BLACK DEMONS

Por Felipe M.Guerra

Macumba e zumbis brasileiros em trash do italiano Umberto Lenzi

Quando eu digo que o Brasil é um povo ignorante em matéria de fazer cinema, muita gente já sai descendo porrada, dizendo que isso é preconceito, que o cinema nacional está melhor do que nunca, e bla bla bla. Sim, eu sei. Não estou falando mal do cinema brasileiro em si, mas da falta de criatividade dos filmes nacionais. Isso porque o Brasil tem uma cultura riquíssima e a maioria dos nossos cineastas insistem em fazer filmes sobre a miséria no Nordeste ou a marginalidade nas favelas cariocas. Sem pensar muito, teríamos elementos sobrando para gerar até dezenas de filmes de horror por ano - mas ninguém investe nisso. Imagine, por exemplo, uma história sobre escravos negros torturados e executados no Brasil Colônia sob o jugo português, no século 19, que voltam à vida como zumbis nos dias atuais para se vingar.
A ressurreição, claro, acontece através da macumba, depois de um bizarro ritual realizado por um pai-de-santo num terreiro. Não ia dar um belo filme de horror tupiniquim?

A má notícia é que este filme já existe. Foi feito no Brasil, com alguns atores brasileiros e outros estrangeiros. A trama envolve escravos-zumbis, uma velha fazenda e macumba. Só que não foi dirigido por um brasileiro, mas sim por um italiano bem oportunista e cara-de-pau chamado Umberto Lenzi. Aquele mesmo Lenzi que deu início ao ciclo italiano de filmes sobre canibais dos anos 70/80, com DEEP RIVER SAVAGES. O mesmo Lenzi que cometeu o hediondo CANNIBAL FEROX. O mesmo Lenzi por trás de NIGHTMARE CITY, que Quentin Tarantino acredita ser o melhor filme de zumbis da história do cinema. BLACK DEMONS ("Demônios Negros") é o nome da obra, filmada por Umberto e uma pequena equipe italiana no Rio de Janeiro, em 1991 - quando a produção cinematográfica italiana estava muito, mas muito mal das pernas, e isso se reflete o tempo todo no filme.


Muitos, se não viram, pelo menos já ouviram falar deBLACK DEMONS. Diz uma velha lenda asteca que existe uma cópia pirata em VHS, dublada em português, circulando pelas locadoras brasileiras - mas deve ser só lenda, pois nunca encontrei qualquer sinal da dita cuja. O filme também foi fartamente reprisado na antiga CNT, com o nome NOITE MALDITA, e dublado em português. Com uma abordagem bastante realista e convincente do tema (e principalmente dos rituais de macumba), é uma pena que BLACK DEMONS seja, na verdade, um filme bem ruinzinho. Perdido em algum lugar entre a produção paupérrima e o péssimo elenco, com quem confessadamente odiou trabalhar, Lenzi não pôde exercer seu "talento" para cenas de horror, violência e tensão, e o resultado é um "bom filme ruim", daqueles que você vê sem qualquer pretensão de levar a sério, e que pode render umas boas gargalhadas caso você assista bêbado ou chapado - ou ambos. Porque sempre é engraçado ver atores americanos às voltas com ameaças brasileiras, como a macumba.

Aliás, que atire a primeira pedra quem não tem medo - ou ao menos um pouco de receio - de macumba. Tem aqueles que não passam nem perto de um terreiro ou desses "trabalhos" feitos nas encruzilhadas, com velas e galinhas pretas. Somos ainda um povo supersticioso por natureza: mesmo quem se julga ateu ou diz não ter medo de nada, procura ficar distante de despachos... Ao mesmo tempo, vemos muitos filmes estrangeiros sobre rituais satânicos e o vodu do Haiti (o mais recente é o americano A CHAVE MESTRA), mas ninguém se coça para fazer algo assim no Brasil, envolvendo o "nosso" candomblé (que na verdade é herança africana, trazida com os escravos). Claro, até já teve algumas tentativas. José Mojica Marins, o Zé do Caixão, incluiu uma boa dose de macumbas em seus filmes (em À MEIA-NOITE LEVAREI SUA ALMA, Zé chega a roubar uma garrafa de caninha de um despacho), mas não foi suficiente. O péssimo Fauzi Mansur foi mais ambicioso, mas sua produção nacional falada em inglês ATRAÇÃO SATÂNICA (de 1990) fica no meio do caminho, devido ao roteiro chinfrim. Então, ainda estão nos devendo um filme de horror decente sobre macumbas e trabalhos! Alguém se habilita?


