ASSOMBRAÇÃO

por Filipe Falcão

Procure se lembrar de seus piores pesadelos, seja os que possuem lógicas ou não, seqüências ou apenas conjuntos de imagens desconexas. Recorde daqueles mais obscuros, surreais e por que não dizer, visualmente chamativos e até belos. Pois será dentro desse universo onírico, quase sensorial, semelhante aos sonhos, que grande parte da ação de Assombração (Gwai wik, 2006), novo filme dos Irmãos Pang, acontece. O trabalho, que teve estréia nacional no último dia quatro de agosto, está dividindo opiniões com relação ao seu resultado graças a uma incomum, porém bem feita, união entre o terror e a poesia estética.
Achou confusa essa introdução? Pois é bom se acostumar, por que Assombração é, antes de tudo, um filme que não se preocupa muito com lógica ou em ter todas as perguntas respondidas. A produção é apresentada ao público como um conjunto de imagens, sensações e ações, que vão dando direcionamento para a história, mas que nem sempre vão gerar uma conclusão simples ou mesmo unitária diante da recepção das pessoas. O enredo de Assombração acompanha a rotina da escritora Chu Xun (Angelica Lee Sinje), que começa a produzir um novo romance, cujo tema abordado será o sobrenatural. Na medida em que começa a desenvolver o projeto, coisas estranhas começam a acontecer, como vultos misteriosos que aparecem. Nada muito novo ou original para os fãs do gênero, até que, durante uma dessas visões, a moça resolve seguir o tal espírito que está rondando-a e acaba indo parar em um estranho, perigoso e horrendo mundo, habitado por seres igualmente macabros.
Os irmãos chineses Oxide e Danny Pang ficaram conhecidos internacionalmente pelo filme The Eye – A Herança (Gin Gwai, 2002) e suas duas seqüências. Os trabalhos da dupla são caracterizados pelos já tradicionais fantasmas das produções vindas do oriente que assombram os vivos por motivos que são explicados no decorrer das tramas. No entanto, Assombração vai seguir um caminho diferente ao colocar uma pessoa real dentro de um mundo espiritual, ou que não é um plano físico, o que proporcionou para os diretores uma grande gama de possibilidades para serem trabalhadas, tanto de roteiro, como de estética.
O começo do filme não vai além do trivial, principalmente para quem está habituado com as produções de terror asiáticas, que desde a “descoberta” de O Chamado (Ringu, 1998), passaram a serem lançadas em território nacional. Nesta primeira parte da trama, a dupla de diretores consegue criar interessantes momentos de sustos, mas nada além do que já foi visto antes, principalmente nos trabalhos deles. Quem não se lembra das ótimas seqüências passadas dentro de elevadores nos três filmes da série The Eye? Pois Assombração também possui uma semelhante e igualmente interessante cena. De certa forma, é quase como se os irmãos estivessem preparando a audiência para a segunda parte da história.

E nesse quesito, a dupla foi extremamente feliz por ter conseguido levar a personagem, assim como o público, para esta estranha viagem dentro de um mundo tão diferente e assustador, mas ao mesmo tempo, próximo de cada um e rico esteticamente. Tal passagem do filme é semelhante a um conto de fadas gótico, quase como um Alice no País das Maravilhas bizarro. Com cores (ou falta delas) exageradas, os cenários deste estranho mundo são uma atração à parte, pela forma como foram concebidos: extravagantes, oníricos, obscuros e ao mesmo tempo, chamativos e capazes de despertar curiosidade e admiração, quase como uma poesia visual.
Deste bizarro local, destaca-se a rua inicial, repleta de casas abandonas e destruídas, na qual espíritos planam perseguindo Chu Xun. Aliás, tal forma de andar dos fantasmas é um efeito bastante simples, até mal feito, mas que funciona de forma positiva dentro da proposta do filme, fazendo de tal perseguição um dos momentos mais tensos da história. Um outro exemplo de como um lugar comum e bastante conhecido foi trabalhado em Assombração é um parque de diversões, que na trama, é localizado entre prédios. Nada nesta seqüência é feio ou bizarro, mas o contexto da cena cria uma morbidez implícita que incomoda personagem e público.
Merecem destaque também a ponte dos fantasmas, o corredor de fetos abortados, que gera um dos momentos mais angustiantes da trama, além do local para almas que foram esquecidas pelos parentes. Essa última seqüência possui uma plasticidade semelhante a um quadro em movimento, mesmo sendo uma das passagens mais obscuras. Um parêntese deve ser aberto para a trilha sonora que pontua de forma eficiente cada um dos momentos da história.

