Assim como não se pode falar de filmes sobre a máfia sem citar nomes como Martin Scorsese ou Francis Ford Coppola, John Carpenter é citação mais do que necessária quando o assunto é terror e ficção, e também um dos diretores mais injustiçados pela indústria cinematográfica, remando contra a máquina do sistema, mas que sempre soube dar a volta por cima. É claro que ele não é totalmente original, tendo muitos de seus filmes como paródias ou sátiras de grandes superproduções, deixando-as propositadamente desleixadas, violentas e debochadas, e até mesmo remakes de verdadeiros filmes B de ficção científica das décadas de 50 e 60.
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John Howard Carpenter nasceu em 16 de janeiro de 1948, em Carthage - NY, mas sua família se mudou para Browling Green, no Kentucky, onde seu pai trabalhava no Departamento de Música da Universidade de Kentucky. Foi lá que John Carpenter começou a estudar música, devido a proximidade com o pai, chegando a montar um banda de rock nos anos 60, a The Coupe des Villes; além de compor a trilha sonora da maioria de seus filmes. Desde criança, sempre foi ligado em histórias em quadrinhos e filmes B de ficção, terror e western.
Em 1965, ingressou na Escola de Cinema da Universidade de Southern California, onde já no ano seguinte, com 18 anos, fez seu primeiro filme, o curta "Firelight". Num trabalho para o Curso, dirigiu o curta "The Ressurection of Bronco Billy" (1970) com o qual surpreendeu a todos conquistando o Oscar de melhor curta metragem de ficção. Como a Universidade pleiteou os direitos pela obra, Carpenter bancou praticamente sozinho o próximo trabalho.
"Dark Star começou a ser filmado em 1970, mas demorou quatro anos para ser finalizado. Inicialmente, tinha 68 minutos, mas para ser lançado comercialmente Carpenter filmou mais 15 minutos adicionais. "Dark Star foi seu primeiro longa mentragem e sua estréia no cinema foi em 1974. Escrito a quatro mãos por ele e seu colega Dan O'Bannon (que mais tarde escreveria os roteiros de "Alien - o 8o.passageiro" e "A Volta dos Mortos Vivos") o qual interpreta de forma hilária um astronauta esclerosado. |
No filme, um grupo de quatro astronautas navegam pelo espaço explodindo planetas e satélites desabitados, aproveitando os restos como minério. Apesar de hoje o filme ser considerado um cult, na época não agradou muito, pois era uma sátira aos filmes de ficção de então, apesar do humor inteligente. Na virada dos anos 60 para os 70, a estética e o visual dos filmes de ficção exigia se não uma superprodução carésima, pelo menos uma produçãozinha caprichada. Em "Dark Star, tudo cheira a filme B: as paredes das naves são revestidas de caixas de ovos, os astronautas são hippies debochados que ficam parte do tempo puxando fumo, jogando conversa fora, apreciando as estrelas ou tirando música de garrafas vazias (Carpenter deve ter ouvido falar de Hermeto Pascoal), as bombas falam e filosofam com os humanos, tem um monstro alienígena de estimação feito com uma daquelas enormes bolas de plástico para brincar na piscina, e há uma cena absurda onde se faz surf no espaço (Carpenter é fã de HQs e o Surfista Prateado tinha sido criado em 1966). Apesar do humor negro, percebe-se como as personagens, confinadas numa nave espacial sem muita ocupação, começam lentamente a apresentar um estado de tédio com uma insanidade beirando o incontrolável, levando ao hilariante final.
O filme em si não é nenhum primor, mas garante com certeza a diversão e a raridade de ter sido o primeiro longa de Carpenter. Foi lançado em VHS no Brasil pela PoleVideo por volta de 1986 e nunca relançado. Essa estética de filme B, feito com poucos recursos e baixo orçamento, primando pelos efeitos artesanais ao invés dos elaborados por computador, diversas referências a HQs e filmes sci-fi dos anos 50 acompanham quase todo o trabalho de Carpenter até hoje.
Como "Dark Star não foi bem recebido na época, Carpenter passou a escrever roteiros. Um deles foi aceito e tornou-se o filme Os Olhos de Laura Mars (Eyes of Laura Mars, 1978) com Faye Dunaway e Tommy Lee Jones. Foi bem recebido pela crítica, o que lhe abriu as portas para estúdios independentes.
Seu segundo longa é o que ele considera uma homenagem à John Wayne e aos filmes de western ("Rio Bravo", "Onde Começa o Inferno" e os western spaghetti de Sergio Leone), que também povoaram o imaginário de sua infância. Trata-se de Assalto à 13ª DP (Assault on Precinct 13 - 1976), onde uma gangue cerca uma delegacia para matar todos os que estão lá dentro, sendo que metade do filme se passa no interior da delegacia, com os policiais encurralados tentando encontrar uma saída.
Carpenter imaginou o filme com um teor apocalíptico, onde a violência está presente em todos os momentos, através de criminosos sádicos, policiais truculentos, pais vingativos e funcionários públicos que não estão nem aí com a vida alheia. Logo no início, somos apresentados a uma seqüência de abertura onde uma quadrilha é encurralada e executada friamente pela polícia. Em seguida, quatro membros de uma gangue (os Street Thunders) fazem literalmente um pacto de sangue: numa cena perturbadora para a época, os quatro cortam seus braços com facas e misturam o sangue num pote de vidro. Os bandidos falam pouco, ficando praticamente mudos o filme todo, numa perspectiva de despersonalizar o inimigo, como se o mal puro não tivesse necessariamente uma forma concreta (um conceito também utilizado em vários de seus filmes posteriores).  | |
Vários trechos de enredos paralelos se sucedem na primeira metade do filme: um pai levando sua filhinha para a casa de uma tia; um ônibus da polícia levando três condenados a morte para outro presídio; uma Delegacia, a 13ª, sendo desativada em sua última noite de funcionamento; os quatro membros da gangue mostrada no início circulando com um carro preto pelas redondezas, fazendo mira em pessoas inocentes e testando suas armas com silenciadores.
