FUGA DO BRONX

por Felipe M.Guerra

A divertida versão italiana (e sem dinheiro) de FUGA DE NOVA YORK!


Imagine se John Carpenter tivesse dirigido aquele seu clássico B, FUGA DE NOVA YORK, na Itália ao invés de nos Estados Unidos, e se tivesse subido a contagem de cadáveres para 300 ao invés de meia dúzia. Imagine, também, que ele tivesse contratado o cineasta oriental John Woo para coreografar as cenas de ação. Imaginou? Pois bem, você chegou muito perto do que é FUGA DO BRONX, um magnífico, extraordinário, viciante, fascinante e divertidíssimo "bom filme ruim" feito pelos carcamanos naquela época áurea em que o cinema italiano produzia, a toque de caixa (ou seja, com uma merreca de orçamento), produções vagabundas visivelmente calcadas em sucessos do cinema americano.
No caso, FUGA DO BRONX é um filme de 1983 que um diretor italiano chamado Enzo G. Castellari fez porque FUGA DE NOVA YORK (sim, o do Carpenter, de 1981) tinha sido um sucesso de bilheteria na Itália.



Para quem nunca ouviu falar em Enzo G. Castellari, vamos dizer apenas que se o mestre oriental da ação (hoje meio decadente) John Woo tivesse nascido na Itália, seu nome seria Castellari. Na mesma época em que o superestimado Woo ainda dirigia produções podreira de artes marciais em Hong-Kong, Castellari já estava fazendo alguns dos melhores filmes policiais macarrônicos dos anos 70, como O VINGADOR ANÔNIMO (cópia de DESEJO DE MATAR, estrelada por Franco "Django" Nero) e DAY OF THE COBRA (também com Nero), entre outros. Também é dele a direção do hilariante GUERREIROS DO FUTURO (Warriors of the Wasteland), uma ficção científica hiper-trash com muitas cenas de tiroteios e pessoas explodindo em slow motion!!! Na verdade, todos os filmes de Castellari são recheados com incríveis cenas de ação, tiroteios mirabolantes e, óbvio, uma overdose de câmera lenta - que se tornaria, posteriormente, a "assinatura" de John Woo, embora o diretor italiano estivesse fazendo exatamente a mesma coisa anos antes. Claro que tanto Woo quanto Castellari se inspiraram no mestre deste estilo, o americano Sam Peckinpah. A diferença é que Castellari fazia isso com um orçamento minúsculo, que não pagaria nem um dia de trabalho de Woo ou Peckinpah!

FUGA DO BRONX é um filme que, para a maior parte da humanidade, será considerado a maior bomba da história do cinema. Isso porque, infelizmente, não são todos que têm senso de humor, amor pelo cinema e um gosto um tanto excêntrico como o meu - sempre lembrando que também gosto muito de OS CAÇADORES DE ATLÂNTIDA, outra tralha italiana pós-apocalíptica do mesmo período, esta dirigida por Ruggero Deodato. FUGA DO BRONX é um clássico da minha infância. E, como todos nós sabemos, por piores que sejam os filmes vistos na infância, eles sempre serão clássicos lembrados com carinho. E eu continuo vendo esta obra-prima de Castellari com muito bom humor e disposição, como o fazia quando tinha lá meus 10 anos de idade. Qual não foi minha surpresa ao descobrir, graças à Internet, que tem muitos outros malucos por este mundão afora que também são apaixonados pelo filme!!! Existe, até, uma página americana de fãs de FUGA DO BRONX!!! Pode? Portanto, eu precisava escrever este artigo para que as novas gerações tivessem referências sobre a obra...



