BUIO OMEGA

Por Felipe M.Guerra

A história de um casal feliz e apaixonado... embora um deles esteja morto!

A década de 70 foi marcada por filmes de terror sem freios e sem censura, em praticamente todo o mundo. Foi a era de filmes selvagens e violentos, como LAST HOUSE ON THE LEFT, O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA, DERANGED, QUADRILHA DE SÁDICOS... Graças ao farto número de salas independentes de cinema (e não multiplex em shopping-centers, como hoje) e os populares drive-ins, eram lançadas obras conhecidas pela farta dose de violência e bizarrias diversas, destinadas a um público específico.

Na Europa, naquela época, iniciou-se o ciclo de filmes sobre canibalismo e mortos-vivos (gerando clássicos tipo ZOMBIE e CANNIBAL HOLOCAUST). E foi na Itália, em 1979, que surgiu um dos filmes mais doentios de todos os tempos - e nem estou falando de CANNIBAL HOLOCAUST. A façanha coube ao diretor Aristide Massaccesi, mais conhecido por suas produções bagaceiras, tipo EMANUELLE AND THE LAST CANNIBALS e BLACK COBRA. O título da bomba atômica: BUIO OMEGA, ou BEYOND THE DARKNESS, como o filme ficou conhecido nos Estados Unidos.

Naquele ano, Massaccesi (mais conhecido por Joe D'Amato, um de seus 50 pseudônimos!!!) chegou para o produtor italiano Oscar Santaniello e disse: "Vamos fazer uma lista das coisas mais chocantes e fortes que poderiam ser mostradas em uma película. Depois, vamos filmar". Na lista constaram itens como "necrofilia", "autópsia", "tortura", "desmembramento de cadáveres", "corpos dissolvidos em ácido", "canibalismo", "vítimas sendo enterradas vivas", "pessoas queimadas vivas", entre outras. De posse destas barbaridades, o diretor foi falar com os roteiristas Ottavio Fabbri e Giacomo Guerrini e ordenou: "Quero que vocês escrevam um roteiro com um pouco de cada uma dessas coisas". E assim surgiu o revoltante BUIO OMEGA.
Bem, na verdade a coisa não aconteceu desse jeito. Mas bem que poderia ter sido, porque BUIO OMEGA é simplesmente uma coleção dos tais "itens mais chocantes", mostrados em riqueza de detalhes, de forma tão mórbida e detalhada que o diretor Massaccesi/D'Amato foi acusado de usar cadáveres de verdade na produção, principalmente numa detalhadíssima cena de autópsia. Ironicamente, este filme tão gráfico e selvagem é um dos mais conhecidos de D'Amato e também aquele que ele considera o seu favorito - o que não é pouca coisa, considerando que o cara tem mais de 180 filmes no seu currículo, muitos deles pornográficos.

BUIO OMEGA é um dos filmes mais bem finalizados e bem cuidados de um diretor conhecido por fazer seus filmes rapidamente e de forma descuidada, porca até, principalmente as produções exploitation, que dirigia só para ganhar dinheiro. É o caso, por exemplo, de PORNO HOLOCAUST, EROTIC NIGHTS OF THE LIVING DEAD e ORGASMO NERO, três filmes misturando horror e sexo explícito que ele fez entre 1980 e 81, usando o mesmo elenco e as mesmas locações (e até reaproveitando efeitos especiais de uma produção em outra)!!! Mesmo sendo brutal e destinado apenas aos espectadores de estômago forte, BUIO OMEGA é um filmaço e, talvez, o melhor filme de D'Amato. Por baixo de todo o sangue e mutilações, também é um filme dramático e bonito, como bem observou o blog nacional Erotikill. Por "bonito" entenda-se bem filmado, com ótimos cenários e enquadramentos, pois não há nada "bonito" em cadáveres abertos e torturas mostradas em detalhes!

O roteiro é bem simples (coincidentemente, nem Fabbri nem Guerrini tiveram muito mais chances no cinema): gira em torno de um rapaz milionário chamado Frank Wyler (Francesco, na versão italiana), interpretado pelo canastrão Kieran Canter (no segundo dos três filmes de sua carreira). Tendo perdido seus pais muito cedo, ele vive numa mansão no campo, longe da cidade, com a criada Iris (a esquisita Franca Stoppi, que depois faria vários filmes de Bruno Mattei, como THE OTHER HELLD). Ali, Frank dedica-se ao seu hobby, a taxidermia, e também ao amor que sente pela bela Anna (Cinzia Monreale, que interpretou uma cega no clássico THE BEYOND, de Lucio Fulci).

Infelizmente, Anna está no hospital, padecendo de uma moléstia terminal que os médicos desconhecem. Tudo é uma armação de Iris, que, secretamente apaixonada pelo patrão, morre de ciúmes da garota; por isso, procurou uma velha bruxa para fazer um feitiço vodu que levasse Anna à morte. A despedida da moça, que acontece nos primeiros 10 minutos do filme, é belíssima e até nos faz esquecer que estamos vendo uma das mais violentas produções da história: Anna e Frank se beijam e, em meio ao apaixonado beijo, uma linha reta aparece no aparelho que mostra os batimentos cardíacos da garota.



