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De volta aos bons tempos dos anos 80, um novato chamado Sam Raimi pegou uma mixaria de dinheiro, fez um despretensioso filme de terror chamado EVIL DEAD e só duas décadas depois emergeria para o mainstream fazendo bilhões com sua visão cinematográfica do HOMEM-ARANHA.
Na mesma época um neozelandês com cara de nerd chamado Peter Jackson começava sua carreira fazendo podridões nojentas e geniais do baixo orçamento - com a trinca BAD TASTE, MEET THE FEEBLES e BRAINDEAD. Em 2000, P.J. foi alçado ao status de "fazedor de blockbusters" e com a trilogia O SENHOR DOS ANÉIS, colocou alguns bilhões a mais nos cofres da New Line Cinema. |
Seguindo essa linha de raciocínio, se o mundo que cerca a indústria do cinema fosse justo, Frank Henenlotter hoje estaria dirigindo produções com o orçamento e a importância comercial de PIRATAS DO CARIBE.
Se você não conhece este estadunidense de sobrenome engraçado, não se aflija, falaremos mais sobre ele no decorrer do artigo, mas, de cara, compará-lo com Raimi e Jackson não se trata de heresia. Henenlotter faz parte do grupo de poucos diretores que imprimiram o inconfundível "espírito B oitentista" em suas poucas obras. E a primeira e mais importante delas é a que será alvo desta análise: BASKET CASE, de 1982, inédito no Brasil.


Contudo vamos primeiro fazer uma breve introdução do diretor: Frank Henenlotter nasceu na cidade de Long Island, no estado de Nova York, no ano de 1950. O futuro diretor passou a juventude assistindo
exploitation de baixa qualidade técnica e orçamentária nos famosos cinemas
grindhouse da 42nd Street quando decidiu ele mesmo começar sua carreira fazendo pequenos filmes em 8mm.
Seu primeiro filme que passou em um cinema foi rodado em preto-e-branco e 16mm. Intitulado
"Slash of the Knife", a produção fez parte de uma sessão dupla na 42nd Street junto com o cultuado
PINK FLAMINGOS, de John Waters.
Foi quando não muito tempo depois escreveu e dirigiu seu primeiro
"grande" filme no coração da Big Apple com as filmagens acontecendo nos fins de semana devido ao limitado orçamento, o que levou o tempo de produção se arrastar por quase um ano e ainda assim sendo gastos apenas 33 mil dólares. Se com tão pouco Henenlotter fez um filme tão criativo, imagino o que faria com alguns milhões a mais...

BASKET CASE abre com o médico Julius Lifflander (Bill Freeman) chegando em casa após um dia de trabalho, sendo observado por uma ameaçadora presença. Como é característico dos
slashers (não que este seja um slasher), Julius tenta falar com a polícia, mas tem o telefone cortado, bem como a energia elétrica, acaba acuado dentro de casa e é morto por uma mão monstruosa que antes de sair leva uma pasta com históricos médicos.
Na cena seguinte estamos no centro de Nova York - e nesta tomada o diretor presta uma homenagem a 42nd Street - onde um garoto aparentemente perdido anda com uma cesta trancada com cadeado. Ele é Duane Bradley (Kevin Van Hentenryck), que está procurando um hotel barato para se hospedar - e encontra o Hotel Broslin, local onde o jovem provoca a curiosidade dos moradores, especialmente do cachaceiro Brian Donovan (Joe Clarke), por carregar tamanho volume em mãos além de ter um bocado de dinheiro.


Duane entra no quarto, revela que está com a pasta roubada do doutor Julius e alimenta o misterioso conteúdo da cesta com um monte de hamburgers. Todavia não é apenas o conteúdo da cesta que é estranho, mas o comportamento do próprio jovem que praticamente não dorme a noite por ouvir intermitentes vozes e parece conversar sozinho.
No dia seguinte a prostituta Casey (Beverly Bonner) surpreende Brian espiando pela fechadura do quarto do garoto para saber o que está na cesta, alertando Duane para tomar cuidado com os vizinhos xeretas. O inocente Duane não dá muita bola e vai - carregando a desconfortável cesta - para o consultório de um tal doutor Harold Needleman (Lloyd Pace) alegando dores no peito e revelando ter uma enorme cicatriz do lado direito do corpo, contudo sua real intenção é apenas tomar conhecimento do lugar.