É necessário informar que FUGA DO BRONX é uma seqüência de outra ficção científica classe Z dirigida também por Castellari, no ano anterior (1982), e intitulada 1990: I GUERRIERI DEL BRONX, ou simplesmente BRONX WARRIORS nos Estados Unidos, ou ainda 1990: OS GUERREIROS DO BRONX no Brasil. Se a parte 2 copia FUGA DE NOVA YORK, este primeiro filme é visivelmente calcado no sucesso de WARRIORS: OS SELVAGENS DA NOITE, de Walter Hill. Sim, aquele filme das guerras de gangues, lembra? A versão de Castellari se passa em um futuro distante (na época em que foi feito), no ano de 1990, onde o bairro nova-iorquino do Bronx foi transformado em terra de ninguém por gangues que duelam pelas ruas. Como Castellari não tinha dinheiro suficiente para conseguir permissão para fechar as ruas do Bronx, as filmagens foram feitas de qualquer jeito - e as guerras de gangues acontecem com o trânsito normal de carros e pessoas pelo bairro, no que deveria ser uma "terra de ninguém"!!! 1990 - OS GUERREIROS DO BRONX também tem um elenco dos sonhos das produções bagaceiras da época: o canastrão Vic Morrow (que morreria decapitado nas filmagens de NO LIMITE DA REALIDADE), Christopher Connelly, Fred Williamson, George "Antropophagous" Eastman e Mark Gregory, ou melhor, Marco di Gregorio, interpretando o "anti-herói" chamado Trash - sentiram o clima?



No caso, também é necessário dizer que todo mundo, excluindo Trash, morria ou era morto no final do filme, e é por isso que o herói volta solitário no início de FUGA DO BRONX. Esta continuação também é uma ficção científica, já que a história se passa num futuro mais distante ainda, 10 anos depois dos eventos mostrados no original, no ano 2000 (hoje já um passado distante...). Sendo assim, com pouca ou nenhuma relação com o filme original (a não ser a aparição de dois segundos de outra sobrevivente da primeira aventura, que citarei mais tarde), FUGA DO BRONX pode ser visto por leigos, sem medo de ser feliz. "No ano 2000, as pessoas serão exterminadas como ratos", diz a frase na capinha da fita, lançada no Brasil pelo selo Poletel. E esta frase já dá uma idéia do que esperar do filme: uma das maiores contagens de cadáveres de todos os tempos. Não sou de ficar contabilizando quanta gente morre em filmes, mas, segundo informações do site Internet Movie DataBase, são exatos 174 mortos durante os 89 minutos de projeção desta película extraordinária. Praticamente não há um espaço maior de cinco minutos de projeção sem que alguém seja baleado, incendiado, apunhalado ou espancado até a morte. Ainda segundo o IMDB, são 110 mortos a tiros, 40 mortos em explosões, 9 incendiados vivos por lança-chamas, um morto por facada. 4 eletrocuções, 2 por espancamento usando um capacete (pode acreditar), um com a cabeça estourada por um golpe de espingarda (!!!) e cinco mortos off-screen de causas desconhecidas. Tá bom ou quer mais?



FUGA DO BRONX também é um caso raro de seqüência infinitamente superior ao original. No universo deste segundo filme, uma poderosa e inescrupulosa corporação que domina Manhattan quer expulsar todos os moradores do Bronx para demolir os prédios velhos e construir ali uma obra-prima da arquitetura, destinada, claro, a famílias de alto poder aquisitivo. Acontece que, neste futuro do filme, o Bronx se transformou numa terra de ninguém, ainda pior do que era mostrado em 1990 - OS GUERREIROS DO BRONX, dominada por gangues que comandam o bairro com violência e mão-de-ferro. Por isso, a Corporação faz uma campanha de desapropriação do local. "Deixem o Bronx! Deixem o Bronx!", repete uma voz eletrônica, saída dos alto-falantes dos veículos de "Disinfestors" (algo como "dedetizadores", para dar uma idéia da crueldade da coisa). Estes são uma equipe especial de soldados que varre o Bronx, capturando e eliminando todos os moradores que ainda não abandonaram o local. Todos estão vestidos com roupas prateadas, alguns com capacetes de motoqueiro e levando metralhadoras, outros com roupa de astronauta e armados de lança-chamas. Como diz a frase da capa, as pessoas são exterminadas como ratos, sendo fuziladas ou, pior, queimadas vivas, como se fossem animais.

