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Você já pensou, só por um minuto, na responsabilidade que é ser um grande e respeitado cineasta? Como a discussão é vasta, vamos nos ater ao cinema de horror. Imagine ser Tobe Hooper, um diretor que, após assinar um clássico como O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA, não consegue fazer mais nada tão respeitável (e, mesmo que dirija um bom filme, este sempre ficará à sombra de seu clássico de 1974). Imagine-se por um momento no papel de John Carpenter, tentando repetir seus fantásticos HALLOWEEN, O ENIGMA DO OUTRO MUNDO e FUGA DE NOVA YORK mais de 20 anos depois. Imagine como deve ser foda viver na pele do italiano Dario Argento, que criou obras-primas do nível de PROFONDO ROSSO e SUSPIRIA, e hoje é criticado por, supostamente, não conseguir fazer nada tão criativo quanto seus primeiros trabalhos. |
Finalmente, imagine-se na pele de George A. Romero, que reinventou o cinema de horror com sua clássica trilogia (recentemente ampliada para quadrilogia) dos zumbis iniciada com A NOITE DOS MORTOS-VIVOS, e que desde então não pode fazer um único filme sem mortos-vivos ou violência explícita que é covardemente criticado pela sua própria legião de fãs. Imaginou? Como eu escrevi no começo, não deve ser nada fácil ser um grande e respeitado cineasta...


Vamos mais além: o ótimo porém irregular
THE TOOLBOX MURDERS/NOITES DE TERROR, de Hooper, poderia ser encarado de outra forma caso fosse dirigido por um desconhecido cineasta estreante?
FANTASMAS DE MARTE, obra vilipendiada de Carpenter, seria melhor compreendida caso o cineasta assinasse com pseudônimo? Os fãs de
SUSPIRIA e
INFERNO verão com bons olhos o retorno de
Dario Argento à sua clássica
"Trilogia das Três Mães", ou dirão aos quatro ventos que ele jamais deveria ter feito o último capítulo tão tarde? E, finalmente,
BRUISER, obra de análise deste artigo, dirigida por
George A. Romero, ganharia uma segunda chance caso seus detratores parassem de compará-la com produções anteriores do cineasta, principalmente os filmes de mortos-vivos?
Aí está uma boa pergunta: se
BRUISER é uma obra menor de
George Romero, e muito inferior à sua filmografia dos anos 70/80, ainda assim é superior a muita coisa que se fazia no ano de seu lançamento (2000) e que se faz até hoje. E fico pensando se não seria melhor compreendido e analisado caso não tivesse o nome
"George A. Romero" nos créditos...


O diretor não é exatamente conhecido pela sua vasta quantidade de obras. Na década de 80, lançava praticamente um filme a cada três anos:
CREEPSHOW é de 1982,
DIA DOS MORTOS de 85,
COMANDO ASSASSINO/INSTINTO FATAL de 1988, e desde então ele somente aumentou o intervalo entre as produções. Descontando o média-metragem de 60 minutos que ele dirigiu para sua obra em parceria com
Dario Argento (o de certa forma decepcionante
DOIS OLHOS SATÂNICOS, de 1990), o próximo longa de Romero é o também abaixo da média
A METADE NEGRA, de 1993.
Finalmente, foram seis anos até que o mentor da quadrilogia dos mortos assumisse
BRUISER (2000), e outros cinco até sua obra mais recente,
TERRA DOS MORTOS (2005). Quanto tempo demorará para vermos o próximo trabalho assinado por Romero? 10 anos??? hehehehe (É só brincadeirinha, pois dessa vez o homem pôs mãos à obra e já lançou um novo filme,
DIARY OF THE DEAD).


