O APRENDIZ

por Filipe Falcão

A palavra maldade pode ter vários significados. Original do latim malitate, o termo é atribuído, entre outros, para indivíduos que fazem ações de crueldade e perversidade seja contra uma ou demais pessoas. Assassinatos, guerras, homicídios, torturas, são apenas alguns dos atos provocados por sujeitos que são considerados maus. Mas e se a maldade for um tipo de pré-disposição existente em cada um dos homens e que falte apenas um estímulo para que ela seja despertada? Adaptado de um conto de escritor Stephen King, O Aprendiz (Apt Pupil, 1998) trata brilhantemente deste tema, narrando uma trama bem conduzida sobre como a maldade pode ser descoberta e estimulada.



O filme conta a história de Todd Brown (Brad Renfro), um adolescente de 18 anos que fica curioso com as aulas de história sobre o holocausto praticado pelos nazistas contra os judeus durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Mas o interesse de Todd passa a ser algo além de pesquisas de livros quando ele descobre em um pacífico vizinho chamado Arthur Denker (Ian McKellen), um ex-comandante nazista procurado pela justiça e que vive escondido, com identidade falsa, nos Estados Unidos. Para não entregá-lo às autoridades, Todd exige que o fugitivo lhe relate suas memórias como assassino nos campos de concentração. A partir de então, um tenso jogo psicológico surge entre os dois, ameaçando a sanidade do jovem.

O diretor Brian Singer (X-men, 2000) faz aqui um de seus melhores trabalhos mostrando a relação de domínio do jovem Todd para com o ex-nazista Denker, que logo será subvertida criando uma situação de dependência para ambas as partes. Através dos relatos, o garoto começa a se envolver e posteriormente se ver trancado em um mundo que ele conhecia apenas em livros. Essa relação é um dos pontos fortes do filme, que vai conduzindo o espectador por um terreno semelhante ao que Todd percorre, interesse e curiosidade aliados com medo e arrependimento. O garoto passa a enxergar a maldade com novos olhos, na verdade, como uma forma de controle perante uma situação, onde os fortes dominam os fracos. Indiretamente, o velho Denker percebe no garoto um elo com um passado e passa a ver possibilidades para o jovem.

Original do livro "Quatro Estações" (Different Seasons, 1982), o conto "Verão da Corrupção: Aluno Inteligente" (Apt Pupil), que teve sua história como base para o filme O Aprendiz, faz parte de um trabalho de King que foge da temática que o consagrou: o suspense sobrenatural. Nesta obra não temos fantasmas ou monstros e sim o homem sendo visto através de sua essência, seus conflitos e medos, o que pode gerar uma realidade bastante aterradora e histórias que apelam para um drama bem construído. No caso de O Aprendiz, é traçado um estudo de caráter de seus personagens, que guardam terríveis segredos e utilizam vários métodos para não serem apanhados. Além do conto "Aluno Inteligente", as histórias "Outono da Inocência: O Corpo" (The Body) e "Primavera Eterna: Ryta Hayworth e a Redenção de Shawshank", (Rita Hayworth and the Shawshank Redemption), também pertencem ao livro, tendo sido adaptadas para o cinema com sucesso como Conta Comigo (Stand by Me, 1986) e Um Sonho de Liberdade (The Shawshank Redemption, 1994), respectivamente. Ambas as histórias também trabalham o drama existente nos personagens através de suas realidades.



Grande parte do sucesso de O Aprendiz se deu pela forma como o diretor Singer conduziu a história. A ação, acontece de forma lenta e gradativa criando uma atmosfera quase claustrofóbica através de diálogos. Aliás, as cenas envolvendo os encontros dos dois protagonistas são muito bem conduzidas. O próprio horror dos campos de concentração também é inserido no filme através de falas, o que gera um efeito muito forte para o telespectador, uma vez que a imaginação ainda é um importante elemento que pode e deve ser utilizado em produções cinematográficas. A sensação de assistir ao filme é como se andar em uma montanha russa. O percurso começa devagar, onde se pode admirar a paisagem, mas de repente, quando o carrinho chega na descida, se é tomado por medo e adrenalina. O Aprendiz é um filme com grandes momentos dos quais se destacam a seqüência do banho de Todd no vestiário ou os seus sonhos, ou quando o garoto presenteia Denker com uma fantasia semelhante à farda utilizada por ele durante a Segunda Guerra. Este é sem dúvida, um dos momentos mais tensos do filme.

