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Todo fã de horror que se preze deve saber que o sucesso de três produções independentes feitas na década de 70 - BLACK CHRISTMAS (1974), HALLOWEEN (1978) e SEXTA-FEIRA 13 (1980) - deu origem a um dos períodos mais divertidos (ou ridículos, dependendo do nível de exigência do espectador) do cinema de horror moderno: a "Era dos Slasher Movies". Todo mundo queria tirar uma casquinha (leia-se “graninha”) deste fenômeno, fossem pequenas produtoras de fundo de quintal ou grandes estúdios, como a Paramount. E é claro que os produtores italianos, mestres em copiar toda fórmula de sucesso que vinha dos States (nos chamados “rip-offs”), não iam ficar de fora dessa boquinha.
Aliás, isso não deixa de ser irônico, considerando que foi exatamente uma produção italiana (o hoje clássico BANHO DE SANGUE, de Mario Bava, lançado em 1972) que lançou a maioria das bases (ou clichês) para o slasher norte-americano contemporâneo, |
como os assassinatos criativamente violentos (vale lembrar que quase todas as cenas de morte da obra de Bava foram copiadas descaradamente em SEXTA-FEIRA 13 - PARTE 2, dez anos depois) e o assassino misterioso cuja identididade só é revelada no final. Trata-se, enfim, de um caso raro em que os italianos não estavam propriamente copiando o que se fazia nos EUA, mas sim retomando o que era deles por direito, ou cometendo auto-plágio, se o leitor assim preferir. Em outras palavras, mostrando que fizeram primeiro e que podiam fazer melhor.


Muitos italianos embarcaram na moda dos slashers, entre eles gente como Joe D’Amato, que gostava de investir em tudo que fosse minimamente rentável. D’Amato dirigiu
ABSURD (1982) como uma cópia quase frame a frame de
HALLOWEEN e
HALLOWEEN 2 (1981), copiando até o final, onde o assassino tem os olhos perfurados e persegue sua última vítima completamente cego - como Michael Myers em
HALLOWEEN 2. Mais tarde, em 1987, D'Amato produziu o excelente
O PÁSSARO SANGRENTO, o primeiro filme dirigido por
Michele Soavi, e que era um slasher muito melhor do que todos os que eram produzidos nos Estados Unidos na mesma época.
Percebendo que o filão era lucrativo e que havia espaço para todos, o cineasta espanhol Jess (Jesus) Franco resolveu lançar seu próprio slasher e faturar em cima da febre. O começo da década de 80 não era exatamente a melhor fase do prolífico diretor, que, até então, já havia feito 103 filmes (!!!). O auge de sua carreira havia sido entre as décadas de 60 e 70, principalmente, quando o produtor inglês Harry Alan Towers bancou algumas de suas melhores obras, de
SANTUÁRIO MORTAL (1969) a
CONDE DRÁCULA (1970), só para citar dois títulos que saíram no Brasil. Naqueles tempos, os filmes de Franco até eram bem produzidos e tinham ótimo elenco (gente do calibre de Herbert Lom,
Christopher Lee e Klaus Kinski), diferente das patifarias que o cineasta realizaria depois sob encomenda e com uma merreca de orçamento.


Pois foi no final dos anos 70 que Franco virou cineasta de aluguel, encarando qualquer produção barata em qualquer subgênero que estivesse dando grana: filmes baratos sobre mulheres na prisão, sobre zumbis ou sobre canibalismo. Sendo capaz de fazer seis ou sete produções vagabundas por ano, às vezes duas ou três ao mesmo tempo e com o mesmo elenco (!!!), o espanhol certamente não ia deixar de encontrar uma folguinha na sua apertada agenda para encarar uma incursão no cinema slasher. E assim, contratado pelos produtores alemães Otto Retzer e Wolf C. Hartwig, Franco dirigiu, sob encomenda, o sangrento
"Die Säge des Todes", ou, em inglês,
BLOODY MOON (
"Lua Sangrenta"), uma espécie de resposta européia ao sucesso dos filmes da série
SEXTA-FEIRA 13. (Por favor, não confundam com aquele trash do alemão Olaf Ittenbach, lançado aqui em VHS justamente com o título
LUA SANGRENTA.)
Embora beba da fonte dos slasher movies feitos nos EUA naquela época (assassino misterioso, mortes exageradas, personagens típicos, libertinagem),
BLOODY MOON acaba mesclando um toque tipicamente norte-americano (para conquistar o mercado internacional) com o giallo italiano. Inclusive o roteiro lembra muito (mas muito mesmo) o clássico
BANHO DE SANGUE, de Bava. O resultado, claro, é um verdadeiro desafio para o espectador convencional, já que as produções pós-anos 70 de Jess Franco são conhecidas mais pela sua pobreza e descuido visual do que propriamente pelos seus méritos.


