Existem filmes que perturbam mais pela idéia trabalhada do que pelo resultado em si da produção. “Nasce um monstro” é um destes casos.
“Nasce um Monstro” foi escrito, produzido e dirigido por Larry Cohen. O filme semi-independente (acabou distribuído pela Warner) explorava os temores que as novas e poderosas drogas sintéticas, os produtos químicos e os poluentes fossem os grandes vilões do novo século. Este medo, que já assombrava os americanos na década de 70, é materializado na forma de uma criança que sofreu mutações genéticas.



A trama narra o pesadelo vivido pelo casal Frank e Leonore Davies. Eles formam a típica família americana de classe média. Com um filho de 11 anos, o casal aguarda ansiosamente o nascimento do segundo filho. Leonore está feliz, conseguiu engravidar após várias tentativas frustradas.
Apesar das dores intensas e a suspeita de que
“algo está errado”, Leonore resolve manter sua gravidez. Na noite do parto, Frank aguarda preocupado na ante-sala, enquanto Leonore se contorce na mesa de operação. Na hora do nascimento, a criança se revela uma aberração, uma espécie de bebê-mutante. A criatura mata toda a equipe médica e desaparece pelos dutos de ar do hospital. A polícia logo cerca o local e inicia uma caçada atrás do monstrinho responsável pelo massacre.



O filme apresenta uma premissa simples e enxuta, daquelas típicas de filmes B. Aliás, gênero de baixo orçamento pelo qual Lawrence Cohen se tornaria conhecido nos anos seguintes, com produções como “
A Coisa”, “
A Ambulância”, “
Q – The Winged Serpent” e “
Retorno a Salem’s Lot”. Hoje, Larry se destaca como roteirista de grandes produções, como “
Celular” (Cellular, 2004), “
Por um Fio” (Phone Booth, 2002) e o inédito no Brasil “
Cativeiro” (2007). Atualmente, o produtor/diretor/roteirista está trabalhando em conjunto com Josef Rusnak (da ótima ficção pré-Matrix “
13º Andar”), na refilmagem de “
Nasce um Monstro”. O remake tem estréia prevista ainda para 2008.
Após o começo tenso, o personagem de Frank Davies torna-se o foco da trama. Com o bebê-mutante sumido, Frank vê a sua vida desmoronar: perde o emprego, passa a ser perseguido por repórteres nada discretos e sua esposa Leonore começa a ter um comportamento, digamos, um tanto fora do normal. Frank se convence então que a única maneira de ter a sua família e a normalidade de volta é a morte do filho. Deste momento em diante, ele resolve ajudar a polícia na procura pelo pequeno assassino.



O artifício usado por Cohen de não mostrar a criatura (possivelmente pelas limitações financeiras da produção), pode irritar um pouco os espectadores menos pacientes. Mesmo nos momentos em que o bebê-monstro ataca, vemos apenas suas vítimas. Um outro recurso meio tosco é a visão distorcida da criatura: uma imagem sobreposta que parece mais um canal de televisão mal sintonizado.
Os que esperam aquela violência explícita característica às produções setentistas contemporâneas (como “
O Massacre da Serra Elétrica” e “
Aniversário Macabro”) também podem se decepcionar. Falta sangue e violência em “
Nasce um Monstro”. E olha que os efeitos de maquigem ficaram a cargo de ninguém menos do que Rick Backer, que teria o nome imortalizado sete anos depois com os efeitos de “
Um Lobisomem Americano em Londres”.



Lembrando muito “
O Mundo em Perigo”, as seqüências finais de “
Nasce um Monstro” mostram uma perseguição policial nas galerias de esgoto de Los Angeles. Frank Davies acaba frente a frente com o bebê-monstrengo. Terá ele forças para assassinar seu próprio filho?
Existe ainda outra grande semelhança entre o clássico big bug “
O Mundo em Perigo” (Them!) e “
Nasce um Monstro”. Ambos os filmes mostram criaturas que sofreram mutações por atos inconseqüentes do ser humano, no caso de “
Them!”, são formigas que ficaram do tamanho de um carro graças à exposição à radiação produzida por testes nucleares no deserto do Novo México.
O motivo pelo qual a personagem Leonore dá a luz a um monstro não fica claro. Em determinado momento, a mãe afirma que tomou remédios que ajudaram na fertilização. Em outro, o médico reclama que o pai se negou a fazer exames. A crítica americana, quadrada como sempre foi, ficou irritada com a falta de
“explicações”.


