CARRO - A MÁQUINA DO DIABO, O

por João Pires Neto



"Trata-se de um fantasma, um demônio, ou o próprio diabo?"
“Que mal dirige... o Carro?”


Uma cidadezinha do oeste americano é aterrorizada por um carro preto que mata impiedosamente qualquer um que cruze o seu caminho. Equipes policiais da região são mobilizadas para capturar o assassino, mas caberá ao oficial Wade evitar que o diabólico automóvel mate novamente.

O Carro, a Máquina do Diabo” é um daqueles telefilmes que se tornaram clássicos graças às inúmeras exibições nas madrugadas dos anos 80. O filme segue a mesma linha dos road movies de horror iniciada com “Encurralado” (1971), de Steven Spielberg e “Corrida com o Diabo” (1975), de Jack Starrett.

No entanto, diferentemente dos dois filmes citados anteriormente, “O Carro” assume uma conotação sobrenatural, apresentando o automóvel como uma
máquina sinistra e mortal. O clima de mistério é ressaltado pelo cenário formado por paisagens áridas e pelas aparições do veículo em meio a nuvens de poeira, sempre precedidas por uma forte ventania. A origem diabólica do automóvel, cujo pôster americano alerta ser “dirigido pelo mal”, fica clara com o desenrolar da trama. Numa determinada cena, o veículo persegue diversas mulheres e crianças que se abrigam num velho cemitério. Curiosamente ele não consegue ultrapassar os limites do solo sagrado. Aos poucos os policiais vão aceitando a natureza inexplicável e indestrutível da máquina.

Uma jogada interessante dos realizadores deste suspense é a personificação do automóvel. Seu design frontal possui faróis que lembram olhos e o ronco furioso do motor soa como uma espécie de rugido animal. Em algumas seqüências, a câmera mostra o que seria a visão do motorista (caso houvesse algum). Apesar dos vidros escuros, estas imagens são avermelhadas e esfumaçadas, como a visão de algum ser demoníaco.



O carro negro, que não possui placas ou maçanetas, não é um modelo que existe de verdade. Ele foi desenvolvido pela equipe do americano George Barris em cima de um Lincoln Mark III. No total foram construídos seis automóveis, cinco em fibra de vidro e um em aço. Todos foram destruídos durante as seis semanas de filmagens. Um outro exemplar foi confeccionado para ser exibido nos museus da Universal Studios, mas acabou vendido na década de oitenta. Conhecido entre os colecionadores de veículos raros como “King of Kustomizers”, George Barris é responsável pelo design dos automóveis mais famosos da TV e do cinema. Entre as suas criações estão o Dodge Charger “General Lee” da série “Os Gatões” (1979), o Pontiac Trans-Am de “A Supermáquina” (1982), o DeLorean viajante do tempo de “De Volta para o Futuro” (1985) e o clássico Batmóvel da série de “Batman” (1966).



Um tubarão sobre quatro rodas possuído pelo demônio Pazuzu: provavelmente esta era a definição do projeto proposto pelos produtores Marvin Birdt e Elliot Silverstein, tentando pegar uma carona nos sucessos de bilheteria de “Tubarão” (1975) e “O Exorcista” (1973). Apesar da premissa simples, absurdamente deliciosa e típica de filmes B, (premissa esta que com o passar de três décadas seria explorada por todo tipo de cineasta picareta, “possuindo” desde máquinas de passar, elevadores, camisinhas, brinquedos de todos os tamanhos e modelos, carros de todas as marcas, telefones e computadores entre outras bizarrices), a produção de “O Carro” é impecável e muito superior à maioria dos filmes “made for tv” dos anos 70. A direção, que ficou a cargo do competente Elliot Silverstein, responsável pelo clássico Western “Um Homem Chamado Cavalo” (1970) e alguns episódios das séries “Contos da Cripta” (1991) e “Além da Imaginação” (1961), merece destaque, pois o cineasta consegue momentos de tensão e suspense, mesmo sendo o filme ambientado quase todo durante o dia. O roteiro foi escrito pela dupla Michael Butler e Dennis Shryack, vencedores do prêmio Spur Award de 1985 pelo western “Cavaleiro Solitário” (1985, dirigido e interpretado por Clint Eastwood). Embora a idéia do roteiro de “O Carro” lembre muito o romance “Christine, O Carro Assassino” (1983), de Stephen King (levado aos cinemas por John Carpenter), o próprio mestre da literatura de horror admitiu ter sido influenciado pelo enredo de Butler e Shryack. A fotografia de Gerald Hirschfeld, de “Jovem Frankenstein” (1974), é propositalmente desbotada e empoeirada, assim como as belas paisagens rochosas do Parque Red Rock Canyon (localizado na Califórnia), que servem de cenário para o filme. A boa trilha sonora, composta por Leonard Rosenman (de “Corrida com o Diabo”), acompanha a tendência dos thrillers setentistas, com aqueles trombones funestos “a la Tubarão”. O elenco também apresenta um desempenho acima da média, mesmo sem contar com nomes conhecidos. James Brolin, de “Amityville – A Cidade do Horror” (1979), interpreta um oficial típico de cidade pequena, que se vê obrigado a enfrentar um inimigo mortal e praticamente invencível. Ao elenco soma-se a bela Kim Richards (de “Assalto ao 13° DP”, 1976), John Rubinstein, John Marley e R.G. Armstrong.