Uma cena particularmente chocante e gratuita (para a época, fazendo a censura funcionar em vários países, cortando o trecho) guarda uma simbologia interessante. O pai que dirigia com sua filha estaciona para usar o telefone público (na época não havia celular, lembram?) e a menina vai até um caminhão de sorvete que estava a alguns metros dali. Ela compra um sorvete, mas na metade do caminho percebe que o sabor foi trocado. Enquanto ela volta para o caminhão, a gangue surpreende o sorveteiro e o golpeia na presença da menina que, em seguida, é assassinada no maior sangue frio, com um tiro atingindo seu peito, espalhando sorvete e sangue em seu imaculado vestido. O filme sofreu muitas críticas por causa disso, mas penso que o que Carpenter quis mostrar foi o estado bruto de violência da sociedade, onde a menina com um sorvete nas mãos, representando a inocência, é friamente assassinada. Também tem a ver com a perda da própria inocência profissional do diretor, visto que seu filme anterior era um comédia de humor negro. Tem algo que simbolize mais a perda da inocência do que uma criancinha com um sorvete na mão sendo friamente assassinada?
Há vários detalhes interessantes, como uma notícia de rádio falando sobre as gangues e dizendo como curiosidade que eles apresentam uma "estranha mistura racial", pois tanto latinos, negros, índios e asiáticos fazem parte dela, desmontando o imaginário popular de gangues serem redutos étnicos (gangue de cubanos, de mexicanos, de negros e etc.). Numa homenagem às HQs e filmes de ficção, o nome do capitão da 13ª DP é Capitão Gordon, numa referência tanto ao comissário Gordon, do Batman, quanto ao herói espacial Flash Gordon. O filme também conta com a presença de Charles Cyphers e Nancy Loomis, que trabalharam em vários filmes posteriores de Carpenter. E é desnecessário apontar que "13" é um número considerado nefasto na superstição popular norte-americana.
O ônibus que levava os condenados à morte é obrigado a parar na 13ª DP porque um deles está doente. Enquanto isto, o pai da criança assassinada persegue a gangue e mata aquele que matou sua filha (o assassino é interpretado pelo mesmo ator que fez o punk que azucrina o presidente em "Fuga de Nova York") fazendo com que agora ele se torne a caça. Ele se refugia na 13ª DP, que passa então a ser sitiada e quase todos os que estão lá dentro serem mortos, inclusive os presos, os quais tem que cooperar com a polícia se quiserem sobreviver.
Carregado de tensão e suspense, o filme é crucial para se entender tudo o que Carpenter fez depois, pois apresentou um conceito que ele perseguiu ao longo de sua filmografia: a idéia de estar encurralado num local, com um perigo externo ou interno ameaçando todos, criando um clima claustrofóbico angustiante, uma das marcas mais visíveis de seus filmes (voltarei a este assunto mais adiante) numa assumida referência ao clássico "A Noite dos Mortos Vivos (1968), de George Romero (que adorou 13ª DP, convidando insistentemente o amigo Stephen King para assisti-lo nos cinemas). Em sua estréia, novamente com a recepção negativa por conta do que na época se dizia violência gratuita, Carpenter levou o filme para a Inglaterra, onde teve uma melhor recepção, sendo novamente distribuído nos EUA e visto com maior atenção. Até pouco tempo um filme raro no Brasil, havia sido lançado em VHS nos anos 80 pela América Vídeo com obscuro título "Trovão das Ruas" (achá-lo em algum sebo é como encontrar um tesouro de pirata enterrado no quintal de casa), só em fins da década de 90 foi lançado em DVD, pela Continental, com o título certo.
Com um reconhecimento relativo, Carpenter conseguiu filmar para a televisão o suspense "Alguém me Vigia" (Someone's Watching me, 1978, chegou a ser lançado no Brasil em VHS, pela Warner) onde trabalhou pela primeira vez com a atriz Adrienne Barbeau, sua primeira esposa. Através deste filme, recebeu a proposta de dirigir um filme de terror com orçamento apertadíssimo, mesmo para época.

Seu terceiro filme é o seu maior sucesso até hoje, tornando-o mundialmente conhecido e respeitado. "
Halloween" (1978) é o filme independente de maior lucro da história, em relação ao orçamento investido: 300 mil dólares para 75 milhões! Fazendo com que as grandes indústrias seguissem as fórmulas dos filmes de terror independentes se quisessem faturar alto nesse gênero. A história se passa no dia das bruxas, onde um psicopata mascarado invade as casas e mata as babás, procurando por sua irmã. O ponto forte deste filme são as câmeras que partem do ponto de vista do assassino, algo inédito até então, colocando o espectador na pele do vilão.
O resultado é um dos maiores filmes de terror do cinema, inaugurando mais um ícone na galeria de monstros da telona:
Michael Myers, o precursor dos serial killers mascarados e imortais dos anos 80 e 90 (é claro que ele não foi o primeiro, mas lançou uma série de clichês repetidos ao longo das décadas seguintes), usando sempre um macacão azul escuro de mecânico e uma máscara branca assustadora (na verdade, a máscara reproduz o rosto de William Shatner como Capitão Kirk, de Jornada nas Estrelas, pintada de branco, com a abertura dos olhos maiores e o cabelo pintado). A
"mocinha" do filme é a hoje mais do que conhecida Jamie Lee Curtis, mas que na época fazia seu primeiro papel num filme.
Não há nenhum banho de sangue explícito. Além da irmã morta no início, mais três amigos de Laurie morrem na segunda metade do filme, mas o clima de suspense e terror psicológico é um dos melhores já vistos no cinema, sempre mostrando a perspectiva do assassino, como se olhássemos pelos olhos dele, excitando a imaginação mórbida e voyeurista do espectador, como se nós é que estivéssemos à espreita, nos tornando cúmplices.
