BRINQUEDO ASSASSINO 2

por Matheus Ferraz

Ok, posso ser apedrejado agora, mas vou confessar: eu sou um fã de Chucky. Mais do que isso: gosto de todos os filmes da franquia. Sério. Gosto até das odiadas partes 3 e 5 (Filho de Chucky). Na verdade, este é o único personagem de horror, ao lado de Zé do Caixão, que eu me lembro de ter assistido com prazer à série inteira. É claro que o primeiro ainda é melhor do que todas as seqüências, especialmente as duas últimas, que vão muito pro lado do humor. Mas mesmo assim a série do Brinquedo Assassino é divertida e criativa, o tipo de produção que você pode sentar no sofá da sala e assistir tranqüilo com sua mãe do lado, mesmo sendo filmes de terror, com a dose certa de violência.

O diferencial é que, ao contrário de franquias como Sexta-Feira 13 e A Hora do Pesadelo, sempre houve um mentor por trás de tudo: o roteirista Don Mancini, que criou
e roteirizou todos os filmes da série. Mesmo não tendo escrito nada que não envolvesse o boneco endemoniado Chucky (com exceção de um episódio de Contos da Cripta), Mancini é um roteirista esperto, que bolou um monte de situações bem sacadas em todas as produções.



A começar pela própria idéia inicial. Imagine só você, aos oito anos de idade, ganhando um boneco bonitinho... só para descobrir que ele é, na verdade um assassino cruel e que quer possuir seu corpo! Uma criança que já ganhou um brinquedo macabro, dado de coração pelos pais, mas que parecia prestes a tomar vida à noite e vir te matar - entende muito bem este tipo de medo. Ainda mais porque ninguém iria acreditar em você. Se você dissesse que tem um psicopata mascarado te perseguindo, iriam chamar a polícia, mas e quanto a um brinquedo vivo? Lembra daquele boneco do Fofão? Brrr...



Enfim, vamos ao objeto do artigo: Child’s Play 2, ou Brinquedo Assassino 2, lançado apenas dois anos depois do original. Trata-se de uma seqüência que realmente leva a mitologia do filme adiante, explicando os acontecimentos após o final do longa anterior. Começa com uma cena bem feita na fábrica de brinquedos Play Pal, onde um boneco Good Guy está sendo reformado, depois de ter sido incendiado. Adivinha que boneco é esse. Pois é. Depois de Chucky ser destruído no filme anterior, os donos da fábrica acham uma boa idéia reformar o boneco para combater a má publicidade gerada pelos assassinatos cometidos pelo brinquedo. Claro que ninguém acredita que Chucky vai se levantar e continuar matando de novo. E é claro que é exatamente isso que ele faz. Numa cena inexplicável, mas até interessante, Chucky eletrocuta (sabe se lá como e sabe-se lá por quê) um dos empregados que estavam lhe reconstruindo. Fulo da vida, o dono da empresa, Sullivan (Peter Haskell, que volta na parte 3) sai da fábrica dizendo para o funcionário Mattson (Greg Germann, de Quarentena) enfiar o boneco naquele lugar.

Enquanto isso, o garoto Andy (interpretado novamente por Alex Vincent), sobrevivente do filme anterior, é enviado para uma família adotiva, depois que sua mãe foi mandada para uma clínica para tratamento psicológico. Não sei o motivo de a atriz Catherine Hicks não reprisar seu papel como a mãe de Andy, mas o fato é que sua ausência funciona bem na proposta do filme. Temos de novo aquele ar de incredulidade, com ninguém acreditando no garoto Andy quando ele conta a história de Chucky. Certamente não seria a mesma coisa se ele tivesse um adulto ao seu lado, que o ajudasse a combater o vilão. O menino está sozinho, pelo menos a princípio. Só faltou explicar o que aconteceu com o policial Mike Norris, interpretado pro Chris Sarandon no filme anterior, e que aqui simplesmente desaparece sem mais nem menos.



Enfim, logo somos apresentados aos pais adotivos de Andy: os Simpsons. Não, seus nomes não são Homer e Marge, eles são a gente boa Joanne (Jenny Agutter) e o mala Phil (Gerrit Graham, de Nasce um Monstro 3). Os dois tomam conta de garotos que perderam a família. Além de Andy, também mora com eles a adolescente rebelde Kyle (a bonitinha Christine Elise), que está de saco cheio de pular de uma família para outra, e no começo não ia muito com a cara de Andy. O garoto, enquanto isso, leva o maior susto quando abre o armário e um boneco Good Guy cai logo no seu colo...



