A CURTIÇÃO DO AVACALHO

por Felipe M.Guerra

Um retorno emocionado ao "cinema udigrudi" dos anos 70


Não existe uma forma de descrever A CURTIÇÃO DO AVACALHO, a nova doideira trash (odeio este termo, mas acho que ele cai como uma luva no caso em questão) dirigida (ou não, hahahaha) pelo maluco catarinense Petter Baiestorf. Se você nunca ouviu falar de Baiestorf, é porque morou na Lua nos últimos 15 anos. Perdido numa cidadela de 17 mil habitantes chamada Palmitos, em Santa Catarina, o sujeito faz filmes amadores de horror, gore, experimentalismo e mulher pelada desde o começo dos anos 90. Sua prolífica filmografia inclui curtas, médias e longas-metragens, tudo filmado bagaceiramente e editado idem (a maioria sem auxílio do computador).
A filmografia de Baiestorf inclui preciosidades como CRIATURAS HEDIONDAS (seu primeiro filme), sobre uma sangrenta invasão marciana à Terra - e que teve até continuação -; O MONSTRO LEGUME DO ESPAÇO - que tornou-se um sucesso na época do Cine Trash, quando cinema mal-feito virou moda e os bundinhas da classe média alta correram desesperados atrás de um filme trash de estimação -; e ZOMBIO, uma homenagem tupiniquim ao clássico ZOMBIE, de Lucio Fulci.



Todos os filmes do catarinense destacam-se por alguns detalhes bem específicos: a filmagem rústica, normalmente tremida ou mal-iluminada (com câmera Super-VHS); a edição que vai de regular a ruim; o elenco formado por amigos e amigas, sendo que estas últimas não raras vezes tiram a roupa; críticas ferozes às "sagradas instituições", Estado, Igreja e Família; orçamento zero e um sentimento de "quanto pior, melhor". Petter nunca se preocupou em filmar direitinho e já declarou várias vezes que não tem a pretensão de fazer seus filmes melhores. A graça, segundo ele, é fazer mal-feito. Para usar um clichê mais do que desgastado, seus filmes são feios, sujos e malvados. E assim é A CURTIÇÃO DO AVACALHO, provavelmente a obra mais bizarra num universo de produções bizarras. Este novo filme, que desta vez foi editado no computador (por Gurcius Gewdner, da Bulhorgia Produções) e ficou com uma "apresentação" melhorzinha, pula brilhantemente de um gênero a outro (o que é terror trash de repente vira making-of da própria produção ou folheto de propaganda subversiva), e promete enlouquecer os espectadores mais tradicionais, que esperam histórias com começo, meio e fim.



Se Baiestorf fosse Zé do Caixão, A CURTIÇÃO DO AVACALHO seria seu DELÍRIOS DE UM ANORMAL: uma seqüência de cenas desconexas, algumas perturbadoras, outras perdidas no meio das outras sem muita razão de existir, mas todas capazes de chocar o espectador de alguma forma, positiva ou negativamente. E o diretor considera esta sua nova obra justamente uma homenagem ao cinema marginal brasileiro dos anos 60 e 70 (chamado "cinema udigrudi", uma corruptela em português do termo em inglês "underground"). No caso, Baiestorf homenageia clássicos alucinados como MATOU A FAMÍLIA E FOI AO CINEMA, de Júlio Bressane (por favor, não confunda com o remake boboca dirigido por Neville D'Almeida, com o Alexandre Frota e a Cláudia Raia), e O BANDIDO DA LUZ VERMELHA, de Rogério Sganzerla - só para citar os filmes mais conhecidos -, tirando deles o estilo fragmentado, caótico, autoral e experimental de filmar e editar. Polivalente, o catarinense assina a direção, a produção, o roteiro, a fotografia e a seleção musical.