"Em 1986, apesar de todo nosso aparato técnico, não fomos bem-sucedidos em eliminar todos os ratos. Agora, estas pessoas - se é que você pode chamá-las assim - são uma raça à parte. E muito difícil de eliminar!" (Lloyd Wrangler)



Claro, toda esta situação é abafada pela influência da poderosa Corporação, que, publicamente, divulga que os moradores do Bronx estão sendo deportados para outras residências no Novo México. Uma mentira que encobre a matança, coordenada pelo mercenário sádico Lloyd Wrangler (interpretado pelo ator americano Henry Silva). Wrangler é uma espécie de variação do cruel Hammer, o vilão que o falecido Vic Morrow fazia no filme original. Ao mesmo tempo em que o grupo de extermínio acaba com qualquer forma de vida no Bronx, o presidente da Corporação, Henry G. Clark (Thomas Moore, cujo nome de nascença é Ennio Girolami, e que é irmão do diretor), dá entrevistas à imprensa dizendo que há uma epidemia fora de controle no Bronx. e por isso a entrada no bairro é impossível até que a tal "epidemia" seja controlada. As mentiras são tramadas com o auxílio do frio e ambicioso vice-presidente (o ótimo Paolo Malco, de A CASA DO CEMITÉRIO).

Como estamos num filme italiano de ficção científica classe B, é claro que o roteiro de Tito Carpi, Dardano Sacchetti e Castellari não vai perder muito tempo com explicações ou mesmo com a apresentação dos personagens. Assim, FUGA DO BRONX já começa a mil, com um dos esquadrões de "Disinfestors" percorrendo as ruas devastadas do Bronx (um cenário perfeito, que lembra mesmo uma mundo devastado), espancando moradores e incinerando alguns azarados. Logo, o operador de rádio (interpretado pelo próprio Enzo G. Castellari, em participação especial) diz que captou movimento em um dos setores do bairro. Trata-se de Trash, que pilota sua moto velozmente enquanto é seguido pelos vilões em um helicóptero. Mas Trash é Trash, e ele logo pula da sua motocicleta e explode o helicóptero com tiros de revólver calibre 38, numa cena hilariante que inclui até um ridículo boneco de borracha caindo em queda livre do helicóptero em chamas - mesmo horrível, esta cena foi reaproveitada pelo próprio diretor no posterior STRIKER, aventura-plágio de RAMBO, estrelada por Frank Zagarino. Aparentemente, o 38 de Trash tem balas explosivas, pois ele usa o mesmo revólver para explodir outros veículos de maneira inacreditável no desenrolar da história!



De qualquer forma, furiosos por Trash ter explodido o helicóptero, os "Disinfestors" resolvem se vingar invadindo a casa do herói. São recebidos com tacadas de beisebol pelo pai do rapaz (Romano Puppo), que não quer saber de deixar o local onde morou a vida inteira. Um dos vilões toma uma cacetada em câmera lenta (numa bela cena), que arrebenta o visor de vidro do capacete. Mas os outros covardes não querem saber de papo e já saem acionando o lança-chamas sobre papai e mamãe Trash (ela interpretada por Eva Czemerys). O jovem herói, enquanto isso, está nos subterrâneos do Bronx, entregando munição e mantimentos para uma das únicas gangues sobreviventes, liderada por Dablone (Antonio Sabato). Com medo dos "Disinfestors", Dablone e seus amigos foram viver debaixo da terra para evitar conflitos desnecessários. Trash, claro, não concorda com isso e ainda xinga o chefe do bando: "Gangue de merda! Escondida aqui embaixo, comendo comida enlatada!". Mas Dablone justifica: "Lá em cima eles nos matam como animais...". Entre os que se escondem nos subterrâneos está a líder da gangue Ironman (Carla Brait), outra sobrevivente do filme anterior, que tem uma participação de dois segundos dizendo: "Olá Trash! Ainda vivo, hein?".



Quando Trash retorna ao apartamento dos velhos, descobre saqueadores levando as coisas da sua família e sai baleando todo mundo - e também dando umas porradas em câmera lenta, claro. Depois, encena uma cara risível de choro ao lado dos corpos carbonizados dos pais (que são pessimamente representados pelos atores com a cara chamuscada de carvão, como se o lança-chamas não tivesse feito qualquer estrago na pele!!!!). Não precisa dizer que Trash vai querer se vingar dos "Disinfestors" a qualquer custo, não é? Para isso, ele resolve iniciar uma guerra civil no Bronx. Ao lado da gangue de Dablone e auxiliado por uma jornalista bisbilhoteira, Moon Grey (a feiosa Valeria D'Obici), que é contrária à ação da Corporação no Bronx, Trash planeja seqüestrar o presidente Clark para terem algo com que negociar, exigindo a retirada das tropas de eliminadores do seu "lar". Só não consigo imaginar porque é que estes pobres coitados travam uma luta de vida ou morte por um bairro repleto de prédios em ruínas e alta criminalidade ao invés de irem morar em outro lugar...