Filmando muito, e com pouco tempo para
"ajeitar" apropriadamente cada filme, o cineasta parecia gravar tudo em um único take, abusando de super-zooms, de edições pavorosas e de cenas arrastadas que só existem para encher lingüiça e fechar a duração média de um longa-metragem. Enfim, diversão trash na veia.
BLOODY MOON não foge à regra, e está repleto do pior (arrastado, mal-editado, às vezes mal-filmado) e do melhor do diretor (sadismo e violência a rodo, embora desta vez o velho Jess tenha reduzido os níveis de mulher pelada e sacanagem tão comuns em suas produções).
Este slasher foi rodado entre 1980-81, quando o cineasta filmou e lançou outros SETE filmes - incluindo o clássico cult
SADOMANIA e o trash
OASIS OF THE ZOMBIES, além de podreiras de putaria como
ABERRACIONES SEXUALES DE UNA MUJER CASADA e
ORGÍA DE NINFÓMANAS. Para não entregar que era uma mesma pessoa que fazia os oito filmes, cada um era lançado com algum dos inúmeros pseudônimos de Franco, tipo Clifford Brown, A.M. Frank, Jack Griffin ou Robert Griffin.
BLOODY MOON, por outro lado, traz o nome verdadeiro do diretor nos créditos, o que comprova que ele gostou do resultado. E é, ironicamente, um dos seus trabalhos menos conhecidos.


Nossa história começa num resort para turistas em Costa del Sol, no litoral da Espanha (o filme foi realmente filmado na Espanha). Ali está sendo realizado o chamado
“Festival da Lua”, onde jovens dançam disco music (lembre-se, é o início dos anos 80) alegremente e transam pelos cantos como se estivessem num sabá de bruxas. É quando conhecemos os dois elementos centrais da trama: o casal de irmãos Manuela (Nadja Gerganoff, em seu único filme) e Miguel (o austríaco Alexander Waechter). O rapaz tem parte do rosto exageradamente desfigurado, provavelmente por queimadura.
Sabendo que não conseguirá comer ninguém com aquela cara, Miguel rouba a máscara de Mickey Mouse e a camiseta que estavam sendo usadas por um garanhão e, depois de vesti-las, vai dançar no meio da galera. Acaba chamando a atenção de uma gatinha, que obviamente acredita que o desfigurado Miguel é o tal garanhão, pelas roupas que está usando. Os dois dançam um pouco, e a moça logo convida o desconhecido acompanhante para ir até seu bangalô, que, coincidentemente, é o de número 13 (hehehe). Ali o rósqui-fósqui está para se consumar quando, em meio ao rala-e-rola, a garota faz a burrada de arrancar a máscara de Mickey do sujeito (sabe-se lá porque não pensou nisso antes), e leva o maior susto da sua vida ao perceber que está sendo afofada não pelo garanhão que queria, mas sim pelo rapaz de rosto deformado de quem todo mundo foge como o diabo da cruz.


Apavorada e nauseada, ela empurra Miguel contra a cômoda do quarto, e o pobre coitado surta por ser desprezado de maneira tão violenta - e por ter não ter terminado a troca de óleo, óbvio. Bem, todo mundo devia saber que não se deve brincar com pessoas deformadas em filmes de horror, não é? Pois Miguel responde ao desprezo da moça agarrando uma tesoura e usando-a para apunhalar o peito da coitada, até que seus intestinos saiam do ferimento aberto! Diante de um frame congelado do rosto ensangüentado da pobre garota, entra o título do filme. Ah: caso você não tenha percebido a citação nada gratuita, Miguel é a forma latina do nome inglês Michael, uma óbvia citação a um tal de Michael Myers...
A história é retomada cinco anos depois, e descobrimos que Miguel passou todo este tempo encarcerado numa instituição para doentes mentais, mas está para ser libertado. E isso que seu médico (interpretado pelo próprio Jess Franco!) ainda alerta a irmã Manuela de que ele pode
“não estar totalmente curado”. Mas como assim? Muito responsável este médico, libertando um homicida que não está 100% recuperado ao invés de mantê-lo preso e sedado por tempo indeterminado, como Michael Myers em
HALLOWEEN... Aliás, o mesmo médico recomenda que Miguel não deve ter contato com qualquer coisa que lhe faça recordar da noite do assassinato de cinco anos atrás. E não é que Manuela, muito atenciosa, leva o irmão de volta para o mesmo resort onde ele cometeu aquele crime brutal??? Só faltou ela também entregar uma máscara de Mickey Mouse e uma tesoura para o maninho surtar de vez...