Para o espectador ter uma idéia da doideira, A CURTIÇÃO DO AVACALHO começa com supercloses de uma churrasqueira cheia de carvão em brasa - o que não poderia faltar numa produção filmada na região sul do Brasil - e de um churrasco no espeto, praticamente carbonizado de tão tostado. Com uma cuia de chimarrão numa mão e o roteiro na outra, Coffin Souza, vestido como gaúcho aveadado, destila frases subversivas durante 1min20s. Isso não tem absolutamente nada a ver com a "trama principal". Ironicamente, no final do filme, o personagem reaparece e comenta, aliviado: "Achei que esse filme não ia terminar nunca!". hahahaha. Do gaudério o filme corta para o padre Carcass (Elio Copini), parado no meio de um galinheiro e cercado por galinhas. "Canibais em pleno século 21?", questiona ele em voz alta, citando a produtora de Baiestorf (chamada Canibal Filmes), e de certa forma sintetizando a ironia de a equipe mambembe ainda estar fazendo filmes com orçamento mínimo e de forma tão improvisada. Em seguida, o sacerdote começa uma interminável sessão de gargalhadas satânicas, e entram os créditos iniciais, entremeando fotos dos bastidores da produção.



Somos então apresentados ao nosso personagem principal, ou quase isso: o castelhano Juanito, que é apenas Coffin Souza em um novo papel, falando com um pavoroso sotaque castelhano. O sujeito, sem mais nem menos, resolve subir numa cadeira e bater com o facão na parede da sua casa, tentando "matar" as vozes que lhe incomodam (!!!). Detalhe: em uma mão ele segura o facão, e na outra uma torta de creme! Num acidente bizarro, Juanito cai da cadeira e leva uma tortada na cara. Já o facão, como nos desenhos animados, demora uma eternidade para cair, e quando atinge o solo acaba decepando uma das mãos do pobre castelhano. Ele levanta o braço cortado e, neste momento, vemos a mangueirinha de onde esguicha o sangue do toco da mão cortada - e isso é proposital, já que Baiestorf está literalmente brincando com o universo do cinema amador.

Outros personagens são rapidamente apresentados, como um casal que namora nas proximidades. Sardu, o cara (interpretado por Everson Schütz), veste uma camisa do Grêmio, e a moça, Bela (interpretada por Kika), é uma ninfetinha peituda de aparelho nos dentes. Eles caminham até um matagal próximo, onde o rapaz tenta convencer a moça a transar usando um argumento no mínimo curioso: "Você sabe que o mundo está acabando mesmo...". hahahaha. Ela se rende e começa a fazer um boquete no namorado - um boquete implícito, é claro, e Baiestorf, no cúmulo da cara-de-pau, corta para um take em close da atriz chupando um picolé!!! hahahahaha. Enquanto isso, perto dali, o padre Carcass (aquele que estava no galinheiro, lembra?) chega à casa de Juanito, que está enfaixando a mão decepada. Os dois conversam rapidamente, descobrimos que Juan é chamado, pelos moradores da região, de "Santeria", e o sacerdote lembra que ele deve começar sua missão sagrada. "Se eu cumprir minha missão, vou ao céu?", pergunta Juanito/Santeria, com seu horrível sotaque castelhano. "Não, se cumprir sua missão, o paraíso virá a você!", responde o padre.



Nós logo descobrimos qual é a "missão sagrada" do sujeito: minutos depois, Juanito aparece no local onde Sardu e Bela estão transando, com uma prótese mecânica (hahaha, espere só para ver) no lugar da mão cortada e vestindo uma máscara, tipo os assassinos dos batidos slasher movies americanos. Com uma lança acoplada à prótese na mão decepada, Juanito apunhala o rapaz, que cai ensangüentado. A moça grita e corre na chuva. Vemos takes com a prótese do vilão em primeiro plano, como se estivéssemos numa obra de Dario Argento. E logo, numa cena engraçada, o vilão avança em direção à câmera, que enquadra parte do guarda-chuva que cobre a lente! Começa uma longa perseguição no estilo dos filmes de horror, até que Juanito agarra Bela. Quando vai matá-la, surge o padre Carcass, que o impede: "Ela é uma cadela pecadora, mas lembre-se de nossa missão sagrada! O tempo dos camponeses rezarem a Ave-Maria está de volta!", grita o sacerdote. Genial.