Com Assombração, os Irmãos Pang conseguiram retornar ao bom estilo de produzir filmes de terror. O termo “retornar” deve ser utilizado uma vez que o trabalho anterior da dupla, Visões 2 – A Vinganças dos Fantasmas (Gin Gwai 10, 2005) não foi muito bem recebido por apresentar uma história com teor cômico, o que acabou atrapalhando um bom desenrolar da interessante história. Em Assombração, eles desenvolvem um trabalho que, tomadas as devidas proporções, poderia dar para os irmãos o título de Akira Kurosawa do terror.

A dupla também repete a boa parceria com a atriz Angelica Lee Sinje, que já havia dado um banho de interpretação como a cega que, após um transplante de córnea, passa a ver espíritos no primeiro The Eye. Em Assombração, a personagem da atriz é uma moça séria, triste e focada no seu trabalho. Durante o desenrolar da trama, vamos descobrir os motivos que levaram a jovem escritora a ser tão desiludida com a vida. Sem parecer exagerada, a atriz consegue mesclar todo o pavor com a beleza e o drama que vão sendo apresentados durante os 108 minutos de filme.

Apesar das qualidades, Assombração periga de seguir caminho duvidoso junto a determinados grupos de fãs do gênero, pois o trabalho, apesar de original, tem um lado experimental, o que pode não agradar. E no caso do Brasil ainda existe o problema do título, que no inglês, ficou Reciclagem, bem mais de acordo com a temática abordada na trama. Com o nome de Assombração e a breve sinopse que é vinculada nos jornais, muitas pessoas podem ir assistir ao filme esperando que ele vá para o norte, quando de repente, segue para o sul. Para alguns, trata-se de uma qualidade, enquanto demais fãs vão ficar achando que perderam o dinheiro do ingresso.

Já o final do filme deixa um ar de mistério, o que pode levar cada pessoa a ter a sua interpretação própria do desfecho da personagem e até mesmo de toda a ação da trama. Aconteceu algo de sobrenatural? A escritora é louca? Quem realmente criou tudo aquilo? O que aconteceu com o fantasma que aparecia na casa dela no começo? Essas são apenas algumas das dúvidas que podem passar pela cabeça de fãs mais curiosos. Mas esse final, aberto para possibilidades de interpretação, não prejudica o filme nem a sua essência. A dica é não se prender a detalhes e aproveitar o todo.

Filipe Falcão


ASSOMBRAÇÃO (Gwai wik / Re-Cycle, Honk Kong/Tailândia, 2006). 108 minutos
Direção: Oxide Pang Chun; Danny Pang
Roteiro:Oxide Pang Chun; Danny Pang; Cub Chin; Sam Lung; Thomas Pang
Produção: Danny Pang; Oxide Pang Chun
Produção Executiva: Chiu Suet-ying; Daniel Lam
Fotografia: Decha Seementa
Música: Paymont Permsith
Edição: Danny Pang; Oxide Pang Chun; Curran Pang
Figurino: Dora Ng
Efeitos VIsuais: Fat Face Production
Elenco: Lawrence Chou (Lawrence); Siu-Ming Lau (homem velho); Angelica Lee (Tsui Ting-Yin); Rain Li; Jetrin Wattanasin; Qiqi Zeng (Ting-yu)


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