Voltemos a
BRUISER: injustamente considerado um ponto baixo na filmografia do diretor, demorou exatos sete anos para ser lançado comercialmente no Brasil. Inclusive escrevi este artigo no começo de 2007, originalmente antes de seu lançamento em DVD no país (com o péssimo título
A MÁSCARA DO TERROR, que eu obviamente não utilizarei no texto). Até então, estava inédito nos cinemas e nas locadoras brasileiras, embora tenha sido exibido pelo canal de TV por assinatura TNT com o título nacional
“Vingança Sem Rosto” - muito melhor que o novo nome brasileiro, embora seja exatamente igual ao subtítulo nacional de
DARKMAN, filmaço de
Sam Raimi.
Desde seu lançamento, em 2000,
BRUISER foi defenestrado por praticamente todos os fãs de Romero, que em suas resenhas garantem não acreditar que esta seja uma produção do mesmo cara que assinou
DAWN OF THE DEAD (o original) e
CREEPSHOW. E é aí que reside a grande injustiça desta turma que julga
BRUISER pelo conjunto da obra do diretor: eles se queixam da falta de sangue e nojeira em
BRUISER. Ora, mas quem disse que, obrigatoriamente, os filmes de Romero PRECISAM ter violência explícita ou gore, elementos ausentes neste filme? Se há sangue e gore nos filmes Romerianos de mortos-vivos, no espetacular
O EXÉRCITO DO EXTERMÍNIO e mesmo em
CREEPSHOW, por outro lado nem um nem outro aparecem (pelo menos não em doses tão elevadas) no excelente
MARTIN (que o próprio Romero considera seu trabalho preferido),
COMANDO ASSASSINO,
A METADE NEGRA ou
CAVALEIROS DE AÇO!!! Logo, por que será que os fãs de horror precisam necessariamente esperar por sangue e violência num filme de
George A. Romero? E, como eu questionei anteriormente, será que
BRUISER receberia críticas melhores caso não tivesse o nome do cineasta nos créditos?


A bem da verdade,
BRUISER é uma espécie de desabafo de Romero diante da dificuldade, para os
"veteranos", de fazer cinema durante os anos 90. Desde
DIA DOS MORTOS, de 1985, que ele vinha tendo problemas com os estúdios ou com a rígida censura americana.
DIA DOS MORTOS, como todo mundo deve lembrar, era para ser uma história apocalíptica, que só foi ambientada numa base militar subterrânea porque os produtores cortaram o orçamento pela metade - a trama original foi adaptada posteriormente e virou
TERRA DOS MORTOS. Em
COMANDO ASSASSINO, o diretor foi obrigado a tirar cenas (como uma cirurgia no cérebro e experiências realizadas na macaquinha) e alterar o final pessimista originalmente previsto no roteiro; mesmo assim, a obra não foi bem recebida e acabou detonada por público e crítica. Já
A METADE NEGRA, seu último trabalho antes de
BRUISER, demorou praticamente dois anos para ser comercialmente lançado (filmado em 1991, foi aos cinemas apenas em 93), por causa de dificuldades financeiras do estúdio que o produziu.


Furioso com o
"Sistema", Romero decidiu que
BRUISER seria seu retorno às produções independentes e baratas (custou apenas 5 milhões de dólares, 10 milhões a menos que
A METADE NEGRA), e com roteiro de sua autoria, o que lhe garantiria controle total. O problema foi a grande expectativa gerada e a fria recepção dos fãs. Além disso,
BRUISER foi muito mal lançado fora dos Estados Unidos. Tanto que Romero costuma se referir a ele como
"aquele filme que ninguém viu". hehehehehe. E, aparentemente, não gostou nada de voltar a ser
"independente", já que logo depois aceitou trabalhar com a inteferência de um grande estúdio em
TERRA DOS MORTOS...
Falando especificamente sobre
BRUISER, confesso que também me decepcionei um pouco após os seus 30 primeiros minutos.
“Cadê a sangueira?”, lembro de ter pensado com meus botões, eu que mal sabia detalhes da história quando comecei a ver o DVD do filme. Só depois percebi que esta é uma obra diferente na filmografia de Romero: é mais profundo e inteligente do que propriamente assustador ou sangüinolento - um detalhe que nem todos os fãs de horror irão aprovar. E, mesmo sendo um
“filme menor de George Romero”, ainda assim é um belo e inspirado trabalho, sutil, envolvente e intrigante, quase como uma versão kafkiana do best-seller
“Psicopata Americano”, de Brett Easton Ellis.


