UMA COLETIVA DOS INFERNOS

por Felipe M.Guerra

A aventura de tentar entrevistar José Mojica Marins

Do alto de seus 72 anos, mas baixinho, gordinho, barbudo e de óculos, José Mojica Marins poderia muito bem passar por vovô gente boa e até se vestir de Papai Noel nas noites de Natal, se não fosse nacionalmente e internacionalmente conhecido como criador e intérprete do sádico, misógino e ateu Zé do Caixão - personagem de terror 100% nacional, e com orgulho!

Desde 1964, quando dirigiu, escreveu e estrelou o clássico À MEIA-NOITE LEVAREI SUA ALMA, Mojica é o grande símbolo do horror brasileiro, e um dos únicos que se aventura por um gênero tão estigmatizado e pouco valorizado (no Brasil, claro). Sui generis, sua própria vida daria um belo filme, incluindo incontáveis aventuras amorosas, perseguição dos críticos e censores durante a Ditadura Militar e improviso total na hora de fazer cinema com pouca ou nenhuma grana (recomendo o livro “Maldito”, de André Barcinski e Ivan Finotti, para quem quiser rir e chorar com as incríveis aventuras de José Mojica Marins).

Uma coisa é certa: é difícil separar criador e criatura, Mojica e Zé do Caixão. E quando o João Pedro Fleck, organizador do Fantaspoa 2008, me disse que ENCARNAÇÃO DO DEMÔNIO, novo filme do diretor, teria pré-estréia em Porto Alegre com a presença do próprio, já comecei a fantasiar o encontro que teria com um dos grandes gênios do cinema nacional, e um dos meus maiores ídolos. Bastou o pessoal da Fox (distribuidora nacional do novo filme do Mojica) me convidar para uma coletiva de imprensa com ele, representando a Boca do Inferno, para que eu ficasse realizado. Nunca os dias passaram tão devagar quanto naquela semana que antecedeu o sábado, 2 de agosto de 2008, em que José Mojica Marins
estaria em Porto Alegre.

Quando cheguei ao Santander Cultural, o local marcado para a coletiva, eis que encontro Mojica já na porta. Ele vem chegando acompanhado do pessoal da Fox e da atriz Leny Dark, que em ENCARNAÇÃO DO DEMÔNIO é atacada por milhares de baratas e, acreditem ou não, é a excelentíssima esposa do mestre do horror tupiniquim. Isso sim que é esposa: imagina como você reagiria, cara leitora da Boca do Inferno, se o seu maridão enfiasse sua cabeça num balde repleto de baratas reais e vivas!!! Bem, na coletiva, o casal sentou-se ao lado de Dennison Ramalho, o roteirista e diretor assistente do novo filme do Zé do Caixão.

Entrevistar Mojica é uma coisa tão surreal quanto assistir DELÍRIOS DE UM ANORMAL (que ele dirigiu em 1978) sem estar chapado. Todo um circo se arma ao redor do mítico Zé do Caixão a partir do momento em que ele entra no local onde acontecerá a coletiva. Quase todos os jornalistas são também fãs declarados do diretor, o que transforma a entrevista numa celebração à carreira do grande ídolo. Aliás, é bom ressaltar que a maioria nem está aí para fazer entrevista, mas sim para garantir seus minutinhos ao lado do lendário Mojica e, quem sabe, faturar um autógrafo e uma foto ao seu lado. Eu consegui tudo isso, e ainda tentei entrevistá-lo. Tentei...

Uma coisa que salta aos olhos, mais até do que a impagável forma de falar de Mojica (“pobrema”, "artesenal", “crássico”), é que ele fuma como uma chaminé, acendendo um cigarro no outro. Em uma hora de coletiva, detonou uma carteira de cigarro inteirinha! Até o fim da noite (ele apresentaria o filme em duas sessões, às 21h30min e à meia-noite), mais duas carteiras viraram fumaça.



