A MORTE

por Felipe M.Guerra

O famoso filme amador de zumbis produzido por Sam Raimi


Era uma vez um jovem de 18 anos chamado J.R. Bookwalter, nascido na pequena cidadezinha de Akron, no Estado americano de Ohio. Como muitos adolescentes de 18 anos, Bookwalter era vidrado em filmes de horror, principalmente aqueles sobre mortos-vivos - inclusive teria aparecido como extra em DIA DOS MORTOS, de George A. Romero. Acontece que Bookwalter tinha um grupo de amigos simpáticos e determinados a fazer um filme, e também uma velha câmera Super-8 (câmera amadora que usa película de oito milímetros). Acontece, também, que Bookwalter teve a cara-de-pau de conversar com outro jovem diretor, um tal Sam Raimi, e a sorte de conseguir dele o financiamento para o que seria seu primeiro longa-metragem.
Resumidamente, foi assim que surgiu uma pequena pérola chamada THE DEAD NEXT DOOR (em tradução literal, "A Morte na Porta ao Lado" ou "Os Mortos na Porta ao Lado"), que no Brasil foi preguiçosamente lançado com o título reduzido para A MORTE. Ame ou odeie, este é, sem sombra de dúvida, um filme cult, que não vai sair da sua cabeça tão cedo - mesmo que você não goste nem um pouco do que viu.

Eu confesso: quando tive a oportunidade de assistir pela primeira vez, também odiei. O filme é, realmente, um festival de problemas: interpretações ridículas, produção paupérrima, efeitos especiais no nível do ridículo, história sem pé nem cabeça, etc etc etc. A MORTE é a típica tralha que você só começa a gostar (ou pelo menos respeitar) quando pesquisa sobre ela, algo que até uns 10 anos atrás era impossível (pois não havia internet e as revistas brasileiras "especializadas" em cinema não tinham espaço sobrando para filmes como A MORTE). Somente pesquisando é que você vai descobrir que a produção é o fruto de um trabalho esforçado e apaixonado de jovens diretores de cinema de uma cidadezinha mixuruca que nem deve aparece no mapa americano (algo não muito diferente da minha cidadezinha aqui, por isso a identificação). Mais de 80% da equipe envolvida tinha menos de 20 anos de idade na época. E o próprio diretor, J.R. Bookwalter, era apenas um garotão de 18 anos!



Qualquer pessoa que já tentou fazer cinema amador (e neste aspecto falo com conhecimento de causa) sabe das dificuldades, limitações e problemas técnicos decorrentes da falta de produção ou de um equipamento (e equipe) mais profissional. Pois este sujeito chamado J.R. Bookwalter, com míseros 18 anos de idade na cara cheia de espinhas, não só conseguiu fazer um filme de zumbis em Super-8, não só conseguiu grana com Sam "EVIL DEAD" Raimi para bancar o projeto, como ainda encheu sua obra de cenas ambiciosas, mostrando multidões de zumbis tomando as ruas de Akron e até pendurados no portão em frente à Casa Branca (!!!), em Washington. Ou seja: não tem como não respeitar o trabalho do sujeito! Ainda mais se você parar e pensar: "O que é que eu estava fazendo quando tinha 18 anos?". Seja lá o que for que você resgatar da memória, certamente não vai poder dizer: "Estava fazendo um filme de zumbis em Super-8 produzido por Sam Raimi"!!!! Se trastes como Uwe Boll têm grandes produtoras e muitas verdinhas por trás para fazer bombas tipo HOUSE OF THE DEAD, Bookwalter e seus amigos fizeram tudo por conta, e aí já reside boa parte do charme de A MORTE.



Basicamente, são 80 minutos com um verdadeiro festival de ataques de zumbis (alguns francamente imbecis), sem sustos e com desenvolvimento de personagens praticamente nulo. Lá pela metade, para piorar, a história dá uma guinada, envolvendo uma seita satânica, algo tão deslocado que parece que você trocou o canal da TV sem perceber e está assistindo a outro filme. No fundo, o roteiro escrito pelo próprio Bookwalter não deve ser levado tão a sério: nada mais é do que uma brincadeira de adolescente fã de horror, com toneladas de citações, especialmente à famosa trilogia dos mortos de George A. Romero. Repleto de sangue, tripas, membros arrancados e zumbis decompostos, A MORTE é o que qualquer jovem fã de horror faria se tivesse um mínimo de recursos.



