APRIL FOOL'S DAY

por Gabriel Paixão

"Neste dia da mentira, não seja enganado também... Fuja!"

Todos os amigos infernautas que acompanham os artigos do Boca do Inferno nos últimos tempos já estão a par da situação em que se encontram as "mentes criativas" dos nossos amigos produtores de cinema yankees da indústria de horror mainstream, que tornaram das refilmagens um desagradável hábito para quem busca desesperadamente algo do atual maçante mercado estadunidense.

Isso não chega a me incomodar totalmente - até porque temos grandes surpresas vindo da Europa e dos indies em geral - porém estamos chegando a um ponto que o cheiro que sai de cada anúncio nos faz não apenas questionar a competência de Hollywood, mas também a sanidade deles - vide os anúncios mais recentes sobre os remakes de O BEBÊ DE ROSEMARY e I SPIT ON YOUR GRAVE.




E por isso até peço desculpas aos leitores que acharem este artigo um tanto parecido como tantos outros sobre refilmagens, mas as produções estão em um nível tão baixo que até as minhas reclamações e argumentações soam redundantes e repetitivas.



Hoje estarei falando sobre APRIL FOOL'S DAY, a versão "moderninha" de A NOITE DAS BRINCADEIRAS MORTAIS, que, convenhamos, já não era considerada brilhante, criativa ou mesmo assustadora lá pelos idos de 1986 quando foi lançada nos cinemas. Entretanto é certo dizermos que ao menos A NOITE DAS BRINCADEIRAS MORTAIS têm uma coisa que o APRIL FOOL'S DAY de 2008 não procura nem tentar: ser divertido o tempo todo.



Pois bem, os diretores/roteiristas Mitchell Altieri e Phil Flores responsáveis pelo interessante indie THE HAMILTONS - escondidos por trás do pseudônimo "The Butcher Brothers" - conseguiram colocar as mãos nos direitos da produção original e junto com Mikey Wigart (6 mãos, vai vendo!) reescreveram a história para dar uma conotação mais atualizada do massacre no "dia da mentira". A pequena Stage 6 aceitou distribuir APRIL FOOL'S DAY, que acabou sendo produzido pelo mesmo Frank Mancuso Jr. - que também financiou o original. As filmagens tomaram o segundo semestre de 2007, projetando um lançamento no dia 1º de Abril de 2008.



Felizmente, por causa das diminutas dimensões da produção, uma distribuição para os cinemas acabou se tornando proibitiva e o remake saiu direto em DVD em 25 de Março nos Estados Unidos. No Brasil, por enquanto, não há data confirmada, porém se um dia vier a ser lançado deverá ter o mesmo destino que em seu país de origem, direto para as prateleiras das locadoras e, se depender de suas próprias qualidades, deverá "mofar" por lá.



Não é exagero, os ditos "Butcher Brothers" entregam um filme tão tedioso e burocrático que nem de longe lembram o remake de um medíocre slasher oitentista, parecendo ter sido lançado com validade vencida direto da linha de produção, o que gerou aquelas irritantes películas no estilo PÂNICO dos finais dos anos 90.



O roteiro usa apenas o conceito básico do "dia da mentira" aplicado na versão original; aqui a coisa funciona assim: no dia 1º de Abril de 2007, Torrance Caldwell (Scout Taylor-Compton, a "scream-queen" de HALLOWEEN 2007) está sendo iniciada na alta sociedade (pelo menos é o que deu a entender) em uma festa de jovens aristocratas promovida pelos irmãos Blaine (Josh Henderson, SHOW DE VIZINHA) e Desiree Cartier (Taylor Cole), juntos com os amigos da elite Peter Welling (Samuel Child que trabalhou com os “Brothers” em THE HAMILTONS), sua namorada Barbie (Jennifer Siebel, DINOCROC) e o cameraman Ryan (Joe Egender, também de THE HAMILTONS).



Não convém muito um aprofundamento nos protagonistas, basta dizer que essas figuras - tirando o pobretão Ryan - são estereótipos incrivelmente rasos e, neste caso, não passam de burgueses mimados, superficiais e esnobes como a grande maioria das socialites que conhecemos pela televisão. Para se ter uma idéia, em uma linha de diálogo "muuuuito" elaborada, Desiree reclama com Blaine que seu carro é uma "peça de museu". O veículo: um Mercedes de luxo ano 2007... Ai se ela visse meu Gol 83... hehehe...



Blaine se demonstra um grande fanfarrão no dia da mentira, pregando peças com os empregados, enquanto os amigos retribuem na mesma moeda. A festa começa com Ryan pegando depoimentos dos convidados (leia-se dos personagens principais) dando boas vindas para Torrance, neste apanhado está o colunista fofoqueiro Charles Lansford (Joseph McKelheer, O MANÍACO). Eis que chega na festa Milan Hastings (Sabrina Aldridge, UM NATAL BRILHANTE), uma patricinha com uma certa consciência social e "amiga" de Desiree (entre aspas pois Desiree nutre um sentimento de inveja e raiva pela garota, sabe como é, coisas de mulher...)

