ZÉ DO CAIXÃO:
O FILÓSOFO/PSICOPATA DA PERIFERIA




Orivaldo Leme Biagi


A crítica dita "séria" costuma desprezar os personagens criados no universo do terror. Com exceção de Drácula, de Bram Stoker, e de Frankenstein, de Mary Shelley, outros personagens deste subestimado universo não recebem o respeito que merecem. Este é o caso do personagem Zé do Caixão, criação do cineasta brasileiro José Mojica Marins, Considerado de péssimo gosto ou até mesmo escatológico, este personagem esconde, através da violência, grandes atrativos intelectuais.
O mitológico Zé do Caixão tende a não agradar as pessoas de um modo geral, a maior parte das vezes não por causa de ser um personagem de terror, mas sim pelo uso constante de roupas pretas (existira melhor cor de roupa para um agente funerário?) e por suas longas unhas, que provocam nojo às pessoas mais sensíveis. Mas, com uma visão mais atenta e ampla, estes aspectos parecem menores, chegando mesmo a ajudar a esconder as riquezas deste personagem.
No seu primeiro filme, À Meia-Noite Levarei sua Alma, o personagem ganhava vida. O elenco do filme era amador, mas não chegou a prejudicar os resultados. O roteiro é coerente, o personagem é fascinante e os climas aterrorizantes são dos melhores já criados pelo cinema. José Mojica Marins foi um visionário, pois, antes mesmo dos Mortos-Vivos do George Romero ou da serra elétrica do Leatherface, ele criou um gênero para o terror: o "trash", explícito e com sangue.
O que mais surpreende neste personagem é que ele tem uma filosofia de vida, ao contrário de outros assassinos cinematográficos (e, muitas vezes, também dos assassinos reais): ele não acredita na vida após a morte, nem em reencarnação, nem em Deus e nem no Diabo. Dentro desta lógica, ele faz o que bem entender por não precisar ter remorso ou sentir-se "pecador". Ele utiliza-se da razão e da ciência como condutores da vida, e não em crendices e superstições, como o povo "inferior" acredita. Por isso, ele sente-se um ser "superior".
Eis aqui uma sutil crítica ao país: a falta de ação dos seus "personagens" (em particular, o povo de um modo geral) por causa do medo provocado por uma visão limitada e excessivamente supersticiosa da religião.
Não que o personagem seja "bom" nas suas ações, muito pelo contrário, mas não é a religião que o impede de agir. Em outras palavras: a sua ação provém justamente da falta de religião. Num país tão religioso como o Brasil, a existência de um personagem com essas características é sempre, no mínimo, perturbador.
Mas o personagem não se esgota apenas neste aspecto. Não existindo vida após a morte, o que resta ao ser humano é a continuidade do sangue e, neste sentido, ele procura ter um filho para a sua continuidade e, para tal ele busca a mulher perfeita, ou seja, a mulher "superior" como ele, para gerar essa continuidade. O monólogo que abre este filme é revelador: "O que é a vida? É o princípio da morte! O que é a morte? É o fim da vida! O que é a existência? É a continuidade do sangue! E o que é o sangue? É a razão... da existência!"
A criança, dentro da sua concepção, é a expressão da perfeição (mas, como ele mesmo comentaria no seu filme posterior, pena que elas crescem e viram uns idiotas!). Nesta obsessiva busca pela continuidade do sangue, aqueles que tentam impedi-lo (ou mesmo as mulheres que surgem no seu caminho e que não são "superiores"), ele simplesmente mata. E mata das maneiras mais escatológicas (e criativas) possíveis.
Um personagem com uma filosofia crítica sobre o mundo, que raciocina e, principalmente, age. Comparando-se com a motivação de outros personagens de terror, como Jason ou Freddy Krueger (que parecem gostar de matar adolescentes apenas por não terem o que fazer até o fim do rolo de filme), o Zé do Caixão é um poço de inteligência, sensibilidade e perplexibilidade, um filósofo das periferias do Terceiro Mundo, uma espécie de poeta do lado negro da miséria e pobreza.


Artigo escrito e pesquisado por Orivaldo Leme Biagi , tendo sido publicado originalmente no fanzine "Juvenatrix", editado por Renato Rosatti.

Orivaldo Leme Biagi, Doutor em História pela UNICAMP, Professor da FAAT e Membro da Academia Literária Atibaiense (ALA).