Realismo?
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Parece uma grande contradição que de tempos em tempos o cinema de horror/fantástico procure se aproximar de uma estética que poderíamos chamar de... realista. Lá nos idos anos setenta, filmes polêmicos como Aniversário Macabro (do diretor Wes Craven), Amargo Pesadelo (1972) e A Vingança de Jennifer (1978) eram fundamentados na exposição direta da violência. Não bastavam estupros, castrações ou mutilações para chocar o espectador; a estratégia exigia que a violência mostrada fosse visualmente verossímil, sem estilização e de preferência on-screen.
Alguns abusos e exageros, que beiravam o grotesco, resultaram no longametragem que tornou-se a marca do extremo desta estética hiper-realista: o sempre comentado Cannibal Holocaust (1979), dirigido pelo cineasta Ruggero Deodato. |
O controverso filme, o primeiro que se encaixaria no que chamamos hoje de mockumentary (um falso documentário ou uma ficção que finge ser real), seria editado a partir de algumas fitas que mostravam um grupo de jovens cineastas americanos que acabaram virando picadinho nas mãos de uma tribo de índios canibais, enquanto rodavam um documentário sensacionalista na Floresta Amazônica. A violência nesta produção italiana é exagerada, mesmo quando comparada aos filmes anteriores. Sequências explícitas, que incluem entre outras atrocidades canibalismo e empalamento, fizeram com que o filme fosse proibido em diversos países. Mas a grande inovação de Cannibal Holocaust ultrapassava os limites do cinematográfico: a estratégia de publicidade espalhava aos quatro cantos que as imagens apresentadas no filme seriam verdadeiras. E por mais improvável que pareça, muitos acreditaram. Processos, censuras, cortes, proibições, críticas e acusações fizeram com que Cannibal Holocaust recebesse merecidamente o honroso título de maldito; enquanto isso seus produtores o anunciavam, orgulhosos, como o filme de horror definitivo.
Curiosidade: sabe qual foi o primeiro mockumentary do qual temos notícia? Na verdade não foi um filme, mas sim um programa de rádio. Nos anos 40, o cineasta Orson Welles transmitiu via rádio uma adaptação da obra Guerra dos Mundos, do escritor H. G. Wells. O problema é que Welles narrou uma invasão marciana ao planeta Terra em forma de noticiário, como se tudo realmente estivesse acontecendo. O resultado? Em Nova York, os postos dos bombeiros, da polícia, os jornais e os hospitais foram invadidos por uma multidão. Em Newark, 50 mil pessoas fugiram enquanto outras dezenas se suicidaram. Mentira? Exagero? O certo é que o futuro diretor de Cidadão Kane já dava pequenas amostras de sua genialidade, ainda que de uma maneira uma tanto irresponsável.


Exatamente duas décadas depois de
Cannibal Holocaust, os amigos
Daniel Myrick e
Eduardo Sanchez repaginariam a estratégia falso documentário, com o auxílio de uma ferramenta então revolucionária: a internet. Para promover
A Bruxa de Blair (1999) – que rapidamente ficaria conhecido como um dos maiores fenômenos de bilheteria e de marketing - os jovens diretores disseminaram pelo mundo virtual informações sobre um curioso filme editado a partir de... adivinhem... fitas de vídeo, desta vez encontradas em uma floresta de Maryland. Nelas estaria gravado o trágico destino de três estudantes de cinema que desapareceram enquanto rodavam um documentário sobre a bruxa do título. A estratégia mãe de todos os virais foi um enorme sucesso e, novamente, milhares de espectadores incautos fizeram filas nas portas dos cinemas, acreditando que o filme mostrava imagens reais. Ainda que o enredo de
A Bruxa de Blair enfoque o sobrenatural e ignore a violência tão explorada em
Cannibal Hollocaust, o realismo está presente de um modo melhor explorado que neste último: a chamada câmera em primeira pessoa, tremida, por vezes fora de foco, imitando um vídeo amador.
Mais recentemente outras produções experimentaram desta mesma estética documental. A melhor sucedida dentre elas é o espanhol
[REC], de 2007. Na película dirigida por
Jaume Balagueró e
Paco Plaza, vemos o que seriam as imagens captadas por uma equipe de televisão que teria flagrado o desespero dos moradores de um edifício contaminado por um vírus que enlouquece suas vítimas. Os elogios da crítica e do público atraíram a atenção dos mega-produtores americanos. Sem perder tempo compraram os direitos de refilmagem e em menos de um ano lançaram no mercado internacional
Quarentena (2008), versão remake-fast-food de
[REC]. Outra produção nos mesmos moldes lançada também em 2008 foi o literalmente arrasa-quarteirões
Cloverfield. Na produção de
J. J. Abrams (criador da série
Lost), o pânico dos habitantes de uma Nova York arrasada por um monstro gigantesco é registrado pela câmera de um dos sobreviventes.


