O MONSTRO DO ÁRTICO

Por E.R.Corrêa

"Fiquem alerta! Vigiem os céus! Vigiem os céus!"

Três filmes importantíssimos de ficção científica envolvendo seres de outro planeta e invasão da Terra foram lançados no ano de 1951: O Homem do Planeta X, O Dia em que a Terra Parou e O Monstro do Ártico. À parte esse fato, somente os dois primeiros apresentam similaridades, sendo que tratam de alienígenas que chegaram a Terra, pousaram seus discos voadores e, de uma forma ou de outra, tentaram estabelecer contato pacífico com os terrestres. O terceiro já enfoca o tema sob uma perspectiva mais sombria, mais de acordo com o espírito xenofóbico e negativista dos americanos da Guerra Fria. De todos os filmes desse período que ganharam releituras políticas muito além de suas próprias pretensões, talvez esse tenha sido o mais comentado deles.



Clássico da "era McCarthy", O Monstro do Ártico (The Thing from Another World) foi dirigido por Christian Nyby e produzido por Howard Hawks, a partir de um texto clássico do renomado editor e escritor de ficção científica John W. Campbell Jr. (do famoso magazine "Astounding Science Fiction", hoje "Analog"), ocasião em que se valeu do pseudônimo Don A. Stuart. O conto se chamava "Who Goes There!" e tinha todas as características pessimistas para uma adaptação ao cinema americano da década de 50, sob todos os pontos de vista. A começar pelo título, aberto e inconclusivo como toda história paranóica deve ser.
Já o monstro é uma criatura alienígena que chegou a Terra há milhares de anos e se incrustou numa placa de gelo em algum lugar do círculo polar ártico, ali permanecendo até que uma equipe exploradora da era moderna a encontrou, junto a seu enorme disco voador. A despeito das tentativas de se estabelecer um contato amigável com o ser, agora descongelado e andando livremente pelos sombrios corredores da base, ele se revela hostil e anti-social ao extremo, interessado nos seres humanos unicamente pelo fato de servirem como sua nova fonte de alimentos. Embora ferido algumas vezes, o monstro logo revela sua incrível capacidade de regeneração, multiplicando anda mais o horror na idéia de que, assim como aos vegetais, ele próprio pode se adaptar tranqüilamente ao ambiente hostil do Ártico e ali dar início à sua devastadora forma de reprodução, infestando o planeta de legumes-monstro do espaço que se alimentam de sangue humano. A única alternativa, descobre-se logo, é mata-lo: exceto pelo cientista da base, que é um daqueles caras curiosos e bem intencionados, disposto a arriscar a própria vida em busca da confraternização universal, todos os enclausurados exploradores (que incluem civis e militares) não pensam duas vezes em destruir o monstro - coisa que acaba se revelando um belo problema, já que tiros e fogo não o afetam, até que alguém sugere a construção de uma chapa eletrificada para cozinha-lo.
Feito com baixo orçamento e em poucas semanas e a despeito de seus pontos fracos, O Monstro do Ártico sobrevive às releituras e é apontado em qualquer bom catálogo de filmes de ficção científica & horror como um dos clássicos do gênero. E não é pra menos: mesmo sendo pouco fiel ao conto original, tem um bom elenco, encabeçado por Kenneth Tobey, Robert Cornthwaite, Margareth Sheridan e, claro, James Arness na pele do humanóide-legume do espaço, sem falar da bela e opressiva fotografia em preto e branco, passando a impressão constante de frio e desolação; e embora a criatura (que é vagamente semelhante ao monstro de Frankenstein do Boris Karloff) apareça pouco, há bastante suspense e alguma claustrofobia, elementos que o tornaram, na década de 50, um grande sucesso de bilheteria, impulsionando outras inúmeras histórias similares. Apesar de tudo, não há como negar que é um filme que envelheceu e hoje se revela até mesmo decepcionante: há falatório demais e pouca ação e o monstro sequer é visto numa tomada mais generosa, além do final medíocre e com vistas a cutucadelas políticas mambembes.



O que nos leva a John Carpenter e seu melhor filme: O Enigma de Outro Mundo (The Thing), a sensacional refilmagem de O Monstro do Ártico que ele rodou em 1982, com o astro Kurt Russel encabeçando um elenco de primeira linha - que inclui um cão Raskie Siberiano que supera todas as expectativas de interpretação. Ao contrário do original, porém, esse filme foi um fracasso total de bilheteria nos Estados Unidos e em quase todos os outros lugares, devido ao fato de ter sido lançado na mesma época de E. T - O Extraterrestre, a babaquice sem tamanho de Steven Spielberg. Na época, os críticos o taxaram como demasiadamente sangrento e sem qualquer presença feminina. Depois de uma releitura atenta e a uma descoberta tardia, percebeu-se que Carpenter foi mais fiel ao espírito pessimista e paranóico do conto de John Campbell e criou um dos filmes mais sinistros de todos os tempos, um espetáculo gore poucas vezes visto e sentido, tensão quebra-nervos só comparável a Alien, O Oitavo Passageiro (1979), de Ridley Scott; quanto à trilha sonora, arranjada pelo mestre Ennio Morricone, eu teria a ousadia de dizer que se enquadra entre as melhores trilhas sonoras já feitas para um filme de horror: não creio ter encontrado com freqüência músicas que se encaixem com tamanha perfeição nas imagens como àquelas que são ouvidas neste filme. Efeitos especiais gotejantes de Rob Bottin e claustrofobia congelante do começo ao fim, tudo é muito, muito mórbido e assustador, para ser assistido sozinho, numa dessas maravilhosas madrugadas de inverno, se possível com o som - stereo - generosamente alto. Uma aula de como se fazer um filme de horror verdadeiramente assustador e de como deixar o espectador pregado na poltrona. De tudo, resta uma verdade crua: é muito superior ao original.

E.R.Corrêa


O MONSTRO DO ÁRTICO (The Thing from Another World, EUA, 1951). 87 minutos
Direção: Christian Nyby
Roteiro: Charles Lederer, a partir de uma obra de John W. Campbell Jr.
Produção: Howard Hawks
Fotografia: Russell Harlan
Música: Dimitri Tiomkin
Edição: Roland Gross
Efeitos Especiais: Linwood G. Dunn; Donald Steward
Direção de Arte: Albert S. D'Agostino
Elenco: Margaret Sheridan (Nikki); Kenneth Tobey (Capitão Patrick Hendry); Robert Cornthwaite (Dr. Carrington); Douglas Spencer (Scotty); James R. Young (Lt. Eddie Dykes); Dewey Martin; Robert Nichols; William Self; Eduard Franz; Sally Creighton; James Arness


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