Lembra de
“A Metamorfose”, de Kafka - aquele famoso livro do sujeito que certo dia acorda transformado em barata? Pois imagine acordar certo dia e descobrir que, inexplicavelmente, seu rosto desapareceu! É justamente o que acontece com o
“herói” de
BRUISER, e a partir deste fato inexplicável (sim, o roteiro nunca se preocupa em explicar o que aconteceu com o rosto do cara), o agora
"descarado" se transforma num frio e cruel assassino. Afinal, não fica mais fácil fazer qualquer coisa quando não podemos ser identificados? Quando não se tem rosto, e conseqüentemente se perde completamente a identidade, não há mais limites para o que se pode e o que não se pode fazer. É mais ou menos como a frase do homem-invisível Sebastian Caine (interpretado por Kevin Bacon) em
O HOMEM SEM SOMBRA, de Paul Verhoeven:
“É incrível o que você consegue fazer quando não precisa mais olhar para o próprio reflexo no espelho...”.
BRUISER é a história de Henry Creedlow (o inglês Jason Flemyng, que interpretou o dr. Jekyll no pavoroso
A LIGA EXTRAORDINÁRIA). Ele é um almofadinha que trabalha numa revista de moda chamada
“Bruiser” (olha ali o nome do filme). Creedlow é o típico sujeito cuja existência não faz qualquer diferença no mundo, que não fede nem cheira, um inútil com quem ninguém se importa e que provavelmente vai passar pelo mundo sem deixar qualquer vestígio. Acompanhe: o cara é pau-mandado da esposa, a vagabunda Janine (interpretada pela bonitinha Nina Garbiras); não consegue terminar a reforma/construção de sua casa, repleta de plástico e materiais de construção espalhados há longos meses; não tem respeito de ninguém no seu trabalho, e quando tenta puxar papo com alguém o pessoal finge que não ouviu; na redação, ainda é humilhado diante de todos pelo chefe Milo Styles (Peter Stormare). Como desgraça pouca é bobagem, Creedlow também está sendo roubado na cara-dura pelo seu
“amigo” e corretor James Larson (Andrew Tarbet), que
“cuida” de suas finanças e lhe surrupiou o troco de 30 mil dólares. E escuta impropérios até da empregada da sua casa! Fale a verdade: você não iria querer se suicidar em poucos dias se levasse uma vida de Henry Creedlow?


Ironicamente, a abertura do filme é um conjunto de imagens em close do nosso
"herói" acordando. Closes num copo d'água, na mão do sujeito desligando o despertador, na escova de dentes, no barbeador, em Creedlow tomando banho... Enquanto isso, ele escuta um programa de rádio em que um homem ameaça se suicidar no ar.
"Você trabalha a vida inteira e não consegue deixar uma marca. É como se nunca tivesse existido... Então, pra que se preocupar?", diz o suicida ao vivo, antes de explodir os próprios miolos com um tiro.
O episódio afeta Creedlow, que começa a repensar seu próprio dia-a-dia. A partir de então, é bombardeado por alucinações onde se vê descontrolado e agredindo aos outros e a si próprio violentamente. Ele se imagina cometendo suicídio, matando uma mulher que furou a fila para embarcar no trem, e até mesmo dando uma machadada na cabeça da esposa quando esta lhe humilha implacavelmente. Creedlow é um sujeito legal, pacífico e que agüenta as humilhações no osso; mas, por dentro, está sendo devorado pelos impulsos agressivos. Ele é uma bomba-relógio prestes a explodir, só precisa de um motivo para isso...