O padre então levanta uma bazuca (!!!), feita com dois canos de alumínio soldados um em cima do outro, e que surgiu literalmente do nada; com a arma, dispara um raio na "pecadora" amarrada. O mais engraçado é que não vemos raio algum, e o efeito sonoro, "bzzzz", é feito pelo próprio ator com a boca!!! hahahaha. Atingida pelo "raio invisível" (hahaha), a garota se debate amarrada pelos braços e começa, literalmente, a derreter. A cena é grotesca, como todas as cenas de gore nos filmes de Baiestorf. Para começar, é filmada em longos, intermináveis e repetidos takes (leva uns 3 minutos para o derretimento total da atriz), intercalados com closes de Souza lambendo os beiços e do padre comendo um figo (!!!). Enquanto isso, a atriz se debate com o rosto se liquefazendo, uma massa (que parece massa de pão) escorrendo pelas mãos e pela cara da garota, misturada com sangue falso. A cena termina mostrando que sobraram apenas um crânio carcomido e um braço pendurado numa das cordas.



E o namorado de camisa do Grêmio atingido por Juanito, lembra? Pois é, o cara não morreu e se levanta (quando o enquadramento deixa aparecer o microfone, também propositalmente), indo em busca da sua namorada tarada, que a estas alturas já está derretida. A dupla de vilões recolhe uma amostra da carne dissolvida quando Sardu aparece e se desespera com a cena. Sem titubear, o padre Carcass levanta novamente sua bazuca de raios invisíveis e dispara mais uma vez - "bzzzzzzz". hahahaha. Dessa vez, entretanto, o tiro pega de raspão, na orelha do sujeito. E é a partir dessa cena que A CURTIÇÃO DO AVACALHO deixa de lado o universo ficcional, e a tentativa de contar uma história redondinha, e passa a ser uma brincadeira com o universo do cinema amador em si. Isso porque, no take seguinte, o padre Carcass e Juanito estão olhando as páginas do roteiro do filme (!!!), de onde lêem suas falas!



A partir de então, aos 23 minutos de duração, tudo vira uma doideira sem pé nem cabeça. Começa, por exemplo, uma trama secundária onde dois caras pretendem explodir uma revolução - neste caso, uma revolução de duas pessoas contra o mundo! Um deles, totalmente pelado (Carli Bortolanza, que encara até umas cenas de nudez frontal), pinta uma bandeira com tinta guache. O outro (Ivan Pohl), que usa chapéu e uma máscara ridícula - daquelas com óculos, nariz e bigodão falso -, declara diretamente para a câmera. "Assim, com nossa bandeira em punho, podemos reunir nosso exército revolucionário a favor dos ateus. E da mesma maneira que estou tomando este café, tomaremos o poder!". hahahaha. Pohl, que tem quatro papéis no filme (!!!), é considerado um ator-fetiche do diretor Baiestorf - que chega a compará-lo ao ator malucão Klaus Kinski.

E o filme segue degringolando: mortos-vivos ("interpretados" por Schütz, Pohl, Camila, Sil e Jovane Benedetti) invadem o cenário, caminhando cambaleantes, enquanto um cientista louco e seminu (Ivan Pohl novamente), que vive num castelo (desenhado no PaintBrush!!!), conversa com uma cabeça decepada (cuja voz é de Coffin Souza), desfilando diálogos sem sentido, que em determinado momento se misturam à ação do filme. O "exército de dois homens sós" se vê às voltas com os inexplicáveis zumbis, que são rapidamente exterminados com faconaços e pauladas. Numa cena, os humanos decepam a cabeça de uma das mortas-vivas, e a atriz que interpreta a zumbi ri de forma escancarada enquanto olha para a câmera! Bem no meio do ataque (nunca justificado) dos zumbis, o cara com camisa do Grêmio, cuja orelha já escorreu da cabeça, é definitivamente derretido pelo padre Carcass. A partir deste momento em diante, qualquer tentativa de tentar assimilar a história ou o roteiro vai literalmente para as cucuias. Tudo se transforma numa brincadeira de bastidores, aparecendo em cena até o próprio Petter Baiestorf, como se alguém estivesse filmando o diretor enquanto ele faz o filme! Enfim, um toque bizarro e muito criativo de metalinguagem (filme dentro do filme), que, se fosse feito nos Estados Unidos ou na Europa, provavelmente seria consagrado como obra de gênio.