Como a Corporação é mais poderosa que o próprio Trash, ele precisará da ajuda de outro herói, o único capaz de liderar a ação suicida pelos subterrâneos da metrópole: Strike (interpretado por Timothy Brent, ou Giancarlo Prete, o herói de OS GUERREIROS DO FUTURO e TORNADO, de Antonio Margheritti). O temido terrorista vive também nos subterrâneos, ao lado de seu filho Junior (Alessandro Prete, filho de Giancarlo/Timothy na vida real). Acordo feito, Trash, Strike e o garoto atravessam os esgotos e seqüestram o presidente Clark durante uma visita que ele faz ao Bronx. O calhorda é conduzido pelo trio de heróis pelos subterrâneos, iniciando uma caçada humana, com inúmeros "Disinfestors" seguindo o grupo e morrendo mortes violentas em câmera lenta. Paralelamente, na superfície, Wrangler e o inescrupuloso vice-presidente tramam a morte de Clark, para que eles possam assumir a Corporação e matar todos os rebeldes do Bronx, tudo numa tacada só.



"Ninguém vai querer viver sentado sobre uma caixa de dinamite..." (Dablone)

A partir daí, tome tiro, explosão e câmera lenta. A partir do momento em que a gangue de Dablone é forçada a sair do seu esconderijo, graças ao gás venenoso liberado nos subterrâneos pelos "Disinfestors", inicia-se uma batalha campal como raras vezes o cinema mostrou. Com isso, acontece praticamente uma morte por segundo, sempre de forma estilosa, com as vítimas voando em câmera lenta, catapultadas por explosões, ou então caindo fulminadas por tiros, também em slow motion. Num estilo que depois seria copiado por John Woo em filmes como A BETTER TOMORROW e THE KILLER, Castellari dá closes das armas disparando em câmera lenta, com os projéteis vazios e esfumaçados voando - a verdadeira "arte" da violência! O final é um massacre tão grande que lembra o posterior FERVURA MÁXIMA, de Woo - cujo final no hospital é algo antológico. Só que Castellari veio antes.

FUGA DO BRONX é um dos meus filmes de estimação. Claro que, analisando friamente, o filme não passa de uma grande bobagem, com uma história ridícula e um festival de efeitos baratos de explosões e tiros. Por outro lado, eu vejo um charme todo especial nos cenários semidestruídos do Bronx, nos vilões de roupa prateada, nos lança-chamas e tiroteios em slow motion. Além disso, são incrivelmente encenadas as mortes com lança-chamas, quando a câmera do diretor filma o jato de fogo saindo em câmera lenta da arma em direção à vítima - fico imaginando como ele fez isso sem oferecer perigo aos atores. Muita gente acredita até que FUGA DO BRONX é o último grande filme de ação italiano. Assino embaixo: realmente, não se fazem mais filmes assim. E FUGA DO BRONX é realmente divertido, nem que seja para assistir analisando o "ângulo trash", dando risadas dos efeitos baratos e dos erros grosseiros. Também é um dos últimos filmes bons de Castellari, que depois saiu com o excelente TUAREG - O GUERREIRO DO DESERTO, de 1984 - estrelado pelo americano Mark Harmon como um guerreiro árabe e com dezenas de tiroteios em câmera lenta que dão um show na série RAMBO.



