A CASA DA NOITE ETERNA

por João Pires Neto

Buscando comprovar a existência de vida após a morte, o milionário Rudolph Deutsch financia um estranho e perigoso experimento: uma equipe formada por quatro pessoas deve passar alguns dias isolados num antigo casarão conhecido como mal-assombrado. Uma generosa quantia de 100 mil libras será paga a cada um dos participantes, independente do resultado.

A Mansão Belasco, palco da experiência, possui um passado um tanto obscuro e sinistro. No início do século passado o patriarca da casa, Lorde Emeric Belasco, promovia orgias regadas a drogas e bebidas, que freqüentemente culminavam em canibalismo e vampirismo. Numa destas orgias, os participantes acabaram aprisionados na mansão, onde ficaram até a morte. Entretanto o corpo de Belasco nunca foi encontrado.
O grupo recrutado para a experiência é formado pelo médium Benjamin Fisher (único sobrevivente de uma tentativa anterior que terminou com a morte de oito pessoas), pela também médium Florence Tanner, o cético cientista Lionel Barret e sua esposa, a bela Ann Barret.



A ciência e a fé deverão unir-se e entender os misteriosos fenômenos que afligem a antiga construção - pode ser a única maneira de eliminar totalmente o mal e sobreviver.

Escritor e roteirista de sucesso, o americano Richard Matheson é responsável por uma dezena de clássicos da literatura e cinema fantásticos. Adaptou Poe em parceria com o lendário produtor e diretor Roger Corman em “A Queda da Casa de Usher” (House of Usher, 1960), “O Poço e o Pêndulo” (Pit and the Pendulum, 1961), “Muralhas do Pavor” (Tales of Terror, 1962) e “O Corvo” (The Raven, 1963). Sua famosa novela “I’m a Legend” foi transportada para o cinema pela primeira vez em 1964 com o título de “Mortos que Matam” (The Last Man on Earth), com Vincent Price no papel do solitário Robert Morgan. A trama que mostra a terra assolada por uma doença que transforma a população em vampiros foi novamente filmada em 1971, como “A Última Esperança da Terra” (The Omega Man), com Charlton Heston no papel de Price na versão anterior. Está previsto para 2008 uma outra refilmagem, agora com Will Smith como protagonista. Na televisão, escreveu uma dezena de episódios do seriado cult "Além da Imaginação” (Twilight Zone, 1959-1964). Richard Matheson é autor ainda do roteiro (inspirado num conto de sua autoria) de “Encurralado” (Duel, 1971), primeiro sucesso do diretor Steven Spielberg.



Em “A Casa da Noite Eterna”, Matheson adapta para o cinema outra novela de sua autoria, The Hell House (A Casa Infernal). O roteiro tenso e sóbrio, aliado posteriormente à fotografia escura, constrói com grande eficácia a atmosfera perturbadora da mansão mal-assombrada. A competência com que o roteiro apresenta e desenvolve os personagens, abordando o eterno conflito entre a ciência (representado pelo cético parapsicólogo Lionel Barrett) e a fé (representada pelos médiuns Benjamin Franklin Fischer e Florence Tanner), atribui, de forma invejável às produções atuais, seriedade e credibilidade para as situações exploradas pelo enredo.

O diretor inglês John Hough, que realizara dois anos antes pelos estúdios Hammer, “As Filhas de Drácula” (Twins of Evil, 1971), esbanja talento e segurança em seu melhor trabalho, fazendo de “A Casa da Noite Eterna” um dos melhores filmes do subgênero casas mal-assombradas. Outro trabalho, um pouco mais recente do diretor, e que merece uma conferida são “Os Anfitriões” (American Gothing, 1988, EUA).



O elenco é encabeçado pelo ótimo Roddy McDowall interpretando o médium Benjamin Fisher. McDowall já havia interpretado outro personagem de peso, o Cornélius do clássico da ficção científica “Planeta dos Macacos” (Planet of the Apes, 1968) e interpretaria no futuro o inesquecível e covarde caçador de vampiros Peter Vincent, em “A Hora do Espanto” (Fright Night, 1985). O elenco conta ainda com as beldades Pamela Franklin e Gayle Hunnicutt.