Pois nestes cinco anos em que o pobre Miguel-mãos-de-tesoura esteve engaiolado, o tal resort foi transformado numa escola de espanhol para turistas norte-americanas na Espanha - chamada, sem qualquer criatividade, de
"International Youth-club Boarding School of Languages". No caso, apenas para garotas - afinal, este é um filme de Jess Franco. Na viagem de trem até Costa del Sol, Manuela e Miguel encontram Angela (a alemã Olivia Pascal), uma doce futura estudante da tal escola, por quem, obviamente, o ex-psicopata (será
“ex” mesmo?) ficará encantado - ou obcecado, como preferir.
A tal escola de idiomas é uma comédia. Descontando Angela, que é a
“mocinha” (ou
“final girl” típica dos slashers), todas as outras garotas têm merda na cabeça e consideram
“status social” ter transado com o instrutor de tênis, o latin lover Antonio (Peter Exacoustos, em seu único filme). E aquelas que não abriram as pernas para o dito cujo são ridicularizadas como se fosse o fim do mundo. Inclusive uma das cenas mais imbecis da película é aquela em que uma das moças fica pulando sozinha na própria cama e gemendo de mentirinha para que suas amigas acreditem que ela está transando com Antonio!!! E ainda tem gente que acha que apenas os personagens da série
SEXTA-FEIRA 13 que só pensam em sacanagem...


Além disso, o lugar supostamente é uma escola, mas mantém o estilo resort: as garotas residem em bangalôs (e é claro que Angela vai acabar naquele de número 13...), se divertem numa
“disco club” que fica no próprio complexo e até tomam banho de piscina de topless, tudo no intervalo das aulas e sem qualquer constrangimento, apesar de ter professores homens e até um jardineiro demente (hmmmmm...) chamando Paco circulando por lá o tempo inteiro - o sujeito é interpretado por um dos produtores, Retzer, em participação constrangedora.
Por falar em aula, maldito dia em que eu critiquei
PIECES, de Juan Piquer Símon, por se passar numa faculdade e não ter uma única cena em sala de aula. Pois em
BLOODY MOON há incontáveis cenas das garotas fazendo seu curso de espanhol, como se Franco quisesse realmente ensinar espanhol às atrizes e ao próprio espectador. Acredito até que o filme poderia ser adotado como ferramente educativa por verdadeiras escolas de idiomas. Só uma cena das moças aprendendo conjugação de verbos inglês-espanhol dura uns cinco minutos. Bom para quem não fala, pois, além de se divertir com as abobrinhas do filme, pode até aprender alguma coisa para utilizar numa futura viagem para comprar muamba no Paraguai.
Enfim, parece que a tal escola é um paraíso, não é verdade? Mas, logo nos primeiros dias, a pobre Angela percebe que é, na verdade, um inferno. O deformado Miguel, sempre mudo e ameaçador, não cansa de persegui-la pela área da escola, e inclusive fica espiando pela janela do seu bangalô quando ela inventa de trocar de roupa. O tal jardineiro demente aparece toda hora para dar-lhe sustos falsos, rindo de maneira maléfica. E tem ainda as meninas com sua encheção de saco em relação ao professor de tênis. Para piorar, alguém começa a fazer terríveis ameaças, do tipo
"Vou cortá-la no meio, como um pedaço de madeira”. Enquanto a coisa fica só na ameaça e na perseguição de Miguel, tudo bem. O problema é que logo um misterioso assassino começará a exterminar todo o elenco secundário de
BLOODY MOON, para o horror da mocinha.


A primeira vítima é a milionária e megera proprietária da área do resort, a condessa Maria Gonzales (a mexicana María Rubio), uma óbvia referência (ou chupação, você decide) à condessa dona da baía em
BANHO DE SANGUE. Este detalhe aproxima
BLOODY MOON do clássico de Bava, já que, como naquele filme, fica óbvio desde o começo que a cobiça e o desejo de possuir a fortuna da condessa são a mola propulsora dos assassinatos. Até porque Manuela e Miguel são parentes diretos da condessa - então tire suas próprias conclusões. Fica claro, também, que Manuela e Miguel, apesar de irmãos, mantêm uma relação incestuosa. E a garota, só para manter o nível de bizarrice da família, tem um hábito muito curioso: mostrar os seios desnudos para a Lua cheia! Nem tente entender, é apenas uma forma de Franco adicionar nudez gratuita na película! E você pensava que a família do
Leatherface era esquisita...
