 |
Imagine que você precisa fazer um procedimento cirúrgico (que já é assustador por si só) e, depois de todo o preparatório, já na mesa de cirurgia, recebe a anestesia, pensando que irá dormir tranqüilo acordando apenas depois de um bocado de tempo.
Mas, e se essa injeção milagrosa não é suficiente para te deixar inconsciente e você passa a ter ciência de tudo o que acontece ao seu redor, com a capacidade de ver, ouvir, e pior, sentir o afiadíssimo bisturi de aço cirúrgico rasgando sua carne como se fosse manteiga. É de arrepiar a espinha, não é?
Joby Harold marca a sua estréia na direção trabalhando neste conceito e para começar seus trabalhos conseguiu da produtora Weinstein Company um elenco de peso: ninguém menos do que a multi-curvilínea Jessica Alba (SIN CITY, O Olho do Mal) e o Darth Vader do século 21, Hayden Christensen. |
Para o seu debut, Joby Harold precisou de um orçamento de “apenas” 9 milhões de dólares e utilizou locações reais para dar mais veracidade e economizar dinheiro. Por isso e pela boa técnica imprimida, após a estréia em 30 de novembro de 2007 nos Estados Unidos, conseguiu arrecadar uma bilheteria de pouco mais de 14 milhões, o que pode ser considerado um sucesso para a pequena produção.
AWAKE com o enxerto de título A VIDA POR UM FIO ganhou as telas brasileiras no último dia 4 de abril e mostrou que mesmo com suas falhas consegue ser um thriller bem trabalhado, com poucos clichês e personalidade.
Trata-se de uma película complicada de se escrever sobre, pois a mínima exposição de detalhes indevidos pode estragar o prazer de se assistir ao filme, portanto vou me ater a um pequeno texto burocrático e sem surpresas, mas estou avisando desde agora: para curtir plenamente, não leia nada, não pergunte aos amigos, não assista ao trailer, sequer veja o pôster e a "spoilerística" tagline. Vá com a cabeça vazia de conhecimento do que se trata (tal como eu fui) e divirta-se.


Ok? Todo mundo aí ainda? Vamos lá então. Clay Beresford (Christensen) é um homem podre de rico, e afirmar isso não é exagero, pois em uma conversa dizem que ele é o dono de metade de Nova York. Por conta disso, sua mãe Lilith (Lena Olin,
A RAINHA DOS CONDENADOS e
O ÚLTIMO PORTAL) é uma mulher rígida, autoritária e superprotetora quando se trata dos assuntos pessoais do filho, apesar do relacionamento dos dois ser ótimo quando falam sobre outras coisas. Eles se completam após a trágica morte do pai de Clay.
Por causa do comportamento da mãe sobre estes temas, ele precisa esconder dela o relacionamento de mais de um ano com a gatíssima Samantha Lockwood (Alba) - e cenas
"calientes" entre o casal vão fazer a alegria dos fãs da moça. Eles já estão noivos e Clay ainda não contou para Lilith, sendo pressionado constantemente por Sam para que possa abertamente conversar com sua sogra. (Se fosse no Brasil isso ia dar uma boa pauta pro programa da
Márcia... Quaquaqua!)
Apesar desse dilema particular, o maior dos problemas de Clay é que ele precisa urgentemente de um transplante de coração. Ele está nas últimas e já foi salvo uma vez da morte por muito pouco pelas mãos do Dr. Jack Harper (Terrence Howard de
RAY e
QUATRO IRMÃOS) de um hospital público de Nova York. Esse incidente criou um laço de amizade entre os dois, e Clay quer que Jack faça o transplante, contrariando a vontade de sua mãe que quer que seu filho faça a cirurgia com o famoso cardiologista Dr. Jonathan Neyer (Arliss Howard de
NASCIDO PARA MATAR e
AMISTAD), principalmente pelo fato de o sangue de Clay ser um tipo raro, o que diminui consideravelmente as chances de um coração compatível.


Muita discussão e eventos que não vou descrever aqui acontecem, contudo a vontade de Clay prevalece e é chegada a hora. Clay recebe a anestesia e acontece com ele o que descrevi no primeiro parágrafo: apesar de não se mexer o bilionário está acordado, ouvindo tudo ao seu redor... E chega, como já disse antes, menos é mais, então vou terminar por aqui mesmo.
Em um primeiro momento podemos dizer que Joby Harold, que também é o roteirista, valoriza demais a construção de seus personagens. Leva exatamente 30 minutos de filme apresentando os conflitos familiares e frustrações de Clay até ele chegar à sala de cirurgia. Pode não parecer, mas em um filme que tem 78 minutos
"práticos" isto é muito. Se após este tempo não tivéssemos as constantes viradas e assim terminasse, seria um excelente episódio de drama médico na linha do seriado
E.R., nunca um thriller. Todavia, Harold é inteligente e ganha o grande público a partir da cena de quando imóvel na mesa cirúrgica Clay sente tudo o que os médicos estão fazendo (recomenda-se não apresentar esse filme para algum amigo ou parente que precisa de cirurgia) - uma pena que este estado assustador e dolorido do personagem fique um pouco de lado durante a segunda parte da produção, que dá conta de amarrar as pontas, mas faz a premissa ser menos desconfortável do que eu esperava, culminando na conclusão que não fosse alguns detalhes que o deixaram um pouco piegas e politicamente correto, seria fantástico.
Como diretor, porém, Harold faz um trabalho melhor do que roteirista. Os eventos acontecem lentamente sem parecerem arrastados, e a forma com que faz os enquadramentos e contrasta a vida de burguês impenetrável de Clay com o seu problema de saúde que o deixa fragilizado, é muito interessante. Preciso dizer também que o diretor faz bom uso dos flashbacks sem jogar as respostas na cara do público como se ele estivesse dormindo na cadeira ou não tivesse a capacidade de saber por si só (
SHUTTER REMAKE,
JOGOS MORTAIS 4) e apesar do morno ato inicial (tirando as partes que Jessica Alba está semi-nua, hehehe...) na segunda parte não há como não se envolver e se corresponder com o que Clay está passando, condenável apenas (para mim pelo menos) é a quantidade de close-ups no casal principal; parece que Joby estava deslumbrado por ter dois atores tão estelares em sua estréia.



