O Mestre Mario Bava contribuiu com alguns títulos muito singulares dentro dos filmes Gialli, com os clássicos absolutos THE GIRL WHO KNEW TO MUCH aka LA RAGAZZA CHE SAPEVA TROPPO, 1962 e BAY OF BLOOD aka BANHO DE SANGUE, ECOLOGIA DEL DELITO e em alguns países conhecido com o bizarro título de THE LAST HOUSE ON THE LEFT PART 2, de 1972. Porém, em 1964, Bava lançou o seu melhor e mais elaborado filme sobre assassinos misteriosos, belas mulheres aterrorizadas e uma violência incomum para a época: BLOOD AND BLACK LACE aka SEI DONNE PER L’ASSASSINO. O título em italiano pode ser traduzido como “Seis mulheres para o assassino” e tem sua trama ambientada em uma sofisticada Casa de Moda comandada pela bela Condessa Cristina, interpretada por Eva Bartok, casada com o ambíguo Max, interpretado por Cameron Mitchell. Na primeira cena do filme vemos a placa dessa Casa de Moda ficando pendurada em uma noite de tempestade. A placa vermelha como imagem inaugural do filme terá uma ligação muito bem construída com a imagem final do filme, onde aparece um telefone vermelho também pendurado e balançando. Nessa noite de tempestade surge uma bela modelo caminhando pelas proximidades da tal Casa em meio ao bosque. Ela caminha na semi-escuridão enquanto surge a emblemática figura do assassino. Ele veste uma capa de chuva, um chapéu e tem o rosto coberto por uma bandagem. Essa caracterização do assassino dos filmes Gialli se repete em diversas produções, tanto na Itália como em outros países onde foram produzidos filmes inspirados nesse característico subgênero do Horror Cinematográfico Italiano. A seqüência do primeiro assassinato, por estrangulamento, é encenada com toda a riqueza imagética dos filmes de Bava, com elegantes enquadramentos e uma fotografia acima da média, construída por Bava e seu fiel colaborador Ubaldo Terzano.


Com a descoberta do primeiro corpo o filme passa a mostrar os misteriosos caminhos percorridos por várias personagens da trama, todas modelos, ligadas a Casa de Moda da Condessa Cristina. Mistérios começam a emergir como: diários secretos, telefonemas misteriosos e incidentes paralelos que ocorrem nos bastidores de um desfile de modas. Ocorre então o segundo assassinato, em um ateliê de costura, com muitos manequins de plástico, recorrentes da inusitada sequência dos créditos iniciais do filme. A iluminação é elaborada ao extremo e o confronto entre a modelo e o assassino termina com uma brutal cena onde um artefato com ganchos de tecelagem é usado como arma, enquadrado sob o ponto de vista da vítima. Essa sequência foi uma das que teve problemas com a censura na época e seria citada em 1972 no clássico de Armando de Ossorio:
Tombs of the Blind Dead, na cena onde a jovem transfigurada em morta-viva invade um ateliê de bonecas.
Com o passar do tempo as vítimas começam a surgir. Em um apartamento vemos um belo enquadramento do interior de uma lareira que antecipa o brutal homicídio de uma modelo que é torturada com um ferro em brasa fumegante, em outra cena que causou problemas com a censura da época.

A seqüência mais cultuada desse filme, porém, é a da banheira. Cortada em muitas edições do filme e restaurada recentemente, sem cortes, na sua reedição em DVD, ela mostra uma bela modelo sendo afogada pelo assassino com a câmera mostrando o rosto da jovem de dentro da banheira. Posteriormente o assassino puxa uma navalha e lhe corta os pulsos mostrando uma bela e macabra composiçâo da mulher submersa tendo a água se enchendo lentamente de sangue. Essa seqüência inspiradora foi recriada em muitos filmes como:
PRELÚDIO PARA MATAR de Dario Argento,
HALLOWEEN 2 e é explicitamente citada no filme
MATADOR de Pedro Almodóvar, onde um Toureiro necrófilo se masturba ao ver justamente essa cena da banheira do filme de Bava, mesclada a cenas do filme
COLEGIALAS VIOLADAS, 1980, de Jesus Franco onde um assassino de mulheres se veste da mesma forma que o assassino de
BLOOD AND BLACK LACE.



Existe na parte final do filme um embate que nos remete a
THE WHIP AND THE BODY, cuja conclusão explode em revelações sangrentas. A intensa atmosfera que Bava criou nesse filme onde o Mundo da Moda aparece como pano de fundo de uma História de Horror e Crime, criou em torno dele uma aura de culto por suas inesquecíveis seqüências de assassinato e a beleza de sua fotografia e de muitos de seus enquadramentos, além da sutil exploração do corpo de belas mulheres semi nuas. A música de Carlo Rustichelli, habitual colaborador de Bava, colabora para acentuar a ambientação da trama em um meio repleto de vaidade e ambição. Com a marca autoral de Mario Bava do início ao fim,
BLOOD AND BLACK LACE é, além de um iten obrigatório para colecionadores, um importante filme da Fase de Ouro do Horror Italiano dos Anos 60 e 70.
Marcelo Carrard
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BLOOD AND BLACK LACE (Sei Donne Per L´ASSASSINO , Itália, 1964). Duração: 90 minutos.
Direção: Mario Bava
Roteiro: Mario Bava, Marcello Fondato e Giuseppe Barilla aka Joe Barilla
Produção: Alfredo Mirabile e Massimo Patrizi
Fotografia: Ubaldo Terzano e Mario Bava
Figurino: Tina Grani
Edição: Mario Serandrei
Elenco: Cameron Mitchell (Max), Eva Bartok (Condessa Cristina), Thomas Reiner (Inspetor Silvester), Arianna Gorini (Nicole), Mary Arden (Peggy Peyton), Claude Dantes (Tao Li), Lea Lander (Greta), Francesca Ungaro (Isabella), Herriet Medin (Clarice), Luciano Pigozzi (César)
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