Lenzi veio filmar sua história de macumba, aqui no Brasil, com a bênção do também italiano Michele Massimo Tarantini (creditado como "diretor de arte" de BLACK DEMONS, com o pseudônimo Michael E. Lemick). Tarantini chegou ao Brasil nos anos 80 e conseguiu rodar alguns belos trash movies de baixíssimo orçamento por aqui, mesclando mão-de-obra italiana e brasileira. São títulos como FÊMEAS EM FUGA e PERDIDOS NO VALE DOS DINOSSAUROS. Em 1991, logo depois de filmar um pornô softcore estrelado pelo brasileiro Raul Gazola (que deve comemorar o fato do tal filme, ATTRAZIONE SELVAGIA, ser praticamente desconhecido), Tarantini resolveu convidar Lenzi para vir ao Brasil e rodar uma tardia história de zumbis. Tardia pelo fato do "boom" do gênero na Itália ter se esgotado ainda na metade da década de 80, e o terror não ser mais um gênero lucrativo no país.


BLACK DEMONS já começa sem perder tempo, com os créditos rolando sobre as tradicionais imagens de cartão-postal do Rio de Janeiro (como o Pão de Açúcar). Logo ficamos conhecendo nosso trio de "heróis": Jessica (Sonia Curtis, que teve uma pequena participação em THE MONSTER SQUAD), Kevin (Keith Van Hoven, de LA CASA NEL TEMPO, de Lucio Fulci) e Dick (Joe Balogh, também dirigido por Lenzi em A PASSAGEIRA). Kevin e Jessica são namorados, e Dick é o irmão mimado da garota. Eles estão fazendo turismo de jipe pelo Brasil, mas Dick está aborrecido porque queria ver de perto os rituais de candomblé. Após uma discussão com o casal, ele sai andando a esmo pelas ruas cariocas. Chega a uma vila pobre, onde um grupo de crianças realiza um estranho ritual com tambores e máscaras (!!!). Atraído pela pivetada, Dick encontra um pai-de-santo cego, com um misterioso amuleto no pescoço. Uma negra surge do nada e sai puxando papo com o turista. A curiosidade é que o diálogo não sai em português, mas sim num inglês ridículo de tanto sotaque, totalmente inverossímil - como se todo mundo aqui falasse inglês normalmente.

Dick enche o saco da mulher para ver de perto um ritual de macumba. O diálogo em inglês é hilariante: Balogh, que é americano, fala o idioma fluentemente, mas a atriz que contracena com ele escorrega feio no sotaque. Além disso, palavras em português aparecem nitidamente em meio aos diálogos - e, neste caso, carregadas do sotaque de Balogh. Ao pedir à mulher se o cego é um pai-de-santo, o ator larga algo como: "He is a péi-de-sénto, right?". Já sua interlocutora enche as frases em inglês com termos brasileiros - é muito engraçado ouvir sentenças tipo "Let Iemanjá guide you" ou "I will guide you to the terreiro". No fim, só para resumir a história, a negra concorda em levar Dick, de Kombi (!!!), até um terreiro escondido na floresta (!!!), para ver de perto um ritual de candomblé, que, supostamente, teria o poder de despertar os mortos - cacetada!!!