Chegamos então ao objeto deste artigo,
Atividade Paranormal, uma das produções mais lucrativas e comentadas de 2009. Sensação entre os fãs do gênero, o longametragem explora todo o conjunto de conceitos discutido até aqui, que mesmo não sendo mais uma grande inovação, garante muitos comentários, sejam contra ou a favor.
Acredite quem quiser: muito marketing, algumas verdades e sucesso garantido.
Enquanto os blockbusters fazem questão de ostentar orçamentos milionários, outras produções pecam pela falsa modéstia. Segundo os dados oficiais divulgados pelos distribuidores,
Atividade Paranormal teria custado a bagatela (um tanto suspeita) de US$ 15 mil (menos de R$ 40 mil). O porquê da desconfiança? Pensemos. O já citado – várias vezes, diga-se de passagem -
A Bruxa de Blair (a produção mais rentável da história do cinema), custou quatro vezes mais, cerca de US$ 60 mil (e arrecadou US$ 250 milhões). Portanto, assim como é inevitável a comparação entre estes dois filmes, é também inevitável a campanha para que
Atividade Paranormal supere
A Bruxa de Blair. No entanto, é indiscutível o fato de que até o momento em que este artigo é escrito,
Atividade Paranormal mantém-se firme entre as produções mais vistas em solo americano (há pelo menos 6 semanas), ultrapassando os US$ 100 milhões em bilheteria e deixando para trás concorrentes de peso como
Jogos Mortais 6 (2009). Tudo indica que
Atividade Paranormal se tornará o novo filme mais lucrativo da história, roubando o título orgulhosamente exibido há mais de uma década por
A Bruxa de Blair.

Atividade Paranormal só foi distribuído comercial e internacionalmente depois de dois anos de exaustivas exibições em pequenos festivais ao redor do mundo. O percurso entre revelação do cinema independente em mostras dedicadas ao gênero (entre elas o
Screamfest,
Slandance e
Telluride) até fenômeno distribuído por um grande estúdio – a
Paramount – é recheado de histórias que, verdadeiras ou falsas, não deixam de ser bizarras.
O estreante
Oren Peli – nascido em Israel, ex-desenvolvedor de jogos eletrônicos - afirma ter escrito o roteiro de
Atividade Paranormal inspirado em acontecimentos não apenas reais, mas por ele mesmo vivenciados. Ao mudar-se para um novo imóvel, ruídos sem explicação natural deixaram o cineasta israelense intrigado. Foi então que teve a ideia de instalar câmeras e registrar em imagens seja lá o que fosse o causador dos barulhos. Obviamente ele não instalou câmera nenhuma, nem registrou fantasma algum. Mas tomou a decisão acertada que lhe garantiria muito dinheiro e algumas portas abertas em Hollywood. Depois de realizar pesquisas exaustivas sobre assombrações, fenômenos sobrenaturais e demonologia, escreveu um roteiro, economizou alguns dólares e resolveu rodar um filme. Para não estourar o orçamento, Peli usou um imóvel velho de sua propriedade como cenário, escolheu dois atores ainda desconhecidos e filmou – em apenas uma semana, é bom lembrar -
Atividade Paranormal.
Oren Peli revela também que a concepção dos diálogos entre o casal protagonista foi o mais natural possível, e que ele teria usado uma técnica chamada
retroscripting, onde os atores improvisam o diálogo na hora, vivenciando os acontecimentos como se fossem reais (procedimento similar ao que já havia sido usado em
A Bruxa de Blair).

Do nada ao topo
A trajetória de
Atividade Paranormal teve início em pequenos festivais e mostras dedicadas ao gênero, onde Peli entregava cópias do filme à potenciais distribuidores. Foi numa destas situações que a cópia acabou nas mãos do então figurão da
Miramax,
Jason Blum, que ironicamente havia rejeitado o projeto
Bruxa de Blair, dez anos antes. Com medo de repetir a mesma burrada, correu desesperadamente atrás de apoio para distribuição para o filme.
Blum entregou um DVD com uma cópia do filme para outro grande executivo da indústria do cinema, o nosso amigo
Steven Spielberg. Passado alguns dias, demonstrando a sensibilidade artística que lhe é característica, o criador de
Indiana Jones devolveu o filme dentro de um saco de lixo.
Diz a lenda que, semelhante ao que acontece no roteiro de
Atividade Paranormal, a porta do quarto onde Spielberg dormia fechou e travou misteriosamente. Foi necessário chamar um marceneiro para destravar a porta e liberar o cineasta, que imediatamente mudou de ideia, autorizando a compra dos direitos para uma refilmagem, que seria produzida por Bloom e dirigida pelo próprio
Oren Peli.
O tempo passa, crise mundial vem, crise vai, os direitos da refilmagem vão para a
Paramount, que rompe com a
Dreamworks do Spielberg. Entre tantos percalços, abandonam a ideia do remake e resolvem lançar o original, para sorte de todos (inclusive a nossa).


