AUDITION

por André ZP

Atenção! O texto contém spoilers. Somente leia se quiser saber detalhes sobre o filme

A vida é engraçada. Todos ficam endeusando aberrações cinematográficas como “Cidade de Deus” (“é Brasil no Oscar, uhuuu!”), que bota arma em mão de criança pra “chocar”. Enquanto isso, um cinema realmente transgressor é feito no oriente, mais precisamente no Japão - curiosamente, um país conhecido por uma sociedade tradicional e moralista. O cinema deles, porém, está bem longe disso. Além de ter mostrado ao mundo o gênio Kurosawa, teve nos anos 90 uma geração de cineastas ousados e talentosos, como o Shinya Tsukamoto de “Tetsuo”, e Takashi Miike, deste “Audition”.



Audition” (ou, no original, “Odishon”, de 1999) conta a história de Shigeharu Aoyama (o ex-"rock star" japonês (!) Ryo Ishibashi), um homem de meia-idade que é viúvo e cuida do filho adolescente. A partir do momento em que o filho começa a interessar-se por garotas, ele sugere ao pai que volte a se casar e deixe de ser uma pessoa solitária. Shigeharu, que havia perdido a mulher há sete anos, percebe que talvez seja realmente a hora de voltar a apaixonar-se e ter novamente uma companheira.

E para tanto, combina com um amigo, que trabalha com cinema, a fazerem uma audição (ou como é mais chamado por aqui, um teste de atores) para um filme que não existe. Assim, Shigeharu poderá escolher, entre diversas candidatas, aquela que irá tentar conquistar. Ele acaba se interessando por Asami Yamazaki (a estonteante modelo nipônica Eihi Shiina), uma garota de frágil beleza, rosto inocente e com um triste passado (foi obrigada a desistir do balé após um acidente). Eles começam a sair, e Shigeharu decide que aquela será a sua nova esposa. Após levá-la até um quarto de hotel, onde ela lhe mostra cicatrizes na perna que diz ter a ver com seu passado, eles fazem amor pela primeira vez. Até aí foram cerca de 70 minutos de filme, que se iniciou como um melodrama (na seqüência inicial da morte da esposa de Shigeharu) e desenvolveu-se como um belo e triste romance.

Mas espera um pouco: quem é esse tal Takashi Miike, que dirigiu o filme?



Trata-se de um incansável cineasta japonês de 42 anos que, em pouco mais de 10 anos de carreira, dirigiu mais de 50 trabalhos, incluindo filmes, minisséries para TV e vídeos. Um sujeito que não se importa em fazer filmes extremamente violentos e radicais para, logo depois, dirigir um musical. Portanto, não era possível que “Audition” seria apenas mais um drama romântico.

Voltando ao filme: após levá-la até um quarto de hotel, onde ela lhe mostra cicatrizes na perna que diz ter a ver com seu passado, eles fazem amor pela primeira vez. No dia seguinte, ao acordar, o primeiro pensamento que ocorre a Shigeharu é que Asami irá aceitar seu pedido de casamento. Mas ela não está mais lá. Desolado, Shigeharu volta para casa, pensando que nunca mais irá ver seu grande amor. Talvez ele devesse ter dado ouvidos a seu amigo que organizou o teste de atores (ele pesquisara o passado de Asami e disse a Shigeharu que nada do que descobriu sobre ela conferia com sua ficha de inscrição). Quem era aquela mulher, afinal?

A resposta vem na noite seguinte, em toda sua fúria: após voltar do trabalho para casa, Shigeharu percebe que colocaram algo em sua bebida e desmaia. Ao acordar, vê que mataram seu cão de estimação, e que o filho ainda não chegou. Sabe que tem alguém em casa, e logo aparece Asami. Vestida em trajes semi-sadomasoquistas, ela pega uma seringa e injeta um líquido na língua de Shigeharu, anestesiando todo seu corpo, menos o sistema nervoso. “Para que você possa sentir toda a dor”, logo explica ela.



Conforme flashbacks em forma de alucinações vão surgindo na narrativa, começamos a desvendar o misterioso passado de Asami. Ela era realmente uma bailarina, constantemente abusada pelo tio sádico e pedófilo (o responsável pelas cicatrizes em sua perna). O modo como Asami se vingou do tio é fichinha, comparado ao que ela está prestes a fazer com o pobre Shigeharu. O que segue a seguir é um dos maiores pesadelos já retratados em filme. São cerca de trinta minutos de tortura explícita, delírios brutais e toda sorte de sadismo. O motivo daquilo tudo, segundo Asami, é que Shigeharu era mais um homem como todos os outros: inventou aquela história de audição apenas para conquistar uma garota, transar com ela e logo depois nunca mais vê-la. Alguém já havia tentado enganá-la anteriormente, e esse alguém era, hoje em dia, um arremedo de ser humano, um pobre coitado, sem os pés, sem os dedos e sem a língua, aprisionado num saco e sendo tratado literalmente como um cachorro.