O filme inicia com movimentos de câmera que lembram abertamente o trabalho de Sam Raimi em EVIL DEAD: algo se esgueira pelo meio do mato (no caso, a câmera é a visão em primeira pessoa deste "algo") e corre em direção a uma casa, apenas para dar de cara com a porta fechada rapidamente por um velho cientista, o dr. Bow (Lester Clark, morto em acidente de carro há alguns anos). Mais ou menos como Bruce Campbell em EVIL DEAD, o dr. Bow barra a porta com tábuas, em takes rápidos, antes de trancar-se no porão com sua filha, Anna (Maria Markovic). Logo, a porta vai abaixo. Os perseguidores de Bow são Jason (Michael Todd) e mais dois brutamontes armados. "Saia daí, Bow! Meu pai que falar com você!", grita o líder dos invasores. Mas Bow, trancado com a filha no porão, responde: "Vá embora, Jason! Vá embora antes que eles o peguem. Vá embora antes que... eles o devorem!". E não dá outra: segundos após a última sentença, zumbis aparecem cambaleando e devoram os três invasores. "Deus me perdoe pelo que eu fiz", murmura o dr. Bow, e entra o nome do filme girando na tela, num efeito criado nos primitivos computadores Amiga dos anos 80 (alguém lembra?). Ah sim: caso você não tenha percebido, os nomes do cientista e de sua filha, dr. Bow e Anna, são uma homenagem a ZOMBIE, de Lucio Fulci - onde existe o dr. Bowles e sua filha Anne.



A cena seguinte já dá o tom de brincadeira de A MORTE: um vulto, do qual só vemos as costas, está escolhendo filmes numa videolocadora. Ele vai até o balcão e coloca as fitas (onde se vê claramente DAWN OF THE DEAD, EVIL DEAD, O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA e CREEPSHOW). Quando o balconista da locadora levanta os olhos para atender o cliente, vê que é um zumbi! Isso mesmo: os mortos-vivos tomaram conta de Akron, Ohio, e então percebemos a extensão da ousadia do diretor Bookwalter quando ele nos brinda com diversas cenas dos mortos tomando a cidade - mesmo sendo uma produção barata e amadora. Vemos carros parados no meio da rua, pessoas sendo atropeladas, arrancadas dos carros e devoradas pelos zumbis, tudo com a voz em off de um apresentador de telejornal, comentando o fenômeno - inicialmente, o repórter diz que o fato é uma "suposta publicidade de produtores de cinema", depois anuncia o início do estado de emergência, e por aí vai. Não demora para a epidemia tomar proporções mundiais, com os mortos-vivos se espalhando pelo mundo inteiro. E, como também acontecia no ZOMBIE de Fulci, o relato do repórter da TV termina anunciando que os zumbis invadiram a emissora...



Corta para uma legenda que diz: "Cinco anos depois - Em algum lugar da Virginia...", e então vemos um milharal com vários zumbis decompostos perambulando ao longo da estrada. Uma enorme viatura (que lembra o carro dos Caça-fantasmas!) cruza a estrada. Trata-se do "Zombie Squad", ou Esquadrão Zumbi, grupo tático do Exército criado exclusivamente para lidar com a situação dos mortos-vivos. Na viatura está o pelotão número 205 do esquadrão, composto por Raimi (Pete Ferry), Mercer (Michael Grossi), Richards (Scott Spiegel, amigão de Sam Raimi e diretor de UM DRINK NO INFERNO 2 e INTRUDER), Kuller (Jolie Jackunas) e seu comandante, o capitão Kline (Floyd Ewing Jr.). Eles param numa casa de fazenda e se dividem para averiguar a situação. É Richards, sozinho, quem encontra um zumbi devorando o cadáver de um garotinho. Ele dispara um tiro de espingarda na cabeça do morto-vivo, mas... SURPRESA! O morto-vivo não morre pela segunda vez, como é tradicional nos filmes de zumbis! Aí é que está o grande diferencial de A MORTE para os clássicos do gênero: como em A VOLTA DOS MORTOS-VIVOS, destruir o cérebro não derruba os zumbis, é preciso reduzi-los a pedacinhos!