Enquanto o gremista se debate derretendo, por exemplo, aparece a equipe filmando a cena toda. Baiestorf, com a câmera no ombro, grita suas orientações malucas para o ator que derrete, e seu forte sotaque catarinense torna tudo muito mais engraçado: "Tu tá com dor! Schütz, isso te queima de dentro pra fora, é pior que dar o cu e não estar curtindo. E tu, Élio, tu tá olhando e tá se divertindo. Vai lá, gargalhadas de dominar o mundo!!!". A cena rola, alguém da equipe joga a meleca no rosto do ator para simular o derretimento, Baiestorf filma, Elio ri. Insatisfeito com a "atuação" do derretido, o diretor grita: "Sofre, infeliz, sofre!!!", ao que Schütz responde: "Vai pra puta que pariu!". É quando o próprio Petter dispara uma das melhores frases do filme todo (e uma das maiores verdades que eu já ouvi na vida): "Puta que o pariu? Quem faz cinema sem dinheiro tem mais é que ir pra puta que o pariu mesmo!!!".



E daí em diante não tem mais como tentar definir A CURTIÇÃO DO AVACALHO. Se existia um roteiro até então, a partir deste ponto ele desaparece. Personagens de alguns segmentos (como Juanito e o padre Carcass) "invadem" as situações alheias e se encontram frente a frente com os dois revolucionários e com o cientista louco, aquele que conversava com a cabeça decepada. De uma hora para a outra, o padre e o cientista resolvem fazer um clone de Jesus Cristo, usando DNA do "Messias" e a carne derretida do casal de pecadores; também de uma hora para a outra, a "múmia de Cristo" cria vida, escapa do laboratório (na verdade uma oficina mecânica) e passa a perambular com trejeitos efeminados. A balbúrdia termina não com uma conclusão onde possamos ver o destino dos personagens da meia hora inicial, mas sim com mais cenas dos bastidores das filmagens, os atores brigando com o diretor, reclamando que não querem mais fazer o filme, etc etc. E Baiestorf, na conclusão, dirigindo um cortejo fúnebre onde sepulta o próprio cinema - o convencional e acéfalo cinema comercial, neste caso.

A falta de história é compensada com imagens ora fortes, ora gratuitas - bobas, até. Milhares de frases poderiam ser escritas só para tentar justificar a cena em que Juanito, após um combate com um dos revolucionários do exército de dois, toma um tiro no peito e arranca, do ferimento, fita magnética de VHS (!!!), enquanto choraminga: "Mi vida es una farsa, una mentira! Jo soy una invencion!". Da mesma forma, ao abrir um buraco no próprio peito à faca, o padre Carcass faz sair uma chuva de moedas, num disparo certeiro contra a cobiça e a avareza da Igreja Católica. Entre os momentos bizarros e inexplicáveis, a cena em que Elio, despido do personagem do padre após uma "briga" com a equipe, fica brincando com a gema de um ovo, que passa de uma mão para a outra num take interminável. E os discursos anti-Estado de Baiestorf, que não poucas vezes invade a cena, deixando seu lugar atrás da câmera, para declamar textos como "Todo governo é indesejável e desnecessário!".



Não bastasse toda esta balbúrdia, o filme ainda é permeado de citações e mensagens subliminares. Enquanto os personagens perambulam pelo cenário, por exemplo, aparecem cartazes com frases como "Experimente a diferença". Durante a projeção, em takes de milésimo de segundo, foram inseridos textos e imagens pornográficas e anti-católicas, que só podem ser vistas passando o filme quadro a quadro. É por isso que a capinha do DVD já alerta: "As mensagens subliminares não estão aqui por acaso".