Os bandidos de capacete e roupa prateada são uma coisa que fica na memória e certamente atravessará os séculos. Até porque os ditos "Dedetizadores" são uns grandesíssimos filhas da puta, que não pensam duas vezes ao explodir e incendiar gente inocente. São tão malvados, mas tão malvados, que tanta crueldade rende uma cena até engraçada de tão exagerada: aquela em que um batalhão, marchando pelas ruas do Bronx, vê um grupo de mendigos sentados em meio ao lixo. "Ali está um grupo que decidiu se render. Teremos que levá-los, fichá-los e conduzi-los ao setor de deportação", diz um dos soldados. "E por que nós simplesmente não incendiamos eles?", responde o outro. "Yeah!", concorda o primeiro, e lá vão eles fazer maldade... Só que um dos vagabundos é Trash disfarçado, e logo eles vão estar tomando o troco por terem sido "meninos levados".

Mas muita gente vai reclamar justamente da estética pobre do filme, ou então criticá-lo por seus excessos. Só que é injusto. Ao contrário de outros picaretas italianos do período - como Umberto Lenzi, por exemplo, que muitas vezes mal sabia para onde apontar a câmera -, Castellari é um excelente cineasta e às vezes dá aulas de cinema, mesmo que esteja conduzindo um filme visivelmente barato, descompromissado e nem um pouco "artístico", por assim dizer. Entre as provas de que o homem entende do assunto, cito a cena inicial, um longo take sem cortes com dois minutos de duração, que começa num cartaz escrito "Leave the Bronx" (Deixem o Bronx), movendo-se para um plano aberto de um pobre morador sendo atirado por uma janela e posteriormente espancado pelos soldados. Então, ainda sem cortes, a câmera segue um dos soldados pelas ruas em ruínas, enquanto vemos outros vilões correndo de um lado para o outro com suas armas em punho, dando a idéia de uma verdadeira ação de guerrilha. Outra cena simplesmente fantástica é aquela que inicia com o close do rosto de um dos personagens principais morto, e então a câmera se distancia, enfocando um muro semi-destruído (repleto de cartazes "Leave the Bronx") e a batalha que explode nas ruas. Uma prova de que Castellari, mesmo dirigindo uma película oportunista e sem dinheiro, ainda assim tentava fazer um trabalho minimamente aceitável.



"Mesmo que Trash não apareça, seus pais devem ser exterminados. Repetindo: seus pais devem ser exterminados!" (Operador de rádio, aos "Disinfestors")

O diretor também vai muito bem nas cenas de ação. Não apenas ao abusar do recurso do slow motion e das exageradas estripulias dos dublês - que morrem dos jeitos mais absurdos possíveis, contorcendo-se e virando piruetas que ficam lindas em câmera lenta, mas pouco realistas. Castellari também consegue uma ótima coreografia dos tiroteios e cenas de luta. Infelizmente, dois dos momentos mais marcantes foram cortados da versão do filme lançada no Brasil (Trash lutando com um capacete na mão e Strike detonando a cabeça de um vilão com sua espingarda). Mas há dúzias de cenas legais, como Strike e seu filho eletrocutando o esgoto para matar alguns soldados, ou Trash quebrando o braço de um vilão e fazendo-o disparar sua metralhadora no próprio colega!!!

Outro ponto positivo de FUGA DO BRONX é a bela trilha de Francesco de Masi, que toca praticamente o filme inteiro. Na verdade, o compositor não conseguiu concluir a trilha sonora para o filme. Segundo consta em sua biografia pela Internet, Francesco estava tão cheio de trabalho naquele ano de 1983 que obrigou-se a deixar incompleta a trilha do filme de Castellari - obrigando o diretor a repetir as mesmas músicas diversas vezes. Naquele ano, o compositor também compôs as trilhas sonoras do épico trash THOR - IL CONQUISTATORE, do filme americano MCQUADE, O LOBO SOLITÁRIO (aquele do Chuck Norris, que tem uma das melhores trilhas de Francesco), e do primeiro THUNDER - UM HOMEM CHAMADO TROVÃO, de Fabrizio de Angelis, que é mais conhecido como produtor (do próprio FUGA DO BRONX e de vários filmes de Lucio Fulci).