A trilha sonora é um dos itens mais importantes. São raros os filmes onde a trilha sonora ou música-tema se encaixam de forma tão perfeita com as imagens, criando um clima único. Assistir "
Halloween" com o volume baixo é como uma festa sem música e sem cerveja, pois grande parte do suspense do filme está na música-tema (para os mais atentos, a
Halloween Theme é usada até em reportagens do Fantástico e do Globo Repórter, para criar um clima de suspense na abordagem do tema). John Carpenter quase sempre compõe a trilha sonora de seus filmes, e neste ele caprichou na dose, pois a música é tão arrepiante e necessária às cenas como a música-tema de "
Psicose" (por sinal, Bernard Herrman é uma de suas influências mais visíveis), mantendo o nível de suspense no teto, utilizando poucas notas de piano e seqüências programadas de sintetizadores, criando uma espécie de mantra hipnótico, capaz de levar o espectador mais sensível a um estado de tensão e nervosismo. Ele mesmo deu a dica ao dizer que experimentassem assistir "
Halloween" sem volume, ou sem música, e o resultado não chega nem a metade do que deveria, provando que não são necessárias tecnologias mirabolantes para se obter um resultado de medo e susto num filme.
O filme teve mais sete seqüências até agora, dirigidas por outras pessoas (Carpenter produziu e escreveu o roteiro de "
Halloween II" e apenas produziu "
Halloween III", abandonando a série), mas nenhuma delas teve o mesmo sucesso que o original. O psicopata do filme,
Michael Myers, foi o mais imitado dos assassinos na década de 80 e 90, inspirando assassinos como
Jason Voorhees de "
Sexta-Feira 13" e inúmeros outros slash movies, inclusive a série "
Pânico".
Curiosamente, depois de fazer tanto sucesso com um filme de terror, Carpenter filma para a TV um drama biográfico.
"Elvis não Morreu" (Elvis: The Movie, 1979) com três horas de duração e apenas trinta dias para realizá-lo. Não chegou a fazer muito sucesso, mas marcou o início da parceria de Carpenter com o ator Kurt Russel, na época um iniciante. Continua inédito no Brasil.
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Com isso, Carpenter parte novamente para o terror sobrenatural com "The Fog - A Bruma Assassina" (1980), aproveitando parte do elenco de Halloween" (Jamie Lee Curtis, Nancy Loomis, Charles Cyphers, mais Adrienne Barbeau, Tom Atkins e a veterana e mãe de Jamie, Janet Leigh). No filme, uma pequena cidade do litoral é atacada por fantasmas de antigos piratas através de uma estranha neblina, à procura dos descendentes daqueles que os levaram à morte num naufrágio. Num recurso mais do que aproveitado por Carpenter, quando a neblina ou bruma começa a cercar a cidade os espaços fechados viram armadilhas. As seqüências em que as pessoas são atacadas pelos piratas fantasmas numa casa, num farol e numa velha igreja são bem carregadas de um clima sufocante.
Contrastando com o clima quase gótico do vilarejo litorâneo tem a belíssima paisagem do local, a mesma praia onde Hitchcock filmou o clássico "Os Pássaros" (The Birds, 1963). Mas fora a localidade e a presença da atriz Janet Leigh (morta na clássica cena do chuveiro em "Psicose", outro clássico de Hitchcock) pouca coisa na obra de Carpenter se assemelha aos filmes do velho Alfred, o qual tem uma filmografia extensa, podendo-se apontar que com certeza apenas "Psicose" e "Os Pássaros" tiveram realmente influência na concepção cinematográfica de Carpenter (e de inúmeros outros diretores). Talvez ainda pode-se incluir "Festim Diabólico" (Rope, 1948) e "Frenesi" (Frenzy, 1971) na lista, mas com muitas reservas. |
Novamente, não há cenas de sangue ou violência explícita em "
A Bruma", mas o clima de suspense é ótimo, porém, o filme não foi o grande sucesso que todos esperavam, afinal, ninguém sabia que "
Halloween" seria insuperável (talvez "
Bruxa de Blair", o filme independente com um orçamento minúsculo que alcançou a segunda maior bilheteria de 1999 ainda possa bater "
Halloween" nesse quesito, mas isso só o tempo dirá). "
A Bruma Assassina" só foi lançada no Brasil em VHS, pela Globo Video, ainda nos anos 80.
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Em 1981, Carpenter realizou o longa de ficção e ação "Fuga de Nova York" (Escape from NY), com Kurt Russel. Um filme que apresenta uma sociedade tão embrutecida pela violência que chega-se a pensar que é uma seqüência de "Assalto à 13ª DP". Em sua estréia, o filme foi um tanto ignorado, devido às cenas de violência, mas não demorou muitas semanas para que o público o descobrisse e virasse um eterno cult movie. No filme, a ilha de Manhattan, em 1997, é cercada devido à crescente onda de violência e transformada em penitenciária a céu aberto. É pra lá que são mandados todos os criminosos, bandidos, prostitutas e mendigos do país, para servirem-se das ruínas do outrora maior centro financeiro do mundo (notem que o planador de Kurt Russel pousa numa das torres do World Trade Center). E é justamente lá que cai o avião do presidente dos EUA (interpretado por Donald Pleasence) quando estava indo para uma reunião da ONU, apaziguar uma possível terceira guerra mundial. O presidente é feito refém dos prisioneiros que exigem a libertação imediata de todos em 24 horas, do contrário matam o figurão. É neste ponto que é chamado Snake Plisken (Kurt Russel), um ex-soldado, contrabandista, pilantra e mau-caráter, o típico anti-herói inspirado nos personagens de histórias em quadrinhos, para salvar o presidente. Snake tem injetado em seu sangue um vírus que explodirá seu corpo caso ele não traga o presidente em menos de 24 horas, e sua luta é mais contra o relógio do que contra os bandidos, por isso, ele mata todos os inimigos que encontra e não hesita em passar a perna em qualquer um, inclusive no próprio presidente. |
Não é a toa que a crítica torceu o nariz na estréia do filme, devido ao final politicamente incorreto. Carpenter acabou fazendo uma seqüência deste filme em 1997. No Brasil, o filme foi lançado três vezes, mas só em VHS.