Indignado, Richards decepa a cabeça do zumbi com um facão e começa a gritar, desesperado: "Como não morre? A cabeça está separada do corpo! Será que ele não sabe disso? Ele ainda quer me comer, mas nem tem mais boca!". E é então que Bookwalter novamente nos dá uma amostra de humor negro, como que para lembrar o espectador de que o filme não deve ser levado muito a sério: primeiro, os soldados enfiam uma granada na boca de um zumbi e o atiram por uma janela; depois, Richards comete a burrada de enfiar a mão bem dentro da boca da cabeça decepada do zumbi, que, claro, lhe arranca os dedos com uma dentada. Enquanto o soldado geme e grita, com o sangue espirrando dos toquinhos restantes na mão, vemos um dos dedos cortados descendo pelo pescoço cortado da cabeça decepada!!! Ao perceberem que todos na casa estão mortos, e que Richards em breve também estará, o capitão Kline limita-se a dizer: "Chegamos tarde... como sempre". E todos vão embora, deixando para trás o soldado ferido com sua mão ensangüentada, pronto para virar zumbi ou banquete dos mortos-vivos que se aproximam - o que vier primeiro!

O restante do pelotão resolve voltar a Washington, onde fica a base do Zombie Squad. É então que vemos as antológicas cenas de figurantes vestidos como zumbis pendurados no portão em frente à Casa Branca, com as roupas em farrapos e ensangüentadas - algo que nem produções endinheiradas conseguem filmar, diga-se de passagem. Na entrada da base, os soldados ainda são recepcionados por... ativistas dos "direitos humanos" dos zumbis (!!!), que querem proteger os mortos-vivos do extermínio pelo Zombie Squad (outra idéia brilhante de Bookwalter, na qual nem o veterano George A. Romero havia pensado). No caso, os manifestantes andam com cartazes onde dá para ler frases tipo "Let the dead walk!". hahahahaha



No interior da base subterrânea do Zombie Squad, militares e cientistas convivem lado a lado, mas não muito felizes (como no clássico DIA DOS MORTOS). Numa homenagem gratuita a Sam Raimi, um dos soldados assiste EVIL DEAD na TV enquanto comenta: "This is good shit, man!". Na base também vive um cientista louco chamado Dr. Moulsson (Bogdan Pecic), que realiza experiências com zumbis aprisionados em jaulas, tentando encontrar uma vacina contra a zumbificação. Desnecessário dizer que Moulsson é uma espécie de "versão trash" do dr. Logan (Richard Liberty) de DIA DOS MORTOS. E, inexplicavelmente, passa o filme inteiro usando um ridículo boné amarelo, onde se lê a frase: "Uma vez eu pensei que tinha errado, mas eu estava enganado". O tal boné ganhará destaque em uma cena antológica mais adiante, quando Moulsson é atacado por zumbis e, mesmo tendo diversos pedaços do corpo violentamente arrancados, só fica realmente revoltado quando um dos mortos lhe tira o boné!!! hahahahaha