Lá faz amizade com a atendente Sharon (Terri Susan Smith) que parece estar interessada no rapaz, oferecendo-se para apresentar os pontos turísticos de Nova York, mas Duane parece relutante em marcar um encontro próximo do cesto e promete ligar no dia seguinte. Estes encontros irão evoluir em um affair perigoso para a garota.
Anoitece e o doutor parece atormentado com a consulta que fez mais cedo com o jovem e telefona para Judith Kutter (Diana Browne), outra médica. Duane volta ao consultório e solta
"seja-lá-o-que-está-na-cesta" para matar Needleman e pegar sua lista de endereços. É quando vemos pela primeira vez a criatura que o acompanha, um monstro humanóide que parece um chiclete mascado e tem uma força tão grande que desmembra o médico com muita facilidade.
Conforme o filme avança, flashbacks nos mostram que Duane e a criatura - chamada de
Belial - nasceram como gêmeos siameses e mataram a mãe durante o parto. Após alguns anos - a pedido do pai, mas contra suas vontades - é realizada uma operação cirúrgica pela junta dos três médicos (Lifflander, Needleman e Kutter), que separa seus corpos, e com a separação Belial é jogado no lixo, pois os médicos pensaram que
"o monstro chiclete mascado" não sobreviveria fora do corpo de Duane.


Isto provocou a ira de ambos que bolaram um plano e resolveram se vingar dos médicos e todos os envolvidos, pois apesar de Belial soltar apenas barulhos indistintos pela boca, ele se comunica telepaticamente com Duane. Todavia o instável e ciumento monstro é ameaçador o suficiente para arrasar a todos os que se atrevem a se meter no relacionamento entre os irmãos, despertando a atenção da polícia - assim, ninguém no hotel ou fora dele está seguro.
O roteiro explora de uma forma magnífica todas as veredas que uma premissa maluca como essa poderia gerar e o resultado é um genuíno clássico do
exploitation do final dos anos 70 e início dos 80. O próprio diretor/roteirista afirmou que a primeira idéia que veio em sua mente era a de um homem carregando uma cesta pelas ruas de Manhattan e trabalhou a história a partir daí escrevendo os diálogos em guardanapos.


Como diretor, Frank Henenlotter sabe fazer muito com pouco, principalmente no que se refere a trabalhar com as emoções do espectador, cadenciando os elementos de humor com os de terror aplicando um ritmo veloz e inebriante que lembra muito os quadrinhos de horror dos anos 50, com personagens simples e bem definidos, não necessitando se aprofundar demais em suas particularidades.
Baseado nisto, o desconhecido elenco é surpreendentemente melhor do que se poderia aguardar de uma comédia involuntária em potencial. Kevin Van Hentenryck é muito simpático como o protagonista, e Terri Susan Smith, seu par romântico, é linda e interpreta tão exagerada quanto adequadamente para esta produção (além de aparecer nua para a alegria da molecada). Todos os demais membros demonstram um profissionalismo inversamente proporcional as limitações técnicas e formam um grupo coeso que parece se divertir enquanto faz o mesmo com o público.


Levando em consideração o pífio orçamento e as dificuldades da produção decorrentes disso, os efeitos se superam e são extremamente bem realizados com o sangue jorrando em profusão - neste quesito todas as cenas são muito trabalhadas. Quem não está acostumado pode até se sentir um pouco desconfortável com os violentos ataques de Belial.
E por falar nele é notório que o monstro rouba todas as cenas em que aparece, seja apenas a mão (em uma luva de látex utilizada pelo diretor), seja sua versão em borracha ou mesmo a versão feita de barro para ser usada das cenas em
stop-motion - que rende uma das mais memoráveis seqüências do filme, a destruição do quarto de Duane. Não tem como não ficar admirado com tamanha genialidade na construção de uma criatura que cabe em uma cesta de pic-nic. Mesmo datados, nem os efeitos especiais milionários de hoje conseguiriam tamanha eficácia sobre o público que a técnica old school de
BASKET CASE desenvolvida pelo próprio Henenlotter.

BASKET CASE se tornou um imenso sucesso comercial, pois tal como
EVIL DEAD foi alavancado pelo início da era VHS e as fitas não estacionavam nas prateleiras das locadoras, porém repetindo e complementando o que eu escrevi no começo deste artigo, se a indústria do cinema fosse justa, Henenlotter estaria no mercado comandando filmes importantes nos tempos atuais, pois após
BASKET CASE poucos trabalhos ele realizou na cadeira de diretor.
O diretor fez os igualmente divertidos
BRAIN DAMAGE (1987) e
FRANKENHOOKER – QUE PEDAÇO DE MULHER! (1990) além das duas continuações de sua obra prima,
BASKET CASE 2 em 1990 – único da franquia lançado em VHS no Brasil - e
BASKET CASE 3 - THE PROGENY em 1992 (ambas protagonizadas novamente por Kevin Van Hentenryck), e depois não encontrou trabalho neste posto por longos 16 anos até retornar em 2008 com o bizarro e engraçado
BAD BIOLOGY.