No fim, descobri que entrevistar Mojica não apenas é surreal, mas também é impossível. Nesta coletiva de Porto Alegre, por exemplo, ele nem dava bola para as perguntas que lhe faziam: falava sobre o que queria, como queria e o quanto queria. Isso se percebeu desde a primeira pergunta, feita pelo meu amigo Cristian Verardi. Filosoficamente, Cristian pediu se Mojica ainda se inspirava em pesadelos para fazer seus filmes, já que Zé do Caixão teria surgido de uma noite mal-dormida do diretor em 1963. E eis que Mojica ignora completamente a pergunta e põe-se a falar, durante mais de 10 minutos sem intervalos, sobre os bastidores da criação de À MEIA-NOITE LEVAREI SUA ALMA!

Mas eu sou brasileiro e não desisto fácil. Quando ele acaba sua dissertação, tomo a frente e peço para ele falar sobre a emoção de finalmente ver um filme seu na tela grande depois de 20 anos sem filmar – ainda mais considerando que ENCARNAÇÃO DO DEMÔNIO é distribuído por uma das majors do ramo, a 20th Century Fox. Eu esperava ouvir uma resposta pessoal de Mojica contando o que sentiu ao ver seu nome novamente na tela grande, se ele chorou ao ver o filme pela primeira vez na sala de cinema, enfim, coisas assim.

Ele, entretanto, ignorou a pergunta e preferiu falar sobre a odisséia que foi tirar ENCARNAÇÃO DO DEMÔNIO do papel (esta seria justamente a minha pergunta seguinte!). No meio, puxou sabe-se lá de onde o filme pornô 24 HORAS DE SEXO EXPLÍCITO, que dirigiu em 1984, e pôs-se a falar com orgulho sobre como filmou a primeira cena de zoofilia do cinema pornográfico nacional! Assim, a resposta ficou tão longa que durou 17 minutos cravados! Abaixo o leitor pode conferi-la em vídeo, devidamente gravado por meu irmão Rodrigo, editado e legendado para facilitar a compreensão do "mojiquês":



Resumidamente, o diretor contou que ENCARNAÇÃO DO DEMÔNIO surgiu em 1966, mas ele nunca conseguiu realizar o filme. Sempre que alguém tentava bancar o projeto, uma maré de azar fazia com que tudo fosse cancelado novamente. A “maldição” era tão grande que, segundo ele, três produtores morreram às vésperas de financiar a conclusão da trilogia de Zé do Caixão. Quando Dennison Ramalho, Paulo Sacramento e os irmãos Gullane entraram na jogada para finalmente tirar o roteiro do papel, ele comemorou o fato de ter bastante gente envolvida na produção - se um morresse, brincou Mojica, os outros continuariam na função! hahahaha.

Lá pelas tantas, Dennison toma a palavra e dá um tapa de luva nos jornalistas, pedindo que parem de escrever que os filmes de Mojica, especialmente este último, são trash movies. O próprio Mojica aproveita a deixa e parece encarnar Zé do Caixão: arregalha os olhos, ergue o tom de voz e, gesticulando muito, reclama dos desavisados que vivem dizendo que ele é trash. Esta era, coincidentemente, minha próxima pergunta: eu ia pedir se o Mojica não se arrependia de ter apresentado o Cine Trash na Bandeirantes durante a década de 90, já que ficou injustamente ligado aos filmes ruins. Mas o mestre se antecipou e detonou geral. Só faltou rogar uma praga aos jornalistas que dizem que ele é trash (e não são poucos...), como o leitor pode ver no vídeo abaixo:



Na verdade, Mojica é um verdadeiro fanfarrão, mas no bom sentido. Adora exagerar tudo e é um mestre na arte da manipulação e da auto-divulgação. Lá pelas tantas, começa a tentar assustar os jornalistas, dizendo que ENCARNAÇÃO DO DEMÔNIO ficou “um pouco forte”, e que os produtores tiveram que segurá-lo, porque se dependesse dele a coisa seria ainda mais pesada. Contou que, na cena de suspensão (um rapaz é pendurado por ganchos reais enfiados na sua pele), todos temeram pela morte do ator.