Seu filme seguinte foi recebido com todas as pedras e paus da crítica e do público, mas hoje, é considerado um clássico absoluto do terror e da ficção. Trata-se de "O Enigma do Outro Mundo" (1983), um remake de "O Monstro do Ártico" (The Thing from Another World - 1951), onde uma equipe de pesquisas no Ártico (contando entre outros com Keith David, o veterano Wilford Brimley e um Kurt Russel barbudo-com-cara-de-Jim-Morrison) encontra um cachorro perdido na neve, o qual teria fugido de uma estação norueguesa destruída. O animal era um alienígena muito estranho que invade e toma a forma dos corpos que ataca. Ao perceberem isto só no dia seguinte, o clima de desconfiança e paranóia se instala na equipe, pois ninguém mais sabe quem é humano e quem é alienígena. Com o rádio e o helicóptero sabotados, a equipe não tem para onde fugir, com uma tempestade de neve a caminho. Aos poucos o pessoal vai descobrindo, da pior maneira, quem já foi infectado e quem ainda é humano.
O filme tem um clima de suspense tão arrepiante quanto "Halloween" e prende a atenção do espectador até o final, contando com efeitos especiais gore de melhor qualidade e trilha sonora de Ennio Morricone (outra de suas grandes influências musicais) criando um clima sonoro gélido, combinando de forma soberba com a temperatura ártica e a atmosfera paranóica das personagens.  | |
Ainda assim, Carpenter levou uma bomba, pois seu filme mostrava um alienígena metamorfo que invadia e estraçalhava seus hospedeiros, sendo que faziam apenas dois meses que "
E.T. O Extraterrestre" tinha estreado com grande estardalhaço nos cinemas do mundo todo, contando a história de um alienígena simpático que faz amizade com um menino, ou seja, o extremo oposto do alienígena apresentado por Carpenter, fazendo-o ficar quase nove meses sem trabalho.
(Atualmente, tem até um game para PC, chamado The Thing, que é como uma continuação do filme, onde uma equipe militar vai à estação americana ver o que aconteceu, representando muito bem o clima tenso do filme. O curioso é que John Carpenter empresta sua fisionomia para um dos personagens do game, assim como durante o game aparece o cadáver do personagem de Keith David e, no final, o de Kurt Russel.)
Mas ... com o filme queimado, já que "
O Enigma do Outro Mundo" tinha sido feito por uma grande produtora que não engoliu o fracasso, Carpenter aceita filmar uma história de
Stephen King, "
Christine, O Carro Assassino" (1983), para reparar o erro. No filme, um garoto tímido (Keith Gordon, de "
Vestida para Matar") compra um carro antigo num ferro-velho e o reforma com todo carinho e cuidado, apelidando-o de Christine. O carro é assombrado e passa a matar e perseguir todos os que incomodam seu dono, tendo a estranha capacidade de consertar-se sozinho.
O resultado ficou aquém do esperado, com a crítica malhando o pau nas diferenças entre o livro e o filme, alegando que a obra de King foi deturpada. O que não é nenhuma novidade em se tratando de livros de
Stephen King, já que muitos são de difícil adaptação para as telas, devido a narrativa fragmentada e sub-capítulos em tom de manchetes de jornais, cartas, entrevistas ou até depoimentos e inquéritos policiais. No entanto, transformar livros de
Stephen King em filmes já havia se tornado praticamente um sub-gênero dentro do gênero Terror no início dos anos 80, com vários diretores de renome fazendo o mesmo: Brian de Palma ("
Carrie, A Estranha", 1976), Tobe Hooper ("
Os Vampiros de Salem", 1979), Stanley Kubrick ("
O Iluminado", 1980), George Romero ("
Creepshow", 1982) e David Cronenberg ("
A Hora da Zona Morta", 1983). Portanto, qualquer livro de King adaptado para as telas era garantia de lucro fácil, independente do resultado final ser ótimo ou medíocre.
O fato é que Carpenter sentiu-se pouco à vontade para fazer este filme, feito para tapar o buraco financeiro da produtora. Mas como a vida é uma caixa de surpresas, até Christine virou cult para alguns fãs do terror. Inclusive, a idéia do carro possuído que se auto-regenera, consertando a si próprio, foi também aproveitada posteriormente em outro filme dos anos 80,
"A Aparição" (The Wraith, 1986) dirigido por Mike Marvin e estrelado por Charlie Sheen, que por sinal também ficou com ar de cult, misturando
Juventude Transviada,
Mad Max e "
Christine".
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Rendido, Carpenter elabora o roteiro e filma "Starman: O Homem das Estrelas" (1984), uma espécie de "ET para adultos", deixando o terror e o suspense de lado e partindo para um drama de ficção científica que acabou rendendo uma indicação ao Oscar de melhor ator a Jeff Bridges. No filme (seu maior sucesso comercial depois de "Halloween") um alienígena feito de energia vem para a terra e assume a identidade de um homem morto a partir do DNA de seus fios de cabelo, guardados por sua esposa como recordação (ou seja, um tanto semelhante com o alienígena metamorfo de "O Enigma de Outro Mundo", que também assume forma humana como disfarce). A história, em vários pontos, também é parecida com ET, mas ela vai mais além, pois o alienígena tem forma humana, é extremamente gentil e tem boas intenções para a humanidade, apesar de ser perseguido pelo FBI e pela polícia.