Talvez o ponto fraco do filme seja o galã, Marco di Gregorio, aka "Mark Gregory" (lembre-se que os italianos adoravam americanizar seus nomes para tentar fazer sucesso no mercado americano). Não é segredo que o intérprete de Trash não era ator. Castellari encontrou-o treinando num ginásio e convenceu-o a ser o herói de 1990 - OS GUERREIROS DO BRONX. Para a continuação, Marco perdeu um montão de massa muscular, ficou magrinho e mal passa uma imagem de herói. Para contornar o problema, Castellari forçou-o a usar jaqueta de couro em praticamente 99% do filme - pode ver, quando ele está sem a jaqueta, que o ator é uma sombra do herói bombado do filme original. Além disso, sabendo que seu galã não tinha a menor noção de como atuar, Castellari evitou dar closes em seu herói. Trata-se, portanto, de um dos raros heróis de cinema cujo rosto poucas vezes aparece em plano fechado! No fim, a caracterização de Marco é tão ruim que o personagem secundário, Strike, é bem mais interessante que ele e acaba roubando o filme. Ironicamente, "Mark Gregory" estrelaria uma trilogia de filmes de ação italianos à la RAMBO, a famosa THUNDER, que o Silvio Santos adorava reprisar até bem pouco tempo atrás. Esta trilogia foi dirigida por Fabrizio de Angelis com o pseudônimo "Larry Ludman". Já Mark Gregory, depois de encarnar o índio Thunder, sumiu do mapa.



FUGA DO BRONX nunca passou na TV (que eu me lembre), e foi lançado em vídeo no Brasil na Idade da Pedra, pela distribuidora hoje fossilizada Poletel. Algumas locadoras ainda têm a fita, mofada e jogada em algum cantinho da seção de Ficção Científica. Espantosamente, o filme nem foi relançado em DVD nos Estados Unidos ainda, existindo apenas uma edição na Inglaterra chamada BRONX WARRIORS 2. Eu tenho a fita da Poletel e sempre a assisti com todo amor e carinho. Foi então que descobri que, numa daquelas barbaridades que infelizmente são comuns no país, FUGA DO BRONX foi lançado aqui em versão completamente censurada. Acredite: a duração da versão Poletel é de 85 minutos, contra os 89 minutos originais. Para piorar, os cortes são tão extensos na cena final do filme que simplesmente alteram o sentido da conclusão. Alguns personagens importantes da história, por exemplo, simplesmente desaparecem; somente ao ver a versão "uncut", sem cortes, é que fui descobrir que, na verdade, todos eles eram mortos. Com as cenas cortadas, perdeu-se a essência (veja mais sobre os cortes no texto abaixo). Outras cenas mais violentas, como as pessoas incineradas pelos lança-chamas se debatendo e gritando, ou ainda pessoas explodindo "on-screen", também foram cortadas. Uma horrenda mutilação!!!



Mesmo com este problema crônicos dos cortes, FUGA DO BRONX continua sendo um excelente filme de ação, daqueles que vale a pena conhecer. Porém, fica o aviso: é apenas para "iniciados" no cinema-tralha italiano do período. Fãs de VAN HELSING e "coisas" como VELOZES E FURIOSOS não vão passar nem dos cinco primeiros minutos de projeção. Mas e quem liga para eles? FUGA DO BRONX é uma aula de como fazer um bom filme de ação com pouquíssima grana - ao lado de EL MARIACHI, de Robert Rodriguez. E isso só não vê quem não quer.



TUDO O QUE A POLETEL NÃO MOSTROU

ATENÇÃO: spoilers! Não leia nem veja as fotos se não quiser saber detalhes sobre o final de FUGA DO BRONX!

Quando a distribuidora Poletel lançou FUGA DO BRONX em vídeo no Brasil, na metade dos anos 80, teve a infelicidade de adquirir a cópia mais censurada do filme, que de 89 minutos de duração passou a ter apenas 85 minutos - total de 4 minutos de ação e violência cortados! Como o filme todo é muito violento, e se tivessem que cortar tudo não sobraria nem 10 minutos, muita gente acaba nem percebendo que está faltando coisa. Mas falta - e muito! O destino de diversos personagens principais foi simplesmente alterado graças à retirada de suas cenas do final, enquanto alguns momentos marcantes de violência em slow motion desapareceram. Confira nas fotos abaixo as principais cenas que foram injustamente extirpadas de FUGA DO BRONX, e descubra como o filme fica ainda melhor em sua versão sem cortes (que, felizmente, pode ser baixada pela Internet, via Emule):