E os boatos continuam se misturando a realidade. Durante a exibição de teste, diversas pessoas teriam saído durante a sessão, não suportando a atmosfera de medo e horror criada pelo filme. Pelo menos esta informação tem pouco cabimento, já que as cenas mais pesadas só vão acontecer próximas ao final do filme.
Passada a fase de mostras e festivais, a estratégia de distribuição adotada pela
Paramount procurou fugir dos padrões hollywoodianos. As treze primeiras sessões aconteceram em cinemas localizados em regiões universitárias, sempre à meia noite. A intenção dos produtores era criar uma atmosfera de mistério em torno do filme.
Outra inovação - que também vai em oposição ao modo como os estúdios norte-americanos distribuem seus filmes - foi evitar a estreia numa única data. Apostando do potencial do produto, a
Paramount resolveu lançar
Atividade Paranormal de forma segmentada, deixando o filme escasso a princípio, estimulando a curiosidade dos espectadores e garantindo uma
“procura maior do que a oferta”. Para efetivar a distribuição, o estúdio utilizou uma ferramenta virtual chamada
Eventful.com. A ideia deste site é simples, mas eficiente: um grupo de pessoas que tem interesse que um espetáculo cultural inédito seja apresentado em sua cidade cria um evento (uma espécie de abaixo-assinado) e compartilha com os amigos. Que compartilham com os amigos deles. E assim por diante. Este mapeamento foi utilizado para escolher as cidades onde
Atividade Paranormal seria apresentado primeiro, convocando os internautas interessados a se manifestarem.

Enfim, graças a todo este marketing estratégico de distribuição, que custou mais de US$ 10 milhões a
Paramount, a bilheteria de
Atividade Paranormal seguiu um caminho exatamente inverso ao da maioria das produções lançadas no mercado americano: em vez de cair com o passar do tempo, aumentou semana após semana. O longametragem estreou em apenas 12 salas na quadragésima oitava posição no ranking dos mais vistos; depois de cinco semanas alcançou o topo das bilheterias, com mais de duas mil cópias distribuídas.
O espectador mais atento vai notar ainda uma grande semelhança (proposital, lógico) entre o trailer de
Atividade Paranormal e o da produção espanhola
[REC]. Ambos intercalam cenas do filme com reações de medo e nervosismo da plateia.
Enfim, o filme. Uma releitura, mas com muitos méritos.
Um dos grandes méritos de
Atividade Paranormal é a simplicidade, tão irresistível quanto funcional, do roteiro escrito por
Oren Peli. No entanto, engana-se quem pensa o longa é apenas mais um filme de casa mal-assombrada. A trama narra o caso de
Katie Featherstone, uma jovem que acredita ser perseguida por uma entidade sobrenatural desde criança. Nada muito perigoso, apenas ruídos durante a noite e alguns pesadelos. A situação se complica quando o marido,
Micah Sloat, resolve instalar uma câmera dentro do quarto. Inicialmente cético, ele acaba obcecado em flagrar em vídeo a evidência de uma
“atividade paranormal”. Esta compulsão irracional parece potencializar as pequenas e inexplicáveis ocorrências, que pouco a pouco fogem do controle. A engenhosidade do roteiro consiste exatamente na sobriedade; não há sangue, nem efeitos mirabolantes (até porque o orçamento não suportava), ou muito menos as hoje costumeiras - e muitas vezes artificiais - reviravoltas de enredo (o famoso final
“surpresa”).

