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Num futuro não tão distante, o preço da gasolina atinge os incríveis 35 dólares o litro. Neste cenário absurdo, apenas os milionários podem dirigir os seus carros. Mas Archie Andrews, um professor vegetariano e ecologista, encontra uma fonte de combustível tão alternativa quanto incomum: o sangue humano.
Logo Archie se torna uma celebridade local, atraindo a atenção de todos, inclusive da linda e interesseira Denise. Entretanto, para manter o tanque cheio e não perder sua nova garota, o pacato Andrews precisará de muito, mas muito combustível.
“Carro a Sangue” é uma pequena pérola do cinema independente norte-americano. O jovem diretor Alex Orr segue a mesma linha trash-fake adotada por Tarantino/Rodriguez em “Grindhouse”. Eficaz no resultado crítico e cômico, abusando do humor negro e da violência exagerada, “Blood Car” mostra a transformação de um pacato professor primário, vegetariano e ambientalista em um serial-killer descontrolado. Paralelo ao ofício de ensinar criancinhas, Archie (o protagonista que a princípio é o exemplo de tudo o que é politicamente correto), busca desenvolver um motor à base de suco de ervas-daninhas. Numa destas experiências, Archie se corta acidentalmente e derrama algumas gotas de sangue dentro do tanque e o motor funciona. No entanto, algumas gotas são insuficientes para movimentar o carro. |
Mas como conseguir, em grande quantidade, matéria-prima para o seu novo combustível? Numa seqüência pra lá de hilária, o vegetariano Archie sai então à caça de animais para mover o seu carro, já devidamente modificado e equipado com uma espécie de moedor gigante no porta-malas. Archie chora e lamenta a morte dos pobres bichinhos. Primeiro são inofensivos esquilinhos. Depois um pequeno cachorrinho. Um patinho na lagoa. Logo está com um enorme saco cheio de animais mortos. Mas tudo em vão. Na verdade, sua invenção funciona apenas com sangue humano. Então o que resta a Archie? Empurrar pobres vítimas (de preferência velhinhas ou deficientes) para dentro do porta-malas de seu carro.
Com o carro abastecido, Archie “conquista” o coração da gostosa e ninfomaníaca Denise. Apesar de fútil e interesseira, Archie se encanta com a garota (principalmente depois de experimentar metade das posições do Kama Sutra, inclusive uma de gosto um tanto quanto questionável). O sexo é na verdade o maior motivador das ações de Archie no filme. E Archie só possui Denise se estiver com o tanque cheio.


O humor ácido do diretor não fica apenas na morte de animaizinhos, velhinhas ou deficientes. Aliás, após jogar um ex-combatente de guerra em seu porta-malas, Archie percebe que não foi o suficiente para dar a partida. Exclama então indignado:
“Meu Deus! Precisava de uma pessoa inteira.” O pobre coitado não possuía as duas pernas e um braço! Em outra seqüência, agentes do governo, buscando apagar algumas pistas, não exitam em matar criancinhas à queima-roupa. Mas o que parece apenas uma comédia de humor negro de gosto duvidoso, aos poucos se revela um manifesto contra o
“American Way of Life” e as guerras insanas pela exploração do petróleo promovidas pelos Estados Unidos, incluindo um discurso anti-bush mais do que direto no final do filme. É obvio que toda esta liberdade criativa e ideológica só seria possível dentro uma produção independente. Liberdade, digamos de passagem, muito bem aproveitada pelo diretor estreante Alex Orr, que acumula ainda a função de roteirista e produtor em
Blood Car.


O elenco é encabeçado pelo também estreante Mike Brune. Juntam-se a ele as gatíssimas Katie Rowlett, interpretando a
“pervertida” Denise e Anna Chlumsky (a namoradinha de Macaulay Culkin em
“Meu Primeiro Amor”) como Lorraine, uma amiga que nutre uma paixão secreta por Archie e que adora usar camisetas homenageando o Brasil. Não há como classificar as interpretações, já que são exageradas, e não se sabe se são propositalmente ou por falta de talento. Mas não se preocupem, esta pequena deficiência é totalmente compensada pelas cenas mais calientes. E além do mais, alguém se lembra de algum filme trash com boas interpretações?


Existem algumas falhas de continuidade, que não chegam a comprometer, como um furo de bala no porta-malas do carro que aparece e desaparece ou um machado com as mesmas características usado por Archie. Um ponto fraco, que diminui um pouco “
Carro a Sangue”, é a edição, que não acompanha a ousadia do roteiro e se mostra convencional demais. A trilha sonora também é bem comportada e composta quase toda por músicas clássicas. O resultado é até interessante em alguns momentos, mas soa amadora e pouco criativa em outros.


“
Carro a Sangue” foi recentemente exibido na
Mostra Indie de São Paulo onde foi muito bem recebido. Já nos Estados Unidos recebeu diversos prêmios (segundo o site oficial), incluindo os
“famosíssimos” Cinequest New Visions Award,
Faux Film Festival (escolha da audiência),
Blackseat Festival entre outros. O site americano de cinema
Ain’t It Cool News definiu
Blood Car da seguinte maneira:
“A diversão mais retardada do ano!”.

Mas até os menos conservadores podem não ver muita graça em crianças sendo massacradas numa escola (em época de tragédias como os da Virginia Tech ou Columbine) ou um bebê sendo usado como combustível. Entretanto, se o diretor pretendia romper os paradigmas de bom gosto e bom senso com “
Carro a Sangue”, ele está de parabéns pelo feito (imaginem como seria uma crítica do Sr. Rubens Edwald Filho sobre o filme). Mas quando visto como forma de deboche e crítica venenosa aos nossos irmãos do hemisfério norte, o mal-comportado “
Carro a Sangue” torna-se uma diversão imperdível.
João Pires Neto
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CARRO A SANGUE (Blood Car , Estados Unidos, 2007).
Direção: Alex Orr.
Roteiro: Alex Orr, Adann Piney e Hugh Braselton.
Produção: Alex Orr, Adann Piney e Chris Antignane.
Fotografia: Adann Piney.
Música: James Bernard.
Efeitos Especiais e Visuais: Samantha Cobb e Michael McReynolds.
Elenco: Mike Brune (Professor Archie Andrews), Anna Chlumsky (Lorraine), Katie Rowlett (Denise), Marla Malcolm (caronista), Bill Szymanski (veterano de guerra), Hawmi Guillebeaux (Agente Whiny), Vince Canlas (Agente Shin) e Matthew Stanton (Agente Shot).
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