Ao lado de dois outros cientistas, Franklin (Roger Graham) e Savini (Joe Wedlake), o dr. Moulsson acredita que a resposta para a praga zumbi deve estar em Akron. Ou, mais precisamente, na casa do dr. Bow, de onde os mortos-vivos se espalharam pelo planeta. Moulsson rapidamente explica aos soldados - e ao espectador - que o dr. Bow, aquele que vimos no começo do filme, criou um vírus para ressuscitar os mortos (à la Herbert West), e ele escapou do controle. "O vírus é a única coisa viva no corpo", diz o cientista, em meio a diversas frases científicas xaropes que nem vale a pena comentar. Ele então sugere que um dos pelotões escolte um grupo de cientistas para fazer a investigação completa na casa de Bow. Os soldados não parecem muito entusiasmados em arriscar a pele por uma probabilidade, mas são obrigados a fazer a viagem quando Mercer é infantilmente atacado por uma das cobaias de Moulsson (acredite se quiser, mas o mané apóia a mão bem na mesa cirúrgica onde um zumbi estava amarrado, praticamente pedindo para ser mordido!). Como no universo de A MORTE a transformação de humano em zumbi demora três dias, este é o prazo que o Zombie Squad tem para levar Moulsson e Franklin até Akron em busca de uma cura - e, conseqüentemente, da salvação do mané do Mercer!



Cabe aqui uma pertinente observação: pressupõe-se que o Zombie Squad está lutando contra os mortos-vivos do planeta nos cinco últimos anos em que a praga zumbi esteve espalhada pelo globo. Então como é que estes manés conseguem ser mortos ou mordidos tão facilmente? Só nos 20 minutos iniciais do filme, três soldados morrem infantilmente por cagadas imbecis: Richards enfia a mão dentro da boca de uma cabeça decepada, Mercer apóia a mão bem na frente da boca de um zumbi faminto, e um terceiro soldado, anônimo, tem um pedaço do pescoço arrancado quando está tentando tirar alguns zumbis aprisionados detrás de uma das viaturas do Zombie Squad - a cena é simplesmente hilariante, já que o mané é agarrado e nem ao menos tenta correr ou fugir dos mortos. Com tamanha falta de cuidado e de treinamento, é espantoso que cinco anos depois o Zombie Squad ainda tenha soldados vivos!

Mas voltemos ao filme: sem saída, querendo salvar a pele de Mercer, o pelotão 205 resolve escoltar Moulsson e Franklin até Akron. Lá chegando, eles estranham o fato de não haver zumbis na cidade - e isso que o mundo foi dominado pelos mortos. Em compensação, encontram um rapaz sinistro chamado Vincent (Jon Killough, que anos depois dirigiria o violento ESFOLADOS VIVOS), além do cadáver do dr. Bow e todas as suas anotações. Vincent apresenta-se como integrante de uma igreja das redondezas que, aparentemente, glorifica os mortos-vivos como uma solução divina para castigar os pecadores (!!!). Quando Moulsson anuncia que descobriram a fórmula para destruir a zumbizada, o rapaz surta e começa a gritar: "Não, não podem destruí-los!", e então mata o capitão Kline com um faconaço. Atingido por tiros de Raimi e Kuller, ele ainda consegue caminhar longe o suficiente para ser resgatado por um irmão da ordem religiosa, o comandante Carpenter (Jeff Welch).



Raimi e Mercer seguem o carro dos fugitivos e chegam até a tal igreja, onde existe um culto liderado por um pregador fanático, o reverendo Jones (Robert Kokai). Qualquer semelhança com o reverendo Jim Jones, do massacre real de Jonestown, não deve ser mera coincidência... O culto satânico do pregador caracteriza-se por aprisionar e alimentar os zumbis como se fossem criaturas divinas (!!!); o próprio reverendo guarda, em suas acomodações, uma jaula com o filho Jason, aquele rapaz atacado no início, já transformado em zumbi. Para piorar a coisa, os malucões também realizam sacrifícios humanos, aparentemente só para passar o tempo - já que não existe outra justificativa para o fato. Quando os fanáticos religiosos entram em cena, o tom do filme muda completamente, quase como se fosse uma outra história. Os zumbis são deixados temporariamente de lado e acompanhamos a guerra entre o Zombie Squad e os fanáticos liderados por Jones (o pastor usa uns óculos escuros enormes, estilo "Exterminador do Futuro", mesmo na escuridão da noite!). E mais: descobrimos que Jones seqüestrou Anna, a filha do falecido dr. Bow, e criou-a como se fosse sua própria filha. Sentiu firmeza?