Atividade Paranormal segue a risca a eficaz cartilha sobre a construção do suspense em forma crescente. Portanto, alguns podem se incomodar com falta de ação no começo do filme. E até mesmo os mais entusiastas têm que admitir, aparentemente nada acontece durante os primeiros quarenta minutos de filme. Mas é este nada a preparação, lenta e quase imperceptível, para os tensos minutos finais. O horror é gradativo: ruídos, luzes que se apagam, lustres que balançam, vozes que sussurram, até o inevitável desfecho: (obviamente ainda não entregaremos o final de
Atividade Paranormal). Outra grande sacada do roteiro é explorar o momento em que nos mostramos mais vulneráveis, ou seja, a hora em que estamos dormindo (você faz ideia do que acontece em sua casa enquanto você dorme?).
O elenco é reduzido ao casal protagonista, interpretado com muito empenho pelos novatos
Micah Sloat e
Katie Featherston. Desnecessário lembrar que a estratégia de usar nos personagens os mesmos nomes dos atores não é nenhuma novidade. Só para exemplificar, a mesma técnica também já havia sido usada em
A Bruxa de Blair.
o filme dentro do filme
(nível de SPOILERS: médio)
Uma surpresa interessante, que não implica necessariamente numa grande reviravolta, mas que sem dúvida amplifica o efeito
“medo” no espectador, é a revelação da fonte dos eventos sobrenaturais. Em vez das esperadas assombrações, o grande vilão da história é um demônio, que como é revelado durante a trama, se alimenta de energia negativa e acompanha Katie desde a sua infância.
Intrigado, Micah pesquisa na internet supostos casos de possessão demoníaca. O resultado é bem mais assustador que o pesadelo vivenciado pelo casal (pelo menos até aquele momento): um vídeo mostra o exorcismo de uma jovem possuída que literalmente devora os braços, numa cena um tanto perturbadora.

as três Atividades
(nível de SPOILERS: MÁXIMO)
A primeira versão de
Atividade Paranormal, que foi enviada por
Oren Peli aos possíveis distribuidores comerciais do filme - e que acabou vazando na internet - é um pouco diferente do corte que está sendo exibido nos cinemas. Dos 97 minutos originais sobraram apenas 86. Dentre as várias cenas que foram cortadas, destaca-se na versão teatral a ausência da sequência em que Micah encontra num site o vídeo da menina possuída que mastiga os próprios braços. Outra diferença capital é o desfecho totalmente
“comercializado” utilizado na versão final.
Desfecho 1.0: o corte original.
No vigésimo primeiro dia após o início dos eventos sobrenaturais, Katie acorda no meio da noite, levanta-se, por alguns momentos encara o marido que dorme profundamente. Como uma sonâmbula, desce até andar inferior. Pouco depois, Micah salta da cama ao ouvir os gritos da esposa. Tudo o que vemos são as imagens fixas da câmera instalada no quarto. O marido deixa o quarto desesperado atrás de Katie. Em off, ouvimos novos gritos que denunciam uma briga ou algo parecido. Silêncio. Minutos depois, Katie retorna ao quarto, ensanguentada e carregando uma faca. Ela senta-se ao lado da cama, e ali permanece, em estado catatônico, durante mais de um dia (vemos pelo tempo marcado na câmera). Ouvimos então Amber, amiga do casal, batendo a porta, depois a polícia invadindo a casa e os comentários quando encontram o corpo de Micah. Os policiais sobem até o quarto e encontram Katie ainda em transe. Em estado de choque ela resiste em largar a faca e acaba baleada pelos políciais. Sobe então os créditos e ouvimos o áudio dos rádios da polícia comentando que descobriram as imagens que foram gravadas no local do crime.
Desfecho 2.0: o corte teatral.
Enquanto no original chegamos a uma conclusão natural do acontecido, o desfecho que foi para os cinemas desnecessariamente explica melhor as coisas. Após retornar ao quarto depois de matar o marido, Katie arremessa algo em direção a câmera, que cai (a partir deste momento vemos as imagens inclinadas). Ela rasteja - numa sequência a la Sadako – dá um sorriso, e então, numa tentativa de assustar o espectador, ataca a câmera. Um texto explica então o que acontece a seguir:
o corpo de Micah foi encontrado pela polícia dia 11 de outubro de 2006. O paradeiro de Katie continua desconhecido.
Fica claro que alteraram o final do filme apenas para criar um gancho para uma continuação (que já foi anunciada para 2012). Previsível, não?
Desfecho 3.0: o final que ninguém viu.
Segundo o diretor
Oren Peli, existiria ainda outra versão, que teve apenas uma exibição pública. Neste suposto corte, Katie, quando retorna ao quarto, caminha em também em direção a câmera e acaba cortando a própria garganta.
Qual desfecho seria o melhor? O oficial parece americano demais, muito explicado e com um
“susto” extremamente forçado, que destoa da abordagem realista apresentada no restante do filme. A segunda versão disponível na internet (ilegalmente, mas disponível) é mais interessante e mais natural. Já a terceira versão chama atenção por apresentar um desfecho mais violento e explícito. Enfim, o que esperamos é que, depois do sucesso comprovado nos cinemas, o lançamento em DVD/BD traga entre o material extra todas as três opções.
os ecos de Atividade Paranormal
Ainda que seja um exagero as críticas espalhadas em sites gringos especializados no gênero, como
“o filme mais assustador de todos os tempos" ou
"inacreditável”, o que é incontestável é que
Atividade Paranormal arrastou uma multidão de americanos aos cinemas. O resultado, além da continução anunciada, foi um up na carreira do estreante
Oren Peli. O cinesta assume a direção de
Área 51. A produção, de U$ 5 milhões, utiliza a mesma estética que assegurou parte do êxito de
Atividade Paranormal. Desta vez são encontradas gravações
“reais” que mostram as imagens de um grupo de jovens que localizaram e invadiram uma base militar secreta onde estaria escondido um OVNI.


