Assim que os amigos entram na garagem de Wyatt, carregando o corpo, envolto num lençol, tem início uma batalha psicológica. Alguns querem ver o alienígena morto, principalmente Cody, cujo irmão morreu no primeiro encontro com os seres, há 15 anos, enquanto outros, liderados pelo próprio Wyatt, acreditam que se matarem “a coisa” ou simplesmente a mantiverem presa outras virão para se vingar.

Altered” se passará inteiramente nessa única noite, praticamente no mesmo ambiente, com a criatura encontrando meios de “possuir” e matar os rapazes, enquanto tenta fugir pela casa. Na primeira metade, pelos diálogos dos rapazes, vamos descobrindo aos poucos o que aconteceu no passado, como a criatura mata e até mesmo contamina suas presas. Saberemos que o episódio do passado mudou a vida dos rapazes, destruindo a popularidade de alguns, e “alterando” o metabolismo de outros.



È exatamente essa fórmula utilizada por Sanchez que torna o filme interessante. Nas mãos de qualquer diretor – principalmente se a história se basear em texto de Stephen King -, seria necessário um flashback mostrando o que aconteceu no passado e o primeiro contato com os seres. Sem forçar diálogos, Sanchez apresenta toda a situação para o espectador sem utilizar recurso narrativo algum, deixando a imaginação do público agir sozinha.

Reduzindo o espaço físico a uma casa e uma garagem, ele ainda assim consegue realizar cenas de ação e violência bem gráficas, para nenhum fã de horror botar defeito. Uma em especial me fez lembrar de “Cães de Caça”, quando vemos o intestino de um dos rapazes ser arrancado lentamente, enquanto o mesmo pede para os amigos darem um jeito na criatura. Temos também um pé triturado, uma garganta rasgada e, no melhor estilo “A Mosca”, um apodrecimento lento e dolorido. Tudo isso utilizando bons e convincentes efeitos especiais – com exceção das lingüiças, claro.



Tudo não funcionaria bem se o elenco fosse pessimamente escalado. Nas mãos de diretores comerciais, teríamos um casting formado por atores "da moda", oriundos de séries de televisão, assumindo o papel de adolescentes que só se interessam por sexo e drogas. Eduardo Sanchez foi feliz ao selecionar uma equipe composta por nomes praticamente desconhecidos da grande massa. Adam Kaufman, no papel de Wyatt, já fez vários trabalhos pequenos em televisão, mas destaca-se como o rapaz que precisa amordaçar e prender na cama a namorada no melhor estilo "O Exorcista", enquanto esconde seus maiores segredos. Como Duke, Brad William Henke traz a segurança e, ao mesmo tempo, tranquilidade necessárias para acalmar os ânimos dos exaltados. O ator é bastante experiente em filmes e séries, mas aqui ganha um destaque merecido.

O atrapalhado Otis, interpretado por Michael C. Williams, contraria a postura do amigo Duke, demonstrando medo e incerteza quando precisa agir. Conhecido de Sanchez, o ator foi o responsável pela sonoplastia de A Bruxa de Blair e, aqui, conquista um papel divertido no longa, sem medo de expor seus órgãos internos ao público. Já Paul McCarthy-Boyington assume o papel do indisciplinado Cody, enquanto perde lentamente a forma humana. Numa das cenas mais dramáticas do longa, é dele a frase: "Ele foi fraco. Não conseguiu resistir muito." Logo depois pede para Wyatt agir sem medo em seu mórbido ato.



No papel da única garota do filme, Catherine Mangan faz de Hope a namorada que todo homem gostaria de ter: excessivamente compreensiva. Mesmo sendo tratada como uma inimiga, ainda assim continua apoiando as ações transloucadas de Wyatt, mesmo tendo que aceitar a possibilidade de um ser de outro Planeta estar escondido na garagem de sua casa. A atriz é a menos conhecida de todo elenco, com poucos trabalhos em sua carreira.



Do lado oposto está o veterano ator, James Gammon, que aqui atua como o Xerife Henderson. Ele entra na trama depois que Hope consegue dar um telefonema para a polícia. Incrédulo, ele faz uma pequena ponta, apenas para atrapalhar a digestão de Duke e atirar na porta que Wyatt quer abrir. "Seu radiador está vazando?", ele questiona ao perceber uma estranha gosma espalhada pelo chão.

A equipe de efeitos especiais, que já trabalhou em diversos blockbusters, também trabalha bem em “Altered”. O alienígena aparece com um rosto que lembra uma piranha (me refiro a um tipo de peixe), com belos movimentos dos músculos da face. Ele foi interpretado pela pequenina dublê Misty Rosas, demonstrando agilidade e saltos assustadores.



Assim, em segundo trabalho, Eduardo Sánchez deixa evidente sua criatividade e competência para contar histórias interessantes - o que me faz pensar se ele não vem de outro planeta. Se o diretor não for comprado pelos grandes estúdios e não aceitar qualquer projeto, possivelmente realizará grandes trabalhos futuramente. A promessa de um "A Bruxa de Blair 3" continua firme e forte. Mas, bem que ela podia ser abduzida por outros trabalhos ou simplesmente alterada para um projeto bem diferente, aproveitando a criatividade de seu dono. Afinal, talento ele tem de sobra.



Marcelo Milici

ALTERED (Altered, EUA, 2006)
Direção: Eduardo Sánchez
Roteiro: Jamie Nash, a partir de história de Eduardo Sánchez
Produção: Robin Cowie; Gregg Hale
Produção Executiva: Bob Eick
Fotografia: Steve Yedlin
Desenho de Produção: Andrew White
Figurino: Emily Harris
Direção de Arte: Christian Gueverra
Música: Tony Cora; Exiquio Talavera
Maquiagem: Deborah Brozovich; Thomas Floutz; Lee Grimes; Yoichi Art Sakamoto
Edição: Michael Cronin
Elenco: Misty Rosas (criatura); Paul McCarthy-Boyington (Cody); Brad William Henke (Duke); Michael C. Williams (Otis); Adam Kaufman (Wyatt); Catherine Mangan (Hope); James Gammon (xerife Henderson); Joe Unger (Mr. Towne)


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