Angela começa a desconfiar que há algo de errado no resort quando uma das coleguinhas, a gostosona Eva (Ann-Beate Engelke, em seu único filme), vai até seu bangalô em busca de uma blusa para a noitada e acaba morta pelo assassino. A cena é um dos pontos altos do filme: Eva está com os peitos de fora, provando as blusas diante do espelho, enquanto Angela está no banheiro, e o criminoso surge por trás, apunhalando-a pelas costas. A ponta da faca, sadicamente, atravessa a garota e sai pelo bico do seu seio, num momento que rivaliza em apelação com a clássica
“cena da gilete no biquinho do seio” de
NEW YORK RIPPER, de Lucio Fulci.


Seminua e ainda com a faca atravessada na teta, Eva cai estatelada na cama de Angela, que acaba encontrando o cadáver ensangüentado. Ela sai berrando e pedindo ajuda, mas é claro que quando alguém aparecer o corpo já escafedeu-se do local (e, misteriosamente, não ficou nem uma gotinha de sangue que seja no lençol da cama...). Assim, ninguém acredita em Angela, que começa a passar por maluquinha. E embora Eva fique dias desaparecida, as outras garotas, burras como umas tábuas, acreditam que a fulana está se escondendo por ciúme de Antonio. Afe maria...
O restante de
BLOODY MOON é o tradicional feijão-com-arroz do subgênero: Angela passa o filme inteiro sendo ameaçada pelo psicopata e encontrando os cadáveres ensangüentados das suas amigas, tentando, inutilmente, convencer os outros de que há um matador à solta - e, apesar de várias estudantes estarem desaparecendo, ninguém nunca estranha nada! Isso quando a pobre mocinha não é atormentada pelos vários
“sustos falsos” típicos do gênero, como uma cobra descendo pela árvore onde ela está encostada ou uma enorme pedra de isopor que rola de um penhasco e quase esmaga a moça (bobagens que só estão no filme para que o espectador não pegue no sono diante de tantos tempos-mortos na narrativa).
E quem será o assassino? O deformado Miguel? O demente Paco? A maluca-que-mostra-as-tetas-para-a-lua Manuela? Ou o ambicioso diretor da escola e amante de Manuela, o professor Alvaro (Christopher Brugger)? A revelação final é um pouquinho mais elaborada do que o espectador pode imaginar, embora a identidade do assassino (ou será
"dos assassinos"?) fique bastante evidente desde o início, bem como sua motivação.

BLOODY MOON não é exatamente como a maioria das produções apressadas rodadas por Franco na década de 80. Neste filme, percebe-se um cuidado especial com as cenas de morte, que não existe, por exemplo, nos filmes de canibais e zumbis da fase Eurociné (estúdio francês) de Jess, tipo
WHITE CANNIBAL QUEEN ou
MANHUNTER - O SEQÜESTRO. Os assassinatos mostrados são violentíssimos, e parecem uma tentativa de explicitar ainda mais as cenas exageradas que os norte-americanos filmavam na época. E é um festival de crueldade de tirar o chapéu, com uma única morte off-screen (envolvendo fogo).
Os efeitos eficientes são de Juan Ramón Molina - hoje trabalhando em filmes como
DAGON (2001), de Stuart Gordon. E, embora estes efeitos sejam tão baratos quanto o filme em si, cenas como a do punhal atravessando o seio da moça não saem facilmente da cabeça, e você fica pensando como é que alguém teve cara-de-pau para filmar algo assim. E isso que nem cheguei no ponto alto de
BLOODY MOON: a sádica seqüência onde o assassino amarra uma garota, Inga (Jasmin Losensky), a um bloco de pedra, e liga uma enorme serra circular para fazer o trabalho sujo. Eis que a cabeça da moça é serrada brutalmente na altura do pescoço, numa cena sem cortes (além do corte realizado pela própria serra, claro...), com direito a generosos takes da cabeça (falsa, obviamente) rolando e dos esguichos de sangue saindo do pescoço cortado.





Seria muito mais fácil dar umas facadas na moça, mas aí não teria a mesma graça! Franco pega tão pesado que segue esta morte chocante com o atropelamento de um garotinho que testemunhou a execução na pedreira, e que é perseguido de carro pelo criminoso até acabar esmagado debaixo das rodas. Como diria o Faustão,
“ô loco, meu!”.