A partir de então, a história concentra-se em uma guerra entre humanos, repleta de tiros e explosões. O soro criado por Moulsson, baseado nas anotações do dr. Bow, dá errado e Mercer também se transforma num zumbi, porém um zumbi inteligente - mais ainda que o Big Daddy de TERRA DOS MORTOS -, capaz de falar e realizar atos racionais, inclusive de vingança. E a seita de Jones, só para tornar tudo ainda mais ridículo, usa zumbis como se fossem cães farejadores! Impossível não se mijar de rir ao ver um dos mortos-vivos sendo levado na coleira por um vilão que diz: "O que foi? Farejou um soldado, hein?". hahahaha. Os caras domesticaram os mortos-vivos! Pode? Felizmente, toda esta balbúrdia "soldados versus fanáticos religiosos" apenas prepara o terreno para a cena final, onde os mortos-vivos finalmente voltam à cena para devorar integrantes dos dois "exércitos", numa guerra que terá pouquíssimos sobreviventes. A cena final, que mostra uma viatura do Zombie Squad devidamente "adaptada", é muito criativa, tanto em matéria de humor negro quanto como uma conclusão abrupta e pessimista.

A MORTE é exatamente o que parece pela descrição acima: uma produção amadora de 125 mil dólares feita por um grupo de amigos (ninguém ganhou cachê, participando do projeto por puro amor à camiseta). Se contorna este baixíssimo orçamento com criatividade em alguns momentos (como nas cenas apocalípticas envolvendo multidões de zumbis), em outros a pobreza chega a ser embaraçosa, e a inexperiência dos produtores mais ainda - como na cena em que Raimi dá um único tiro de espingarda e mata três pessoas que estão LADO A LADO! Há inúmeros furos de roteiro (se Jones matou o dr. Bow para que ele não criasse uma fórmula para destruir os zumbis, por que é que não destruiu também as suas anotações?), situações mal-resolvidas (por que Jones adotou Anna como sua filha e que diferença isso faz na trama?), e aquelas bobagens que eu já citei anteriormente, como o fato dos tais soldados morrerem das formas mais idiotas possíveis. Uma cena, que chega a dar raiva, mostra um zumbi chegando por trás de um soldado, afastando a gola da sua camisa com a mão para então mordê-lo no pescoço... Ora, por que é que o babaca não tentou escapar ou empurrar o zumbi enquanto o monstrengo estava calmamente puxando a gola da sua camisa?



Mas é claro que A MORTE não pode, e nem deve, ser analisado tão a sério, muito menos em comparação com outras produções do gênero, como os filmes de George Romero e até ZOMBIE, de Fulci, ou A VOLTA DOS MORTOS-VIVOS. Como produção amadora que é, A MORTE está até bom demais, e alguns efeitos especiais sangrentos são espetaculares para a média do gênero na época (como uma vítima que é arrebentada em pedaços pelos zumbis, tendo a língua, as pernas e as tripas arrancadas on-screen). Claro que não é um trabalho de Tom Savini; mas dá para o gasto. E, no fim, A MORTE é muito mais sangrento e violento que a maioria dos filmes de zumbis contemporâneos, de HOUSE OF THE DEAD a MADRUGADA DOS MORTOS, ainda que as cenas sangrentas sejam muito mal-feitas e exageradas, provocando mais riso do que repulsa.

Inicialmente, A MORTE seria filmado diretamente em vídeo, com um orçamento de apenas 8 mil dólares. J.R. Bookwalter e sua turma até fizeram alguns testes, gravando diversas cenas em VHS para ver como ficava. Somente com a entrada de Sam Raimi na produção é que eles adotariam o formato oito milímetros e um orçamento maior. A história de como o jovem Bookwalter conseguiu convencer o jovem Sam Raimi (que no ano de 1985 tinha apenas 26 anos) já virou uma lenda, e é a primeira pergunta que fazem para o cineasta em toda entrevista - tanto que ele disse que, se pedisse um dólar para cada vez que respondeu a pergunta, teria conseguido financiar um novo filme. Deixemos a explicação com o próprio Bookwalter:



"Eu li na revista Fangoria que Sam Raimi iria começar a filmar EVIL DEAD 2. Sabendo que ele estava em Detroit, que fica a apenas quatro horas de Akron, pensei em ir trabalhar com ele, como assistente de produção, ao invés de procurar um emprego de verdade. Por telefone eu agendei um encontro com Sam e seus amigos da Renaissance Pictures (a produtora de Raimi), e fui para a reunião levando um projetor de oito milímetros e alguns curtas que eu tinha filmado em Super-8. Para a minha surpresa, Sam viu os filmes, ficou impressionado e talvez acreditou que eu tivesse o talento de fazer um filme por conta própria. Ele então me encorajou a fazer meu próprio filme, e disse que financiaria a produção. Era todo o incentivo que eu precisava, então dirigi de volta para casa, escrevi o roteiro de THE DEAD NEXT DOOR e o resto é história", narrou o diretor, em entrevista a um site sobre produções de horror.

Nos créditos iniciais, o nome de Sam Raimi não é citado como produtor-executivo. No lugar, aparece o misterioso pseudônimo "The Master Cylinder", ou "O Cilindro Mestre". O motivo para o uso de um nome falso varia de uma versão para outra. Para alguns, foi porque Raimi não queria problemas legais, já que estava financiando o filme de Bookwalter "por baixo dos panos" com parte da verba que recebia para filmar EVIL DEAD 2; para outros, foi vergonha do resultado final de A MORTE que teria levado Raimi a tirar seu nome daquele fiasco.

J.R. Bookwalter demorou exatos quatro anos para transformar seu sonho de adolescente espinhento em realidade. Depois de filmar entre 1985 e 1986, passou mais dois anos editando, sonorizando e finalizando a película, para somente então conseguir lançá-la diretamente em vídeo em 1990. Como a filmagem em Super-8 foi feita sem gravação de som, todas as falas tiveram que ser posteriormente dubladas - o que explica a falta de emoção ou exagero na entonação de alguns diálogos. Aí entra mais um detalhe interessante de A MORTE: com Sam Raimi produzindo, um amigão seu entrou na jogada. É claro que estamos falando do amado e idolatrado Bruce Campbell, o Ash da trilogia EVIL DEAD, que nos créditos de A MORTE aparece como "supervisor de som". Bruce, na verdade, fez um favorzão para Bookwalter, emprestando sua voz para dublar dois personagens: o herói, Raimi, e um dos vilões (o comandante Carpenter). Qualquer fã de horror vai reconhecer de cara o vozeirão do velho Ash - embora eu não tenha me atentado para o fato até ler sobre isso num site da internet.



É bom ressaltar que os créditos de A MORTE são um espetáculo a parte. O filme termina com um letreiro que diz: "Você acabou de assistir ao incrível talento de...", e então são listados os nomes dos envolvidos. Bookwalter aproveita para fazer piadas infames, como "Rat eating zombie as himself", mas o espectador ficará emocionado ao perceber que praticamente toda alma viva que participou acumulou mais de uma função (novamente: sem receber um tostão para isso!). Bookwalter, por exemplo, além de escrever o roteiro e dirigir, também foi produtor, editor, maquiador, compositor de toda a trilha sonora (que ele fez no seu jurássico computador Amiga lá dos anos 80) e ainda interpretou o papel de Lloyds, um dos malvados, que toma um tirambaço e cospe uns 200 litros de sangue - certamente, uma das cenas de morte mais ridículas já encenadas na história do cinema. Jolie Jackunas, a bonitinha que interpreta a única mulher no Zombie Squad (Kuller), foi também produtora. Michael Todd, que interpreta Jason, foi também diretor de segunda unidade e maquiador. Michael Tolochko, que no filme aparece brevemente como o "domador de zumbis" Randalls, era o operador de câmera. E por aí vai. Aparentemente, nunca uma equipe trabalhou tanto (e sem receber um tostão) como em A MORTE.