Sem papas na língua, já sai falando que, se esta nova produção fizer sucesso, vai filmar uma continuação, e anuncia até o título “Sete Ventres para um Demônio”. Mas antes, cortou o roteirista Dennison, os esforços de ambos estarão centrados num novo filme, O DEVORADOR DE OLHOS, adaptação de um roteiro escrito por Rubens Francisco Lucchetti lá nos anos 60, e que mostraria Mojica fazendo um outro personagem que não tem nada a ver com Zé do Caixão: um homem que contrai uma rara doença e precisa alimentar-se de olhos de belas moças para não perder a visão. “Vai ter até cena de olho arrancado com saca-rolha!”, delicia-se Mojica, gesticulando como se estivesse já atuando na cena, visivelmente emocionado.

Novamente, o leitor pode conferir o vídeo desta parte da entrevista, onde Mojica fala bastante sobre o sucesso que ENCARNAÇÃO DO DEMÔNIO está fazendo, sobre a morte do ator Jece Valadão e sobre os futuros projetos (incluindo a impagável simulação do saca-rolha imaginário arrancando olho):



A conversa envereda para o contraste entre a violência de Zé do Caixão e a violência urbana da Grande São Paulo em ENCARNAÇÃO DO DEMÔNIO. Aproveito para meter o bedelho, cortando o jornalista ao meu lado, que já estava levantando a mão para fazer sua pergunta: peço que Mojica fale sobre a forma como a violência urbana foi abordada no filme, onde os policiais são representados como pessoas tão sádicas e violentas quanto o próprio Zé do Caixão. Mas, novamente, ele responde do seu jeito, preferindo tecer comentários sociais sobre o trabalho da polícia.

Finalmente, Mojica começa a falar de sua mágoa com a crítica nacional, que nunca deu importância para sua carreira e só começou a respeitá-lo quando os norte-americanos "importaram" a figura do Coffin Joe. Aproveito para me meter. Minha terceira e última intervenção na coletiva é mais uma tentativa de arrancar uma resposta mais pessoal de Mojica, e também um exercício de puxa-saquismo típico de fã. Elogio ENCARNAÇÃO DO DEMÔNIO por ser bastante forte e violento, e pergunto se toda essa fúria não é uma espécie de vingança dele por ter uma carreira injustiçada, com seus filmes sendo cortados ou proibidos pela censura.

Novamente, o diretor responde do seu jeito, e ainda se põe a explicar o final do filme. (ATENÇÃO: Não veja o vídeo abaixo se não quiser saber detalhes importantes sobre a conclusão de ENCARNAÇÃO DO DEMÔNIO!)



Uma hora depois, Mojica declara a coletiva encerrada, pois precisa apresentar a primeira sessão de pré-estréia de ENCARNAÇÃO DO DEMÔNIO no cinema do Santander Cultural, àquela altura já lotado de fãs aflitos. Mas ele não consegue sair dali tão fácil: uma multidão de jornalistas cerca o ídolo.
Eu, claro, me aproximo devagarzinho entre o mar de gente e, subitamente, encontro-me frente a frente com o ídolo.

Sem titubear e cara-dura que só eu, me apresento como diretor de filmes independentes (não amadores, como realmente são. hehehehe), e presenteio Mojica com o DVD de meu último trabalho, a comédia romântica CANIBAIS & SOLIDÃO. Mulherengo irrecuperável, ele se assanha todo com a foto da minha atriz Edna Costa em trajes sumários na capinha, e agradece o presente. Faço questão de fotografá-lo com o DVD, é lógico. Afinal, também entendo um pouquinho de marketing...