O sucesso de
Atividade Paranormal refletiu também nas decisões dos produtores da
Showcase Entertainment, que alterou o nome do terror
Walking Distance para
Experiment Activity (
Atividade Experimental, em sua tradução literal). O marketing não foi assim tão gratuito, já que a atriz
Katie Fatherston (de
Atividade Paranormal) também está no elenco da produção.
Finalmente, mesmo não sendo revolucionário,
Atividade Paranormal é uma produção no minímo intrigante, cercada de histórias extra-cinematográficas, e com uma execução extremamente competente.
Uma boa dica, caso não aproveite a oportunidade de asssistir nos cinemas - sou adepto da ideologia no cinema é sempre mais gostoso - é assistir sozinho, de madrugada e com as luzes apagadas. Mas isso só se tiver muita coragem.
João Pires Neto
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Em 1999, quando os virais ainda estavam em baixa e a internet não era tão usada para a publicidade, apareceu um filme no horizonte que custando somente 60 mil arrebatou a audiência rendendo quase 250 milhões de dólares no mundo inteiro. Este filme era intitulado A BRUXA DE BLAIR.
Em 2009, com ainda menos dinheiro disponível e muito apelo internético um outro filme consegue um fenômeno tão grande quanto - talvez até maior. Custando a mixaria de 15 mil dólares - o que não paga nem o cocô do cavalo do bandido em um filme de Roland Emmerich - esta produção já ultrapassou a barreira dos 100 milhões em bilheteria somente nos Estados Unidos (ver quadro no final do artigo). Claro que estamos falando do mais novo meme do cinema de horror, o thriller ATIVIDADE PARANORMAL. Chegando ao Brasil dia 4 de dezembro e já rodando em diversas pré-estreias ao redor do país, o filme é efetivamente uma revelação, um exercício de simplicidade, suspense e tensão jamais visto |
nos últimos 10 anos desde, sei lá, A BRUXA DE BLAIR.
A comparação com a referida produção é oportuna e não só na premissa simples e no movimento do público através do boca a boca em torno dele, mas também por toda a história envolvendo a chegada do filme aos cinemas. Em sua época A BRUXA DE BLAIR abusou de sua característica documental para se promover e deu muito certo, as pessoas acabavam tomando a história como se realmente tivesse acontecido; e algumas até chegavam a investigar o paradeiro de seus realizadores.
Com a internet ainda mais acessível atualmente fica muito difícil você enganar o público desta maneira. ATIVIDADE PARANORMAL nunca se vendeu como real e qualquer mané que conheça o Google pode constatar isso no primeiro clique, assim um movimento reverso aconteceu para que a película se tornasse este fenômeno que vemos hoje: as pessoas pediram para ser assustadas.


O diretor de primeira viagem e ex-desenvolvedor de jogos eletrônicos,
Oren Peli, sempre teve medo de fantasmas; em uma entrevista declarou que teve medo até do filme
CAÇA-FANTASMAS, e - como 99% dos diretores de horror que fizeram grande sucesso no mainstream -, pensou que usar este medo para apavorar o público do cinema seria bem lucrativo.
Passou cerca de um ano poupando os valiosos 15 mil dólares do orçamento e preparando sua própria casa para rodar
ATIVIDADE PARANORMAL. Neste período, Peli realizou extensivas pesquisas sobre fenômenos paranormais e demonologia. A opção de trocar o manjado antagonista fantasma no filme por um demônio saiu fruto destas pesquisas. Depois de testar uma série de atrizes e atores para o
"elenco", o diretor começou as filmagens e impôs a si mesmo um cronograma de somente 7 dias com o filme sendo editado durante os intervalos das filmagens e os efeitos adicionados tão logo a cena estivesse terminada.


