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Em se tratando de cinema, quando se fala sobre "viagens que dão errado", as pessoas lembram de FÉRIAS FRUSTRADAS ou puxando para um lado mais sombrio, O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA, PÂNICO NA FLORESTA e VIAGEM MALDITA são alguns exemplos, entretanto a "pior viagem" não é aquela em que encontramos serial killers ou mutantes sedentos de sangue - que são coisas mais exageradas -, mas, quando estamos em uma terra desconhecida e o fator da ilimitada perversidade humana se revela real e assustadora. |
O autor James Dickey escreveu um livro chamado Deliverance, que narra sua versão do que seria "a pior viagem de todos os tempos", e, um pouco depois, ele mesmo estaria adaptando sua versão para o cinema, com direção de John Boorman e um elenco bastante estrelado e competente. O resultado foi um filme com uma fotografia fascinante, uma trama tensa e cheia de suspense, mostrando o contato do homem e seus hábitos mais primitivos em um momento de angústia.



O roteiro, simples por definição, conta a história de quatro homens de negócio, Ed Gentry (Jon Voight de
ANACONDA e
SOB O DOMÍNIO DO MAL), Lewis Medlock (Burt Reynolds de
GOLPE BAIXO e
END GAME), Bobby Trippe (Ned Beatty de
SUPERMAN e
O EXORCISTA II) e Drew Ballinger (Ronny Cox de
ROBOCOP e
O VINGADOR DO FUTURO), que partem para uma última aventura no rio Cahulawassee, que logo será extinto devido a construção de uma represa. A intenção dos homens é descer o violento rio de canoa e acampar nas encostas, um fim de semana em contato com a natureza antes que o progresso acabe com as corredeiras.



Para que esta aventura seja possível, eles precisam da ajuda de alguns habitantes do lugar para guiar seus carros para Aintry, uma cidadezinha que fica no final do rio, enquanto o quarteto, que estará rio acima, desçará na direção dos veículos.



O dono de um posto de gasolina local, enquanto abastece um dos carros, indica o nome dos irmãos Griner, que podem fazer o serviço. Nesse interim, Drew e um garoto do lugar com problemas mentais (Billy Redden) protagonizam a famosa cena do duelo musical entre o banjo do menino e o violão do homem.



Em seguida os homens chegam à oficina dos irmãos Griner, que aceitam depois de praguejar um pouco e negociarem com o valentão Lewis.



Chegam ao rio e os cidadãos urbanos absorvem um pouco da emoção nas corredeiras. Pescam com um arco trazido por Ed. Anoitece. Eles montam acampamento, tudo indo muito bem, conforme o planejado, até que chega o dia seguinte...
Ed e Bobby tomam a dianteira com sua canoa, param para um breve descanso, e Ed vê dois habitantes, aparentemente, caçando. Algo está errado naqueles mal encarados sujeitos, e uma discussão se inicia.



A tensão é crescente, os caipiras tem uma espingarda e estão dispostos a utilizá-la. O que se segue é difícil de descrever em palavras, mas Bobby é currado e humilhado, sendo forçado a guinchar como um porco, enquanto Ed é mantido com o pescoço amarrado em uma árvore pelo cinto. Em seu rosto a expressão agonizante de quem fatalmente será o próximo a ter sua dignidade exterminada antes de morrer.
Entretanto existe uma esperança, ela está na canoa de Lewis e Drew que chegam. Drew acerta uma flechada certeira no caipira
"que fez" Bobby, matando-o, mas o outro consegue fugir sem a espingarda.
Os quatro discutem sobre o destino do corpo, que se torna o McGuffin do roteiro até o final (McGuffin é um termo utilizado por Hitchcock para designar um elemento que serve de motivação para os atos das personagens, mas não importa tanto para a história ou para o espectador) e escolhem enterrar o homem para que a barragem cuide de esconder o corpo para sempre e assim procedem.



Só que ainda não acabou, pois Drew cai de sua canoa (possivelmente baleado pelo caipira fugitivo) provocando um acidente que o mata e fere Lewis. Mesmo que o grupo consiga sobreviver até o fim ainda há as conseqüências, o braço da lei dos homens. Será que a verdade pode ficar enterrada por tanto tempo?
O elenco de veteranos é muito bom mesmo, até chega a assustar o normalmente canastrão Burt Reynolds fazendo um filme dramático como este com tanta competência, enquanto os demais também demonstram veracidade na forma de atuar.
O diretor parece jogar na cara do espectador a todo o tempo a pergunta
"E se fosse com você?". E não é para menos, pois tirando uma ou duas cenas que exageram um pouco o conceito do primitivismo, os eventos do filme poderiam ter acontecido com qualquer um, pois isoladas e acuadas as pessoas certamente chegariam ao nível de selvageria dos protagonistas. John Boorman também tem méritos em desenvolver bastante seus personagens principais, levando um bom tempo antes de lançá-los dentro do coração das corredeiras e no seu inferno pessoal. As passagens no terceiro ato do filme me lembraram muito o mestre Hitchcock no desespero dos sobreviventes para que o corpo do homem assassinado não apareça nas buscas pela polícia.