Depois, entrego a capinha do meu DVD de ESTA NOITE ENCARNAREI NO TEU CADÁVER para que ele autografe. Mojica, curioso, pergunta: “Onde você comprou isso? Comprou agora?”. Explico que comprei o box da Cinemagia ainda na primeira tiragem, antes mesmo de ter aparelho de DVD em casa. “Ah bom”, ele responde, “é que estes filmes estão fora de catálogo e trouxe uns aqui para vender baratinho”. O mestre não perde tempo...

Feito o garrancho na minha capinha, ele pensa que já se livrou de mim. Mas, chato, insisto: “Mojica, gostaria de pedir um grande favor de fã! Queria fazer uma foto com o senhor me esganando!”. Ele não se faz de rogado: com uma mão segura meu pescoço. E diz: “Vou fazer melhor: vou furar o seu olho!”.
Subitamente, encarna o futuro DEVORADOR DE OLHOS, e encosta a única unha comprida, a do dedão da mão esquerda, no meu globo ocular. Uma foto perfeita!



A muvuca continua. Saio de lado para não atrapalhar os outros fãs aflitos e vou dar uma volta pelas redondezas. E, claro, também tiro uma foto com a bela Leny Dark, que não sou bobo nem nada. Se ela encarou três mil baratas no filme, pode muito bem me encarar para uma foto! Saio, dou uma circulada pelo recinto e, de repente, percebo que tudo ficou silencioso. Volto ao lugar onde a coletiva havia acontecido. Para meu espanto, todos se foram e, ali dentro, ficaram apenas a moça do bar e o próprio Mojica, num dos seus raros momentos sozinho e abandonado, tomando um licorzinho no balcão e, claro, fumando mais um cigarro!

Eu não iria deixar isso passar assim: outras pessoas estavam se aproximando (tiveram a mesma idéia que eu), mas a estas alturas eu já estava novamente pajeando José Mojica Marins, desta vez só eu e ele, falando sobre como me surpreendi com ENCARNAÇÃO DO DEMÔNIO (que achei que seria um bom filme, mas não pensei que seria tão bom). Desta vez, o Zé do Caixão em pessoa parecia tímido: abriu um sorrisão e agradeceu pelos elogios.

Disse ainda que li “Maldito” inúmeras vezes e que, como diretor amador, aprendi muito com as histórias e improvisos de Mojica. “Mas o livro também mostra que sua vida foi muito difícil”, emendo eu, e eis que o mestre pela primeira vez parece sensibilizado. Com a voz meio embargada, ele responde: “Realmente, não foi nada fácil. Meu trabalho nunca teve reconhecimento”.

Antes de deixar Zé do Caixão em paz com seu licor, desejo sorte e sucesso para ENCARNAÇÃO DO DEMÔNIO, e brinco com o fato de que o filme será exibido em shopping
centers. “Vê só que coisa: Indiana Jones na sala 1 e Zé do Caixão na sala 2!”, ironizei. Mojica riu, mas depois ficou sério e emendou: “Pois é, mas não sei como vai ser, viu? Porque o povão não vai pagar 20 reais para ver meu filme num shopping. O povão assistia meus filmes nos cinemas de rua, e estes não existem mais!”.

Minutos depois, Mojica entrava na sala de cinema para apresentar o filme aos porto-alegrenses. Na verdade, Mojica desapareceu nesta mesma hora, dando lugar a Zé do Caixão, que vociferou seu tradicional: “Você! Você! Todos vocês!”. Aplausos e gritos de delírio do público saudaram o mestre, como o leitor pode ver no vídeo abaixo:



Sim, amiguinhos: Zé do Caixão está vivo. E eu demorei uns dois dias para tirar o sorriso do rosto.



Para comentar o artigo e entrar em contato com Felipe M.Guerra:

Nome:
Idade:
E-Mail:
Cidade/Estado:
O que você tem a dizer?




Artigos