Foram dois os principais motivos para este grande afastamento: primeiro os produtores que compartilhavam seu gosto não conseguiram levantar um orçamento suficiente para seus projetos (ainda que pequenos), e principalmente, Henenlotter não se vendeu para as companhias maiores que tinham o dinheiro.


Dando um exemplo, em entrevista, o diretor disse que tentou emplacar outro roteiro próprio antes de
BAD BIOLOGY chamado
"Sick in the Head":
"Depois de três anos de os produtores não conseguirem arrumar o orçamento, eles pegaram meu script e cortaram 23 páginas e todos os efeitos especiais. Aí eu perguntei, 'O que sobrou?', e eles responderam, 'Bem, por que você não faz essa história mais como JOGOS MORTAIS?'. Então eu peguei meu roteiro coloquei debaixo do braço e disse 'Adeus'". E o diretor completa:
"[em relação a cinema] Enquanto nós pudermos fazer coisas extremas eu continuarei fazendo filmes. Se alguém me falar uma vez, 'Se você puder nos dar um filme classificação R' ou 'se você puder fazer mais assim ou assado', então eu vou abandonar o navio".
Mas nem tudo foi choro e ranger de dentes para Henenlotter. Neste período
"ocioso", o diretor exerceu outro importantíssimo ofício para o bem do cinema fantástico, o de historiador e colecionador. Pois foi desta forma que ele se associou ao produtor David Friedman, e juntos disponibilizaram para o público em DVD algumas pérolas raras do
exploitation e
sexploitation dos anos 60 e 70 através da distribuidora estadunidense
Something Weird Vídeo, além de seus próprios filmes.


Voltando para a produção em questão,
BASKET CASE possui uma das misturas de horror e comédia que mais prendem a atenção e por isso mesmo é uma das experiências mais bizarras e divertidas que se pode encontrar num filme dos anos 80. É tão inventivo, sujo, sangrento, insano e bem executado, que não há motivo para não se gostar dele e você não consegue desgrudar os olhos da tela. È simplesmente viciante.
CURIOSIDADES
- De acordo com o diretor, o monte de dinheiro que aparece na cena em que Duane entra no Hotel Broslin era o próprio dinheiro do orçamento;<


- Para tentar fazer o filme parecer uma comédia, o distribuidor original cortou todas as cenas de gore. Pouco tempo depois, elas foram recolocadas e relançadas no cinema com o subtítulo
"versão completa sem cortes";
- A maioria dos nomes dos créditos finais são falsos. A equipe técnica era muito pequena e ao invés de citar as mesmas pessoas várias vezes, os realizadores preferiram inventar nomes;


- As cenas que se passam em um bar foram rodadas em um clube de sadomazoquismo em Manhattan conhecido como
"The Hellfire Club" que ainda existe na cidade. A equipe teve de esconder alguns brinquedos sexuais do local para parecer um bar
"normal";
- O Hotel Broslin não existe de verdade. Cada parte do hotel, incluindo interiores, foram rodadas em diferentes locações sendo agrupadas na edição parecendo um lugar apenas;


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ATENÇÃO POSSÍVEL SPOILER: Durante a cena da morte da personagem de Terri Susan Smith, a equipe ficou tão ofendida que saiu andando do set e quase abandonaram o projeto todo. Isto aconteceria novamente com Henenlotter enquanto dirigiria o posterior
BRAIN DAMAGE;
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ATENÇÃO POSSÍVEL SPOILER: O final original incluiria Belial andando por Manhattan, porém o diretor e a equipe resolveram que o orçamento ou equipamentos disponíveis não eram suficientes para rodar tal cena.

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BASKET CASE (Basket Case, EUA, 1982). Duração: 91 minutos.
Direção: Frank Henenlotter
Roteiro: Frank Henenlotter
Produção: Edgar Ievins
Produção Executiva: Arnold H. Bruck
Fotografia: Bruce Torbet
Maquiagem: John Caglione Jr.; Kevin Haney; Ugis Nigals
Música: Gus Russo
Edição: Frank Henenlotter
Elenco: Kevin Van Hentenryck (Duane Bradley); Terri Susan Smith (Sharon); Beverly Bonner (Casey); Diana Browne (Dra. Judith Kutter); Lloyd Pace (Dr. Harold Needleman); Bill Freeman (Dr. Julius Lifflander); Joe Clarke (Brian O'Donovan); Ruth Neuman (Tia de Duane); Richard Pierce (Pai de Duane); Sean McCabe (Jovem Duane); Dorothy Strongin (Josephine)
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