Sem avisar os amigos, Dick sai do hotel no meio da noite e vai ver de perto o tal ritual, que tem de tudo um pouco: o pai-de-santo cego sentado num canto, um mané que fica dançando e esfregando uma tocha bem na frente da câmera, uns mulatos batucando seus tambores, aquela cantoria típica ("Aêêê aêêêêê aêêêê") e uma mulata seminua saracoteando como se fosse abre-alas de alguma escola de samba. O diretor Umberto Lenzi não esqueceu de seus tempos de assassino de animais em filmes como CANNIBAL FEROX, por isso emenda uma cena verídica de uma galinha preta tendo a cabeça decepada - só para a dançarina em êxtase beber o sangue que escorre do pescoço do galináceo. Espertinho, Dick usa um gravador para registrar todo o ritual. No fim, ganha o amuleto usado pelo pai-de-santo, bebe algo alucinógeno e sai de órbita. Acorda, no dia seguinte, em seu quarto de hotel.


É hora de seguir viagem, e no momento seguinte o trio de turistas aparece a bordo de seu jipe cruzando uma selva (só para alimentar aquela idéia equivocada de que, no Brasil, é tudo Floresta Amazônica). No meio do caminho, o veículo pifa e eles encontram um casal de brasileiros, José Barros (cujo ator não consegui identificar) e Sonia (Juliana Teixeira, que volta-e-meia aparece em alguma novela da Globo, tipo "Explode Coração"). Novamente, apesar dos brasileiros não saberem que o trio em apuros é gringo, já aparecem falando inglês carregado de sotaque, como se aqui no Brasil todo mundo falasse corriqueiramente o idioma... Tsc, tsc. José oferece ajuda aos três turistas, dizendo que vive em uma casa de fazenda a alguns quilômetros dali, e convida os desafortunados americanos para passarem a noite lá. Na chegada, conhecem a empregada Maria (interpretada por Maria Alves, outra que faz novelas globais, tipo "As Filhas da Mãe"). Como toda doméstica-macumbeira-superticiosa brasileira, ela logo fareja algo demoníaco em um dos visitantes - Dick, que aparentemente foi possuído por algum orixá (!!!) durante a cerimônia no terreiro.

A noite cai e o grupo se retira para seus quartos. Antes, porém, Sonia solta uma daquelas frases depreciativas ao nosso pobre país: "Não se assustem se a água tiver cara de chá. Aqui é o Brasil, não Nova York!". Enquanto todos dormem e Maria realiza uns rituais de purificação em seu quarto, tentando afastar o demônio que se infiltrou entre eles, o possuído Dick sai da casa e caminha até um cemitério próximo à fazenda, onde existem algumas covas do século 19 - e até um crânio com um dos olhos intactos, que sabe-se lá de onde surgiu!!! O americano cai de joelhos bem no meio do cemitério e então liga o gravador, deixando tocar a ladainha que gravou no dia da cerimônia de candomblé. Bingo: o encantamento dos macumbeiros incendeia as tumbas e traz os mortos enterrados no cemitério de volta à vida. No caso, são seis escravos negros, ainda com os grilhões e correntes amarrados aos pulsos e tornozelos (como se não fosse tirá-los na hora de sepultar...). Outro mistério é o fato dos cadáveres terem sobrevivido intactos a quase 100 anos de decomposição, já que seus corpos continuam inteirinhos, apenas um pouco deformados no rosto. Para completar a balbúrdia, cada escravo levanta do seu caixão portando uma arma branca: um segura um gancho, outro um machado, outro uma foice, outro um facão, e por aí vai. Quer dizer: foram sepultados com as armas, já pensando numa possível vingança futura! Coisa de louco!!!


A primeira vítima dos "demônio negros" é Sonia. Ela escuta um barulho vindo do lado de fora da fazenda e vai checar - vestindo apenas blusa e uma calcinha. É então cercada pelos zumbis e tem um dos olhos extirpados com o auxílio do gancho metálico - em mais uma cena estilo "Lenzi fingindo ser Lucio Fulci", conforme já havíamos visto anteriormente em NIGHTMARE CITY. Porém, o efeito é sangrento e realista. O que não é realista é a reação da atriz, que, com o olho para fora da órbita, pendurado apenas pelos nervos, insiste em ficar repetindo "Please, no!", ao invés de berrar alucinadamente de dor. Além disso, a cena é caoticamente editada: percebe-se claramente que o gancho passa um milhão de metros longe do olho - e mesmo da cabeça da atriz -, mas, no momento seguinte, Lenzi corta já para o dito cujo sendo arrancado pelo gancho! Ah sim: e ninguém na fazenda escuta os gritos da pobre caolha...