Estrelado por Jeff Bridges ("King Kong", "Tron", "O Suspeito da Rua Arlington"), Karen Allen ("Caçadores da Arca Perdida", "Mar em Fúria") e Charles Martin-Smith ("Os Lobos não Choram", "Os Intocáveis"), teve uma produção esmerada de Larry Franco ("Jurassic Park 3", "Marte Ataca!"), além de trilha sonora de Jack Nietzsche ("A Força do Destino") e efeitos especiais da toda-poderosa Industrial Light & Magic (de George Lucas). |
O filme fez tanto sucesso que gerou um seriado de televisão, exibido também pelas TVs brasileiras (no SBT, se não me engano), mas nem de longe teve o mesmo nível do filme original. Apesar deste ter sido seu maior sucesso comercial com uma grande produtora (RCA/Columbia Pictures) é um dos filmes menos lembrados pelos fãs, talvez por ser o menos
"carpenteriano" de seus filmes, mesmo sendo uma ficção científica, mas fugindo totalmente da abordagem usual do diretor, partindo para o drama e o romance. Foi lançado no Brasil apenas em VHS, pela LK-Tel/Columbia, sem relançamentos.
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Com a bola toda, as portas dos grandes estúdios se abriram para Carpenter novamente e ele decide filmar "Os Aventureiros do Bairro Proibido" (1986), entrando na linha de ação, aventura e comédia tipicamente B. O filme era pra ser um Indiana Jones debochado e urbano, com Kurt Russel fazendo o papel de um caminhoneiro (Kurt teve a orientação de Carpenter para que sempre interpretasse pensando numa caricatura exagerada de John Wayne) que salva a cidade de demônios chineses (usando chapéus que parecem balaios velhos) nos subsolos de Chinatown, em São Francisco, capital hippie nos anos 60. O filme é um tanto confuso, não apenas por culpa da interferência e da burocracia dos produtores ao longo das filmagens e da edição final, mas também devido às inúmeras referências obscuras à HQs, filmes chineses, monstros milenares e filmes de ação e western. Mas o resultado é divertido pra caramba! Pena que a crítica e o público da época não tenham gostado, fazendo com o que o filme naufragasse comercialmente.
Numa entrevista, Kurt Russel disse que foi a uma videolocadora, por volta de 1996, e o balconista lhe informou que o filme dele mais locado não era nenhum de seus grandes sucessos blockbusters dos anos 90, mas sim "Os Aventureiros do Bairro Proibido", que quase nunca parava nas prateleiras. Ou seja, como sempre, os filmes de Carpenter só ficam famosos depois terem fracassado nas bilheterias. |
(Receita para se fazer um filme cult: faça o que tiver na telha e tudo ao avesso do que dizem as regras e os padrões do mercado vigente! Resumindo: seja um estranho no ninho, prepare-se para enfrentar um grande fracasso financeiro, o sucesso tarda mas não falha!)
A Volta por Cima, um Certo Declínio e Uma Nova Virada (1987 - 2001)
Desiludido com a grande indústria, Carpenter volta para as pequenas produtoras independentes para filmar com médio orçamento e maior liberdade de criação e de tempo, sem precisar alimentar grandes perspectivas de lucro. Foi quando lançou "
Príncipe das Sombras" (Prince of Darkness - 1987), um filme arrepiante sobre a descoberta, numa velha igreja em Los Angeles, de uma irmandade que teria o conhecimento do cristianismo antes dele ser deturpado pelo catolicismo, bem como a informação exata do dia em que o diabo voltaria à terra. Uma equipe de físicos e religiosos (outra bela interpretação de Donald Pleasence como um padre cético e cínico) trabalha dentro da igreja, quando o mal se manifesta na forma de mendigos possuídos por demônios que rodeiam a igreja (Alice Cooper é o chefe deles). O filme não foi nenhum estouro (e nem era pra ser) mas tem todos os elementos de um bom filme de Carpenter: suspense, claustrofobia, paranóia e pessoas alucinadas.
Seu filme seguinte fez ainda mais sucesso, com certeza um dos mais geniais sci-fi dos últimos 50 anos. "Eles Vivem" (They Live - 1988), marca a volta do diretor à ficção científica. Inspirado nos antigos filmes de ficção dos anos 50 e (novamente) nas HQs, a história trata de uma invasão extraterrestre, só que com o detalhe que eles já estão aqui e já nos dominam há décadas, sem que a população sequer perceba. A questão é esta: você vê alguns engravatados se beneficiando com toda a riqueza, enquanto a maior parte da população trabalha, se ferra, passa fome, fica desempregada e totalmente fixados na televisão, com a hipocrisia dos políticos, os comerciais vazios e os programas alienantes. Quando resolvem protestar ou fazer greve, a polícia vem e bate em todo mundo. Quadro social muito comum nos EUA do final da década de 80, cheias de crises sociais no fim da era Reagan e início de Bush pai.