E o
"motivo" aparece certa noite, quando Creedlow e Janine vão a uma festa promovida pelo patrão Milo. Lá, a esposa do chefe, Rosemary (Leslie Hope), única pessoa que respeita Henry como ser humano, está fazendo máscaras de gesso de todos os convidados, uma brincadeira para quebrar o gelo. O detalhe é que cada um deve pintar a máscara branca com cores e desenhos que dêem uma pista de suas próprias características. Frente a frente com a
“sua” máscara, uma face branca e inexpressiva de gesso, Creedlow simplesmente não consegue pintá-la; isso porque, explorado e maltratado por todos, ele não tem uma
“identidade", ou personalidade. Na mesma noite, surpreende Janine batendo uma para o seu patrão bem no meio da festa. E, capacho que é, nem vai tirar satisfação com a moça ou com o chefe. A própria Janine fica furiosa com a passividade do marido e o abandona sozinho em casa. Com isso, nosso
“herói” está, oficialmente, no fundo do poço... É a hora certa para a bomba-relógio explodir: BUUUM!
Amanhece e Henry Creedlow acorda para mais um dia como capacho da humanidade. São repetidas as mesmas cenas em close do início (Henry desligando o despertador, tomando banho, preparando o barbeador). Mas, naquele dia, Henry Creedlow não acorda Henry Creedlow. Ao olhar-se no espelho, ele percebe que seu rosto desapareceu... sumiu, foi-se! No lugar ficou apenas a inexpressiva máscara branca, igual àquela que Rosemary fez com gesso na noite anterior. A diferença é que Henry não consegue arrancar a
“máscara”: ela agora é seu novo rosto, sua nova
“identidade”. Henry Creedlow não existe mais; após ter sua identidade
“roubada” pelos anos em que foi maltratado e explorado, ele resolve se vingar mortalmente das pessoas que julga responsáveis pelo desaparecimento do rosto. É como se, perdendo o rosto - e conseqüentemente a identidade -, Creedlow perdesse também a noção de certo e errado; como se, sem o rosto, e sem poder ser identificado, ele finalmente pudesse reagir, fazer tudo que sempre desejou. E tem lógica: não é muito mais fácil passar um trote ou um e-mail anônimo para alguém, dizendo coisas que você não teria coragem de dizer caso precisasse colocar lá a sua assinatura?


A primeira vítima do homem sem rosto é a empregada desbocada e ladra de prataria, que tem a cabeça golpeada com sua própria bolsa repleta de itens roubados; a segunda vítima é a esposa Janine, enforcada e atirada pela janela da redação da revista após transar com Milo na mesa de seu escritório (uma cena que lembra, propositalmente ou não, o suicídio da babá de Damien em
A PROFECIA).
A partir deste crime, a polícia entra em cena para investigar, representada pelos detetives McCleary (Tom Atkins, que também foi dirigido por Romero em
CREEPSHOW e
DOIS OLHOS SATÂNICOS) e Rakowski (Jonathan Higgins). Só que a lei investiga numa direção completamente oposta, elegendo Milo e sua esposa Rosemary como suspeitos - aparentemente, Creedlow é tão inútil que não serve nem para suspeito de homicídio! Ao mesmo tempo em que tenta livrar Rosemary da acusação de assassinato, o
“sem rosto” procura encerrar sua vingança. Será que, após matar todos os desafetos, Creedlow recuperará seu rosto e sua identidade, ou viverá para sempre sem face?