Claro que não seria suficiente se James Dickey não tivesse escrito um roteiro sólido e conciso. Também merece elogio a fotografia de Vilmos Zsigmond, em Chattooga River, local das filmagens, que destaca a natureza ao mesmo tempo imponente e bela.
O reconhecimento veio através de três indicações ao Oscar de 1973 de melhor edição (para Tom Priestley), diretor e filme. Enfim,
AMARGO PESADELO é um potente soco no estômago, que conseguiu explorar a fina fronteira que nos separa dos animais. Então, se tiver a oportunidade, assista-o.
CURIOSIDADES
- O filho do diretor John Boorman, Charley Boorman faz uma pequena ponta no final do filme como o pequeno garoto do personagem Ed;
- Para reduzir os custos de produção e dar maior realidade ao filme, os atores foram seus próprios dublês, por exemplo, Jon Voight realmente subiu aquela encosta;
- Com o mesmo intuito os habitantes de locais próximos foram escalados nos papéis do pessoal que mora nas colinas;



- O autor James Dickey aparece em uma ponta no final do filme como o Xerife;
- Burt Reynolds quebrou seu cóccix enquanto filmava as cenas nas corredeiras. Originalmente um boneco vestido foi usado, mas ficou muito parecido
"com um boneco indo em uma queda d'água". Depois que Reynolds se feriu e em recuperação, ele perguntou,
"Como ficou?", no que o diretor respondeu,
"como um boneco indo em uma queda d'água";
- John Boorman queria que Lee Marvin e Marlon Brando interpretassem Ed e Lewis respectivamente. Depois de ler o roteiro, Marvin afirmou que ele e Brando estavam muito velhos para este tipo de papel e sugeriu que Boorman utilizasse atores mais jovens. Boorman aceitou e foram contratados Jon Voight e Burt Reynolds;
- Billy Redden (o garoto com o banjo) não sabia tocar banjo e foi incapaz de fingir convincentemente, então outro jovem permaneceu escondido atrás de sua cadeira com a tarefa de filmar os movimentos das mãos com o banjo;
- Originalmente Sam Peckinpah queria dirigir o filme. Quando John Boorman ficou com os direitos, Peckinpah dirigiu
Straw Dogs (1971);


- Ned Beatty era o único dos quatro atores principais que sabia remar uma canoa antes das filmagens. Os demais aprenderam no set;
- O duelo de banjos foi a primeira cena filmada. O resto do filme foi quase inteiro filmado em seqüência;
- O filme foi rodado no rio Chattooga, que divide os estados da Carolina do Sul e Georgia. No ano que se seguiu ao lançamento do filme, 31 pessoas se afogaram na tentativa de descer as corredeiras;
- Um final alternativo foi rodado, mas cortado na edição final. Nela um corpo é dragado do rio e mostrado aos três sobreviventes. O corpo nunca é mostrado para a câmera e o espectador precisa adivinhar a identidade do homem morto. O corpo foi
"interpretado" por Christopher Dickey, filho de James Dickey.
Gabriel Paixão
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AMARGO PESADELO (Deliverance, EUA, 1972). Duração: 109 minutos.
Direção: John Boorman
Roteiro: James Dickey baseado em livro escrito por James Dickey
Produção: John Boorman
Fotografia: Vilmos Zsigmond
Edição: Tom Priestley
Desenho de Produção: Danny Martin
Direção de Arte: Fred Harpman
Maquiagem: Michael Hancock
Efeitos Especiais: Marcel Vercoutere
Elenco: Jon Voight (Ed Gentry); Burt Reynolds (Lewis Medlock); Ned Beatty (Bobby Trippe); Ronny Cox (Drew Ballinger); Ed Ramey (Velho); Seamon Glass (irmão Griner); Randall Deal (irmão Griner); Bill McKinney; Herbert 'Cowboy' Coward; Lewis Crone; Ken Keener; Johnny Popwell; John Fowler; Kathy Rickman; Louise Coldren; Pete Ware; James Dickey; Macon McCalman; Hoyt Pollard; Billy Redden; Belinda Beatty; Charley Boorman; Christopher Dickey
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