No filme, um desses desempregados, o operário John Nada (o dublê de ator e lutador profissional de luta livre Rody Piper) descobre um grupo de supostos terroristas numa igreja abandonada (Carpenter parece gostar delas!! Mais uma influência do gótico em seus filmes) que fabricam clandestinamente uns óculos escuros especiais. Numa noite, a polícia invade, prende e mata quase todos. John Nada escapa e usa um dos óculos sem saber do que se trata, levando um choque!!  | |
Numa grande sacada de Carpenter, a realidade natural e colorida fica em preto e branco através dos óculos, construindo uma crítica visual sobre a artificialidade do cotidiano, ao mesmo tempo em que presta uma singela homenagem aos filmes sci-fi dos anos 50 (em preto e branco). Os outdoors, cartazes e capas de revistas não apresentam as costumeiras propagandas e manchetes que as pessoas consomem visualmente, mas sim, mensagens subliminares como
"Obedeça",
"Gaste dinheiro",
"Consuma",
"Não questione a autoridade". Num cartaz de bebidas, onde mostra uma garota de biquíni, aparece apenas os dizeres
"Case-se e reproduza", sob um fundo escuro. Nas notas de dólares está escrito
"Este é o seu Deus", sob um fundo branco. Ou seja, o filme é um chute no saco da sociedade consumista e do comportamento yuppie dos anos 80 (dinheiro e sucesso a qualquer preço) deixando em evidência alienígenas que contam com um plano de conquista muito discreto e eficiente: o imperialismo cultural através do capitalismo, da mídia e da política! Ao mesmo tempo em que vê a realidade, o personagem também pode ver quem é humano e quem é alienígena disfarçado: eles tem caveiras com carne sobreposta e olhos de metal. A diferença entre este filme e os clássicos sobre invasão alienígena dos anos 50 e 60 é que naqueles os invasores, num clima anticomunista, procuravam destruir o
american way of life, e neste de Carpenter, são os invasores que promovem, instituem e incentivam o
american way of life. Um belíssimo filme de ficção.
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Apesar de ter dado a volta por cima, Carpenter ficou um tempo sem lançar nada. Sua produção nos anos 90 foi um tanto fraca e abaixo da média, comparando com sua produção até então. Mas ainda assim garante alguns bons momentos.
Logo no início da década, Carpenter dirige mais um remake de um filme de ficção dos anos 30. "Memórias de um Homem Invisível" (Memoirs of an Invisible Man - 1992), estrelado por Chevy Chase, Daryl Hannah e Sam Neill, é uma comédia de ficção científica sobre um cientista que, através de um acidente num laboratório, tem a capacidade de ficar invisível. Ficou um tanto estranho ver Chevy Chase (um ator que praticamente só faz comédias, como a série "Férias Frustradas") fazer um filme de ficção com Carpenter, mas o filme ganha força com o desempenho de Sam Neill ("A Profecia 3: Conflito Final"). Porém, ficou faltando aquela característica típica de seus filmes, pois não parece mesmo um filme de Carpenter.
Na seqüência, faz para a TV "Trilogia do Terror" (Body Bags, 1993), contando com a colaboração de gente como Tobe Hooper, Wes Craven e Sam Raimi, além de contar com os atores Stacy Keach e Mark Hamill. O filme é divido em três curtas histórias, apresentadas pelo próprio Carpenter, maquiado como um cadáver num necrotério, contando como os demais presuntos à sua volta morreram. |
Por volta de 1994, Carpenter volta aos cinemas com mais um filme de terror e suspense. "
À Beira da Loucura" (In the Mouth of Madness) foi apontado como uma genuína história de H.P. Lovecraft (escritor de literatura fantástica do início do século XX) ainda que não seja baseada em nada escrito por Lovecraft. No filme, um famoso escritor de livros de terror, Sutter Kane (numa clara referência nominal a
Stephen King, inclusive explorando o envolvimento entre autor e leitores, visto que King também é um tanto avesso a entrevistas e detesta se apresentar em público), incita subliminarmente seus leitores a promoverem a violência e o caos. Um investigador (Sam Neill, excelente outra vez) é contratado pela editora para encontrar o recluso escritor, então desaparecido devido a seus hábitos excêntricos. Ele o encontra numa obscura cidade do interior que não consta em mapa algum (é através de pistas nas capas de seus livros que o investigador consegue chegar lá). Ou seja, numa outra dimensão onde fantasia e realidade se misturam. O próximo livro de Sutter Kane irá definitivamente abrir as portas do inferno na terra através de seus leitores. Um filme assustadoramente interessante, recebendo ótimas críticas, mas não recebeu uma bilheteria no mesmo nível. Afinal, os filmes de terror estavam em baixa na época, devido ao desgaste de vários filmes medíocres despejados no mercado.
[Os últimos filmes das séries "Sexta-Feira 13" ("parte 9", em 1993) e "A Hora do Pesadelo" ("parte 6", em 1991) foram também dessa época. Freddy Krueger teve mais uma seqüência em 1994, tentando em vão reviver a série. Com o saudosismo, ressuscitaram novamente Jason e Freddy na década zero, com o pastiche "Jason X" (2001) e "Freddy vs Jason" (2003). Só para os fãs da série que se divertem vendo os piores filmes dando risadas, e olhe lá.]
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Já em 1995, Carpenter filma "A Cidade dos Amaldiçoados", mais um remake de outro clássico da ficção científica, "A Aldeia dos Amaldiçoados" (Village of the Damned, 1960) filme que inclusive teve uma seqüência em 1963,"A Estirpe dos Malditos" (Children of the Damned), sendo que o primeiro chegou a passar de madrugada na TV uns 15 anos atrás. Numa pacata cidadezinha do interior, onde todos se conhecem e fuxicam a vida um do outro, há um desmaio geral em toda a área que cerca a cidade, das dez da manhã até as quatro horas da tarde. Quando acordam, oito a dez mulheres ficaram grávidas, gestando e gerando normalmente todas ao mesmo tempo. As crianças são todas parecidas: cabelos brancos, olhos claros, andam sempre em casais e tem o poder de controlar a mente dos adultos, mas não demonstram o menor sinal de emoção humana. Não fica claro se são frutos de alguma invasão alienígena ou um passo evolutivo (sugere-se que em vários outras localidades do planeta ocorreu o mesmo), o fato é que as crianças pretendem dominar a cidade, procriar e seguir adiante.