À primeira vista,
BRUISER pode até parecer a tradicional historinha de vingança. Mas Romero, como realizador competente e inteligente, faz um trabalho muito mais profundo e fascinante. Não esquece nem mesmo da sua tradicional crítica social, tão presente na quadrilogia dos mortos: em
BRUISER, Henry Creedlow é apresentado como um típico integrante de uma sociedade extremamente individualista, onde a identidade de cada pessoa é criada pela própria sociedade, e não pelo indivíduo em si. E onde todos desesperadamente querem deixar de ser anônimos para se tornarem
"alguém" (como a garota anônima que transa com tudo e todos para ser capa da revista
"Bruiser").
É uma tema atualíssimo, já que, cada vez mais desesperadamente, todos nós queremos deixar de ser anônimos, numa sociedade repleta de anônimos (pessoas
"sem rosto", dentro da metáfora de Romero). Por que muitos entram no Orkut desesperadamente atrás de centenas de amigos? Por que muitos sonham em participar do
"Big Brother Brasil"? Por que tem gente que se estapeia para sair numa foto pequena nas páginas da
"Caras"? Porque ninguém quer ser um anônimo, como o Henry Creedlow de
BRUISER. No caso, um pobre-coitado manipulado por todos, que tenta desesperadamente ser alguém para se impor numa sociedade que não liga para anônimos. Como não consegue se impor, e reprime tudo, acaba destituído de uma identidade própria (e o
"desaparecimento" do seu rosto não passa de uma metáfora para como a existência do sujeito não faz qualquer diferença naquela sociedade).


Ainda segundo a lógica do roteiro de Romero, a violência é a única forma de Creedlow ter de volta a sua identidade roubada - novamente, um reflexo da nossa sociedade extremamente competitiva. Talvez
BRUISER nem deva ser considerado uma produção de horror convencional, já que não há mistério, nem suspense, nem sustos, nem violência que justifiquem tal rótulo. Mais do que um monstro ou um
"vingador sanguinário", Henry Creedlow é um personagem triste e solitário, com quem o espectador se identifica. Afinal, quem nunca sonhou em enfiar o pé na bunda do chefe com toda vontade, ou se vingar de um falso amigo que aprontou alguma? E será que não faríamos isso tudo com a maior tranqüilidade se, como Creedlow, não tivéssemos uma
"identidade" que nos denunciasse?

BRUISER quase se assemelha a outras histórias onde o protagonista, de uma forma ou outra, perde seu rosto e, como um monstro sem identidade, inicia sua vingança. Parece-se muito, por exemplo, com o já citado
DARKMAN, e também com
O FANTASMA DA ÓPERA - na cena final, durante a festa à fantasia de lançamento da nova edição da revista
“Bruiser”, Creedlow chega a aparecer vestido com capa, chapéu e seu inexpressivo
“rosto” branco, lembrando exatamente o
“Fantasma da Ópera”, numa citação que com certeza não é gratuita. Mas se nos dois filmes citados o rosto do protagonista é
“roubado” através de agressões físicas, como uma terrível explosão (
DARKMAN) ou corroído por ácido (
O FANTASMA DA ÓPERA), em
BRUISER o rosto de Henry Creedlow
“desaparece” após anos de agressões psicológicas, e não físicas.
Enfim, é um tema muito mais intrincado e filosófico. Com o progresso da trama, ele começa a
“pintar” seu inexistente rosto branco com tintas de cores variadas, numa tentativa desesperada de criar algo próximo de uma identidade. Por esses e outros detalhes,
BRUISER é um filme riquíssimo e muito inteligente, que não teria o mesmo charme caso Romero tivesse partido para a violência explícita tão esperada pela maioria dos que execraram a obra. Numa comparação tosca,
BRUISER é como se
BELEZA AMERICANA tivesse sido dirigido por David Cronenberg.


