BUBBA HO-TEP

por Bruno Combat Martino

Elvis Aron Presley nasceu em 08 de Janeiro de 1935 numa cidadezinha do estado do Mississipi. Teve uma infância pobre e ganhou a vida por um tempo como motorista de caminhão. Foi nessa época que gravou um vinil com duas músicas pela bagatela de 4 dólares para dar de presente à mãe, e, por uma coincidência do destino, foi contratado pela gravadora onde se tornou um fenômeno. Em 1969 se casa com Priscilla Beaulieu com quem tem uma filha, Lisa-Marie Presley. Em 1970, eles se separam. Viciado em drogas e remédios (morfina, valium e valmid, acusaram a necropsia), em 16 de agosto de 1977 tem uma parada cardíaca e morre, deixando milhares de fãs inconsoláveis. A partir daí, Elvis se torna um mito, reconhecido por 11 entre 10 pessoas até os dias de hoje.
John Fitzgerald Kennedy nasceu em 29 de maio de 1917 em uma rica família católica ligada ao partido Democrata. Em 12 de Setembro de 1953 se casa com Jacqueline Bouvier.
Em 1960 numa disputa acirrada com Richard Nixxon, ganha por pequena margem e se torna o primeiro presidente católico dos EUA. Durante a paranóia da Guerra Fria, permitiu que exilados cubanos armados voltassem ao país de origem para derrubar o regime de Fidel Castro. Foi um fracasso. Em novembro de 1963, durante um comício na cidade de Dallas, é morto com dois tiros enquanto andava de carro ao lado da esposa. O assassino foi supostamente Lee Harvey Oswald que dois dias depois foi assassinado pelo agente da CIA Jack Ruby. Muitos acreditam até hoje em conspiração. Dizem que Kennedy foi morto devido ao seu posicionamento na guerra do Vietnã. Enquanto o povo apoiava a intervenção militar nesse país, Kennedy disse ter a intenção de retirar as tropas americanas do local. Após a morte de JFK, Lyndon Johnson assume a presidência. Ele enviaria mais de quatrocentos mil reforços para o Vietnã.

Você deve estar se perguntando o por quê dessa aula de História e Cultura Pop. Simples, essas duas figuras são os personagens principais de BUBBA HO-TEP, um filme de 2002 que provavelmente nunca dará as caras por aqui.

Baseado no conto homônimo de quarenta páginas ganhador do prêmio Bram Stocker (uma premiação dada aos melhores autores de Horror) escrito por Joe R. Landsdale, foi roteirizado pelo diretor Don Coscarelli (da cinessérie Fantasma) e dirigido pelo mesmo.

A premissa do filme é no mínimo interessante. O que aconteceria se o verdadeiro Elvis Presley (interpretado pelo ator cult Bruce Campbell da trilogia Evil Dead) não tivesse morrido e estivesse passando seus últimos dias num asilo do Texas? A verdade é que Elvis já no fim da carreira, desiludido com a "perda" da esposa Priscilla e da filha Lisa Marie, não vê mais motivos em continuar com uma vida sem alegrias. O "Rei" decide dar um fim a tudo isso. Para tal, troca de lugar com um cover idêntico chamado Sebastian Haff. Vivendo como o cover, ele faz os shows e passa a viver sem nenhum tipo de pressão. Só que acontece um problema: Sebastian Haff morre e Elvis não pode mais reclamar seu posto. Pra piorar ele tem um acidente e quebra a bacia entrando em um coma que o obriga a passar a viver num asilo. Só por essa introdução, pode-se ver que BUBBA HO-TEP já é um filme extremamente criativo, mas o autor do conto que deu origem ao filme, Joe R. Lansdale inova mais ainda, colocando como melhor amigo de Elvis um velhinho senil que pensa ser JFK. Detalhe, ele é negro.



Interpretado com maestria pelo recém falecido Ossie Davis de filmes como "Faça A Coisa Certa" de Spike Lee, o velhinho Jack acha que "sua" morte foi tudo uma conspiração do governo norte-americano. Além de forjarem sua morte, lhe deram uma nova identidade e retiraram parte de seu cérebro mantendo-o ligado a uma bateria na Casa Branca, em seu lugar colocaram um saco de areia! Hahahaha

Um dos diálogos mais hilários se dá entre os dois amigos no jardim do asilo. Após ouvir toda a história, Elvis não se contém: "Sem querer ofender Jack, mas o presidente Kennedy era branco". Sem pestanejar, Jack responde: "Isso mostra como eles são espertos! Eles me pintaram dessa cor!" hahahaha. Impossível não rir.