Carpenter foi muito criticado por este filme, pois ele apresentou uma violência e crueldade explícitas que não apareciam no original de 1960, com várias mortes desnecessárias. |
Seu desempenho na direção também deixou um pouco a desejar, não lembrando o Carpenter dos velhos tempos. O detalhe interessante é que este foi o último filme de Cristopher Reeves (o eterno Super-Homem) antes de cair do cavalo e quebrar a coluna, além de contar com um ótimo elenco (Mark Hamill, Michael Paré e Kirstie Allen, como crianças) todas devidamente mortas no filme.
Em seguida, Carpenter parte para a tão planejada seqüência de "Fuga de NY", trata-se de "Fuga de Los Angeles" (Escape from LA - 1997), onde no ano de 2013, depois de um terremoto a cidade de Los Angeles vira uma ilha e, a exemplo de NY, LA é transformada em um presídio gigantesco. Novamente, o anti-herói e canalha profissional Snake Plisken é chamado (diga-se capturado e coagido!) para matar Cuervo Jones, um chefe de uma facção revolucionária e terrorista que atua na cidade-prisão (o cara é um xerox do Che Guevara!!) que ameaça deixar a Terra num apagão. Como acontece no final de Fuga de NY, o governo pisa no tomate com ele e Snake manda o mundo se ferrar, apagando com toda a fonte de energia elétrica do planeta, deixando o mundo mergulhado na nova idade das trevas. Mais calhorda impossível! Esse filme merece uma terceira seqüência, algo do tipo Fuga do Planeta Terra (dirigida por Carpenter, é claro).
O filme não foi muito bem recebido pela crítica e nem por muitos fãs, devidos aos excessos pirotécnicos e aventureiros, apesar de alguns terem adorado o filme (convenhamos, fazer Kurt Russel surfar com o easy rider Peter Fonda numa tsunami, depois dele quase ter tido a perna decepada, pular da prancha e cair certinho na garupa de um carro em pleno movimento numa rodovia não é pra qualquer um!!!). Além disso, esta é a única seqüência de um filme de Carpenter dirigido pelo próprio, pelo menos até agora (será que um dia ele volta para "Halloween"?).  | |
O que Carpenter fez de relevante depois deste filme foi "
Vampiros" (1998), uma vez que diretores como Francis Ford Coppola ("
Drácula de Bram Stoker") trabalharam com filmes de Drácula nos anos 90, gerando uma safra que ainda não acabou sobre filmes de vampiros ("
Entrevista com o Vampiro", "
Cidade dos Vampiros",
Vampiros do Deserto", "
Drácula 2000", "
A Rainha dos Condenados", "
Drácula 3000", os três "
Blades", "
Van Helsing" e outros). Neste filme, Carpenter esquece Drácula e aborda os caçadores de vampiros anônimos, numa trama secreta com a Igreja Católica. O filme, como Carpenter gosta de apontar, é um faroeste, em que o durão Jack Crow (James Woods, muito bem na fita) encarna uma mistura de John Wayne (ele de novo) e
Peter Cushing, podendo ser apontando como um precursor do horroroso "
Van Helsing - o caçador de vampiros". Não chegou a dar um excelente resultado nos cinemas e, pra variar, a critica não gostou (afinal, era apenas mais um filme de vampiros no meio de tanto outros), mas gerou uma seqüência não dirigida por Carpenter, "
Vampiros: Os mortos", com o dublê de sex symbol Jon Bon Jovi.
Em seu último filme até o momento, Fantasmas de Marte" (2001), o diretor volta para o gênero em que mais se sente à vontade: terror e ficção, mostrando que está em boa forma e porque deve sempre ser lembrado. Este filme é particularmente interessante, pois parece apresentar uma síntese de todos os seus filmes anteriores: suspense com clima claustrofõbico e paranóico, fantasmas, alienígenas, ação, tiroteios e uma discreta pitada de humor negro. Só faltou Kurt Russel na história. Pensando bem, é um "Assalto à 13ª DP" em Marte, misturado com "A Bruma Assassina" e "Príncipe das Sombras". Além disso, também não deixa de homenagear os filmes antigos de ficção, como "O Planeta dos Vampiros" (Planet of the Vampires, de Mario Bava - 1965).
No filme, uma equipe militar (Natasha Henstridge, Joanna Cassady, Pam Grier, Jason Stathan) vai para um presídio em Marte buscar um criminoso recapturado (Ice Cube) mas ficam isolados no local, onde quase todos estão mortos ou desaparecidos e uma espécie de praga ataca as pessoas, transformando-as em canibais sadomasoquistas. Logo descobre-se que são espíritos de uma raça alienígena que possuem os invasores terráqueos para voltarem à vida, com um visual de bárbaros sanguinários que lembra Marilyn Manson, Kiss e os cenobitas de "Hellraiser". Ou seja, novamente Carpenter inverte a lógica usual dos filmes de ficção, ao apontar que os invasores são os terráqueos e os alienígenas, apesar de sanguinários, estão apenas defendendo seu planeta.  | |
A trilha sonora desta vez é um metal pesado tocado com muita competência. O clima lento e tenso de suspense claustrofóbico ocupa a primeira parte do filme (talvez por isso teve gente que torceu o nariz para ele, pois atualmente muitos querem ação rápida em ritmo de videoclipe do começo ao fim). Na segunda parte, um festival de tiros, pancadarias, explosões e decapitações tomam conta da tela. O mais interessante, além do roteiro, é a forma como Carpenter compôs a narrativa, em constantes flashbacks e voltas no tempo (um influência pós-Pulp Fiction??), mostrando só depois como ocorreram determinadas situações enquanto outras estavam acontecendo ao mesmo tempo. Tudo em ritmo de histórias em quadrinhos, como se as páginas estivessem sendo viradas na tela.