Depois de terminado, Peli assinou com uma agência e conseguiu exibir o filme na
Screamfest Horror Film Festival de 2007 (evento considerado a
Sundance do horror). Nesse festival foram oferecidos DVD's com o filme para potenciais distribuidores. Fatalmente um destes DVD's chegou nas mãos do executivo sênior da produtora
Miramax Films,
Jason Blum, e seu parceiro
Stevem Schneider.
Com um pouco mais de apoio, o diretor realizou uma edição diferente da exibida na
Screamfest para torná-lo mais tenso e delicado. Contudo o festival de
Sundance não aceitou a submissão do filme e apesar de ter conseguido emplacar no festival de
Slamdance, nenhum distribuidor ainda havia se interessado em levar a película para o grande público.
No ano seguinte, o DVD parou na porta da
Dreamworks e seu executivo de produção,
Ashley Brooks, ficou tão impressionado que perturbou constantemente seu chefe,
Adam Goodman, enquanto não assistisse ao filme. Este, depois de conferir o material, entregou pessoalmente o DVD para
Steven Spielberg também assistir.


Spielberg retornou à
Dreamworks no dia seguinte com o DVD em um saco de lixo, pois pensou que o DVD era assombrado. Segundo o diretor, minutos depois de ter assistido, as portas de seu quarto se trancaram sozinhas e ele não conseguiu sair enquanto não chamou um chaveiro. A despeito disso, Spielberg adorou o filme e deu sinal verde para que se realizasse um remake, que seria produzido por
Jason Blum e dirigido pelo próprio
Oren Peli.
A
Paramount Pictures adquiriu os direitos do filme e de potenciais sequências por 300 mil dólares - um ótimo negócio para ambos até o momento, contudo sem saber o que fazer com o filme original. A intenção inicial da distribuidora era lançá-lo como um extra do DVD do remake para que o público o conhecesse. Todavia, durante as negociações, Blum e Peli conseguiram uma exibição teste dentro do contrato para que eles testemunhassem as reações do público. Como parte do acordo,
Adam Goodman chamaria diversos roteiristas para esta exibição com o objetivo de subsidiar ideias para o roteiro da refilmagem.
Nesta exibição aconteceu uma situação inusitada: várias pessoas saíram da sala no meio do filme, o receio de Goodman era que o negócio feito se transformasse numa bomba, porém o produtor constatou que estas pessoas abandonaram a sessão pelo simples medo de permanecer na sala do cinema. Desta forma, Goodman impediu a produção do remake (amém) e decidiu distribuir o original de Peli com um novo final, sugerido pelo diretor
Steven Spielberg.

ATIVIDADE PARANORMAL deveria ter sido lançado ainda em 2008, contudo ficou engavetado devido a uma rixa entre as ex-parceiras
Dreamworks e
Paramount. Enquanto a película estacionava no limbo, Blum e Peli venderam os direitos internacionais para 52 países (no Brasil será distribuído pela
Playarte), nesse interim, o boca a boca foi se formando.
Em 25 de setembro de 2009, a
Paramount decidiu fazer um lançamento em 13 cidades dos Estados Unidos e em doze delas a exibição teve todos seus ingressos vendidos. Em seu site, o diretor pediu que os usuários da internet demandassem exibições do filme em suas cidades e até o dia 3 de outubro, 33 exibições foram feitas e já haviam rendido meio milhão de dólares.
No dia 6 de outubro a
Paramount anunciou que caso a quantidade de demandas chegassem a 1 milhão um lançamento em grande escala nos Estados Unidos seria realizado. Foi preciso somente 4 dias para o marcador chegar neste número. O lançamento no circuito foi marcado para 16 de outubro e o número de salas foi expandido na semana seguinte, chegou ao número 1 da bilheteria no fim de semana do dia 23, batendo com folga
JOGOS MORTAIS 6, que custou 733 vezes mais.

E o heap se justifica e engana quem pensa que é só mais um de cinema
“pseudo-verdade”,
ATIVIDADE PARANORMAL é o melhor filme de suspense do ano e um dos melhores filmes de assombração da era moderna: um exercício de tensão e de manipulação das sensações do espectador que chega as raias do genuíno medo, além de ser muito divertido, é claro. E aqui deixo uma ressalva, eu não assisti o trailer - especialmente depois que me falaram que o final estaria contido nele, igual aconteceu com
QUARENTENA - jamais procurei saber notícia nenhuma sobre a produção e evitei spoilers como um vampiro foge da cruz. Obviamente não serei eu o estraga prazeres que irá entregar os segredos de
ATIVIDADE PARANORMAL, portanto podem continuar lendo sem medo algum.
A história é tão simples que de fato não havia um roteiro, todas as falas foram improvisadas. Segundo Peli esta atitude foi tomada para aumentar a autenticidade do projeto com a naturalidade das conversas entre os personagens, ao invés disso havia somente o contexto das conversas e os diálogos fluíam a partir daí.
O filme se passa no ano de 2006 e acompanhamos a história do casal de namorados Katie (
Katie Featherston) e Micah (
Micah Sloat) em sua casa. Katie sofre com distúrbios paranormais periódicos desde que tinha 8 anos, provavelmente atormentada por um fantasma. Com o objetivo de documentar as aparições, Micah compra uma câmera para registrar os eventos que sempre ocorrem durante o sono do casal.