Aliás, como convém a um bom slasher, o assassino aqui não parece muito interessado em usar armas simples, tipo a afiada faca de cozinha que Michael Myers usou para dizimar metade do elenco de
HALLOWEEN. Além da serra circular para cortar pedra, o sujeito também utiliza um enorme alicate de pressão e até uma serra para podar arbustos para machucar/matar os figurantes!
Só estes belos momentos já dão um baile em quase tudo que os slasher movies norte-americanos mostravam naquela época (a série
SEXTA-FEIRA 13, por exemplo, ainda não tinha partido para o vale-tudo). Por isso não surpreende o fato de
BLOODY MOON ter entrado na lista dos “
Video Nasties” na Inglaterra. Para quem não sabe, e não leu o artigo do Gabriel Paixão aqui na
Boca do Inferno, esta temida relação inglesa incluía dezenas de filmes considerados extremamente sádicos para a época (primeira metade dos anos 80), quando se discutia os limites da violência no cinema e a forma como esta violência afetava os jovens. A lista incluía produções sangrentas bastante famosas, como
CANNIBAL HOLOCAUST e
EVIL DEAD, mas também outras mais obscuras, como esta de Franco. Elas ficaram proibidas por mais de 20 anos em terras inglesas, e algumas continuam inéditas ou circulando em versões cheias de cortes.


Um outro ponto positivo do filme é a trama estilo giallo, com o assasino usando luvas pretas de couro e uma meia-calça na cabeça para esconder o rosto. Embora o roteiro tente transformar Miguel no suspeito número 1 (afinal, ele é deformado, tem trauma de infância, pratica incesto com a irmã e já matou uma vez no passado), fica bem óbvio desde o começo que o matador é outra pessoa. Até pela lógica, pô: se Miguel está sempre circulando com cara de malvado pelo resort, e fosse ele mesmo o assassino, a identidade do dito cujo não precisaria ser mantida em segredo, pois a revelação não seria nenhuma surpresa! Como escrevi anteriormente, a motivação dos assassinatos está ligada à cobiça, numa espécie de reinvenção (ou será cópia mesmo?) da trama básica de
BANHO DE SANGUE.
Quem conhece o cinema de Jess Franco sabe que suas obras são, com raras exceções, muito ruins. Meu amigo Carlos Thomaz Albornoz, um dos especialistas brasileiros em cinema de horror obscuro, chegou a dizer que
“o estranho de Franco é quando seus filmes são sofisticados, e não quando são bagaceiros”. É verdade: descontando a fase anos 60-70 do diretor espanhol, em que ele tinha liberdade criativa para fazer obras-primas como
A VIRGIN AMONG THE LIVING DEAD e
VAMPYROS LESBOS, a maior parte dos seus trabalhos posteriores foram
“sob encomenda”, para produtores com pouco dinheiro para gastar, que precisavam de um cineasta que filmasse rápido e barato.
É o caso deste
BLOODY MOON, cuja equipe técnica era tão pequena que a musa e esposa do diretor, Lina Romay, foi creditada como assistente de direção (com o pseudônimo
"Rosa Almirail"). Nota-se, assim, a total falta de empenho de Jess, embora este filme, mesmo barato e bagaceiro, ainda esteja entre os mais bem-realizados que ele fez nos anos 80 (tente assistir
OASIS OF THE ZOMBIES, que ele fez no mesmo ano, para ver o que realmente significa a palavra
“bagaceiro”...).


Mas é preciso fechar um olho (ou até os dois, em algumas partes) para a qualidade cinematográfica.
BLOODY MOON não é, nem de longe, um bom filme. Tirando suas inspiradas cenas de assassinato, sobra apenas um slasher mal-feito, com a tentativa (nem sempre bem-sucedida) de criar uma trama razoavelmente diferente do que se fazia na época - quando a moda era filmar assassinatos em acampamentos de férias, como os vistos em
SEXTA-FEIRA 13,
ACAMPAMENTO SINISTRO,
CHAMAS DA MORTE...
Entretanto, para quem já conhece a forma como o diretor trabalha,
BLOODY MOON será razoavelmente divertido. Eu, pelo menos, considero todas as obras de Franco muito engraçadas, especialmente em seus defeitos, como os
“super-zooms” que não levam a lugar nenhum e os personagens mal-desenvolvidos. Picareta que só ele, o velho Jess chega a matar uma cobra real apenas para ter uma cena
"forte", e ainda filma um longo take da cabeça decepada da serpente se debatendo no chão!