A trilha sonora seria uma das últimas composições do genial Bernard Hermann, famoso pelas trilhas de “
Psicose”, “
Cabo do Medo” e
“Cidadão Kane”. O último trabalho de Hermann, falecido em 1975, seria a trilha composta para “
Táxi Driver”.
Algumas mortes, mesmo que apenas insinuadas (como foi dito o bebê-monstrengo dificilmente aparece), tornar-se-iam clássicas dentro do gênero horror. Uma delas é a de um descuidado leiteiro que não percebe que o monstrinho está dentro de seu caminhão. A seqüência, um tanto cômica, termina com a morte do entregador. Uma outra situação engraçada é quando dezenas de carros de polícia cercam uma casa. Os policiais com armas em punho invadem o quintal da residência e abordam o bebê... errado!
O limitado elenco é encabeçado por Jack P. Ryan, interpretando o atormentado pai do bebê-monstro. Sharon Farrel faz o papel da mãe, enquanto James Dixon o cientista que quer se aproveitar da situação. Dixon tornou-se parceiro de Cohen e participou de vários filmes posteriores do cineasta.
“
Nasce um Monstro” recebeu duas seqüências inferiores, também dirigidas por Larry Cohen. Uma quatro anos após, chamada
“It´s Alive Again” (1978) e
“It´s Alive III – The Island of Alive” em 1987 (este último com o humor muito mais acentuado).


Lançado nos Estados Unidos em outubro de 1974, “
Nasce um Monstro” venceu o prêmio especial do júri no
Avoriaz Fantastic Film Festival de 1975. No Brasil foi lançado apenas em formato VHS pela
Warner nos saudosos anos 80. Recentemente foi lançado lá fora um belo box contendo todos os três filmes da série. Resta a nós, moradores do terceiro mundo, esperar pela boa vontade das distribuidoras nacionais.
Ousado e macabro, ainda que com limitações, “
Nasce um Monstro” vale hoje mais como referência para gênero horror do que como cinema de qualidade. E apesar do elenco de segunda e a produção barata, tornou-se com o passar dos anos um pequeno clássico.
Outros bebês encapetados
O filme de bebê-capeta mais famoso é com certeza um filme em que o bebê capeta não aparece. “
O Bebê de Rosemary”, dirigido por
Roman Polanski em 1968, chocou por narrar a história da gestação do filho de Rosemary Woodhouse, supostamente gerado pelo próprio Príncipe das Trevas. O filme marcou época pelo clima sério e pesado e pelos acontecimentos envolvendo a equipe da produção, inclusive a morte da esposa de Polanski por Charles Manson. Já se considerarmos um bebê um pouco mais crescidinho, temos o
“enviado” Damien, em “
A Profecia”. Uma outra série, muito parecida (por que não dizer, copiada), com “
Nasce um Monstro” é “
O Bebê Maldito” (The Unborn, 1991, EUA). Veja as semelhanças na sinopse: um casal que tem dificuldades para ter filhos procura um médico especialista em fertilidade para fazer reprodução in-vitro. A mulher finalmente engravida, mas descobre que o feto que carrega no ventre é um bebê demoníaco, fruto de macabra experiência genética. Alguns anos depois uma continuação foi realizada, chamada
“O Bebê Maldito 2”. Ambos os filmes foram lançados apenas em VHS e permanecem inéditos em DVD no Brasil.
Para comentar o texto e entrar em contato com João Pires Neto:
Nasceu, Também, um Clássico do Cinema de Terror
por Orivaldo Leme Biagi
Muitos críticos cinematográficos, depois de vários anos, aprenderam a valorizar a produção cinematográfica norte-americana da década de 70. A inventividade e liberdade que diretores e roteiristas tiveram neste período ajudou a criar filmes sólidos e de grande qualidade como nunca o cinema havia criado até então. Clássicos como
A Última Sessão de Cinema,
Tubarão,
O Poderoso Chefão,
Guerra nas Estrelas,
Taxi Driver,
O Exorcista, entre muitos outros, tornaram-se marcos incontestáveis da história do cinema.


Livres do
Código Hays (que censurou a produção cinematográfica norte-americana por anos a fio) e procurando explorar vários dos caminhos libertários e socialmente críticos construídos pela Contracultura na década de 60 (em particular depois do estrondoso sucesso da produção B
Easy Rider - no Brasil,
Sem Destino), cineastas como Steven Spielberg, George Lucas, Francis Ford Coppola, Martin Scorsese, William Friedkin, entre outros, foram bastante ousados, criativos e inteligentes nas suas abordagens cinematográficas, conseguindo efeitos que influenciariam todo o cinema mundial nas décadas posteriores.



Tais características não se limitavam aos (futuros) grandes diretores trabalhando nos grandes estúdios, mas também eram encontradas nas produções independentes e, principalmente, de terror, como
Tobe Hooper nos mostraria no inventivo, tenso e inesquecível
O Massacre da Serra Elétrica. Mesmo produzido por um dos estúdios gigantes de Hollywood, os estúdios da
Warner Brothers,
Nasce um Monstro (It's Alive), de 1974, foi um desses casos de filmes de terror criados com grande liberdade e muita criatividade.
Num primeiro momento, podemos até mesmo desconfiar da intensidade deste filme, pois era uma típica produção B sem maiores referências ou astros, quase que um arremedo de programação produzido por um grande estúdio. Mas esta aparente simplicidade esconde um grande filme, sendo que sua grande virtude estava na direção, feita por um especialista no gênero de terror (e também de filmes B), Larry Cohen, que soube criar uma história forte, convincente e apavorante.