Pela própria característica da narrativa, advirto também para não esperarem doses mais cavalares de sangue do que algumas manchas vermelhas durante a cirurgia de Clay. Alguns vão achar nojento, mas não fico mais tão impressionado com estas cenas desde que vi uma cirurgia cardíaca real em
NIGHT OF THE BLOODY APES, hehehe! No geral, violência não é o forte de Harold.
Falando em atuações, não posso condenar o trabalho do elenco que se mostrou interado e com excelentes momentos. Jessica Alba tem algumas cenas inspiradas, porém permanece naquela
"sou gostosa e isso já me basta" de seus últimos trabalhos: é um delírio para o público masculino, mas é um pouco frustrante para quem queria um pouco a mais. Já Terrence Howard me pareceu um pouco exagerado interpretando o
"médico bom", enquanto Hayden Christensen, em contrapartida, faz um trabalho sério e digno como o burguês de bom coração (em sentido figurado, claro). O destaque absoluto fica para a virtuosa Lena Olin que está fantástica interpretando a mãe de Clay, pois ela entra em um nível de desespero pelo estado do filho que é muito difícil de não se corresponder.
Resumindo, é um suspense eficiente com excelentes reviravoltas anti-clichês, um roteiro bem construído e dirigido com um sólido elenco, porém para mim faltou algo. Aquele doce, aquela coisa pessoal dentro de nós amantes do cinema que nunca sabemos descrever e que seria o diferencial que poderia tornar
AWAKE uma produção memorável. Talvez porque não haja nada de muito novo e
"Autopsy Room 4", de
Stephen King (levado para a TV na mini-série “
Pesadelos e Paisagens Noturnas”) já tenha trabalhado num conceito básico parecido com maior desprendimento dramático e um resultado final melhor.
Joby Harold se esforçou bastante, não posso negar, porém não conseguiu me cativar totalmente com o drama do personagem de Hayden Christensen (mas como já disse, não quer dizer que vai acontecer com você, leitor!) e me correspondi muito mais com a mãe do personagem, o que não tira os bons méritos do filme, que é capaz de manter ligado e entretido o tempo todo. E, finalmente, fico esperando os próximos trabalhos de Joby Harold, pois com
AWAKE – A VIDA POR UM FIO competência e seriedade ele já demonstrou que tem, e muito.
CURIOSIDADES
- Helen Mirren e Sigourney Weaver foram consideradas para o papel de Lilith Beresford;
- Hayden Christensen substituiu Jared Leto no papel de Clay;
- Jessica Alba substituiu Kate Bosworth depois que ela saiu para trabalhar em
Superman Returns (2006);
- Nos Estados Unidos não foram feitas apresentações para os críticos;
- A tagline do filme desvirtua completamente as estatísticas. A taxa média real de anestesia consciente em cirurgias é de uma em 14 mil e para pacientes de alto risco é de uma em 42 mil, enquanto no pôster é informado que as chances são de uma em 700;
Para comentar o artigo e entrar em contato com Gabriel Paixão:
 |
AWAKE – A VIDA POR UM FIO (Awake, EUA, 2007). Duração: 84 minutos
Direção: Joby Harold
Roteiro: Joby Harold
Produção: Jason Kliot; John Penotti; Fisher Stevens; Joana Vicente
Produção Executiva: Kelly Carmichael; Bob Weinstein; Harvey Weinstein; Tim Williams
Fotografia: Russell Carpenter
Música: Samuel Sim
Efeitos Especiais: Dan Crawley; Hill Vinot
Efeitos Visuais: Chris Gelles; David Isyomin
Direção de Arte: Ben Barraud
Desenhos de Produção: Dina Goldman
Maquiagem: Chris Bingham
Edição: Craig McKay
Elenco: Hayden Christensen (Clay Beresford); Jessica Alba (Sam Lockwood); Terrence Howard (Dr. Jack Harper); Lena Olin (Lilith Beresford); Christopher McDonald (Dr. Larry Lupin); Sam Robards (Clayton Beresford Sr.); Arliss Howard (Dr. Jonathan Neyer); Fisher Stevens (Dr. Puttnam); Georgina Chapman (Penny Carver); David Harbour (Dracula); Steven Hinkle (Jovem Clay); Charlie Hewson (Brian); Court Young (Oficial Doherty); Joseph Costa (Dr. Elbogen); Lee Wong (Sr. Waturi)
|