Também é interessante constatar que Franco e o roteirista de primeira e única viagem Rayo Casablanca (não se surpreenda se este for mais um pseudônimo do próprio Franco...) fizeram sua lição de casa, copiando todo e qualquer clichê dos slasher movies do período, começando pelo número 13 no bangalô onde acontecem os crimes (óbvia e nada gratuita citação à série
SEXTA-FEIRA 13) e passando pela visão em primeira-pessoa do assassino através dos buracos dos olhos da máscara de Mickey Mouse (tirada diretamente do prólogo de
HALLOWEEN), sem esquecer da cena, já perto do final, onde a mocinha começa a encontrar os cadáveres das amigas (ou o que sobrou deles) espalhados pelo cenário. Neste sentido, nem mesmo a ambientação numa escola-resort é original, já que o lugar parece uma simples variação do acampamento de férias onde Jason ataca na série
SEXTA-FEIRA 13. Sobram as cenas de morte, estas sim o ponto alto da película. E por isso não recomendo a ninguém ver alguma cópia cortada, pois perderia a melhor qualidade da obra.
Infelizmente,
BLOODY MOON ainda não foi decentemente relançado em DVD. No Emule circula uma das únicas cópias sem cortes do filme, mas é tirada de um VHS - com imagem tão escura que dá vontade de acender uma vela na frente da TV. A única versão em DVD é do selo
Italian Shock: embora seja
"uncut", a imagem é em fullscreen e não foi restaurada. Tem um pouco mais de definição do que a cópia tirada do VHS, mas ainda está bem longe do ideal. Nem precisa dizer que o filme nunca foi lançado no Brasil, seja em VHS ou DVD.
Como eu escrevi ali em cima, de maneira alguma posso recomendar
BLOODY MOON como um bom filme, pois ele de maneira alguma é um bom filme. Fãs do cinema de Jess Franco (uma espécie em extinção, vale ressaltar) podem ver sem medo, pois tudo que o diretor faz de bom e de ruim está na tela. Fãs de slasher movies também podem arriscar, embora a obra não seja tão violenta quanto as produções atuais (demora 35 minutos para acontecer o primeiro assassinato). Fãs de horror em geral, que não gostam de slashers e nunca ouviram falar de Jess Franco, provavelmente não irão gostar, mas às vezes milagres acontecem.
Por via das dúvidas, arrisque. O mínimo que você vai ter é uma hora e vinte minutos de risadas involuntárias. E ainda vai aprender um pouquinho de espanhol...
JESUS NO BRASIL
Você percebe que vivemos num país de merda ao descobrir que não foram lançados por aqui nem 20 filmes de um cineasta com 200 películas no seu currículo (ou seja, ainda não dispomos de 90% da obra de Jesus Franco!!!). Se nos tempos do VHS, quando qualquer porcaria era lançada no Brasil, a quantidade de títulos dele nas nossas locadoras já era irrisória, imagine hoje. Pelo menos a
Continental lançou recentemente alguns dos clássicos do cineasta em DVD (numa coleção pejorativamente chamada
"Trash Collection"), e isso só não é um consolo porque os DVDs da
Continental são normalmente caríssimos e mal-feitos. Em todo caso, segue uma relação de 8 filmes obrigatórios de Franco lançados aqui no nosso país. É obrigatório ter os 8 na coleção para não passar vergonha!
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SADOMANIA (Hölle der Lust, 1981, Espanha/Alemanha)
Com: Ursula Buchfellner, Ajita Wilson, Antonio Mayans e Gina Janssen.
Clássico dos clássicos: o que dizer de um filme sobre prisão de mulheres (o popular subgênero conhecido pela sigla WIP) onde as carcereiras do presídio andam de topless, shortinho e levando metralhadoras? A trama é esdrúxula: passeando de carro por uma região afastada, Tara (a coelhinha da Playboy Ursula Buchfellner) e seu noivo chegam ao tal campo de prisioneiras, dirigido pela sádica Magda Urtado (interpretada pelo transsexual Ajita Wilson!). Sem qualquer motivo, os dois também são aprisionados e passam pela tradicional maratona de crueldade, tortura (incluindo agulha enfiada no bico do seio), trabalhos forçados e baixaria (lesbianismo, bestialidade...). Foi lançado em VHS no país pela Argovídeo, em cópia que costumava aparecer nas prateleiras de pornôs das videolocadoras, e recentemente foi relançado em DVD pela Continental em versão widescreen e sem cortes. Indispensável para quem quiser conhecer o que se passa na cabeça doentia de Jess Franco. |
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VAMPYROS LESBOS (1971, Espanha/Alemanha)
Com: Ewa Strömberg, Soledad Miranda, Dennis Price e Paul Muller.