A história é simples: uma típica e feliz família norte-americana espera o nascimento de seu segundo filho depois de 11 anos de infrutíferas tentativas e, durante o trabalho de parto, a criança revela-se um monstro e mata toda a equipe médica. As autoridades a perseguem, inclusive com a ajuda do pai, enquanto a criança vai cometendo as mais horríveis atrocidades na procura de seus pais. A perseguição ao bebê-monstro e as dúvidas existenciais e emocionais do pai - dividido entre o remorso de ter gerado uma criatura monstruosa e seu amor paterno - conduzem o filme de uma maneira tensa e profunda. A própria visão do bebê-monstro, completamente distorcida e trêmula, é, muitas vezes, o único elo de ligação entre ele e o público.
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Numa abordagem tipicamente hitchcockiana (não por acaso Bernard Hermann, colaborador precioso da obra de Hitchcock, fez a trilha sonora deste filme), Cohen não utilizou-se do explícito na narrativa, sendo que o bebê-monstro raramente aparece - apenas no final do filme ele surge por inteiro e, mesmo assim, rapidamente. As situações são insinuadas (jogos de sombra, barulhos, a "presença" escondida e pronta para atacar sem aparecer) e o suspense conseguido através destes recursos narrativos chega a ser impressionante e, principalmente, desesperador para o espectador, mostrando a incrível capacidade do diretor de extrair o máximo com o mínimo de recursos.
Além da cena morte dos médicos durante o parto (insinuada, pois não foi mostrado a maneira como bebê os matou), o filme apresenta várias seqüências famosas: o pai volta para casa à noite e, depois de perceber que a geladeira, que estava exageradamente cheia à tarde, ficou vazia, desconfia que seu filho esteja em sua casa e, na escuridão, caminha pela casa procurando-o, num sensacional jogo de gato e rato; numa outra seqüência famosa (e a mais divertida do filme, apesar de trágica), um inocente leiteiro não percebe a entrada do faminto bebê no seu carrinho, tendo uma desagradável surpresa numa de suas entregas.
As razões para a criança ter nascido como um monstro raramente são ditas, o que irritou a crítica na época. |
A idéia mais próxima apresentada pelo roteiro foi o do consumo, pela mãe, de um remédio que poderia ter produzido efeitos na criança, mas mesmo esta hipótese é mantida em aberto. A maior força do filme foi justamente trabalhar com a idéia de que a anomalia é fruto da sociedade e das suas deficiências (meio ambiente, relações pessoais, falta de controle sobre os produtos consumidos, remorso, etc). Neste sentido, uma fala do pai é bastante significativa:
"Você já reparou que a gente costuma chamar de Frankenstein o monstro, e não o seu criador?" 

Se não quiser saber como o filme termina, não leia o próximo parágrafo
A responsabilidade do monstro é, portanto, do ser humano, o grande criador das péssimas condições do mundo - crítica que era a base dos protestos dos ecologistas do final da década de 60 e início da década de 70. O próprio fim do filme não é otimista em relação ao que levanta pois, depois de terem caçado e matado o bebê, um policial revelou ao desolado pai que uma outra criança como a dele havia nascido. O mal - e o terror - era social.
Uma abordagem que continua, infelizmente, bastante atual, passados 25 anos do lançamento do filme - e que ajuda a diminuir as críticas preconceituosas que o gênero do terror costuma receber, principalmente quando é acusado de ser vazio e superficial. Um pequeno horror
"camp" como este consegue ter mais dignidade, crítica social relevante e profundidade do que (quase) toda a produção cinematográfica da década de 90, quer de terror ou não.

O filme receberia duas seqüências, também dirigidas por Cohen, mas sem o brilho e a força do original.
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NASCE UM MONSTRO (It’s Alive, EUA, 1974).
Direção: Larry Cohen.
Roteiro: Larry Cohen.
Produção: Peter Sabiston, Janelle Cohen e Larry Cohen.
Fotografia: Fenton Hamilton.
Música: Bernard Herrmann.
Edição: Peter Honess.
Maquiagem: Rick Baker.
Elenco: John P. Ryan (Frank Davies), Sharon Farrell (Leonore Davies), James Dixon (Lieutenant Perkins), William Wellman Jr. (Charley), Shamus Locke (O Doutor), Andrew Duggan (O Professor), Guy Stockwell (Bob Clayton), Daniel Holzman (Chris Davies), Michael Ansara (O Capitão) e Robert Emhardt (O Executivo).
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