Amanhece e ninguém parece muito preocupado com o desaparecimento de Sonia ("Ela deve ter ido até a cidade", diz Kevin, sem avaliar a imbecilidade da teoria; apesar disso, todos concordam com ele). E demora uma eternidade até que algo de interessante volte a acontecer. Apesar de serem zumbis, os escravos negros se escondem nas sombras, tentando pegar suas vítimas de surpresa - quando não haveria a menor necessidade disso! É o caso da cena em que um deles se aproxima pelas costas de Kevin. Quando está para dar cabo do rapaz, escuta José chegando e se esconde (ao invés de simplesmente ficar lá e matar os dois!). Finalmente, a pobre Maria vai para o saco, num repeteco da morte de Sonia (olho arrancado por gancho), seguido de uma feroz machadada na cabeça. E os personagens sobreviventes começam a considerar a hipótese de estarem cercados por mortos-vivos.

É quando José surge com a tradicional "história de background para justificar a trama". Ele conta que, no século 19, quando a fazenda pertencia a um rico fazendeiro (ô redundância!), seis escravos tentaram fugir do trabalho forçado e foram recapturados. Passaram por longas torturas, foram cegados e então enforcados, mas juraram voltar para se vingar. Por isso, o sexteto estaria de volta para acertar as contas, matando seis pessoas para fechar a fatura e poder descansar em paz. Não que a coisa tenha muita lógica, considerando que eles deviam querer vingança contra os fazendeiros que os mataram, e não contra os pobres inocentes que nada têm a ver com a história. Porque, se for o caso, as pessoas mortas pelos zumbis em BLACK DEMONS poderiam se considerar injustiçadas e voltar também como zumbis no futuro para matar outras seis... Já pensou se a moda pega???


Mas enfim: descoberta a verdade, o grupo resolve escapar. Só que Dick, que está do lado dos zumbis, resolve ajudar a fechar a conta, atacando os próprios amigos e diminuindo o número de sobreviventes. Poderão os restantes enfrentar o possuído Dick e os zumbis em mais uma noite de horror? Ou o poder da macumba será mais forte que as boas intenções de nossos amigos?

BLACK DEMONS mistura elementos de vários outros filmes (como os zumbis cegos da famosa série espanhola de Armando de Ossorio) e acaba dando vários tiros para acertar em alvo algum. O título não se justifica (por que chamar os vilões de demônios se eles são, claramente, zumbis?), e muito menos pode-se classificar a obra como "filme de zumbis", já que é mais uma trama de vingança - e os mortos têm alvos específicos, sem matar apenas para comer, como nos filmes de George A. Romero. É uma pena, também, que a contagem de cadáveres seja minúscula: além de Sonia e Maria, morrem apenas mais dois - e um deles nem é vítima dos zumbis. Uma morte é separada da outra por longos e enfadonhos minutos onde praticamente nada acontece. Quem diria que estamos vendo um filme do mesmo Umberto Lenzi que fez ,A HREF="ferox.html">CANNIBAL FEROX e NIGHTMARE CITY, onde a violência e o horror eram constantes...


O melhor mesmo é aproveitar BLACK DEMONS como trasheira braba. O filme tem alguns detalhes de rolar de rir, como o fato das vítimas conseguirem morrer mesmo sendo virtualmente impossível ser apanhado pelos zumbis - os caras caminham tão devagar que, numa corrida leve, você deixaria os vilões muitos quilômetros para trás! E que tal o fato de uma aranha tarântula caminhar livremente pelas paredes da fazenda, como se isso fosse algo comum no Brasil (Lenzi deve ter confundido o interior do Rio de Janeiro com a Floresta Amazônica, novamente). E, ainda, como avaliar a cena onde um cara vê outro se aproximando em sua direção com um punhal e só consegue perguntar: "O que você vai fazer?"? hahahaha. Finalmente: como é que os zumbis conseguem atacar suas vítimas sempre de surpresa se as correntes em seus tornozelos arrastam pelo chão, fazendo o maior barulho? E qual deles carrega a máquina de gelo-seco, já que cada aparição dos mortos-vivos é precedida de uma névoa espessa???