A transformação de Todd também é feita através de ações do garoto tomadas fora da presença do velho nazista. Seja com amigos, professores, ou até com uma machucada pomba, um novo rapaz começa a surgir, mais forte, ou mais malvado. Uma cena em especial mostrará a total mudança do garoto quando um mendigo vai pedir ajuda na casa do aparentemente indefeso senhor Denker e que acaba por encontrar um triste destino. Os acontecimento que serão desencadeados servem quase como um batizado, no qual os relatos do carrasco nazista vão ser vistos como se fossem transmitidos por um professor para seu aluno. A questão da sexualidade também é mostrada no filme, de forma sutil, porém, interessante, uma vez que o homossexualismo passa a ser visto como um ponto de fraqueza. O final da trama merece destaque, pela sua ousadia, ou mesmo por um teor quase real.

O elenco também contribuiu muito para um resultado positivo do filme. Mais conhecido pela sua estréia em O Cliente (The Client, 1994), Brad Renfro faz um jovem perturbado e que mesmo com um olhar perdido, pode provocar estranhamento e medo. Um trabalho que faz com que o filme ganhe identidade e que poderia ter sido o "calcanhar de Aquiles" da produção, caso fosse feito por um ator caricato ou forçado. No papel do velho Denker, foi escolhido o excelente ator inglês Ian McKellen, que ganhou notoriedade participando de adaptações de Shakeaspeare nos palcos e nas telas, alcançando então fama internacional ao interpretar o bondoso mago Gandalf, da trilogia O Senhor dos Anéis (The Lord of the Rings, 2001). McKellen cria um homem frágil, mas que também provoca calafrios. O ator voltaria a trabalhar com o diretor Singer na versão para o cinema da série dos quadrinhos X-men, como o maléfico mutante Magneto. Ainda participam como coadjuvantes os atores Joshua Jackson (Lenda Urbana, 1998) David Schwimmer (da série de TV Friends) e James Karen (A Volta dos Mortos-vivos, 1985).



Apesar do excelente resultado, o filme passou por alguns fatos curiosos durante as filmagens como quando um grupo de pais, dos atores adolescentes que faziam figuração como estudantes da escola na qual Todd estuda, resolveu processar o diretor acusando-o de expor os jovens a ficarem sem roupas durante as seqüências dos banhos no vestiário. Os pais afirmavam não saberem deste "teor sexual" no qual seus filhos teriam que aparecer nus, mesmo sem nenhum lance frontal, durante o filme. Quando pronto, a produção teve que ser exibida para um grupo de rabinos de Nova Iorque, para que eles aprovassem a história. Também vale lembrar que o filme seria gravado originalmente em 1987, tendo o ator George C. Scott (O Exorcista 3, 1990) como o velho Denker, mas tal versão foi cancelada e engavetada por problemas financeiros.

Como resultado, o filme de Singer conduz a um estudo da origem do mal, assim como as transformações e comportamentos que surgem com ele. A produção bem cuidada e o bom elenco ajudam nesta triste jornada, que deve ser assistida como uma própria reflexão do comportamento humano, seja dos nazistas da Segunda Guerra, como de certas parcelas da sociedade atual. O filme procura mostrar principalmente que a maldade é inerente a épocas, religiões e sociedades e desta forma pode estar mais próxima do que se possa imaginar.



Filipe Falcão


O APRENDIZ (Apt Pupil, Estados Unidos/Canadá/França, 1998). 111 minutos
Direção: Bryan Singer
Roteiro: Brandon Boyce, baseado num texto de Stephen King
Produção: Jane Hamsher; Don Murphy; Bryan Singer
Produção Executiva: Tim Harbert
Fotografia: Newton Thomas Sigel
Música: John Ottman
Figurino: Louise Mingenbach
Edição: John Ottman
Desenhos de Produção: Richard Hoover
Direção de Arte: Kathleen M. McKernin
Elenco: Brad Renfro (Todd Bowden); Ian McKellen (Kurt Dussander); Joshua Jackson (Joey); Mickey Cottrell (Professor de Sociologia); Michael Reid MacKay; Ann Dowd (Monica Bowden); Bruce Davison (Richard Bowden); James Karen (Victor Bowden); Marjorie Lovett (Agnes Bowden); David Cooley (professor); Blake Anthony Tibbetts; Heather McComb; Katherine Malone; Grace Sinden; Michael Byrne


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