Como poderia Shigeharu imaginar que Asami, aquela linda garota, com uma triste beleza e uma ternura quase infantil, fosse ser a maníaca que o está levando às últimas conseqüências da dor e humilhação? Ele simplesmente não poderia imaginar. Assim como nós, espectadores (masculinos, principalmente) não poderíamos. E é aí que entra toda a genialidade do diretor Miike. Com exceção de uma cena na casa de Asami, enquanto ela espera pelo telefonema de Shigeharu, não temos pista nenhuma de que algo assim está prestes a acontecer. Se fosse um filme de horror banal, nos primeiros vinte minutos a casa toda já caía. Miike não faz isso, ele nos prepara durante 70 minutos, com a história do relacionamento entre os dois esquentando a ação em banho-maria, para depois cuspir em nossa cara um clímax tão feroz como aquele. No momento em que Asami mostra sua verdadeira face, nós já estamos totalmente identificados com o pobre Shigeharu (afinal, quem nunca perdeu um grande amor para em seguida tentar se apaixonar novamente?). E, como o verdadeiro sádico, Takashi Miike nos apunhala pelas costas com um punhado de cenas inesperadas e insuportavelmente violentas. Na cena em que Asami começa a enfiar agulhas de apuncultura nos olhos de Shigeharu (enquanto sussura “fundo, fundo...” com a graça de uma menina chamando um gatinho), a câmera é subjetiva: nós é quem ficamos no lugar de Shigeharu, enquanto aquelas enormes agulhas vão sendo aplicadas em nossos globos oculares (com o som da ação terrivelmente amplificado). Pessoalmente, não via nada assim desde que Pasolini (literalmente) assinou sua sentença de morte, com o seu "Salo".



Não é necessário descrever mais destes medonhos quarenta minutos finais, pois é apenas possível sentir o impacto do filme realmente assistindo-o (de preferência sozinho, e no escuro). Porém, apesar de boa parte da crítica e público ter considerado-o um “filme de horror”, “extremamente doentio” e “nauseante” (o fato mais comum nas sessões do filme era pessoas saindo da sala), “Audition” é muito mais que isso. É uma grande história de amor, uma das maiores histórias de amor contadas no cinema contemporâneo. A cena final mostra Asami deitada no chão, moribunda, a olhar para o mutilado Shigeharu, e finalmente percebe que ela estava errada, que Shigeharu realmente estava apaixonado por ela, e não era como os outros homens. Mas já é tarde demais, o estrago foi feito. Essa cena, com os dois personagens em seus limites, deitados no chão a olhar um para o rosto do outro, dá um aperto no coração tão grande, que a sensação é indescritível: a náusea e horror de minutos antes, misturados com um pesar pelas vidas daqueles dois. Arrependimento e piedade, em meio a sangue espalhado pela sala. Asami passou uma vida de cão, cheia de abuso e sofrimento, enquanto tentava encontrar seu grande amor. Shigeharu desceu ao inferno e não voltou, sofreu o máximo de tortura que um homem poderia sofrer, tudo após pensar ter encontado seu grande amor.



Uma dor imensa que parece não ter fim, para no final, perdermos tudo. Assim é o amor.

N.E. Esse texto foi originalmente publicado no site LADO 1

André ZP

Audition
(Audition , Coréia/Japão,1999). 115 minutos
Direção: Takashi Miike
Roteiro: Ryu Murakami; Daisuke Tengan
Produção: Satoshi Fukushima; Akemi Suyama
Música: Kôji Endô
Fotografia: Hideo Yamamoto
Edição: Yasushi Shimamura
Desenho de Produção: Tatsuo Ozeki
Figurino: Tomoe Kumagai
Elenco: Ryo Ishibashi (Shigeharu Aoyama); Eihi Shiina (Asami Yamazaki); Tetsu Sawaki (Shigehiko Aoyama); Jun Kunimura (Yasuhisa Yoshikawa); Renji Ishibashi; Miyuki Matsuda (Ryoko Aoyama); Toshie Negishi (Rie); Ren Osugi (Shibata)



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