Desnecessário dizer que o jovem milionário pensa que sua vida acabou. Mas, desta vez, ele está determinado a não deixar que a morte acabe com seu amor. Por isso, na madrugada logo após o sepultamento de Anna, ele vai até o cemitério e desenterra o cadáver da amada, que leva até sua casa. Então, D'Amato brinda o espectador com uma detalhada cena mostrando Frank empalhando o cadáver da moça, desde a retirada dos órgãos internos até a extração do cérebro, através de mangueiras enfiadas nas narinas (argh!). Frank termina o "serviço" arrancando os olhos de Anna e substituindo-os por olhos-de-vidro. Sua amada agora estará imune à decomposição, e ambos poderão viver felizes para sempre no mundo dos sonhos do necrófilo rapaz. Para selar definitivamente a união de ambos, Frank pega o coração arrancado de Anna com as duas mãos e o devora!

A autópsia de Anna é uma das cenas mais controversas de BUIO OMEGA. Claro, nos planos gerais todo mundo vê que é mesmo a atriz Cinzia Monreale que está lá deitada e peladona, e ela não foi morta de verdade, pois apareceu em diversos outros filmes. Entretanto, diz a lenda que o close no peito aberto da moça, com suas tripas sendo arrancadas, foi feito em um cadáver real, aberto em uma aula de anatomia. Já outras fontes alegam ser, na verdade, um porco com o peito aberto! A verdade, D'Amato levou para o túmulo.

Enquanto isso, Frank enfrenta um grave problema: no caminho de volta para casa, ele deu carona a uma maconheira (Anna Cardini), que pegou no sono dentro do carro. Hipnotizado pelo trabalho de taxidermia no cadáver da amada, o rapaz esqueceu completamente da caroneira. E, para seu azar, ela acorda bem há tempo de ver Frank completando o serviço no cadáver. Chocada, tenta fugir, mas é agarrada por ele, que, completamente alucinado, resolve "brincar" com a vítima, arrancando suas unhas uma a uma usando uma alicate! A moça depois é morta por sufocamento.



No dia seguinte, Frank descobre que Iris sabe de tudo - e o "tudo" inclui o roubo do cadáver e o assassinato da caroneira. Mas, sem surpresas para o espectador, ela resolve ajudar o patrão, primeiro vestindo e maquiando Anna, que é colocada em uma cama ao lado daquela em que o dono da casa dorme. Depois, livrando-se do cadáver da moça asssassinada. Então entra mais um dos momentos graficamente chocantes de BUIO OMEGA: a caroneira morta é despida, tem seus membros decepados por Iris com o auxílio de um cutelo e, em seguida, atirados por Frank dentro de uma banheira repleta de ácido sulfúrico. Mostrada em detalhes, a cena é incômoda - o diretor não poupa o espectador nem de um close no "caldo" que resta depois que o corpo se dissolve!

A partir de então, não se sabe exatamente porquê, Frank passa a pegar gosto pela coisa. Ele começa a perseguir e seduzir outras garotas, que leva para casa com promessa de sexo. Mas, no meio do rala-e-rola, fica malucão e as mata da forma mais violenta possível. Paralelamente, Iris diz que o preço do seu silêncio é que o patrão case com ela. E, também paralelamente, Kale, o proprietário da funerária que sepultou Anna (cujo nome é "Buio Omega"!!!), começa a desconfiar que Frank aprontou alguma e passa a investigar a mansão do ricaço.

A trama se desenvolve acumulando assassinatos até que entra em cena a irmã de Anna, Elena, que é idêntica à falecida (e também interpretada por Cinzia Monreale). Ao vê-la, o jovem psicopata fica fascinado. Quando Iris percebe que ela poderá atrapalhar seus planos e seu "futuro romance", trata de planejar o fim prematuro da mocinha. E assim o filme evolui para uma conclusão sangrenta e uma última imagem marcante, daquelas que fica grudada na retina por um bom tempo.



BUIO OMEGA é um filme que faz de tudo para virar o estômago do espectador, principalmente ao abusar da crueldade do casal de assassinos, Frank e Iris. Em um momento, por exemplo, o rapaz mata uma garota que acabara de conhecer, rasgando-lhe o pescoço a dentadas. Depois, imaginando que a menina está morta, enfia o corpo em um forno crematório que existe no porão da casa. Só que a vítima não está bem morta, e se debate desesperada em meio às chamas (outra coisa que D'Amato faz questão de mostrar em close, novamente fazendo muita gente acreditar que ele usou cadáveres reais). Detalhe: enquanto a moça grita e chora sendo queimada viva, Frank e Iris assistem pela portinhola do forno como se nada estivesse acontecendo, num momento de sadismo insuperável! Não é por nada que o trailer de BUIO OMEGA começa com uma tela preta e um locutor alertando: "Se você se impressiona facilmente, por favor, não assista este filme!".