Porém, o mais engraçado ainda é o fato do inglês ter se transformado na língua oficial do Brasil - e como dói ouvir os atores brasileiros falando aquele inglês horrível, carregado de sotaque... Não seria mais fácil dublar os ditos cujos? Em algumas cenas, o sotaque é tão carregado que simplesmente não se entende o que eles estão falando. O diálogo da empregada Maria, "There isn't enough shits for them all", sai como "Dérisen enáf shits for demól". Mais adiante, "Now I see it all clearly" vira "Nau ai si étol clirli". Por fim, "What's happened to her?" soa como "Uats répen tchu ãr?". Decididamente, estes atores seriam reprovados em qualquer cursinho do Yázigi! E mais: que o casal brasileiro fale em inglês com os turistas, tudo bem; mas qual a real necessidade de José e Sonia se comunicarem com sua empregada também em inglês? Tente segurar a risada quando José oferecer a Maria uma recompensa financeira, dizendo: "I will give you a hundred cruzeiros bonus". hahahahaha. E que tal, ainda, o duplo-sentido involuntário dos diálogos envolvendo o pobre Dick, já que "dick", nos EUA, é gíria para o órgão sexual masculino? Nesse sentido, é engraçadíssimo quando Kevin larga um "I can't find Dick". hahahahahaha. Que coisa...

Agora, é muito interessante perceber que, em alguns detalhes, o roteiro da italiana Olga Pehar é fidelíssimo aos costumes e tradições brasileiras - mais até do que os próprios filmes feitos aqui no Brasil. Quando Maria se desespera com alguns vultos fantasmagóricos cercando a fazenda, ela se agarra numa imagem de Nossa Senhora Aparecida, a padroeira do Brasil - um detalhe simples, porém eficaz. A mesma Maria, mais adiante, faz a popular "figa" com os dedos para tentar afastar os maus espíritos, em outro costume bem tradicional da nossa gente. E as cenas filmadas na favela, no início do filme, mostram um Brasil pobre sem maquiagem, com atores que foram recrutados na rua mesmo.


O resultado, entretanto, está anos-luz distante do satisfatório, e só pode ser visto como comédia involuntária. Até mesmo Umberto Lenzi, que tenta defender arduamente os seus piores filmes, reconhece. Em uma entrevista que acompanha o DVD de BLACK DEMONS lançado pelo selo americano Shriek Show, o italiano disse o seguinte: "Eu preciso admitir que o filme não ficou bom. Não fiquei completamente satisfeito com ele, porque nós fizemos o filme no Brasil, em condições muito difíceis. Filmamos naquela fazenda onde só se podia chegar de jipe, onde não havia estradas, e era preciso uma viagem de quase um dia para chegar no set. Era muito distante da cidade".

Na mesma entrevista, Lenzi também fala de como odiou trabalhar com todos os atores do filme, exceção feita a Joe Balogh, que ele havia dirigido, no ano anterior, em PAURA NEL BUIO, lançado no Brasil como A PASSAGEIRA. Fora Balogh (que é um clone do ator americano Kevin Bacon), Lenzi chamou os atores brasileiros de "medíocres", só elogiou o trabalho de Maria Alves ("Uma atriz razoável", segundo o diretor) e taxou o inglês Keith Van Hoven de "idiota". Keith e Balogh teriam brigado do começo ao fim das filmagens, transformando a produção num inferno. Além disso, Lenzi foi bastante indelicado com Sonia Curtis, a estrela do filme. Diz o diretor: "Sonia Curtis não foi a atriz escolhida para o papel. Tinha escolhido uma outra atriz, muito bonita, de Los Angeles. Só que, no último minuto, ela desistiu do projeto por algum motivo. Então, quando o avião dos Estados Unidos chegou e eu fui recepcionar minha atriz, encontrei uma outra diferente da que eu esperava [Sonia]!". Na opinião do italiano, Sonia era uma péssima atriz e ele só não foi atrás de uma substituta porque não poderia parar a produção por mais alguns dias. "Além de ser uma péssima atriz, ainda era baixinha e nem um pouco atraente", xinga Lenzi. O diretor até lembrou de um fato incomum acontecido nos bastidores, quando a americana tomou leite recém-ordenhado na fazenda e ficou doente; nos dias posteriores, todos fugiram de perto da atriz pensando que ela tinha AIDS!!!


