BRINQUEDO ASSASSINO

por Luiz Henrique Oliveira

Poucas obras atingiram o status cultural que o filme "Brinquedo Assassino" conseguiu no fim dos anos 80. Numa época que ainda aproveitava o boom no terreno do terror/suspense (o que nem sempre significa boas produções), o roteirista Don Mancini inventou uma história bizarra envolvendo um brinquedo que até então tinha fama de inofensivo. Junto com outros dois roteiristas, desenvolveu o script daquilo que acabou se tornando um dos filmes mais famosos de todos os tempos, trazendo o personagem que até hoje aterroriza a mente de criancinhas indefesas: o malvado, assassino Chucky, transformado em ícone a partir dessa geração. Depois de outras três continuações, o mito só aumentou. Senhoras e senhores, hoje eu quero lhes falar do início.

Numa noite, um assaltante chamado Charles Lee Ray (Brad Dourif) está fugindo da polícia e acaba se escondendo em uma loja de brinquedos. Localizado por um policial, é alvejado quando tentava fugir. Mas, antes de morrer, através de magia negra, ele transfere sua alma para o primeiro brinquedo que encontra em sua frente: um boneco, muito famoso entre as crianças, chamado Chucky. Alguns dias depois, na véspera de Natal, um menino do subúrbio da cidade, Andy Barclay (Alex Vincent), recebe seu presente, algo que ele vinha implorando para sua mãe há muito tempo: um boneco como o apresentado na televisão, como o que passa nos comerciais, como aquele que está na caixa de cereais que ele come pela manhã, como aquele da loja de brinquedos ondem um assaltante foi morto. O que ele não sabe é que o boneco que ele ganhou tem a alma de Charles Lee Ray, que pretende voltar a forma humana usando o corpo do garoto, de apenas seis anos.
Ao descobrir tudo, o menino tenta avisar sua mãe (Catherine Hicks), mas ela se mostra totalmente incrédula. Mas ela só passa a acreditar em Andy quando Chucky-Charles mostra que ainda está em forma, e que não se esqueceu das formas de se matar uma pessoa. Então, contam os dois com a ajuda de um detetive, Mike Norris (Chris Sarandon), para acabar de uma vez com a ameaça sobrenatural encarnada no corpo do até então inocente boneco.



"Brinquedo Assassino" é, de fato, assustador. Pelo menos, quando eu vi pela primeira vez, aos oito anos de idade, fiquei noites sem dormir. E, é sabido, o filme provocou um início de medo histérico ao redor do mundo, pois o boneco projetado para ser Chucky foi comercializado e as crianças passaram a ter medo dele. E com razão. O boneco é um dos personagens mais ardilosos, malvados e homicidas que se tem conhecimento no cinema. E, além de seus assassinatos bizarros, boa parte da força está na voz criada para o boneco, que ficou a cargo do ator Brad Dourif (ator indicado ao Oscar de Ator Coadjuvante por Um Estranho no Ninho, de Milos Forman), que também interpretou Charles Lee Ray em sua versão humana. O sarcasmo ácido e a maldade nas expressões do boneco (uma coisa inovadora na época) ganharam quilos de veracidade na força da voz de Dourif, sem dúvida o melhor do filme. Sem isso, "Brinquedo Assassino" seria apenas mais um filme de terror, sem destaque. Com a história bolada por Don Mancini, o roteirista John Lafia, o diretor Tom Holland e o próprio Mancini fizeram um filme coeso, que mantém a tensão e a atmosfera de medo intermitente durante todo o filme. Analisar o filme hoje pode fazer parecer que ele seja um tanto quanto chulo, mas só quem foi criança na época pode afirmar: Chucky dava medo. Muito medo.



A Academy of Science Fiction, na categoria Fantasy & Horror Films, reconheceu o potencial do filme e, em 1989, indicou "Brinquedo Assassino" para quatro prêmios, incluindo Melhor Filme de Horror, levando apenas o troféu de Melhor Atriz, para Catherine Hicks, que interpretou a mãe de Andy, o menino perseguido por Charles Lee Ray (uma curiosidade interessante é saber que o nome do bandido é uma composição do nome de três outros assassinos: Charles Manson, Lee Harvey Oswald e James Earl Ray).