No primeiro dia das gravações eles recebem a visita de um psíquico, Dr. Fredrichs (
Mark Fredrichs), que afirma, baseado na análise das vibrações, nas características das
"aparições" e de uma entrevista com Katie que a entidade que a está perseguindo provavelmente é um demônio e recomenda um demonologista para que a auxilie. Relutante e cético, Micah tenta calçar sua teoria antes de recorrer ao demonologista. Mas noite após noite os eventos vão tomando formas cada vez mais assustadoras...
E chega... Na verdade mesmo que eu pretendesse entregar surpresas não poderia ir muito além desta curta sinopse, pois muito pouco do mistério é revelado, somente pistas do que acontece são especuladas, porém nunca esclarecidas. Desta forma é só tentar imaginar todas as possibilidades do quadro apresentado e se deixar levar pela história que, lenta e gradativamente, a cada madrugada na vida do casal, vai esgotando os nervos do espectador até o minuto final que, se não surpreendente, é um dos mais inesperados do cinema de terror atual - detalhe, sem mostrar uma única gota de sangue.
Tenho que fazer uma confissão, ao final da produção estava quase desviando o olhar do que se desenrolava na tela (sim, sou um pouco cagão ainda) e no término fiquei totalmente vendido, satisfeito com o que vi e a um passo de ter uma noite de sonhos tumultuados. Penso que na segunda vez que for assistir os sustos ainda me afetem da mesma forma, pois em
ATIVIDADE PARANORMAL você sabe que algo vai acontecer, você sabe que vai ser assustado mesmo com a câmera estática focalizando a cama do casal em um silêncio tétrico, contudo não sabe quando e cai todas as vezes. E nada de gatos e saltos de música, aqui os sustos são honestos e com todo um contexto de tensão, simples assim.

E é aqui onde o diretor acerta mais: por mais que você não queira, a falta do fator blockbuster (rostinhos de atores conhecidos, trilha sonora, diálogos com frases de efeito, créditos de abertura e encerramento) torna a experiência uma coisa muito mais condizente com a realidade do público, afinal, como você sabe que a porta do seu quarto não se fecha sozinha enquanto você dorme?
A escolha dos protagonistas reforça este conceito: Katie não é uma mulher bonita no conceito hollywoodiano e é até gordinha (sem preconceito, por favor); Micah é um rapaz bonachão relaxado com o asseio e a assepsia. Fico imaginando que se esta refilmagem planejada efetivamente saísse e os protagonistas fossem
Tom Cruise e
Nicole Kidmann, a história seria completamente diferente.
Na minha avaliação a película não leva nota máxima por dois motivos. Primeiro, uma característica que incomoda, mas não atrapalha: o roteiro se desenrola totalmente dentro da casa do casal Micah e Katie. Embora isso ajude na construção da atmosfera opressora e claustrofóbica que a produção imprime, é uma solução de roteiro pouco provável que jamais sejam mostradas tomadas externas ou mesmo o relacionamento dos vizinhos. Tirando uma visita de uma amiga de Katie (interpretada por
Amber Armstrong), a vida social dos protagonistas é praticamente nula e os diálogos, por serem improvisados, acabam as vezes repetitivos. O desenrolar também é lento e sutil, podendo desagradar as pessoas que curtem um pouco mais de ação no decorrer da trama.

E segundo e principal, o próprio personagem de Micah. Não posso entrar em detalhes neste momento, todavia fica difícil entender as razões de seus atos e de suas oscilações de atitudes: se por um lado a veia investigativa dele fale mais alto para esclarecer o problema é estranho ele trair tantas vezes a confiança da namorada, servir de alívio cômico nas horas erradas e ter atitudes tão céticas ante as evidências dos acontecimentos que ocorrem na casa onde moram.
Ademais não posso encontrar outra forma de elogiar a produção senão recomendar fortemente que os leitores do
Boca do Inferno procurem o cinema mais próximo para testemunhar um novo fenômeno do cinema de horror, pois
ATIVIDADE PARANORMAL merece cada centavo dos 100 milhões de dólares que já arrecadou - e a
Paramount já encomendou uma continuação a ser lançada em 2012. Nada de baixar da internet, meus amigos, é no escuro do cinema com um sistema de som decente que se pode aproveitar cada momento da produção e desfrute totalmente desta nova sensação do horror mundial.
OS FINAIS ALTERNATIVOS
ATENÇÃO: Spoilers adoidados neste bloco, portanto não recomendada a leitura até que se tenha assistido a versão de cinema de ATIVIDADE PARANORMAL.
Essa versão de
ATIVIDADE PARANORMAL não possui o mesmo encerramento como planejado pelo diretor e roteirista
Oren Peli. Como já citado anteriormente,
Steven Spielberg sugeriu a versão atual e um novo corte foi efetuado, com menos cenas com a
"possuída" Dianne, sem o ataque durante o dia e sem a cena das chaves no chão da cozinha.