Ainda nesta entrevista que acompanha o DVD, Lenzi dá uma de suas tradicionais viajadas ao tentar buscar uma "mensagem sociológica" em BLACK DEMONS, como ele já havia tentado fazer no apelativo CANNIBAL FEROX. "É o conflito entre a chamada civilização dos homens brancos e os nativos, ou os negros que foram capturados na África e trazidos para a América como escravos", delira o cineasta. Segundo ele, "esse elemento não está claramente inserido no roteiro, mas serve como background. Os escravos fugiram e foram mortos, torturados, pelos donos da fazenda, que eram brancos, de origem portuguesa. E então essa vingança, que acontece um ou dois séculos depois, pode ser considerada a vingança do terceiro mundo contra o mundo civilizado dos brancos". Ora, Lenzi deve ter tomado LSD quando deu esta entrevista, porque dos três mortos pelos zumbis em BLACK DEMONSapenas um é representante do "primeiro mundo", os outros todos são do terceiro mundo, e mesmo assim não são poupados pelos escravos (grande vingança!). Pior: os opressores americanos saem praticamente ilesos do conflito!

Um outro detalhe muito interessante de BLACK DEMONS é o fato de ele ser conhecido, nos Estados Unidos, como DEMONI 3. Ou seja, como se fosse uma seqüência oficial da série iniciada por Lamberto Bava em DEMONS e DEMONS 2. Claro que pela simples leitura do resumo do filme já se percebe que não tem nada a ver - e outros filmes italianos, tipo O TERROR NÃO TIRA FÉRIAS e A CATEDRAL, já haviam sido distribuídos com o enganoso título DEMONS 3 nos Estados Unidos. Comentando a mudança de nome, Lenzi tripudia: "DEMONI 3? Isso é uma estupidez, um absurdo! Eu nunca vi os filmes de Bava! A produção acabou se chamando DEMONI 3 por causa do produtor [Giuseppe Gargiulo], que queria faturar em cima do título. Mas a história, claramente, não tem nada a ver com os filmes de Lamberto Bava, porque eu me inspirei num roteiro de Olga Pehar sobre macumba, um ritual esotérico e religioso brasileiro".


Por tudo isso é que eu continuo esperando um bom filme de horror envolvendo as superstições brasileiras, principalmente a macumba. Esse BLACK DEMONS não conta, já que é claramente uma comédia infame, daquelas de doer a barriga de tanto rir.

Felipe M.Guerra

BLACK DEMONS(Black Demons, Itália, 1991). 88 minutos.
Direção: Umberto Lenzi
Roteiro: Olga Pehar, a partir de uma história de Umberto Lenzi
Produção: Giuseppe Gargiulo
Fotografia: Maurizio Dell'Orco
Música: Franco Micalizzi
Edição: Vanio Amici
Direção de Arte: Michele Massimo Tarantini
Desenho de Produção: Guliana Bertuzzi
Figurino: Olga Pehar
Maquiagem: Franco Casagni; Pat Pantanella
Elenco: Keith Van Hoven (Kevin); Joe Balogh (Dick); Sonia Curtis (Jessica); Philip Murray (Jose); Juliana Texeira (Sonia); Maria Alves (Maria); Cléa Simões; Justo Silva; Rita Monteiro; Felix Lorival; Paul R. Goodman; Tony Martins; Gleis J. Pereira; Sérgio Costa Andrade; Sergio Costa; Louis Karlson; Domiziano Arcangeli




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