Enfim, A CURTIÇÃO DO AVACALHO são 73 minutos de total desconstrução dessa coisa chamada cinema. Tirando o padre, que realmente tem figurino de padre, os outros atores circulam com roupas normais, e nós é que temos que imaginá-los como personagens de um filme - caso, por exemplo, do cientista louco, que ao invés do tradicional jaleco veste apenas um calçãozinho. Esta desconstrução chega a um ponto em que os próprios monstros do filme tiram suas máscaras, exibindo para a câmera que existem atores, pessoas de carne e osso, por baixo da vestimenta de monstro, acabando com a magia cinematográfica que leva o espectador a encará-los como múmias e zumbis verdadeiros!



Por isso, e por mais uma série de coisas, torna-se difícil analisar a nova obra de Baiestorf como um filme "normal". Os "atores", se é que podemos chamar assim os amadores e amigos do diretor que tentam interpretar, não estão atuando, mas sim participando de um projeto pessoalíssimo do cineasta. O melhor em cena é Elio Copini, que consegue transformar seu padre Carcass numa figura exagerada e vilanesca - pelo menos no curto espaço de tempo em que há uma história para contar. Os demais se limitam a improvisar ou falar seus diálogos decorados, sem presenças memoráveis em cena. Pohl, como o cientista, me deixou com os nervos em frangalhos na longa cena em que começa a imitar, berrando, sons de animais!!! hahahaha

Também não há um cuidado com os cenários: todo o filme foi rodado num sítio e numa garagem; os carros da equipe aparecem o tempo todo no fundo dos takes, assim como os próprios integrantes da equipe técnica e o equipamento de iluminação. Há um descaso total com estes aspectos (figurino, cenário...), mas tudo é proposital, dentro da brincadeira cinematográfica de Baiestorf. Mesmo assim, assumindo-se que tudo é uma brincadeira, um escárnio e uma avacalhação (como o próprio nome já diz), em alguns momentos a loucura cansa. Não consegui ver o filme numa tocada só, mas sim em três etapas. Talvez o meu cérebro esteja muito acostumado a assimilar produções com começo, meio e fim. Aliás, é bom deixar claro que espectadores convencionais, acostumados à clicheria reinante do cinema americano, devem passar longe de A CURTIÇÃO DO AVACALHO. Baiestorf, neste momento, deve estar se mijando de rir da minha tentativa de tentar analisar sua obra como um filme convencional - aliás, a história termina justamente com o cineasta e parte da sua equipe olhando para a câmera e rindo alucinadamente!!!



Há muitos anos, o jornalista e cineasta Carlos Reichenbach escreveu uma crítica soberba para o igualmente soberbo O DESPERTAR DA BESTA, de José Mojica Marins. Vou tomar emprestada uma frase do Reichenbach para descrever a experiência de assistir A CURTIÇÃO DO AVACALHO: "Ou faremos filmes mais corajosos, ou abandonemos definitivamente o cinema! (...) Os gênios, virando bestas, hão de comer capim depois de assisti-lo". Embora eu não tenha gostado de algumas coisas no filme de Baiestorf (como os longos takes finais dos monstros perambulando pelo campo e os igualmente longos takes de um pênis em close por mais de um minuto, enquanto a única mulher em cena nunca tira a roupa!!!), é inegável a ambição e a criatividade do diretor, que em determinada cena, em frente à câmera, chega a comer DVDs de filmes gringos, como MINORITY REPORT e O PEQUENO STUART LITTLE, enquanto se justifica: "Já que isso não mata minha fome por cultura, que mate minha fome por comida!".