O filme ganhou, nos anos seguintes, duas continuações: "Brinquedo Assassino II" e "Brinquedo Assassino III". Mas depois de algum tempo, a fórmula do filme se desgastou. Mas seu personagem principal, não. Então foram criados outros dois filmes que reinventaram Chucky e o trouxe de volta ao estrelato: "A Noiva de Chucky" e "O Filho de Chucky", que seguem a linha da comédia misturada com humor negro, que se tornou característica do temido boneco.



Verdade seja dita: "Brinquedo Assassino" tinha tudo para cair no esquecimento. Era um filme que seguia a linha trash com um uma história um pouco fantasiosa demais até para um filme de terror. Mas, aquilo que eu chamo de "anti-carisma" do vilão do filme atraiu a atenção dos espectadores da época, transformando o filme em mito, que fertilizou a cabeça de adultos e aterrorizou as criancinhas. Com seu baixíssimo orçamento, nada parecia apontar para o sucesso, e foi uma jogada arriscada dos produtores. Numa época em que a produção de filmes de terror estava a todo vapor, o que muitas vezes significa falta de criatividade (é só pegar alguns filmes da mesma época), a saga de Andy contra o boneco que quer tomar o seu corpo foi um sopro de inventividade para o público, e seu desgaste foi lamentado e sua volta comemorada. Nada menos justo para aquele que se tornou um ídolo cult, que chegou a ganhar prêmio no MTV Movie Award e que surpreendeu até mesmo os produtores do filme, tamanho foi seu sucesso.

Chucky ainda continua vivo na memória das pessoas, seja naqueles que se divertiram com seus últimos filmes, seja naqueles que, assim como eu, vivenciaram a época em que ele era muito mais que um brinquedo com alma sarcástica: era um vilão, e dos maus mesmo.


Curiosidades

- Oito especialistas em marionetes foram usados para dar vida ao boneco Chucky, muito antes dos efeitos digitais por computador virarem rotina.

- Na cena final, em que o boneco caminha em chamas - impossível de ser feita com marionetes (os fios iriam queimar) -, foi chamado o dublê anão Ed Gale para vestir-se com uma roupa anti-chamas e caminhar pegando fogo.

- O nome Chucky é o apelido do assassino encarnado no boneco, Charlie Lee Ray, interpretado pelo veterano Brad Dourif apenas no início deste primeiro filme.

- Nos quatro filmes, a voz de Chucky é feita por Dourif, que nos anos 70 foi indicado ao Oscar pelo seu trabalho em UM ESTRANHO NO NINHO.

- Originalmente, a baby-sitter de Andy deveria morrer eletrocutada por Chucky durante o banho, cena aproveitada em A NOIVA DE CHUCKY.

Luiz Henrique Oliveira


BRINQUEDO ASSASSINO (Child´s Play, EUA, 1988). 87 minutos
Direção: Tom Holland
Roteiro: Don Mancini; John Lafia; Tom Holland
Produção: David Kirschner
Produção Executiva: Barrie M. Osborne
Fotografia: Bill Butler
Música: Joe Renzetti Edição: Roy E. Peterson; Edward Warschilka
Desenho de Produção: Daniel A. Lomino
Figurino: April Ferry
Maquiagem: Michael Hancock; Marina Pedraza
Efeitos Especiais: Richard O. Helmer; James D. Schwalm; James Kagel
Efeitos Visuais: Peter Donen; Joseph Yanuzzi
Elenco: Catherine Hicks (Karen Barclay); Chris Sarandon (Mike Norris); Alex Vincent (Andy Barclay); Brad Dourif (Charles Lee Ray/Chucky); Dinah Manoff (Maggie Peterson); Tommy Swerdlow (Jack Santos); Jack Colvin (Dr. Ardmore); Neil Giuntoli (Eddie Caputo); Juan Ramírez; Alan Wilder (Mr. Criswell); Richard Baird; Raymond Oliver; Aaron Osborne; Tyler Hard; Ted Liss (George)

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