Mas o que seria o tal BUBBA HO-TEP do título? Simples, é nada mais do que uma múmia do Egito Antigo que se veste com botas e chapéu de vaqueiro e suga as almas das pessoas pelo ânus! Esse tal Joe R. Lansdale é ou não é criativo? O filme começa com Elvis Presley já velhinho, descansando na Casa de Repouso Shady Rest. Ele passa os dias inteiros na cama, sem nada pra fazer e ainda sofrendo com um caroço purulento no seu pênis que desconfia ser um câncer. Ele tem um companheiro de quarto chamado Bull ( Harrison Young ) que está em estado terminal com um câncer no pulmão (coisa que não é dita no filme somente no conto). Bull morre e sua filha Callie ( a bela Heidi Marnhout) vem reclamar seus pertences. A partir daí vemos que o filme joga bem discretamente na cara do público uma crítica ao modo como são tratados os idosos nos EUA e por tabela no mundo. Callie argumenta com Elvis que não tinha dinheiro para visitar o pai e ele retruca: "Mas não cobram para você visitá-lo". Certas frases e ações ao longo do filme e do conto que o originou denotam claramente uma crítica ao modo em que os idosos são tratados, mas sem nunca cair na pieguice e na "lição de moral".

Na mesma noite, uma das residentes é atacada por um imenso escaravelho e logo após por uma criatura putrefata vestindo um chapéu de caubói. Mortes como essa continuam a acontecer no asilo e o mais interessante é que ninguém nem desconfia! Aliás, quem desconfiaria que uma múmia está roubando almas dos velhinhos? Nem desconfiariam do número crescente de mortes já que como todos os pacientes são velhos e todos poderiam morrer a qualquer momento. Aliás, é engraçado ver como os administradores e enfermeiros cuidam dos velhinhos. O administrador (Reggie Bannister, amigão de Coscarelli e herói dos filmes FANTASMA) sempre demonstra uma revoltante falta de interesse quanto aos internos, sempre olhando de modo desconfiado e tratando os velhinhos como se fossem todos caducos. Já a enfermeira de Elvis (Ella Joyce) sempre o trata muitas vezes como um bebê.

Tudo muda no dia em que Elvis é atacado pelo escaravelho em seu quarto. Depois de derrotar o inseto e brindar o público com uma frase de impacto (nos remetendo a Ash , famoso personagem de Campbell dos filmes Evil Dead) ele encontra Jack caído no chão de seu quarto. O JFK negro diz que foi atacado por um cara muito feio, um assassino talvez mandado por Lyndon Johnson ou Fidel Castro! Hahaha. Com o tempo Elvis e Jack se dão conta que o Bubba Ho-Tep é uma múmia sugadora de almas que precisa constantemente se alimentar. Sem ninguém em quem confiar, eles decidem dar um fim na múmia de uma vez por todas.



O roteiro de Coscarelli é fidelíssimo ao conto de Lansdale, e o melhora em muitos aspectos. Mas a maioria do que se vê na tela é cópia xérox da obra. O diretor, espertamente, transforma o relato em terceira pessoa do conto em narrações em primeira pessoa de Elvis. Falando em Elvis, Bruce Campbell mostra que evoluiu muito como ator em nada lembrando sua performance canastra no primeiro Evil Dead. Ele dá um carisma todo especial a um Elvis rabugento e amargurado com as escolhas erradas tomadas na vida. Em uma cena emocionante, ele faz um paralelo da sua vida com seu trabalho de ator em diversos filmes. Enquanto nos filmes ele sempre era o herói perfeito, na vida pessoal não passava de um viciado que traía a esposa com todas as mulheres possíveis. Agora vivendo amargurado e sem nenhuma perspectiva para o futuro, Elvis passa a maior parte do tempo dormindo e pensando em como estaria a esposa e a filha e se sua vida seria melhor se tivesse tomado outras decisões. É ou não triste? Imagine-se sem ninguém na vida e deteriorando em um asilo... chega a ser mais assustador que o maior filme de terror do planeta.