Assim, o filme se encaixa tranqüilamente na filmografia de
George A. Romero - mesmo sem o sangue e a violência que seus fãs esperam.
BRUISER traz todos os temas que o cineasta adora enfocar, como o personagem em busca da própria identidade (
MARTIN,
A METADE NEGRA), a crítica à nossa sociedade consumista (
DAWN OF THE DEAD) e a violência inerente ao indivíduo mais pacato (lembra de
COMANDO ASSASSINO, em que a macaquinha de estimação assume o papel de carrasco dos atos de violência que o personagem principal deseja, mas não tem coragem de realizar? Ou ainda de
A NOITE DOS MORTOS-VIVOS, onde os
"vivos" no final parecem mais cruéis que os
"mortos"?). Enfim: apesar de não ter sangue,
BRUISER é um típico Romero, digno da assinatura do autor/cineasta.
Mas como
George Romero não é Deus, comete vários erros.
BRUISER é, sim, um filme imperfeito, e um trabalho menor do mestre. Está longe de ser uma obra-prima, ou mesmo de ser um filme memorável. Se o primeiro ato é sério e deprimente, o
"meio" é comprometido por um excesso de diálogos e de enrolação (bola-fora que Romero já havia cometido no seu chatíssimo episódio de
DOIS OLHOS SATÂNICOS). Sobrevivendo ao bla-bla-bla exagerado do miolo, o espectador ainda se pegará surpreendido com a mudança do clima na metade final, visivelmente embalada por um exagerado e deslocado humor negro. A conclusão se passa durante uma bizarra festa à fantasia com show da banda punk
The Misfits. Ali, numa cena que poderia muito bem estar em alguma comédia pastelão da época, Creedlow atinge um cheirador de cocaína na cabeça e ele cai no chão desacordado, somente para levantar-se em seguida, dar mais uma cheirada no pó e enfim desmaiar! (Curiosidade: os Misfits só aparecem tocando porque o cineasta dirigiu, anteriormente, o videoclipe para a música
"Scream" da banda de New Jersey, dispensando o cachê, apenas pedindo que eles tocassem no seu próximo filme.)
No papel do vingativo personagem principal, Flemyng (cujo melhor desempenho no cinema é o bandido pateta de
JOGOS, TRAPAÇAS E DOIS CANOS FUMEGANTES) faz um belo trabalho como uma espécie de vilão simpático (ou seria
"anti-herói"?), com quem o espectador simpatiza facilmente. Porém, o ator não tem muita chance de interpretar, já que,
"sem rosto", poderia ser qualquer um por baixo das toneladas de maquiagem branca e inexpressiva - até mesmo o Alexandre Frota!


Por outro lado, o sempre fantástico Peter Stormare, que costuma roubar a cena quando aparece como coadjuvante (lembra de
8MM e
CONSTANTINE?), está muito exagerado e caricatural. Ele passa o tempo berrando, dançando, gesticulando feito louco, sorrindo forçadamente e até mesmo mostrando os
"documentos" (acredite se quiser). Stormare destoa completamente do clima, e parece acreditar que está atuando numa comédia, não num filme sério de horror. Além disso, Milo, o patrão calhorda e viciado em sexo que ele interpreta, é filha da puta demais mesmo para os padrões cinematográficos!
Se as duas principais figuras masculinas se destacam, os personagens femininos são todos apagados (e isso que há vários peitinhos desfilando em cena). E Tom Atkins, no seu milésimo papel de policial, passa invisível pelo filme - parece até uma cópia do seu trabalho, também como homem da lei, em
DOIS OLHOS SATÂNICOS, só muda o nome do personagem!
Como eu escrevi ali em cima,
BRUISER está longe, muito longe de ser perfeito ou um novo clássico do gênero. Há falhas gritantes, principalmente na inexistência de tensão ou suspense (um grande pecado, ainda mais pelo fato do filme ser assinado por um mestre do terror). Em certos momentos, chega a lembrar o decepcionante
A METADE NEGRA, que, embora siga fielmente as linhas do livro de
Stephen King, não tem personalidade e nem a nojeira marcante da obra literária, resultando numa adaptação fria e impessoal que parece assinada por um cabeça-de-bagre qualquer.
BRUISER também decepciona, ainda mais quando lembramos do nome de Romero nos créditos - o filme é tão sem personalidade (ou
"sem rosto") quanto seu personagem principal. Certamente falta algo, mas mesmo assim considero injustas e exageradas as críticas que massacraram a obra unicamente pela inexistência do sangue e da violência que supostamente deveriam ser
"obrigatórios" numa produção de
George Romero. E como passei vários dias só pensando no filme, acredito que ele cumpriu seu papel: não é uma diversão escapista, e sim uma trama que gera várias discussões.