1-) A MORTE DO MENDIGO
Logo nos cinco minutos iniciais, um esquadrão de "Disinfestors" encontra um mendigo dormindo no interior de um prédio. Apavorado ao ver os temidos vilões vestidos com roupas prateadas, o mendigo diz: "Tudo bem gente, eu vou embora!". Mas os vilões respondem: "Agora é tarde demais! EXTERMINAR!". Então, na versão Poletel, vemos o fogo saindo da boca do lança-chamas e a cena se encerra por aí. Sim, claro, todo mundo vai sacar que o mendigo morreu! Só que, na versão sem cortes, a cena vai mais adiante: vemos o fogo saindo de outro ângulo, diretamente em direção à vítima. Depois, o homem em chamas se debate desesperadamente, numa cena bastante realista em câmera lenta. Por fim, quando ele cai no chão, dois dos "Disinfestors" se aproximam e tacam mais uns disparos de lança-chamas sobre o corpo carbonizado!!!




2-) REFÉNS COM BOMBAS
Em outro momento fantástico que os brasileiros não viram, Trash e um grupo de rebeldes ataca um batalhão de "Disinfestors" para salvar alguns reféns. Porém, logo descobrem que os homens têm bombas amarradas pelo corpo. Na versão Poletel, a cena termina assim, com os heróis correndo para longe - e não vemos ou ouvimos nenhuma explosão. Porém, na versão original, Castellari mostra um dos reféns explodindo em pedacinhos e jogando dois dos rebeldes para o ar em câmera lenta. Depois, um segundo refém corre desesperado enquanto uma bomba explode em suas costas. Por fim, no momento mais sangrento, o terceiro refém dá uma de herói kamikaze e corre em direção a um dos "Disinfestors", explodindo junto com ele, num festival de sangue e tripas voando pelos ares!!!





3-) O SEQÜESTRO DO PRESIDENTE CLARK
Na versão Poletel, Trash simplesmente agarra o presidente da Corporação encostando um 38 na cabeça dele, e a dupla então foge pelos subterrâneos. Na versão original, a cena do seqüestro é um pouquinho mais longa. Para distrair a polícia e os seguranças de Clark, Strike se posiciona em outro extremo e começa a lançar um monte de bombas sobre pessoas e veículos que faziam a escolta do figurão. Vemos duas explosões em câmera lenta que foram cortadas, mostrando pessoas (bem, na verdade são bonecos fajutos!) voando carbonizadas em meio às chamas.



4-) STRIKE JR. MATA ADOIDADO
Os maiores cortes em FUGA DO BRONX estão concentrados na cena final, a batalha campal no Bronx. Foram retirados, por exemplo, quase todos os momentos que mostram o filho de Strike, o garotinho Strike Jr., matando os "Disinfestors" com tiros e bombas. Talvez os censores tenham achado que não pegava bem mostrar um garotinho de 6 anos explodindo gente pelos ares! Imagine, agora, se o filme fosse feito hoje, nessa época covarde e politicamente correta em que vivemos!!! A cena abaixo, uma das muitas cortadas, mostra Strike Jr. fazendo dois "Disinfestors" voarem em slow motion com a explosão de uma granada. Mais tarde, o garoto também explode um carro que está servindo de proteção para alguns vilões, matando-os instantaneamente.




5-) STRIKE ARREBENTA A FUÇA DE UM VILÃO
Na versão Poletel, existe uma cena onde Strike dá um tiro de espingarda em um dos furgões dos "Disinfestors", explodindo-os pelos ares. E só. Na versão sem cortes, a cena é um pouco mais longa e, especialmente, mais sangrenta: logo após explodir o furgão, Strike descobre que está sem munição na espingarda. E um dos vilões surge tentando matá-lo. Strike, porém, nem se abala: simplesmente dá uma porrada no cara, joga ele contra uma coluna e, num gesto verdadeiramente animalesco, usa a espingarda descarregada como porrete, arrebentando a fuça do vilão por baixo do capacete!!! E arrebentando literalmente, pois o rosto do coitado se transforma numa massa sangrenta e disforme!!!!