Jack por sua vez, é outro personagem interessantíssimo. Obviamente ele não é JFK, é somente um velhinho senil que só quer um pouco de atenção, e por isso mesmo chega a ser engraçado e triste ao mesmo tempo. Dono das melhores piadas e diálogos do filme muitas vezes rouba a cena e Ossie Davis (falecido recentemente) dá um show, recitando as falas mais absurdas possíveis com uma seriedade imensa que faz com que o filme fique ainda mais engraçado. Campbell e Davis juntos demonstram uma química perfeita. É impossível não simpatizar com os dois velhinhos e torcer para eles a cada momento. A direção de Coscarelli é precisa e como sempre ele controla o pouco recurso com maestria ( o filme custou "apenas" $1.200 milhão de dólares, praticamente o que o Tom Cruise deve ganhar pra dizer uma fala).

O filme pode ser acusado por muitos por ser "muito falado" e "muito parado", mas ao meu ver a intenção de ser "parado" é para mostrar quanto a vida no tal asilo é chata e sem graça. E o "muito falado" foi importantíssimo para sabermos o que se passa na cabeça de Elvis, além de dar um toque de histórias em quadrinhos à trama (Se lembram dos recordatórios, aquelas "caixinhas" de texto retangulares que narram em primeira ou terceira pessoa os sentimentos dos personagens? Então...). Só como curiosidade comparativa, Bubba tem tantas, ou menos narrações em off quanto o recente Sin City de Frank Miller e Robert Rodriguez.

Talvez a única bola-fora do filme, o que não me faz dar uma nota máxima, seja a batalha final entre os heróis e a múmia. Coscarelli já tinha criado clímaxes mais emocionantes em seus filmes da série Fantasma e também com um baixo orçamento. Não que a batalha final seja mal-feita, aliás é muito bem conduzida, mas poderá decepcionar algumas pessoas. Nem preciso falar que os acostumados às batalhas homéricas/hollywoodianas cheias de efeitos especiais irão se decepcionar profundamente, mas o problema é que esse pessoal não tem humor.

Com certeza, Bubba Ho-Tep não é um filme de terror, nem um drama, nem uma comédia. Na verdade o rótulo mais apropriado seja o de "Cinema Fantástico" mesmo, pois ele junta todos esses gêneros no liquidificador e transforma nessa experiência única. Antes de tudo é um filme criativo e inteligente. Talvez seja a mais fiel adaptação literária já concebida, pois é uma cópia xérox do conto, é claro com algumas melhorias ao meu ver. Coscarelli acrescenta alguns personagens (os hilários agentes funerários) além de cortar uma cena de masturbação presente no conto que não faz muita diferença à história.



O interessante é constatar que a viabilização de Bubba Ho-Tep nunca seria possível através de um grande estúdio. Qual estúdio em sã-consciência iria apostar numa história em que os personagens principais são dois velhinhos e não um casalzinho estilo Malhação?. Com certeza se mesmo assim algum estúdio apostasse, nossos heróis seriam relegados a coadjuvantes e os principais seriam um casalzinho de jovens bondosos que no fim se apaixonam. Sem contar que a múmia seria toda em CGI e no final haveria uma grande explosão no asilo estilo Rambo. O cinema mainstream estadounidense pode estar uma porcaria, mas a cada dia que passa se chega à conclusão: o cinema independente ainda é a salvação da lavoura. E a piada referente à Marilyn Monroe nesse filme já supera de longe todos os American Pie.

"As pessoas podem não acreditar nisso, mas a razão pela qual eu e Bruce quisemos fazer esse filme foi contar a estória da redenção de Elvis. E acho que nós o redimimos" - Don Coscarelli

Bruno Combat Martino


BUBBA HO-TEP (Bubba Ho-Tep, Estados Unidos, 2002). 92 minutos
Direção: Don Coscarelli
Roteiro: Don Coscarelli (baseado no conto de Joe R. Lansdale)
Produção: Dac Coscarelli; Jason R. Savage
Produção Executiva: Don Coscarelli
Fotografia: Adam Janeiro
Figurino: Shelley Kay
Efeitos Visuais: David Hartman
Edição: Scott J. Gill, Donald Milne
Desenhos de Produção: Daniel Vechionne
Maquiagem: Melanie A. Kay, Robert Kurtzman, Melanie Tooker
Elenco: Bruce Campbell (Elvis Presley/Sebastian Haff), Ossie Davis (John F. "Jack" Kennedy), Ella Joyce (The Nurse), Heidi Marnhout (Callie), Bob Ivy (Bubba Ho-Tep), Reggie Bannister (Rest Home Administrator), Harrison Young (Bull Thomas)


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