BATALHA DOS MORTOS

por João Pires Neto

“O último homem vivo sobre a Terra não está sozinho.”

Meu amigo, antes de tudo, você sabe o que diabos é um Mockbuster? Sinal do fim dos dias, um Mockbuster é uma produção realizada com poucos recursos e muita, mas muita cara-de-pau, com a intenção de confundir os menos avisados e se passar por um arrasa-quarteirão (os chamados Blockbusters). Lançados diretamente em vídeo, pouco antes da estréia nos cinemas do “original”, os Mockbusters acabam conseguindo grande retorno financeiro, viabilizando assim a continuidade deste fascinante fenômeno que antigamente chamávamos de picaretagem.

Dentro deste novo gênero cinematográfico (tudo bem, a picaretagem é antiga no cinema, mas agora ela é industrializada e tem nome próprio), uma produtora americana se destaca: é a The Asylum.
Embora a produtora independente já tenha mais de dez anos, ela acabou se destacando em 2005, quando lançou a sua versão de “Guerra dos Mundos” (pouco antes do lançamento do longa homônimo de Spielberg estrelado por Tom Cruise). Em seguida vieram versões genéricas de “King Kong” (“The King of The Lost World”, lançado no Brasil como “King, O Rei das Selvas”), “Alien vs Predador” (“AVH: Alien vs Hunter”), “A Profecia” (“666 – The Child”), uma genial mistura de “Código da Vinci” e “A Lenda do Tesouro Perdido” (“The Da Vinci Treasure”), “Serpentes a Bordo” (“Snakes on a Train”, trocando o avião por um trem) e “Transformers” (“Transmorphes”), entre outros (visite o site oficial da produtora).



A última pérola da produtora é “I Am Omega”, adaptação do clássico de Richard Matheson, e que por coincidência chegou às locadoras norte-americanas no dia 20 de Novembro de 2007, vinte dias antes do lançamento de “Eu Sou a Lenda”, versão de Hollywood para o mesmo livro; e vai ser lançado no Brasil pela FlashStar com o título "Batalha dos Mortos".

Desta vez, a Asylum investiu alto e, pra fazer frente a Will Smith em “Eu Sou a Lenda”, contratou o astro havaiano Mark Dacascos (de “Crying Freeman” e “Pacto dos Lobos”). Dacascos vive Renchard, um homem que sobreviveu a uma catástrofe inexplicada que transformou a população em zumbis-mutantes. Atormentado pela morte da esposa e do filho, Renchard tenta manter a sanidade e sobreviver ao ataque das criaturas.

Em “I Am Omega”, o protagonista não é um cientista em busca da cura pra doença que assola a humanidade, como nas outras versões. Renchard parece mais um soldado lutador de kung fu, ainda que em nenhum momento se toque no assunto de sua profissão. Afinal, se o mundo acabou mesmo, pra que trabalhar?

Ao invés de vampiros como nas versões “Eu Sou a Lenda” (2007) e “Mortos que Matam” (1964), na leitura da Asylum os infectados são seres deformados parecidos com zumbis, mais próximos dos personagens de “A Última Esperança Sobre A Terra” (versão de 1971, com Charlton Heston). O problema está no modus operandi destas criaturas. Como não são sugadores de sangue, podem andar a luz do dia (embora nas primeiras seqüências dê a impressão que eles só aparecem à noite). O problema é aquele que atormenta a existência de todo e qualquer zumbi: a velocidade. Ok, eles não são zumbis, mas parecem. Eles correm como qualquer pessoa viva e com saúde conseguiria correr, mas quando se aproximam de suas vítimas, viram bobões cambaleando como os zumbis de Romero.



E pasmem, Dacascos leva algumas vantagens sobre os atores que protagonizaram as outras versões (Vincent Price, Charlton Heston e Will Smith). Dacascos sabe lutar, usar facões, granadas, metralhadores e pistolas. Isto o coloca um passo a frente de qualquer mutante que cruzar seu caminho. Mas também torna o filme um pouco monótono, já que as criaturas não representam perigo algum. Mas não se preocupem, por que o último homem sobre a Terra não está sozinho, pois em determinado momento do filme aparecem outras pessoas não infectadas, inclusive uma linda garota com o mesmo rosto da mulher falecida de Renchard. Ao contrario das outras adaptações do livro de Matheson, é ela quem é imune a pestilência que transformou a humanidade em mutantes, e não o protagonista. E mais um detalhe bizarro sobre o desempenho de Dacascos: em algumas seqüências, ele até tenta chorar.

O cenário é um outro exemplo da “criatividade” da Asylum. Como os recursos são limitadíssimos, poucas cenas foram rodadas num ambiente urbano. Quase toda a ação transcorre em estradas desertas e construções isoladas. É lógico que tal artifício estraga o impacto de ver uma grande metrópole totalmente vazia. Mas melhor assim do que os CGIs desenvolvidos em 386s, característicos de outras produções da Asylum. Falando em economias, assim como Will Smith tinha um companheiro canino em “Eu Sou a Lenda”, Renchard também tem um. Mas ele só aparece num porta-retratos (imagino que o preço de um adestrador de cães esteja fora do orçamento de “I Am Omega”).

O próprio título “I Am Omega” é uma oportunista junção de “I Am a Legend” e “The Omega Man” (título original da versão de 1971). O ômega é a vigésima quarta e última letra do alfabeto grego e tem aqui o significado de derradeiro, de único e último. Um outro detalhe é a capa do DVD americano, que mostra Dacascos em cima de um caminhão rodeado por milhares de zumbis. É óbvio que esta cena não existe no filme.



O roteiro foi copiado... ops, escrito pelo ator-lutador, astro de “Kickboxer 5”, Geoff Meed. E não é o primeiro trabalho do rapaz como escritor. Geoff traz em seu currículo o roteiro de “Universal Soldiers” (adivinhem cópia de qual filme?), também da Asylum. A direção ficou a cargo do jovem Griff Furst, que atualmente trabalha num projeto chamado “Girls Gone Dead”, uma “homenagem” à série “Sexta-Feira 13”.

Paradoxalmente, “Batalha dos Mortos” não é de todo ruim (embora não consiga citar nada positivo nele). Tem tudo o que se espera de um filme picareta: roteiro ruim, atores ruins, diretor ruim, trilha sonora ruim e capa bonitinha. Mas é divertido. Na verdade tenho medo de confessar que gostei do filme. Algum louco pode se arriscar e assistir. E querer me processar depois.

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BATALHA DOS MORTOS (I Am Omega, EUA, 2007).
Direção: Griff Furst.
Roteiro: Geoff Meed inspirado no romance “Eu Sou a Lenda”, de Richard Matheson.
Produção: David Michael Latt, Xavier S. Puslowski e David Rimawi.
Fotografia: Alexander Yellen.
Música: David Raiklen.
Edição: Danny Maldonado.
Direção de Arte: Andrea Rennard
Figurino: Alex Yves.
Maquiagem: Tara Lang; Josh Segerman.
Efeitos Especiais: Matthew Bolton; Michael Dinetz; Josh Segerman
Elenco: Mark Dacascos (Renchard), Ryan Lloyd (Mike), Geoff Meed (Vincent), Gregory Paul Smith (diversos zumbis) e Jennifer Lee Wiggins (Brianna).




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