O mérito do êxito comercial e de crítica de “A Casa da Noite Eterna” está na soma (e no equilíbrio) da excelente equipe técnica, do elenco talentoso e do roteiro inteligente. A ambientação sóbria, o horror subjetivo e a trilha sonora sempre opressiva transportam o expectador para o interior da mansão demoníaca, causando medo, mesmo sem a violência excessiva e banalizada que seria usada a exaustão nas produções subseqüentes.



Uma pseudo-refilmagem inspirada em “A Casa da Noite Eterna” e “Desafio ao Além” (The Haunting, 1963), de Robert Wise, foi realizada em 1999, dirigida pelo fabricante de blockbusters Jan De Bont. Os efeitos despretensiosos e o clima gótico dos originais foram substituídos por uma avalanche de efeitos especiais. O inevitável resultado: a “A Casa Amaldiçoada” foi um grande fiasco, tanto de público quanto de crítica.

Bons momentos que tornam “A Casa da Noite Eterna” memorável
(podem conter SPOILERS):



Na primeira noite que passam na casa, o médium Benjamim Fisher é questionado sobre o misterioso passado do local e o seu dono.
"- O seu nome era Emerich. Nasceu em 23 de março de 1879. Era o filho bastardo de um fabricante de armas. Tinha uma face terrível... Como a cara de um demônio... A qual havia adaptado algum aspecto humano. Esta é uma citação de sua segunda esposa, qual se suicidou nesta própria sala em 1927. Media mais de dois metros. Chamavam-no O "Gigante Colossal". " Já neste primeiro diálogo um pouco mais longo, fica evidente o talento e o entrosamento dos atores, em especial do londrino Roddy McDowall, que interpreta brilhantemente o perturbado médium Benjamim Fisher. Sua descrição do antigo dono da mansão só é superada pela descrição das atrocidades ali cometidas em outros tempos.



"- O que fez para tornar tão diabólica esta casa, Sr.Fischer?
- O uso de drogas e de álcool, sadismo, bestialidade, mutilação, homicídio, vampirismo, necrofília e canibalismo. E sem mencionar uma variedade grande de atividades sexuais.
- Como acabou?
- Se tivesse acabado, nós não estaríamos aqui.
- Que aconteceu com o Sr. Belasco?
- Ninguém sabe. Quando parentes dos hóspedes entraram na casa em 1929 encontraram todos mortos por um motivo ou outro, 27 no total. Mas Belasco não estava entre eles. Seu corpo nunca foi encontrado."
Finaliza Benjamim Fischer. O tom dramático e sério dos diálogos ajuda a construção da ambientação carregada que prevalece até o final do filme.

No desenrolar dos acontecimentos é a jovem médium Florence Tanner a primeira a sofrer os ataques da entidade que habita a Mansão Belasco. Em meio a aparições em pesadelos, num determinado momento a médium é atacada por enorme gato preto possuído. Embora os efeitos sejam modestos, a cena é convincente. Florence continua sendo assediada pelo fantasma, que acaba violentando-a sexualmente.

Com certeza as vítimas preferidas da casa são as mulheres. A esposa do parapsicólogo, Ann Barret, lentamente tem sua personalidade alterada (e a sexualidade aflorada, diga-se de passagem). A linda mulher passa então a tentar seduzir o médium Benjamin Fisher, que incrivelmente consegue resistir.



O interessante desfecho, que de certo modo faz a junção entre o sobrenatural e a lógica científica do cientista Lionel Barret, acaba sendo motivo de polêmica e não agradando a todos, já que decepciona os que esperam uma explicação totalmente fora das leis naturais.

A Casa da Noite Eterna” é um clássico absoluto e obrigatório, reprisado à exaustão nas madrugadas dos idos anos 80, mas pouco conhecido das novas gerações, já que permanece inédito em DVD no Brasil.