A festa continua, os convidados vão ficando cada vez mais alcolizados e, digamos, liberados sexualmente. Neste cenário, Blaine começa a dar em cima de Milan até que a mesma cede aos encantos do jovem e a uma providencial droga no champanhe, tudo capturado pela manjadamente obsessiva câmera do "triste-tímido-esquisitão" Ryan.



A dupla sobe para os quartos, a filmagem continua e tudo revela ser apenas um plano para Desiree ridicularizar Milan e, obviamente, o que devia ser uma versão de "One Night in Paris" acaba dando errado: Milan reage mal ao medicamento colocado na bebida, passa mal e cai da sacada do quarto direto no meio do saguão com Charles, Desiree, Ryan, Barbie, Peter e Blaine olhando a cena abismados, enquanto o público já solta bocejos com tamanha idiotice.



Não pense que alguém vai preso nesta conversa... Apesar de ser nitidamente um caso de tentativa de estupro seguido de morte com cinco testemunhas e uma fita de vídeo como prova, - a única coisa que Blaine perde é o direito de controle do dinheiro da família -, e todos seguem suas vidas felizes e sorridentes. Até Charles conseguiu um dinheiro extra escrevendo um livro sobre o caso, vejam só!



Então, adivinhem, exatamente um ano depois, cinco deles recebem um convite para comparecer ao túmulo de Milan e como o papel tem o aviso "eu tenho provas", todos aparecem e para dizer que é pra valer, uma encomenda é entregue no local e contém um vídeo com a morte de Charles afogado na própria piscina.



A principal reivindicação do "misterioso assassino que pode ou não ser Milan" é o verdadeiro autor do crime admitir sua culpa e negar a versão oficial, que o acontecido na festa não passou de um acidente. E só não vou me alongar mais na descrição do roteiro, pois basta ter um Q.I. razoável e uma mínima bagagem de slashers para fazer a matemática e adivinhar todo o resto do filme e o "duplo-twist" na conclusão, até mesmo se não assistiu ao original.



Estive até pensando em colocar uma receita de bolo aqui para esticar a conversa, mas ao contrário dos "Butcher Brothers" eu não tenho coragem de enganar o público, portanto vou ser direto no veredicto sobre este filme: não há suspense, nem violência, tampouco cria situações empáticas com o telespectador e ainda possui um conjunto absurdamente anti-climático de mortes (só faltou alguém escorregar na banheira e quebrar o pescoço para ser mais tosco), ou trocando em miúdos, é péssimo. Se Mitchell Altieri e Phil Flores quiseram realmente fazer algo maduro, falharam miseravelmente na condução, imprimindo um ritmo lento (a história começa com mais de 20 minutos corridos), dois pingos de sangue e explicações porcas - com todo o destaque negativo para os "motivos" do assassinato de Milan.



O elenco é tão apático e risível em suas interpretações dos mauricinhos que só faltou a presença de Paris Hilton no elenco para ficar um pouco mais insuportável: todos parecem feitos de cera e a "gostosisse" das atrizes são inversamente proporcionais ao seu talento. Para dar dois míseros exemplos, Taylor Cole não faz outra feição senão a de patricinha frustrada e Samuel Child parece atuar permanentemente bêbado ou com alguma deficiência mental que não consegui identificar em um diagnostico prévio, o que acabam tornando algumas cenas não somente comédias involuntárias, mas provocam aquele risinho de vergonha e nos vemos tateando pelo fast-forward do controle remoto por vezes. E por este ângulo podemos definir a produção como igual aos seus protagonistas, lindos, porém vazios e desprovidos de inteligência.



Não dá para ficar penalizado em cada morte off-screen, em cada susto falso e em cada furo de roteiro, pois quando chegam os créditos finais, você simplesmente não está se importando mais com o que aconteceu, apenas quer que aquilo tudo acabe logo, para desligar a televisão e esquecer que perdeu 90 minutos de produtividade para um filme sem graça como este, seja uma refilmagem ou não. Se você tem mais de 8 anos de idade e se serve a dica, siga o conselho do The Who e "don't get fooled again".



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APRIL FOOL´S DAY (April Fool's Day, EUA, 2008). Duração: 91 minutos
Direção: Mitchell Altieri; Phil Flores
Roteiro: Mitchell Altieri; Phil Flores; Mikey Wigart
Produção: Tara L. Craig
Produção Executiva: Frank Mancuso Jr.
Fotografia: Michael Maley
Maquiagem: Kristy Horiuchi
Efeitos Especiais: David Hill
Efeitos Visuais: Richard Kratt
Música: James Stemple
Edição: Raúl Dávalos
Elenco: Taylor Cole (Desiree Cartier); Josh Henderson (Blaine Cartier); Scout Taylor-Compton (Torrance Caldwell); Joe Egender (Ryan); Jennifer Siebel (Barbie); Samuel Child (Peter Welling); Joseph McKelheer (Charles Lansford); Frank J. Aard (Wilford); Sabrina Aldridge (Milan Hastings); Meredith Boll (Susan Moyer); Emily Labelle (Chloe)


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