Por ser uma produção destinada a TV, as cenas de violência são muito contidas. E apesar dos diversos atropelamentos, acidentes e ciclistas jogados para fora da estrada, quase tudo acontece em off-screen e não vemos uma gotinha de sangue sequer. E para a infelicidade dos marmanjões tarados de plantão, nada de mulher pelada.



Uma pequena curiosidade é a citação de Anton La Vey, fundador da Igreja de Satanás, como consultor especial. Obviamente apenas uma jogada publicitária, aproveitando a onda satanista em evidência na época. Sua única colaboração é uma espécie de invocação apresentada antes do letreiro que apresenta o título do filme nos créditos iniciais:



“Oh poderosos irmãos da noite,
que cavalgam nos ventos quentes do inferno
e habitam o covil do diabo, movam-se e apareçam!”

No Brasil o filme nunca foi lançado, nem em VHS e muito menos em DVD. Lá fora circula duas versões digitais, uma distribuída pela Archor Bay e outra mais recente pela Universal.

Além de “Christine – O Carro Assassino”, outros filmes viajaram num enredo parecido com o de “O Carro”. O mais similar e o que merece certo destaque é o segmento “A Benção”, parte da antologia “Pesadelos Diabólicos” (Nightmares, 1983). Na trama deste episódio um padre é perseguido por uma pick up preta após abandonar a batina. Em 1986, Charlie Sheen retorna a vida em busca de vingança possuindo um automóvel futurista em “A Aparição” (The Wraith, 1986). Na década de 90 foram lançados “Rodas da Morte” (Wheels Of Terror, 1990) e “O Carro da Morte” (Black Cadillac, 1997), variações oportunistas de “O Carro”.

Melhores Momentos (contem SPOILERS)

A seqüência inicial mostrando o carro pela primeira vez já nasce antológica. Um casal de ciclistas todo “saltitante” está passeando por uma estrada sinuosa (ao estilo daquela da abertura de “O Iluminado”), quando uma imponente buzina anuncia que o mal está se aproximando. Com requintes de crueldade, o carro negro persegue os ciclistas e os derruba em direção a um precipício. E de nada adianta a choradeira e os pedidos de socorro e clemência. O carro faz as suas primeiras vítimas.



Num outro bom momento do filme, o oficial Wade está em sua casa, recém chegado de um hospital onde se recuperava de um ataque do veículo. Ele vai até a sua garagem e vasculha as suas ferramentas em busca de algo que possa usar contra o carro assassino. O ambiente é escuro e quando ele se vira dá de cara com o carrão do capeta estacionado, bem lá na sua garagem. Com a porta trancada, como foi que ele entrou?



É, o carro encapetado não poupa ninguém. Wade tem uma bela namorada, ou melhor, tinha. Num golpe baixo, o carro atropela e mata a namorada do oficial. Até aí nada de mais. O incrível é que ele a atropela a garota dentro de sua própria sala. O carro dá “um pulo” de alguns metros e praticamente destrói a casa de madeira, passando por cima da garota, que se achava segura em casa. Muitos reclamam desta cena, já que parece inverossímil um carro saltar do chão. Mas pra um carro que anda por aí sem motorista matando todo mundo nada é impossível.





Já o desfecho segue o padrão americano de filmes: dinamite, explosões e todo aquele exagero característico. Enquanto o carro é detonado por uma tonelada de explosivos, uma enorme nuvem de fogo e fumaça parece formar uma espécie de rosto maléfico nos céus do deserto.

Outra cena curiosa é mostrada durante os créditos finais. Mesmo após o carro ter sido explodido e soterrado, a câmera mostra uma movimentada auto-estrada. Vemos então as rodas do carro negro, viajando em direção a cidade grande, provavelmente em busca de novas vítimas. Um gancho para uma possível continuação que nunca aconteceu.

Enfim, vale ressaltar: se “O Carro” não é uma obra-prima (e obviamente que não é), pelo menos consegue executar com louvor o que se propõem seus produtores: divertir e entreter o espectador por 90 minutos.



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O CARRO - A MÁQUINA DO DIABO (The Car, EUA, 1977).
Direção: Elliot Silverstein.
Roteiro: Michael Butler e Dennis Shryack.
Produção: Marvin Birdt e Elliot Silverstein.
Edição: Michael McCroskey.
Fotografia: Gerald Hirschfeld.
Música: Leonard Rosenman.
Direção de Arte: Lloyd S. Papez.
Elenco: James Brolin (Wade Parent), Kathleen Lloyd (Lauren), John Marley (Everett), R.G. Armstrong (Amos Clements), John Rubinstein (John Morris), Elizabeth Thompson (Margie), Roy Jenson (Ray Mott), Kim Richards (Lynn Marie), Kyle Richards (Debbie), Kate Murtagh (Srta McDonald), Robert Phillips (Metcalf), Doris Dowling (Bertha), Henry O'Brien (Chas), Eddie Little Sky (Denson), Lee McLaughlin (Marvin Fats), Margaret Willey (India Navajo), Read Morgan (Mac Gruder), Ernie F. Orsatti (Dalton), Joshua Davis (Jimmy), Geraldine Keams (Donna), Hank Hamilton (Al Ashberry), John Moio (Parker), Melody Thomas Scott (Suzie Pullbrook), Bob Woodlock (Pete Keil), James Rawley (Thompson), Louis Welch (Berry), Bryan O'Byrne (Wally), Don Keefer (Dr. Pullbrook), Steve Gravers (Sr. Mackey), Tony Brande (Joe) e Ronny Cox (Luke).



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