Outras Casas Mal-Assombradas:

Desafio do Além (The Haunting, 1963, EUA) O Dr. Markway é um especialista que estuda a existência de fantasmas. Ele investiga uma velha mansão chamada Hill House, dona de um passado de morte e violência. Na mansão, ele une-se ao futuro herdeiro do local, o cético Luke Sanderson e Eleanor, cujos dons psíquicos podem estar ligados aos espíritos da velha mansão. Dirigido por Robert Wise, de “As duas Vidas de Audrey Rose” (Audrey Rose, 1977, EUA).

A Casa dos Maus Espíritos (House on Haunted Hill, EUA, 1959) Uma festa macabra está prestes a começar: os sete convidados lentamente chegam em "carros funerários". Já dentro da sinistra mansão, todos recebem uma arma carregada, para o caso de alguma emergência. Depois da meia-noite os empregados irão embora e a porta principal (de aço) será trancada até o amanhecer do dia seguinte. Histeria coletiva, truques, medo, 10 mil dólares em jogo. Clássico dirigido pelo lendário Willian Castle, de "Força Diabólica" (The Tingler, 1959, EUA) e estrelado pelo gentleman Vincent Price. Foi extremamente lucrativo para os padrões da época, rendendo mais de U$ 4 milhões nos EUA (vinte vezes os míseros U$ 200 mil de seu orçamento). Foi refilmado na década de noventa como “A Casa da Colina” (The House on Haunted Hill, 1999, EUA).

A Casa que Pingava Sangue (The House That Dripped Blood, EUA, 1970) Produção da famosa irmã mais pobre da Hammer, a produtora Amicus. Um inspetor da Scotland Yard procura um ator de filmes de terror desaparecido após alugar uma velha mansão. Na investigação toma conhecimento de outros estranhos casos ligados ao imóvel. Com Christopher Lee no elenco e roteiro de Robert Bloch (de “Psicose”), o filme narra quatro casos envolvendo bruxaria, vampirismo e assassinato.

A Cidade do Horror/Horror em Amityville (The Amityville Horror, 1979, EUA) Sem dúvida a casa assombrada mais famosa do cinema. Supostamente inspirado em acontecimentos reais, a casa foi palco de seis assassinatos. No ano seguinte ao crime, quando alugada, acontecimentos inexplicáveis começaram a acontecer. Foram produzidas ainda sete seqüências que pouco têm haver com o original e uma refilmagem no ano de 2006.

Embora um pouco fora de moda nos dias atuais, na história do cinema foram centenas de filmes sobre estes imóveis atormentado por fantasmas. Steven Spielberg e Tobe Hooper construíram uma casa em cima de um cemitério indígena em “Poltergeist”, Stanley Kubrick enviou o maluco Jack Nicholson para um hotel assombrado em “O Iluminado”, Lucio Fulci alugou uma residência próxima a um cemitério habitado por uma maligna criatura em “A Casa do Cemitério” (Quella Villa Accanto al Cimitero, 1982, Itália), Steve Miner abandona Jason Vorhess e avacalha com tudo em “House – A Casa do Espanto”. Afora os telefilmes, as refilmagens, as produções independentes, as séries de tv, fica o aviso: tenha muito cuidado ao comprar ou alugar uma nova casa!!!

João Pires Neto


A CASA DA NOITE ETERNA (The Legend of Hell House, Inglaterra, 1973)
Direção: John Hough
Roteiro: Richard Matheson, baseado na sua novela “Hell House”.
Produção: Albert Fennell, James H. Nicholson, Norman T. Herman e Susan Hart.
Fotografia: Alan Hume
Música: Brian Hodgson, Delia Derbyshire e Dudley Simpson
Edição: Geoffrey Foot.
Direção de Arte: Robert Jones.
Elenco: Roddy McDowall (Benjamin Franklin Fischer), Pamela Franklin (Florence Tanner), Clive Revill (Lionel Barrett), Gayle Hunnicutt (Ann Barrett) e Roland Culver (Rudolph Deutsch).

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