E ninguém trabalha tanto se não gosta do que está fazendo, certo? Aí reside boa parte da graça dessa produção amadora: mesmo que ache tudo aquilo um lixo, um bagaço, um amadorismo total e completo, você ainda assim dá um desconto porque percebe que todos os envolvidos estão fazendo a coisa com entusiasmo, com dedicação e (por que não?) com AMOR. Os atores são uns desconhecidos que jamais devem ter tido aulas de intepretação na vida, a julgar por suas caretas; já as únicas mulheres em cena são três feiosas nada produzidas (parece até que foram propositalmente "enfeiadas"). Mesmo assim, todos empenham-se em mostrar o máximo na tela, principalmente Pete Ferry, que faz o papel do herói Raimi.



O diretor Bookwalter, como todo iniciante querendo desesperadamente ser reconhecido por seu talento, é outro que se empenha a um nível sobre-humano, criando algumas cenas difíceis e complicadas para uma produção tão amadora (inclusive zumbis sendo arrastados por carros e uma cena com um mortos-vivo derretendo). Até hoje, em entrevistas e participações em festivais de horror, Bookwalter lembra da época em que fechou as ruas centrais da sua cidade para filmar o apocalipse dos mortos-vivos, com mais de 1.500 pessoas vestidas como zumbis (todos vizinhos, amigos, familiares e cidadãos de Akron querendo ajudar). Ele lembra, também, do dia em que filmou a famosa cena em frente à Casa Branca: ele mandou seus figurantes vestidos como zumbis se pendurarem no portão e começou a filmar. Não demorou 30 segundos, conta Bookwalter, para surgirem dezenas de homens de terno, que ele não sabia se eram da CIA ou do FBI. A turma foi mantida por horas para prestar explicações, até que os homens de terno resolveram liberar os jovens pedindo que nunca mais fizessem nada do gênero. O interessante desta cena é que percebe-se claramente o trânsito normal de veículos na rua, atrás dos zumbis, quando Washington deveria estar devastada pelos mortos-vivos... hehehehe

Enfim: A MORTE é uma produção feita por fãs de horror para fãs de horror, onde se vê que a vontade de fazer cinema foi mais forte do que a vontade de querer simplesmente ganhar dinheiro em cima da obra. Bookwalter aproveitou para homenagear seus ídolos cinematográficos com citações explícitas nos nomes dos personagens: Raimi (de Sam Raimi), comandante Carpenter (de John Carpenter) e dr. Savini (de Tom Savini), um personagem chamado Jason (que pode ser uma citação ao famoso Jason Voorhees) e até uma pichação na parede da igreja do reverendo Jones que diz "Romero King" (referência a George A. Romero?). Enfim, A MORTE mereceu sua fama cult - embora seja mais fácil encontrar críticas negativas do que positivas.

Não se sabe se esta fama cult foi pelos "méritos" (hahahaha) do próprio filme ou pelo envolvimento de Sam Raimi no projeto. Na época do lançamento de A MORTE, em 1990, Raimi ainda não era um nome tão influente em Hollywood, numa época em que praticamente só tinha os dois EVIL DEAD no currículo. Quando saiu em fita VHS no Brasil, por volta de 1995, a distribuidora nem citou o nome de Raimi na capa (e nem tinha como saber, já que ele escondeu-se atrás do pseudônimo "O Cilindro Mestre"). Hoje, A MORTE tem alguns fãs apaixonados. Tanto que foi relançado em DVD lá fora no seu aniversário de 20 anos (2005), com toneladas de extras. O próprio J.R. Bookwalter coordenou a remasterização do filme, dando nitidez à imagem granulada e sem definição da película de oito milímetros (muito do que acontece nas cenas escuras só pode ser visto no DVD, e não na velha fita nacional). Não contente com isso, o diretor ainda deu uma melhorada em algumas cenas, alterando os créditos iniciais e finais (tirando aqueles gráficos jurássicos de computador), e até usando um pouco de computação gráfica (como no momento em que um zumbi é explodido com uma granada; agora, manchas de sangue foram incluídas digitalmente).