Como é uma produção de Joe D'Amato, e o homem é chegado numa baixaria, você também pode esperar muita nudez - embora a coisa seja tão pesada que em nenhum momento o filme se torne excitante. A maioria das atrizes aparece pelada (até a feiosa Iris!!!), e inclusive Cinzia, já que o cadáver de Anna está nu durante boa parte do tempo de projeção! O filme também tem a gatíssima Simonetta Allodi pelada, infelizmente em pequena participação, como uma garota que Frank conhece numa discoteca. É uma pena que esta deusa loira da Itália só tenha feito dois filmes, contando BUIO OMEGA, e depois sumiu do mapa! Curiosamente, a cena da moça da discoteca foi cortada quando o filme estreou nos cinemas americanos, aparecendo apenas recentemente na versão "uncut" em DVD!

Comparando com outras produções feitas naquele mesmo período, BUIO OMEGA tem alguns diferenciais, como a excelente trilha sonora (infelizmente repetida muitas vezes durante todo o filme, o que a torna até enjoativa) assinada pelo grupo Goblin, aquele mesmo responsável por músicas dos filmes de Dario Argento e do clássico DAWN OF THE DEAD de George A. Romero. O próprio D'Amato opera a câmera, num excelente trabalho, e a maior parte do elenco entrega ótimas interpretações, bem distantes da média "canastrona" dos filmes italianos daquele período. A mais surpreendente em cena é Cinzia Monreale: ela interpreta tão bem a falecida Anna que você chega a pensar que ela está morta de verdade!!! É sério: ela nunca mexe a barriga nem os olhos!!! Já o pior em cena é o astro Kieran Canter, que não muda de expressão o filme inteiro! Como curiosidade, ainda, o diretor de segunda unidade é Franco Gaudenzi, que nos anos 80 produziria os filmes de Bruno Mattei - tipo SHOCKING DARK e ROBOWAR.



O roteiro bem bolado consegue criar algumas cenas de ternura mesmo diante dos excessos e do mau gosto. É o caso da relação de Frank com o cadáver empalhado da amada, que nunca descamba para a baixaria. Seria muito fácil colocar algumas cenas de necrofilia (Frank fazendo sexo com a morta), só para obter um choque a mais aqui e ali, mas o roteiro sempre se segura neste quesito. Na verdade, por mais esquisito que isso possa parecer, BUIO OMEGA às vezes até é um tanto romântico: o rapaz continua tratando a amada falecida como se ainda estivesse viva, arrumando seu cabelo, sua maquiagem e até falando com ela durante a maior parte do filme, de modo que quase torcemos para a relação dar certo - ignorando o fato de um dos integrantes do casal estar morto!

Entretanto, BUIO OMEGA será decepcionante para quem procura um filme assustador ou de suspense. Ao resvalar para o explícito, D'Amato praticamente passa o filme todo dedicado a mostrar as mutilações e crimes o mais graficamente possível, sem deixar nada para a imaginação e sem criar suspense (já se sabe logo quem vai morrer e quando). A única cena que pode ser considerada assustadora é, como eu já citei, a conclusão - mas nem isso será grande surpresa para quem prestar atenção no que aconteceu antes.

Por fim, um grande mistério é o título BUIO OMEGA. Não consigo pensar em nenhum significado especial além do nome da funerária que sepulta Anna. Isso porque "buio" é "escuro" em italiano, e "omega" é uma letra grega. Faz um pouquinho mais de sentido o título americano, BEYOND THE DARKNESS (Do Outro Lado da Escuridão). Curiosamente, também, depois do sucesso de CANNIBAL HOLOCAUST, os distribuidores rebatizaram o longa de forma ainda mais incompreensível: BLUE HOLOCAUST ("Holocausto Azul"), título totalmente fora da casinha.

Agora, fico pensando que título teria no Brasil... Nem é preciso quebrar muito a cabeça, considerando que, só para variar, o filme NÃO foi lançado no Brasil - e a novidade? Vinte e cinco anos depois, a obra de D'Amato continua inédita por aqui, e talvez tenhamos que fazer como Frank e "empalhar" BUIO OMEGA, para conservá-lo até que alguma distribuidora nacional resolve finalmente lançá-lo no país. Ou seja: vai demorar!

Felipe M.Guerra


BUIO OMEGA (Buio Omega, Itália, 1979). 91 minutos.
Direção: Joe D´Amato (Aristide Massaccesi)
Roteiro: Ottavio Fabbri; Giacomo Guerrini (história)
Fotografia: Joe D'Amato
Edição: Ornella Micheli
Música: Goblin; Maurizio Guarini; Agostino Marangolo; Carlo Pennisi; Fabio Pignatelli
Direção de Arte: Mario Paladini
Maquiagem: Cesare Biseo
Efeitos Sonoros: Renato Marinelli
Diretor de Segunda Unidade: Franco Gaudenzi
Elenco: Kieran Canter (Frank Wyler); Cinzia Monreale (Anna Völkl & Elena Völkl); Franca Stoppi (Iris); Sam Modesto (Mr.Kale); Anna Cardini; Lucia D'Elia; Mario Pezzin; Walter Tribus; Klaus Rainer; Edmondo Vallini; Simonetta Allodi




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