Finalizando, acho que Romero tem muito mais a dizer com
BRUISER do que, por exemplo,
Wes Craven com sua
trilogia PÂNICO. Ou Tobe Hooper com qualquer um dos seus fracassados filmes contemporâneos, só para citar dois nomes que também são considerados
"mestres do horror", à altura de Romero. A falta de identidade que o cineasta aborda em
BRUISER ironicamente afeta o próprio gênero
"horror" do século 21. Afinal, nos últimos anos até mesmo figurinhas carimbadas, do calibre dos já citados Craven e Hooper (mas pode botar no balaio também
John Carpenter,
Dario Argento, Brian DePalma e muitos outros), preferem adotar o auto-plágio, reciclando os mesmos elementos de seus trabalhos anteriores, sem ousar e, conseqüentemente, sem lançar algo à altura de seus grandes clássicos.
Quem diria, por exemplo, que o
Wes Craven dos furiosos e agressivos
LAST HOUSE ON THE LEFT e
QUADRILHA DE SÁDICOS hoje estaria dirigindo produções acéfalas para o público teen, ou incentivando a refilmagem moderna de seus filmes antigos (como o próprio
QUADRILHA DE SÁDICOS)? Quem diria que os melhores exemplares do gênero no cinema norte-americano contemporâneo seriam refilmagens de obras orientais? Quem diria filmes com menos de 15 anos de idade (
A MORTE PEDE CARONA) e até produções sem qualquer importância (
A MORTE CONVIDA PARA DANÇAR,
A NOITE DAS BRINCADEIRAS MORTAIS...) estariam ganhando remakes?
Talvez
BRUISER não passe de um reflexo irônico da falta de identidade (ou de personalidade?) dos novos tempos. Nós, que também sofremos deste mal, é que não entendemos. Mas Romero percebeu e fez até uma esperta auto-crítica (afinal, ele só voltou a ter o seu tão sonhado sucesso de público e crítica quando retornou aos tempos passados e resgatou seus zumbis, no recente
TERRA DOS MORTOS). Hoje é tão raro um cineasta ter
"algo a dizer" que
BRUISER, por mais imperfeito e insatisfatório que seja, merece ser visto não uma única vez, mas várias.
Para comentar o artigo e entrar em contato com Felipe M.Guerra:
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BRUISER - A MÁSCARA DO TERROR (Bruiser , EUA/França/Canadá, 2000). Duração: 99 minutos
Direção: George A. Romero
Roteiro: George A. Romero
Fotografia: Adam Swica
Música: Donald Rubinstein
Maquiagem: Russell Cate; Carol Davidson; Mark DeLuca; Louise Mackintosh; Raymond Mackintosh; Shawn Thompson; Sandra Wheatle
Efeitos Especiais: Jason Board; Gary Kleinsteuber; Dean Stewart
Direção de Arte: Mario Mercuri
Cenografia: Enrico Campana
Edição: Miume Jan Eramo
Desenho de Produção: Sandra Kybartas
Elenco: Jason Flemyng (Henry Creedlow); Peter Stormare (Milo Styles); Leslie Hope (Rosemary Newley); Nina Garbiras (Janine Creedlow); Andrew Tarbet (James Larson); Tom Atkins (Det. McCleary); Jonathan Higgins (Det. Rakowski); Jeff Monahan (Tom Burtram); Marie Cruz (número 9); Beatriz Pizano (Katie Saldano); Tamsin Kelsey (Mariah Breed); Kelly King (Gloria Kite); Susanne Sutchy (Colleen); Balázs Koós (Chester); Jean Daigle (Faduah)
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