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Horror e comédia, mistura aparentemente indigesta à primeira vista, mas que ganha muitos adeptos quando se procura diversão descompromissada e veloz. Assim, a Grã-Bretanha ultimamente tem se especializado em entregar sátiras e pérolas engraçadissimas do humor negro repletas de referências... Esqueçam ESPARTALHÕES e DISASTER MOVIE, é de produções como SHAUN OF THE DEAD, EVIL ALIENS e agora THE COTTAGE - lançado no Brasil direto em DVD como A CABANA MACABRA - que você deveria estar procurando.
O diretor e roteirista Paul Andrew Williams é praticamente um desconhecido fora da terra da rainha, e A CABANA MACABRA é a sua primeira produção lançada em grande escala internacionalmente, pois a trajetória de Williams só ganhou notoriedade graças ao seu debut com o poderoso e controverso drama LONDON TO BRIGHTON, sobre o mundo da prostituição infantil. |
O filme foi vencedor de numerosos prêmios em festivais da Europa (incluindo uma indicação ao BAFTA) e consequentemente atraiu financiadores para sua primeira "superprodução", com uma toada completamente avessa a LONDON TO BRIGHTON. 

Interessado em realizar uma homenagem aos clichês que acompanham os slashers e não uma paródia a um filme em específico, Williams conseguiu demonstrar perícia ao cadenciar humor gráfico e inteligente com horror e suspense, se aliando a alguns nomes bastante recorrentes do cinema fantástico. Assim,
THE COTTAGE tem méritos suficientes para garantir risadas e arrepios ao espectador, ao mesmo tempo e na medida certa.


O roteiro é a
Lei de Murphy em sua forma mais desastrosa: os irmãos Peter (Reece Shearsmith de
SHAUN OF THE DEAD) e David (Andy Serkis, mais conhecido por se
"fantasiar" em CGI como o
Gollum de
O SENHOR DOS ANÉIS e o macacão de
KING KONG) querem fazer dinheiro fácil e para isso resolvem seqüestrar a enteada do ex-patrão de David, a linda e temperamental Tracey (Jennifer Ellison,
O FANTASMA DA OPERA). Porém os irmãos possuem diferenças distintas de personalidade que geram inúmeras divergências entre eles. Se Peter é um bobalhão britânico típicamente descuidado, que adora chá e é mantido em rédea curta pela obesa esposa, seu irmão é o oposto: frio e comedido nas palavras, David é o cérebro do grupo e logo se tornará a versão mais extrema da expressão
"puto de raiva".


Depois de levar a garota para a afastada cabana que pertencia a mãe dos irmãos, os problemas começam quando Tracey oferece resistência ao ser levada para o cativeiro, que culmina com o nariz de Peter quebrado. Este é só o começo de uma turbulenta e subvertida relação entre seqüestradores e cativa.
Enquanto isso a família da garota se prepara para pagar o resgate, escalando o meio-irmão da garota, o gordinho Andrew (Steven O'Donnell,
SHAKESPEARE APAIXONADO) para levar a quantia de 100 mil libras para o resgate. Desconfiado - e com toda razão - de que seu filho está envolvido na abdução, o chefão manda dois capangas na cola de Andrew, os orientais Chun Yo Fu (Jonathan Chan-Pensley) e Muk Li San (Logan Wong), para invadir o cativeiro e matar todos os seqüestradores, inclusive Andrew.


Depois de muita complicação e turbulência com a seqüestrada, Tracey consegue fugir e inverte os papeis, levando Peter como prisioneiro. Na busca de um telefone, a garota invade uma fazenda num lugar ainda mais remoto do que a cabana. A casa da propriedade é um lugar funesto, repleto de fotos recortadas e um porão cheio de pedaços de corpos decompostos, e o que seria um típico seqüestro com fuga acaba numa matança indiscriminada quando o dono da fazenda (O lutador profissional Dave Legeno, de
ALEX RIDER CONTRA O TEMPO) se revela um sádico maníaco mutante. Agora não há opção, ou os outrora adversários se unem para fugir da ameaça, ou todos acabarão mortos.