O pobre Bookwalter nunca mais teve um outro filme de tanto destaque quanto este seu trabalho de estréia. Após A MORTE, ele mudou-se para Los Angeles e trabalhou por três anos (de 1989 a 1992) com o diretor/produtor picareta David DeCouteau. Bookwalter dirigiu, editou, escreveu e mixou o som de pelo menos nove filmes, até que resolveu usar o "conhecimento" adquirido com DeCouteau (segurem o riso!) para abrir sua própria produtora, a Tempe Entertainment, onde passou a dirigir, produzir e distribuir tralhas como OZONE e THE SANDMAN (ambos também foram lançados no Brasil), todos direto para o mercado de vídeo. Ele também assinou podreiras do tipo ROBOT NINJA e GALAXY OF THE DINOSAURS, sempre trabalhando com alguns atores que apareceram em seu debut cinematográfico, dando a chance para que eles aparecessem em outros filmes - já que ninguém mais os queria. E Bookwalter ainda trabalhou por algum tempo na produtora Full Moon, editando o sexto capítulo da série PUPPET MASTER (chamado, no Brasil, de A MALDIÇÃO DOS BRINQUEDOS) e outros inéditos por aqui. Mas nada de muito destaque...

Pode-se dizer, com certeza, que A MORTE é péssimo como cinema. Mas irá interessar bastante a alguns tipos bem específicos de público. Fãs de trash, da linha quanto pior melhor, certamente irão ao delírio de tanta satisfação. Estudantes de cinema ou entusiastas do "faça você mesmo" terão uma excelente prova do quanto pode ser feito com praticamente nada. E, finalmente, fãs de filmes de horror provavelmente irão apreciar a idéia "alternativa" de se fazer cinema violento e sangrento com apenas uma câmera na mão e uma idéia na cabeça (se bem que, neste caso, ter uns trocados de Sam Raimi ajuda!). E como o mundo é um lugar injusto, há 20 anos Bookwalter e sua turma tentam viabilizar uma apocalíptica (olha só!) seqüência de A MORTE, que se chamaria DEAD FUTURE ou THE DEAD NEXT DOOR 2 - THE HUMAN SQUAD. Não se sabe como será este segundo filme, ainda mais considerando que dificilmente algum personagem do original voltará à ativa. Provavelmente, desta vez, ele não contará com o nome de Raimi na produção (já que hoje Sam é "chique"), e muito menos com a "charmosa" filmagem amadora em Super-8. Será que produções assim ainda funcionam numa era de computação gráfica? Só o tempo dirá...

Felipe M.Guerra

A MORTE
(The Dead Next Door, EUA, 1988). 84 minutos
Direção: J.R. Bookwalter
Roteiro: J.R. Bookwalter
Produção: J.R. Bookwalter; Jolie Jackunas
Produção Executiva: Sam Raimi
Música: J.R. Bookwalter
Fotografia: Michael Tolochko
Edição: J.R. Bookwalter
Desenho de Produção: Jon Killough
Figurino: Louise Leininger
Maquiagem: J.R. Bookwalter; Ron Contenza; Mike Davy; Bill Morrison; Sean Rodgers; Michael Todd
Efeitos Especiais: Vince Rossetti
Efeitos Visuais: John R. Ellis
Elenco: Pete Ferry (Raimi); Bogdan Pecic (Dr. Moulsson); Michael Grossi (Mercer); Jolie Jackunas (Kuller); Robert Kokai (Rev. Jones); Floyd Ewing Jr. (Capt. Kline); Roger Graham (Dr. Franklin); Maria Markovic (Anna); Jon Killough (Vincent/fazendeiro zumbi); Scott Spiegel (Richards); Jeff Welch (Carpenter); Michael Todd (Jason/motorista da Van); J.R. Bookwalter (Lloyds); Jennifer Mullen (Powers); Joe Wedlake (Dr. Savini); Lester Clark (Dr. Bow); Michael Tolochko (Randalls); Barbara Gay (Dr. J.); Bruce Campbell (vozes)



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