E Chucky? Está fazendo o que faz melhor. Depois de descobrir, com um simples telefonema, o paradeiro de Andy, o brinquedo assassino dá cabo de Mattson e, louco para finalmente entrar no corpo do garoto (como visto no filme anterior), troca de lugar com o boneco que está na casa dos Simpsons. E, para piorar as coisas, Andy tenta conquistar o casal fingindo que não tem mais medo do boneco Good Guy, sem nem desconfiar que boneco é aquele.

E assim a história prossegue, amontoando cenas ora absurdas, ora tensas, ora cômicas, na medida certa. Uma cena engraçada é aquela em que Chucky invade a escola de Andy e escreve um “Vai se foder, vadia!” na prova do garoto. Não precisa dizer que a professora fica puta e tranca Andy no castigo. Não preciso dizer também que ela vai pra faca. Outra é aquela em que Chucky seqüestra Kyle e a força a dirigir, quando os dois são parados por um policial panaca e acontece um diálogo hilariante, numa cena que não acrescenta nada à história, mas é muito engraçada.



Mas este é, sim, um filme de horror, e algumas mortes causam comoção, como o pobre Mattson, que tem a cabeça enfiada numa saco plástico, e morre sufocado bem lentamente. Há outras mortes que realmente te deixam com raiva do Chucky, e provam que ele é, realmente um assassino filho da puta.

Mas a grande sacada do roteiro é situar o clímax justamente na fábrica de bonecos Good Guy, onde Chucky é combatido por Kyle e Andy. O cenário é bem utilizado, e só achei uma pena não haver uma cena em que Chucky se misturasse às centenas de bonecos, confundindo os heróis. Mas apesar disso, temos um longo momento de perseguição, além de uma das mortes mais bizarras da série.



Brinquedo Assassino 2 é um filme realmente divertido que felizmente não tenta criar uma nova obra prima do horror, e se preocupa apenas em divertir. A história não pára, e sempre há ação ocorrendo. O carisma do boneco carrega o filme, mérito da equipe das marionetes (numa época que não havia CGI disponível) e, principalmente por Brad Dourif, que fez a voz sarcástica do vilão em todos os filmes da série. Aliás, sempre achei muito bacana que Dourif, um ator respeitado que já foi até indicado ao Oscar, sempre volta para dublar Chucky, ao contrário de um monte de atores respeitados que hoje têm vergonha de terem começado em filmes de horror.



Enfim, Brinquedo Assassino 2 é uma seqüência digna do primeiro, que nunca fica cansativa e ainda tem o mérito de estar bem conectada aos acontecimentos do filme anterior. Se você gostou do original, tem boas chances de gostar deste também. Assista, nem que seja para ver a cena de Chucky enterrando o “cadáver” do outro boneco! Você pode rir da idiotice (intencional) de algumas cenas, mas imagine come seria ter oito anos e ganhar de natal um boneco fofinho da linha Good Guy...

Ah, e você pode até não gostar do filme, mas tem que concordar que o pôster é um dos melhores já vistos!

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BRINQUEDO ASSASSINO 2 (Child´s Play 2, EUA, 1990). Duração: 84 minutos
Direção: John Lafia
Roteiro: Don Mancini
Produção: David Kirschner
Produção Executiva: Robert Latham Brown
Fotografia: Stefan Czapsky
Música: Graeme Revell
Edição: Edward Warschilka
Desenho de Produção: Ivo Cristante
Direção de Arte: Don Maskovich
Maquiagem: Mecki Heussen, Deborah K. Larsen, Frank Charles Lutkus III, David Arthur Nelson, Ron Pipes II, Sean Rodgers, Anton Rupprecht, Erik Schaper, David Stinnett, Mike Trcic, Scott Williams, Mark C. Yagher
Elenco: Alex Vincent (Andy Barclay); Jenny Agutter (Joanne Simpson); Gerrit Graham (Phil Simpson); Christine Elise (Kyle); Brad Dourif (Chucky); Grace Zabriskie (Grace Poole); Peter Haskell (Sullivan); Beth Grant (Sra Kettlewell); Greg Germann (Mattson); Raymond Singer; Charles Meshack; Stuart Mabray; Matt Roe; Herbie Braha; Don Pugsley; Ed Krieger; Vince Melocchi; Edan Gross; Adam Ryen; Adam Wylie; Bill Stevenson


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