Outro dos clássicos do diretor, feito numa época em que ele explorava a sensualidade das histórias de vampiros, em filmes misturando (pouco) terror e (muita) baixaria (outro clássico deste período é EROTIKILL). Trata-se de uma versão lésbica e softcore de "Drácula": uma advogada de Istambul (Ewa Strömberg) é enviada para um castelo distante para cumprir as formalidades burocráticas da herança do Conde Drácula (!!!). A herdeira é uma parente próxima, a Condessa Nadine Carody (a falecida Soledad Miranda, musa do diretor na época). Após o jantar, pinta um clima, as duas transam e a condessa revela-se uma vampira, que morde o pescoço da pobre advogada. A vítima acorda dias depois num sanatório, sem lembrar exatamente o que aconteceu, mas recebendo a visita da condessa em sonhos eróticos. A produção é requintada, bem diferente do estilo bagaceiro que Franco iria adotar a partir dos anos 80. Lançado em DVD pela Continental em uma rara e atraente versão sem cortes. |
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SANTUÁRIO MORTAL (Marquis de Sade: Justine/Deadly Sanctuary, 1969, Itália/Alemanha)
Com: Romina Power, Maria Rohm, Klaus Kinski, Sylvia Koscina e Jack Palance.
A mais cara produção de Franco de todos os tempos, o que se percebe na riqueza dos cenários e figurinos, e também no elenco internacional (Klaus Kinski interpreta o Marquês de Sade). Baseado no texto de Sade, conta a triste história de uma jovem chamada Justine (Romina Power, com quem o diretor brigou durante toda a filmagem). Ela e a irmã Juliette são expulsas de uma luxuosa escola particular quando seu pai morre. Juliette resolve prostituir-se, e leva uma vida de rainha com o dinheiro que ganha; Justine, por outro lado, tenta viver uma vida normal e honesta, e por isso passa o resto do filme sofrendo abusos de todo tipo: é presa por um crime que não cometeu, violentada, foge da cadeia e acaba no castelo de um sádico (Jack Palance, claro), onde será torturada e abusada sexualmente. O filme não é tão violento como parece, mas está repleto de mulher pelada e sexo softcore. No Brasil, foi lançado em VHS pela Transvídeo em versão cortada, com 90 minutos; a versão uncut, lançada em DVD nos EUA, dura 124 minutos. |
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ELA MATOU EM ÊXTASE (She Killed in Ecstasy, 1971, Espanha/Alemanha)
Com: Soledad Miranda, Fred Williams, Howard Vernon, Paul Muller e Ewa Strömberg.
Um jovem e famoso médico é condenado à prisão, devido a experiências que realizava com embriões humanos, e resolve se suicidar para escapar da cana. Sua esposa (interpretada pela musa Soledad Miranda), inconformada com a perda, jura vingança aos cientistas que foram diretamente responsáveis pela morte, dedicando-se a seduzi-los (com direito até a lesbianismo, já que uma das vítimas é mulher) para depois matá-los. Filme antológico de Franco, onde se destaca a moral duvidosa do roteiro (o marido da "heroína" realmente estava fazendo experiências proibidas e sua condenação à prisão não foi injusta). No papel de uma predadora sexual e devoradora de homens e mulher, Soledad rouba a cena e ofusca até as mortes violentas. Lançado em DVD pela Continental. |
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O CONDE DRÁCULA (Bram Stoker's Count Dracula, 1970, Itália/Espanha/Alemanha)
Com: Christopher Lee, Klaus Kinski, Herbert Lom, Soledad Miranda e Maria Rohm.
Quem diria: a versão de Jess Franco para o famoso livro de Bram Stoker é uma das mais fiéis à obra literária, mais até do que a luxuosa (e afrescalhada) versão que Francis Ford Coppola dirigiu nos anos 90. E ainda tem um elenco repleto de lendas, com Lee reprisando o papel de vampirão que já fazia nos filmes do estúdio inglês Hammer. O Drácula de Franco é apresentado como um velho morto-vivo, que só mantém a aparência jovem ao alimentar-se do sangue de suas vítimas. Kinski, que era meio louco na vida real, rouba o filme como Renfield, o personagem que também fica maluco ao pressentir a chegada do vampiro. Um belíssimo filme para mudar o conceito de quem acha que Jess Franco só faz porqueiras. Lançado em VHS pela Concorde Vídeo. |
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VENUS IN FURS (Paroxismus/Black Angel, 1969, Inglaterra/Itália/Alemanha)
Com: James Darren, Barbara McNair, Klaus Kinski, Dennis Price e Margaret Lee.