Ficou interessado? Quer comprar o DVD de A CURTIÇÃO DO AVACALHO? Além da preciosidade que é o filme em si, o disquinho tem uma capinha super-ultra bacana (parece até "filme profissional"), e vem com um montão de extras (coisa que a maioria dos DVDs nacionais do gênero não tem). Entre eles, galeria de fotos com trocentas imagens de bastidores, cenas deletadas, trailer de produções independentes (não só dos filmes de Baiestorf, mas também de outros realizadores...) e, a cereja do bolo, o documentário BAIESTORF: FILMES DE SANGUEIRA E MULHER PELADA, dirigido por Christian Caselli, que em vinte e poucos minutos desnuda o processo criativo do cineasta catarinense e de sua carreira que já chega aos 100 filmes independentes. Muito divertido e informativo, já vale o DVD por si só. O preço é popular (R$ 20,00) e o contato pode ser feito com o próprio Petter, pelo e-mail baiestorf@yahoo.com.br (aproveita e pede um autógrafo pra ele, ô mané!)



A CURTIÇÃO DO AVACALHO é o típico filme poderoso (ou seria "foderoso"?), criativo, autoral, único, daqueles que você nunca mais vai ver igual na vida - para o bem ou para o mal. E ainda tem o mérito de representar com fidelidade, tal qual um ED WOOD tupiniquim, sem dinheiro e sem Tim Burton e Johnny Depp, como é fazer cinema independente no Brasil, por pura paixão e idealismo. "Não ter condições de se fazer o que se quer não é desculpa para não se fazer o que se quer!", diz o cineasta amador, na cena em que os atores começam a abandonar o set. Amém, Petter! Seu filme é a maior prova da veracidade dessa afirmação!
"O filme foi feito para pessoas inteligentes!"

Apesar de seus filmes serem extremamente sacanas, sangrentos e sádicos (sim, três "S"s), Petter Baiestorf, atualmente com 31 anos, é um sujeito gente fina, que entende tudo de cinema (especialmente de cinema não-convencional). Se você falar com o cineasta catarinense, por e-mail ou no Orkut do cara, nem vai imaginar que ele é o responsável por obras dementes como ELES COMEM SUA CARNE e BOI BOM. Não vou perder meu tempo fazendo uma biografia dele, pois a internet serve para isso (procurem no Google). Mas, "por trás do mito" (hahahaha), Baiestorf é um cara simpático e super-acessível, como vocês podem conferir nesta "pseudo-entrevista" que fiz por e-mail com o diretor de A CURTIÇÃO DO AVACALHO. Foi uma tentativa de elucidar algumas coisas sobre esta enigmático novo filme do Petter, e vocês poderão perceber que ele não só entende de cinema, como é um cara inteligente mesmo. Confiram a entrevista e comprem A CURTIÇÃO DO AVACALHO logo em seguida!



BOCA DO INFERNO: Como nasceu A CURTIÇÃO DO AVACALHO? A capinha diz que passou de remake do INCREDIBLE MELTING MAN (lançado no Brasil como O INCRÍVEL HOMEM QUE DERRETEU) para um trash chamado MELECA, e no processo avacalhou-se tudo. E por que sua opção por um filme tão fragmentado e experimental ao invés de uma história mais convencional?
PETTER BAIESTORF: Olha só, eu e o [Coffin] Souza até que tínhamos escrito uma versão sacana do MELTING MAN, mas pouco antes das filmagens eu resolvi produzir um filme 100% da Canibal Filmes, por isso desconstruí a idéia central do filme americano pra algo nosso, ou seja, o deboche avacalhado de sempre da Canibal. Eu, como realizador e cinéfilo, adoro filmes fragmentados, sou colecionador de filmes experimentais, um estudioso do assunto. Tava dando seqüência às nossas teorias apresentadas no livro “Manifesto Canibal” (2004, ed. Achiamé), tanto que os verdadeiros fãs da produtora estão adorando, já que o A CURTIÇÃO DO AVACALHO atesta nossas teorias e dá seqüência a experiências que fizemos em médias-metragens como NÃO HÁ ENCENAÇÃO HOJE e PALHAÇO TRISTE. Claro que alguém acostumado com cinemão americano ou europeu vai odiar isso e não entender nada, porque vai lhe faltar referências a clássicos obscuros do cinema experimental (e aqui estou falando de filmes feitos por caras como Jack Smith, George Kuchar, Tony Conrad, Ken Jacobs, Shuji Terayama e Ron Rice). A CURTIÇÃO DO AVACALHO já está programado para ser exibido em várias mostras Independentes de cinema-vídeo experimental e outros locais onde se celebra as produções diferentes daquelas feitas ao grande público. Tudo que é pop é burro...