A versão
"beta", que foi apresentada primeiramente nos festivais e enquanto estava em circuito limitado, é totalmente diferente e os sustos são menos frequentes. Mas vai além disso, um terceiro final foi apresentado em pelo menos uma oportunidade e, com a declaração do diretor que 70 horas de filmagens foram geradas e que vários finais foram realizados para que o diretor avaliasse as opções, é provável que outros possam aparecer. Ambas as versões conhecidas até o momento estão descritas abaixo.
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O Final Original: Diferente da versão de cinema: durante a última madrugada Katie se levanta da cama e fita Micah por cerca de três horas, porém sem se mover para seu lado da cama e sem o lençol ser movido. Katie desce as escadas e grita, Micah corre para baixo e é ouvido um barulho pesado de passos na escada (até então igual ao final de cinema). Katie segura uma faca e está coberta de sangue - o corpo de Micah não aparece em cena - ela então se senta e se balança por cerca de dois dias, ignorando as campainhas e os telefonemas. Eventualmente uma amiga aparece e encontra o corpo de Micah (lembrando que a câmera permanece no quarto), ela grita e corre da casa. Vinte minutos depois um policial adentra a casa e depois de fazer uma busca no primeiro andar aparenta que o demônio saiu do corpo de Katie, mas ela ainda segura a faca, vemos a luz no sótão se acender e apagar e a garota aparenta estar transtornada e confusa gritando pelo nome de Micah. A porta do sótão se fecha abruptamente e o policial atira assustado em Katie matando-a.
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O Terceiro Final: Aproveitando um gancho deixado no meio do filme - em que Micah faz um gesto com uma faca dizendo que qualquer problema que estiver acontecendo, ele tomará conta - depois que Katie mata Micah com a faca, ela sobe as escadas com a faca na mão e corta seu próprio pescoço em frente da câmera (mas sem olhar diretamente para ela). Um desfecho bem mais depressivo.
SUCESSOS DE BILHETERIA EM PROPORÇÕES PARANORMAIS
Até o momento de fechamento deste artigo,
ATIVIDADE PARANORMAL já havia arrecadado mais de 104 milhões de dólares só nos Estados Unidos, ou seja, rendendo quase 7 mil vezes o seu custo de produção, este é comprovadamente o filme mais lucrativo (em relação ao investimento) da história da sétima arte e certamente se propagará ainda mais no mundo. Como terror, baixo orçamento e renda elevada são parceiros no crime, confira abaixo os maiores lucros da história em ordem de proporção. Não estão considerados os custos com publicidade, mas tão somente o orçamento do filme.

O Filme: A BRUXA DE BLAIR (The Blair Witch Project, 1999)
Orçamento: US$ 35.000
Bilheteria Mundial: US$ 248,3 milhões
Retorno de: 7094 vezes
O Filme: A NOITE DOS MORTOS VIVOS (Night of the Living Dead, 1968)
Orçamento: US$ 114.000
Bilheteria Mundial: US$ 30 milhões
Retorno de: 263 vezes
O Filme: O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA (The Texas Chainsaw Massacre, 1974)
Orçamento: US$ 140.000
Bilheteria nos Estados Unidos: 30,8 milhões
Retorno de: 220 vezes
O Filme: HALLOWEEN (Halloween, 1978)
Orçamento: US$ 325.000
Bilheteria Mundial: US$ 70 milhões
Retorno de: 215 vezes

O Filme: SEXTA-FEIRA 13 (Friday the 13th, 1980)
Orçamento: US$ 550.000
Bilheteria Mundial: US$ 59,75 milhões
Retorno de: 108 vezes
O Filme: MAR ABERTO (Open Water, 2003)
Orçamento: US$ 500.000
Bilheteria Mundial: US$ 52,1 milhões
Retorno de: 104 vezes

O Filme: JOGOS MORTAIS (Saw, 2004)
Orçamento: US$ 1,2 milhões
Bilheteria Mundial: US$ 103,1 milhões
Retorno de: 86 vezes
O Filme: A MORTE DO DEMÔNIO (The Evil Dead, 1981)
Orçamento: US$ 375.000
Bilheteria Mundial: US$ 29,4 milhões
Retorno de: 78 vezes
Gabriel Paixão