Uma espécie de versão do clássico UM CORPO QUE CAI. Um trompetista de jazz (James Darren) está em Istambul e encontra na praia o corpo de uma bela mulher. Na noite anterior, ambos tinham se cruzado na festa de um milionário, e depois ele testemunhou a moça ser seqüestrada pelo anfitrião e por seus amigos. Sem saber para quem contar a história, o músico viaja para o Rio de Janeiro, onde encontra uma mulher muito parecida com aquela cujo cadáver estava na praia. Será que ela não estava morta? Contando com uma bela trilha sonora de jazz e uma forte cena de estupro, este é outro dos clássicos do diretor lançado em DVD no Brasil pela Continental. |
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99 MULHERES (Her Heibe Tod, 1969, Inglaterra/Itália/Espanha/Alemanha)
Com: Maria Schell, Herbert Lom, Maria Rohm e Rosalba Neri.
Um dos primeiros WIPs da história do cinema (o subgênero surgiu timidamente na década de 50). O destaque é ver Franco trabalhando com um elenco de estrelas - que inclui a bondgirl Luciana Paluzzi, a italiana Rosalba Neri, a vencedora do Oscar Mercedes McCambridge e o falecido Herbert Lom. O roteiro é o feijão-com-arroz dos WIP movies: uma garota inocente é presa por um crime que não cometeu e condenada a cumprir pena numa inviolável ilha-prisão, onde jovens mulheres são abusadas sexualmente e torturadas. Apesar de Jess Franco na direção, o filme é mais comportado do que outros nessa linha que seriam feitos nos anos 70 e 80: há pouco sexo e nudez. Já as tentativas de fuga, abusos físicos e brigas entre mulheres são as mesmas de sempre. SADOMANIA é bem mais divertido. Lançado em DVD pela Continental. |
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MANHUNTER - O SEQÜESTRO (Sexo Caníbal, 1980, Espanha/França/Alemanha)
Com: Al Cliver, Ursula Buchfellner, Antonio Mayans e Antonio de Cabo.
Esse já faz parte da cômica fase Eurociné de Franco, quando ele rodava de dois a três filmes ao mesmo tempo e com o mesmo elenco para baratear custos. Este, por exemplo, foi filmado simultaneamente com WHITE CANNIBAL QUEEN (também estrelado por Al Cliver), e ambos tentam tirar casquinha da febre de filmes italianos sobre canibalismo - mas só conseguem ficar no limite do trash. Ursula Buchfellner interpreta uma estrela de cinema que é seqüestrada e levada pelos bandidos até uma ilha. Sem que os criminosos saibam, ali vive uma tribo de índios que idolatra um deus canibal (na verdade, um negão enorme, pelado e com bolinhas de pingue-pongue no lugar dos olhos). Cliver é o detetive bigodudo e com barrigão de cerveja que passa o filme zanzando pela ilha até finalmente enfrentar os bandidos e o monstro. Tosco do início ao fim, é mais engraçado que muita comédia por aí e altamente recomendado para sessões trash regadas a cerveja. A pobre Ursula fica o tempo inteiro completamente pelada. Lançado em VHS pela Tec Home Video. |
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Bloody Moon (Bloody Moon / Säge des Todes, Die , Alemanha, 1981). Duração: 90 minutos
Direção: Jesus Franco
Roteiro: Rayo Casablanca
Produção: Wolf C. Hartwig
Produção Executiva: Otto Retzer
Fotografia: Juan Soler
Música: Gerhard Heinz
Direção de Arte: Klaus Haase
Figurino: Rolf Albrecht
Efeitos Especiais: Juan Ramón Molina
Edição: Karl Aulitzky; Christine Jank
Elenco: Olivia Pascal (Angela); Christoph Moosbrugger (Alvaro); Nadja Gerganoff (Manuela); Alexander Waechter (Miguel); Jasmin Losensky (Inga); Corinna Drews (Laura); Ann-Beate Engelke (Eva); Peter Exacoustos (Antonio); Antonia García (Elvira); Beatriz Sancho Nieto (Rita); María Rubio (Condessa Maria Gonzales); Otto Retzer (Bueno); Jesus Franco (Doutor); Al Pereira (homem na festa)
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