BOCA: Quanto do filme foi improvisado pelos atores? Aqueles diálogos do "cientista" com a cabeça decepada, soa tudo como improviso puro e simples...
BAIESTORF: Falando especificamente do Ivan Pohl, que é o ator que interpreta o Cientista, todas as falas dele sempre são improvisadas porque ele é melhor assim, ele soa mais natural, é o meu Klaus Kinski, hahhehe... Essa cena da cabeça decepada conversando com o cientista a gente filmou às quatro da manhã pós uma noitada de filmagens. A principio filmamos para colocar nos extras do DVD, mas quando eu estava editando o filme, com o Gurcius Gewdner, a gente percebeu que aquele diálogo encaixaria de maneira soberba na estrutura narrativa do filme, e resolvi coloca-lo. É um momento que diverte bastante quem está assistindo pelo nonsense total que é o Ivan Pohl. Acho que é impossível eu me manter fiel a um roteiro, acho que um filme está sempre em processo de criação, até que não esteja totalmente editado tudo pode acontecer, as possibilidade são infinitas demais pra ficar preso a fórmulas.



BOCA: Alguns atores têm mais de um papel?
BAIESTORF: Impressão sua, cada papel é feito por um ator diferente. Somente o Ivan Pohl que aparece em quatro papéis: além do cientista, ele também interpreta o revolucionário, Jesus Cristo zumbi e o diretor de fotografia da equipe de filmagem que aparece. Ivan Pohl é genial, este filme não seria o que é sem o Pohl nesses papéis.

BOCA: Sua opção de aparecer várias vezes no filme foi uma brincadeira de metalinguagem ou "acidente"?
BAIESTORF: Bem, não existem acidentes nesse filme. Não sei se tu percebeu, mas a equipe de filmagens é parte da narrativa do filme, eles estão ali para discutir a possibilidade de se fazer cinema no Brasil. Na verdade a equipe de filmagem é mais importante que o filme em si, já que o filme acaba sendo apenas um produto pronto para ser consumido. A equipe de filmagem trabalhado neste sistema de “camaradagem” e vontade de fazer cinema é o que move a verdadeira razão de existência do filme, entende? Sem a equipe de filmagem ele não seria assim avacalhado, porque perderia a sua essência. Uma coisa que tu nunca vai ver nos meus filmes é tudo explicadinho, mastigadinho... Bem, na hora que eu resolver ganhar grana com os filmes, talvez eu faça tudo bem explicadinho, hehehehe...

BOCA: Como você definiria A CURTIÇÃO DO AVACALHO?
BAIESTORF: Como diria o crítico e cineasta Jairo Ferreira, é cinema de invenção. Consegui atingir meus objetivos com este longa e está sendo gratificante a quantidade de comentários positivos que temos recebido com ele, muita gente que está vendo tem entendido a crítica que colocamos em discussão e compartilham de nossa visão.



BOCA: É verdade que é o filme que você mais se divertiu fazendo?
BAIESTORF: Sim, este é o filme que mais me diverti filmando, com ele eu consegui fazer o que tentei no SUPER CHACRINHA E SEU AMIGO ULTRA-SHIT EM CRISE VERSUS DEUS E O DIABO NA TERRA DE GLAUBER ROCHA, e não tinha conseguido.

BOCA: Você acha que seu público mais fanático por gore incessante vai curtir o AVACALHO?
BAIESTORF: Quanto ao público, como já falei antes, o público habitual da Canibal Filmes está adorando, e com essa produção era isso que me interessava. O pessoal que gosta de gore burro não vai curtir, recomendo que não comprem este filme. A CURTIÇÃO DO AVACALHO foi feito para pessoas inteligentes e que conheçam o cinema a fundo para pegar as inúmeras homenagens que colocamos na tela.