6-) A MORTE DO VICE-PRESIDENTE
No filme cortado, depois que Wrangler atira no presidente Clark, ele se aproxima do vice-presidente e diz que ele, agora, é o novo líder da Corporação. Os dois vilões trocam um aperto de mãos e o vice-presidente, agora presidente, entra em seu carrão-esporte vermelho, deixando o Bronx em guerra para trás. Todo mundo pensa que o "son of a bitch" conseguiu escapar e que talvez seria o grande vilão num terceiro filme. Porém, na versão sem cortes, descobrimos que ele não foi muito longe - a justiça dos homens tarda, mas não falha. Na verdade, depois de tentar cruzar uma rua movimentada, repleta de cadáveres, o vice-presidente morre quando seu carrão é alvejado por um tiro de espingarda de Strike, que atira de uma janela. O tiro tem o mesmo efeito de um disparo de bazuca, explodindo o carro do vilão - na verdade, um visível carrinho de brinquedo!!!




7-) O FIM DA QUADRILHA DE DABLONE
Talvez um dos momentos mais cortados do filme seja o destino dos três cabeças da gangue dos subterrâneos: Dablone, sua namorada loira (interpretada pela falecida atriz pornô Moana Pozzi) e seu capanga, que é um clone de Chuck Norris. Na versão Poletel, há uma cena curta dos três saindo do esconderijo e mais nada. Presume-se, assim, que eles conseguiram escapar com vida. Porém, na versão sem cortes, a história é diferente. O trio sai às ruas e mata vários "Disinfestors". Porém, ao virar uma esquina em busca de abrigo, a garota loira é metralhada em slow motion por um dos vilões. Furioso com a morte da moça, Dablone sai matando feito louco, fuzilando vários dos "Disinfestors", até ser morto pelo próprio Wrangler à traição, com tiros nas costas, caindo ao chão também em slow motion. Já o clone de Chuck Norris se separa dos amigos e vive tempo suficiente para ajudar Trash, que estava sem munição, entregando-lhe um revólver carregado. Em seguida, é morto, também em câmera lenta, com rajadas de metralhadoras pelas costas. E assim tem fim a quadrilha de Dablone...




8-) STRIKE INCENDEIA UM "DISINFESTOR"
Em outra cena inexplicavelmente cortada, Strike dá a um dos " Disinfestors" um pouco de seu próprio remédio, atirando no depósito de combustível do lança-chamas e fazendo o pobre coitado explodir em chamas!!!



9-) TRASH LUTA "CAPACETE-FU"
Quando Trash fica sem munição, ele precisa improvisar. Na versão Poletel, a cena encerra com o herói quebrando o braço de um dos soldados e fazendo com que ele metralhe um companheiro. Na versão sem cortes, existe ainda uma excelente e engraçada cena, que também foi cortada sem necessidade: cercado por três "Disinfestors", e sem ter qualquer arma à mão, Trash não se aperta, arranca o capacete de um deles e sai lutando " capacete-fu", esmigalhando a cabeça de dois dos vilões com o tal capacete! Já o terceiro vilão é metralhado pelo amigo de Dablone, aquele clone de Chuck Norris, que entrega a Trash um revólver carregado antes de morrer metralhado pelos vilões.



Felipe M.Guerra

FUGA DO BRONX
(Escape From The Bronx , Itália, 1983). 90 minutos
Direção: Enzo G. Castellari
Roteiro: Tito Carpi; Enzo G. Castellari; Dardano Sacchetti
Produção: Fabrizio De Angelis
Música: Francesco De Masi
Fotografia: Blasco Giurato
Edição: Gianfranco Amicucci
Direção de Arte: Massimo Lentini
Figurino: Massimo Lentini
Efeitos Especiais: Giovanni Corridori
Elenco: Mark Gregory (Trash); Henry Silva (Lloyd Wrangler); Valeria D'Obici (Moon Grey); Giancarlo Prete (Strike); Paolo Malco (Vice Presidente); Ennio Girolami (Presidente Clark); Antonio Sabato (Dablone); Alessandro Prete (Junior); Massimo Vanni; Andrea Coppola; Eva Czemerys; Moana Pozzi; Romano Puppo; Carla Brait; Maurizio Fardo; Tom Felleghy



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