O filme foi criticado também pela nova geração de fãs do gênero, que acharam os efeitos especiais muito
"sem graça"" e
"mal feitos", pois Carpenter, além de evitar ao máximo o uso de efeitos digitais (e neste filme ele até usou alguns) ainda trabalha segundo a cartilha dos filmes de baixo orçamento, ou seja, reaproveitando cenários, figurinos e até atores (vários atores secundários e coadjuvantes trabalham no mínimo em dois ou mais filmes dele), trabalhando com efeitos quase artesanais. Se não é um filme brilhante, com certeza foi melhor do que muito estouro de bilheteria que se viu no início desta década zero, e ainda tem tudo pra virar um cult e ter uma seqüência.
Com isto, já deu pra perceber por que eu disse no começo que Carpenter é um diretor um tanto injustiçado. Muitos de seus filmes foram tidos como decepcionantes comercialmente (se não verdadeiras bombas) quando foram lançados nos cinemas, mas depois acabaram virando clássicos e cults (como é o caso de
Dark Star, "
Enigma do Outro Mundo",
"Aventureiros do Bairro Proibido" e outros). E é claro que este reconhecimento vem por parte dos inúmeros fãs do gênero, os quais acabam influenciando a imprensa especializada e as distribuidoras para relançamento de material, como é o caso de
"Assalto à 13a. DP" e de "
Enigma do Outro Mundo", lançado por aqui em DVD, numa belíssima edição de luxo, de dar água na boca.
Como disse antes, algo que se percebe em quase todos os filmes de Carpenter é sua preocupação em criar um clima claustrofóbico, onde um grupo de pessoas fica presa num local de onde não podem fugir (uma nave espacial, uma delegacia de polícia, uma casa, uma igreja velha ou abandonada, uma ilha, um presídio, uma base isolada no Ártico, uma cidade etc.) sendo que sempre uma atmosfera de paranóia se instala, provocada às vezes por algo que está do lado de fora, tentando entrar (uma gangue de assassinos frios, piratas fantasmagóricos, mendigos possuídos por demônios e fantasmas alienígenas sadomasoquistas) e, em outras vezes, provocado pela desconfiança de que alguma pessoa do grupo já esteja possuída pelo mal. Estes elementos são muito visíveis em
"Assalto à 13a. DP, "
A Bruma Assassina", "
Enigma de Outro Mundo", "
Príncipe das Sombras", "
À Beira da Loucura" e "
Fantasmas de Marte", além de ser sugerido em outros, como
Halloween" (
Michael Myers espreitando a casa e atacando Laurie escondida no armário),
Fuga de Nova York (a ilha de Manhattan servindo como palco de disputa entre prisioneiros), "
Eles Vivem" (o próprio cotidiano e os meios de comunicação de massa), "
A Cidade dos Amaldiçoados" (a desconfiança e o controle exercido pelas crianças mutantes). Este recurso não é uma exclusividade de Carpenter, e nem foi inaugurado por ele. George Romero (um fã confesso de Carpenter) já havia utilizado muito bem esta situação angustiante em seu clássico "
A Noite dos Mortos Vivos" (1968), mas coube também a Carpenter estender e explorar tal conceito com muita maestria e competência. Pode-se dizer que outros filmes recentes também tomam emprestados tais conceitos, como "
Os Outros" e "
A Vila", onde não adianta trancar as portas e janelas, o mal já está entre nós mesmo.
Filmografia
| Ano | Original | Português | Característica |
| 1966 | Firelight | ? | Curta-Metragem |
| 1969 | Warrior and the Demon | ? | Curta-Metragem |
| 1970 | The Ressurection of Bronco Billy | ? | Curta-Metragem |
| 1974 | Dark Star | ? | Longa-Metragem |
| 1976 | Assault on Precinct 13 | Assalto à 13o. DP | Longa-Metragem |
| 1978 | Eyes of Laura Mars | Os Olhos de Laura Mars | Roteiro |
| 1978 | Someone's Watching Me | Alguém me Vigia | Para a TV |
| 1978 | Halloween | Halloween, A Noite do Terror | Clássico |
| 1979 | Elvis | Elvis Não Morreu | Para a TV |
| 1980 | The Fog | A Bruma Assassina | Clássico |
| 1981 | Escape from New York | Fuga de Nova Iorque | Longa-Metragem |
| 1982 | The Thing | O Enigma de Outro Mundo | Clássico, remake |
| 1983 | Christine | Christine, o Carro Assassino | baseado em Stephen King |
| 1984 | Starman | Starman, o Homem das Estrelas | Longa-Metragem |
| 1986 | Big Trouble in Little China | Os Aventureiros do Bairro Proibido | Longa-Metragem |
| 1987 | Prince of Darkness | O Príncipe das Sombras | Longa-Metragem |
| 1989 | They Live | Eles Vivem | Longa-Metragem |
| 1992 | Memoirs of an Invisible Man | Memórias de um Homem Invisível | Longa-Metragem |
| 1993 | Body Bags | Trilogia do Terror | Para a TV |
| 1994 | In the Mouth of Madness | À Beira da Loucura | Longa-Metragem |
| 1995 | Village of the Damned | A Cidade dos Amaldiçoados | Remake |
| 1996 | Escape from L. A. | Fuga de Los Angeles | Seqüência |
| 1998 | Vampires | Vampiros | Longa Metragem |
| 2001 | Ghosts of Mars | Fantasmas de Marte | Longa Metragem |
Fontes:
www.cineminha.com.br
www.adorocinema.cidadeinternet.com.br
A Carreira e os Filmes de John Carpenter (Helder Maia) disponível em
www.fortalnet.com.br/gruavan/news/johncarpenter
www.contracampo.com.br/35/listagem
Revista Set-Terror&Ficção
- 1988 e 1989.
Revista Horror Show - Ano 1
- n. 02
KING, Stephen.
Dança Macabra
. Rio de Janeiro: Francisco Alves; 1989.
TIMPONE, Anthony.
Stephen King e Clive Barker: Mestres do Terror
. São Paulo: Unicórnio Azul; 1998.
Roberto Marcelo Caresia