BOCA: Numa entrevista você disse que não gosta de filmar "direitinho", o que me leva a pensar que vários erros do filme (sombras aparecendo, intermináveis cenas de derretimento com longos takes) são propositais. Ou não?
BAIESTORF: É, não gosto de filmar as coisas direito, não tô aqui pra imitar cineastas profissionais, sou apenas um cara rindo à toa, feliz com minha próprias limitações. Se um dia eu melhorar é um problema só meu, até lá vão ter que agüentar minhas drogas desse jeito desleixado mesmo. A vida é muito curta pra fazer tudo direito, hehehehe. Agora, acho que tu não entendeu o filme direito, essas sombras e tal que vão aparecendo no decorrer do filme são um aviso de que está sendo feito um filme, entende? A primeira coisa que aparece, já na primeira cena, é um flash de uma câmera fotográfica, depois tem a mangueirinha que espirra sangue na cena do cara que perde a mão e logo em seguida tem a cena que começa num cenário e depois de um close está terminando em outro cenário completamente diferente... Sabe, são brincadeiras com quem está assistindo o filme e aí, de repente, elas são parte da trama, com o surgimento, na narrativa, da equipe de filmagens. Bem, não vou ficar explicando as coisas numa entrevista. Como já falei antes, não gosto de dar tudo explicadinho. O pessoal que curte homenagens ao cinema vai encontrar homenagens e citações ao Argento, Dusan Makavejev, Emir Kusturica, Glauber Rocha, Tonacci, Candeias, Sganzerla, Bressane, Jodorowski, Phil Tucker, George Kuchar, Jack Smith, John Waters e muitos outros fazedores de filmes interessantes. Quem conhece cinema de todos os tipos está curtindo demais a produção. Infelizmente, é um filme para pessoas com uma vasta bagagem cinéfila, quem não tem o cinema como algo importante na vida não vai entender direito as coisas. Mas meu novo longa é linear e fácil de entender, é O MONSTRO LEGUME DO ESPAÇO 2, trashão engraçado como alguns filmes mais antigos meus, vai ser daqueles filmes pra ver num monte de gente bebendo cerveja e comendo pizza, ou seja, fast food, como o mundo atual.

Felipe M.Guerra

A CURTIÇÃO DO AVACALHO
(A CURTIÇÃO DO AVACALHO, Brasil, 2006). 73 minutos
Direção, Roteiro, Produção, Seleção Musical, Fotografia: Petter Baiestorf
Edição: Gurcius Gewdner
Maquiagem: Coffin Souza
Luz: Claudio Baiestorf
Continuista: Iara Magalhães
Assistente de Produção: Elio Copini
Elenco: Coffin Souza (Gaudério Viado/Santeria/voz da cabeça decepada/Jesus Cristo zumbi no laboratório); Elio Copini (padre Carcass/macaco com balde na cabeça - cena tirando a máscara/noivas do cinema brasileiro 1); Kika (Bela); Everson Schütz (Sardu, camisa do Grêmio/zumbi 1/múmia que uiva/militar 2/noivas do cinema brasileiro 2); Carli Bortolanza (pintor da bandeira revolucionária Ennio Marricone); Ivan Pohl (líder dos revolucionários/zumbi 2/cientista/Jesus Cristo zumbi - no varal/zumbi 6/pênis/militar 1); Sil (zumbi 3/claqueteira na cena do laboratório/soldados da santa igreja da roubalheira consentida 3/segurando o rebatedor de luz); Camila (zumbi 4/Frankenstein/soldados da santa igreja da roubalheira consentida 2/segurando o microfone); Jovane Benedetti (zumbi 5 - gordo); Petter Baiestorf (diretor da equipe de filmagens); Cris (macaco com balde na cabeça/soldados da santa igreja da roubalheira consentida 1); Carli Bortolanza (macaco com balde na cabeça - no varal); Airton Bratz (fotógrafo de cena); Claudio Baiestorf (macaco com balde na cabeça - cena do ovo/microfonista/carregador do cartaz)




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