Pode parecer coisa de
Sessão da Tarde, todavia dizer que
THE COTTAGE se trata de
"um grupo atrapalhado de bandidos que se metem numa fria e entram na maior confusão" é real e essa
"confusão" faz toda diferença para o sucesso da película. Paul Andrew Williams não se importa em mostrar um humor quase pastelão junto com tiradas inteligentes e cenas de revirar o estômago sem muitos rodeios. Este contraste tem impactos diversos no público, mas todos conspiram para se tornar um grande passatempo.


Contudo não vá preparado para ver sanguinolência desde o início, porque o diretor desenvolve bastante a parcela da história do seqüestro, jogando a parte do caipira mutante exclusivamente a partir dos quarenta minutos finais, o que é bom por trazer um pouco de surpresa para a história. E falando um pouco na violência, os efeitos especiais, desenvolvidos por Paul Hyett (
JUIZO FINAL,
ABISMO DO MEDO) são muito convincentes e altamente impactantes, apesar de não trazerem nada que não havíamos visto em outros filmes recentes, como armadilhas para urso (
MUTILADOS) e decapitações com pá (
TERROR NO PÂNTANO).


Outra coisa que reflete positivamente na avaliação são os personagens altamente estereotipados que oscilam do panaca Peter que tem medo de mariposas até a bela e violenta Tracey que não hesita em quebrar o nariz de Peter com as mãos amarradas atrás do corpo. A propósito, como curiosidade, o papel da cativa era originalmente para uma atriz de meia idade, porém pressionado pelos investidores para colocar um corpinho sexy e atrair mais bilheteria, o diretor escalou Jennifer Ellison.


Mesmo assim, o resultado não seria possível sem o elenco talentoso que Williams tem na mão: o incrível Andy Serkis lidera como o irmão racional e mal humorado, sendo o nome mais conhecido, mas quem rouba a cena é Reece Shearsmith, que tem mais espaço em cena e é engraçado desde a própria caracterização do personagem e em cada acesso de frescura, com destaque para o
"ataque" de mariposas dentro da casa do fazendeiro mutante.


A fotografia obscura de Christopher Ross é digna de nota, pois traz aquele clima soturno bem característico aumentando a beleza nas tomadas externas, enquanto a trilha sonora de Laura Rossi, que bebe muito da fonte de Danny Elfman (
OS FANTASMAS SE DIVERTEM) é empregada a exaustão e um pouco pomposa para a proposta do filme, o que pode ser um ponto falho dependendo de quem assiste.


Se há uma grande falha no cast e no roteiro, é o subaproveitamento da ponta do eterno
Pinhead,
Doug Bradley (cuja aparição se deve ao seu parentesco com o diretor), bem como de toda a história envolvendo os sinistros moradores da região, que aparecem uma única vez - quando David precisa ir até a cidade fazer um telefonema - para nunca mais serem lembrados no restante da produção. E falando em pontas, não percam a participação do veterano Steven Berkoff (
A LARANJA MECÂNICA,
RAMBO 2,
007 CONTRA OCTOPUSSY) em uma cena extra depois dos créditos finais.


O DVD nacional, lançado pela distribuidora
Sony Pictures, contém cerca de doze minutos de cenas excluídas. Entre os cortes mais substanciais para a história inclui-se as participações de um personagem extra chamado Soking Joe (Johnny Harris) - que deveria morrer na cena de abertura e foi limado da versão final para não entregar de cara o assassino - e tomadas com faisões mortos que seriam animais recorrentes para o mutante. O disco também inclui outros quatro minutos de erros de filmagens e dois storyboards.


Portanto, depois de tantos elogios não posso fazer nada mais do que recomendar a locação, pois é através de uma produção hilária, sangrenta, envolvente e com um final brilhante - que deixa um gancho, mas não gratuito como pode parecer - que Paul Andrew Williams começa no cinema de horror com o pé direito. E apesar de não se considerar um amante do estilo, espero que se enverede mais no gênero, pois
A CABANA MACABRA é um exemplo de entretenimento puro e uma excelente adição ao cinema britânico.

Gabriel Paixão
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