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Desde a aurora da humanidade (ohhhhhh...), o fogo sempre fascinou e assustou a humanidade. Isso começou ainda com os nossos antepassados meio homens, meio macacos, dos tempos das cavernas. Historiadores acreditam que o homem primitivo só começou a progredir quando descobriu o fogo, passando a dormir aquecido e a comer carne cozida, entre outras regalias proporcionadas pelo calor das chamas. Seria impossível imaginar nossa sociedade moderna sem o fogo, ainda que muitas vezes ele tenha representado uma regressão ao período mais selvagem do ser humano - como nos tempos da Inquisição, onde os acusados de bruxaria eram "purificados" com fogo, sendo queimados vivos. E até hoje o fogo fascina o homem. Quem nunca parou em frente a uma lareira ou churrasqueira e ficou hipnotizado olhando a dança das chamas sobre a madeira ou o carvão? Poético, isso... |
Assim como fascina, o fogo também ainda assusta. Tanto que é presença contumaz nas histórias fantásticas. E, claro, nos filmes de horror. Até
Stephen King se rendeu ao poder hipnótico das chamas em seu livro
"A Incendiária", sobre uma menina capaz de iniciar incêndios apenas com a força do pensamento, e que se transformou no filme
CHAMAS DA VINGANÇA, em 1984. Também há o slasher movie
AS CHAMAS DO INFERNO, de 1980, onde um psicopata, traumatizado pelos castigos com fogo aplicados pela sua mãe na infância, sacia sua sede de sangue eliminando belas mulheres com um lança-chamas. Nem o seriado
ARQUIVO X deixou de mostrar labaredas, num episódio da primeira temporada chamado
O INCENDIÁRIO, que mostra um terrorista capaz de se auto-inflamar e provocar incêndios. Mas talvez nenhum filme tenha mostrado tão bem o quanto o fogo são destruidor (e dolorido) como
COMBUSTÃO ESPONTÂNEA, que o cineasta Tobe Hooper dirigiu em 1989.


Como o nome já diz, o filme se baseia num fenômeno da vida real, a CEH, ou Combustão Espontânea Humana. Trata-se de um fenômeno raríssimo e ainda considerado um enigma pelos cientistas, mas existem evidências históricas, desde o século 19, de que várias pessoas teriam incendiado repentinamente até a morte, sem que as chamas afetassem suas roupas ou os materiais ao seu redor. Pode isso? Para explicar em palavras leigas, a combustão espontânea seria algo como um grande monte de feno seco: imagine se aquele feno que fica por baixo, no meio do monte, por algum motivo esquentasse mais que o normal e entrasse em combustão, iniciando um incêndio de dentro para fora do monte.. Pois assim funciona o fenômeno da combustão espontânea: a pessoa queimaria de dentro para fora, e apenas seu corpo seria incendiado, e mais nada! Dá pra acreditar? Ainda não existem maiores explicações porque os casos de combustão espontânea são raríssimos e não foram devidamente estudados. Mas é bom não duvidar dessas coisas...
Para você ter uma idéia, em 1967 o escritor inglês Eric Frank Russel lançou um livro chamado
"Great World Mysteries", onde relacionava 19 misteriosos casos de combustão espontânea de seres humanos, todos retirados das páginas de jornais europeus durante o ano de 1958. Russel relacionou inclusive uma ocorrência em 7 de abril de 1958, na Inglaterra, quando a polícia teria encontrado um caminhão caído numa vala. Na cabine, comprovaram que o motorista George Turner havia sido completamente incinerado, restando apenas os ossos, mas não havia qualquer sinal de fogo no interior do veículo; no mesmo dia e no mesmo ano, mas na Holanda, na pequena cidade de Nimègue, William Ten Bruick foi encontrado morto,
"além da capacidade de identificação", no interior do seu Volswagen... mas os danos no carro foram leves e o tanque de gasolina NÃO se incendiou! Acredita? Imagine apenas que não é qualquer foguinho que pode consumir um ser humano até os ossos ou transformá-lo em pó: seria necessário um calor de 2.500 graus (temperatura utilizada em crematórios) para fazer o estrago verificado em cada um dos casos de combustão espontânea estudados por Russel! E aí, você tem alguma explicação para o fenômeno?


Infelizmente, o resultado da visão cinematográfica de Hooper sobre o fenômeno não saiu como se esperava. Tanto que existem, hoje, dois tipos de pessoas no mundo: aquelas que odeiam
COMBUSTÃO ESPONTÂNEA e aquelas que ainda não viram o filme. Isso porque esta produção foi realizada no auge da fase decadente do cineasta, quando ele começava a perder-se em filmes progressivamente piores e mais idiotas. Aquele cara que praticamente inventou o horror moderno ao dirigir o clássico
O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA, de 1974, vinha de experiências frustrantes com grandes estúdios e grandes orçamentos. Havia enfrentado problemas no set do caríssimo
FORÇA SINISTRA (1985), que foi um fracasso de bilheteria, e seus dois filmes posteriores -
INVASORES DE MARTE e
O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA 2, ambos de 1986 - também foram um fiasco de público e crítica. Hooper resolveu, então, que seu próximo filme seria totalmente independente, com um orçamento pequeno e seu comando total, sem estúdios exigindo cortes e mudanças no filme (como aconteceu com
FORÇA SINISTRA e
O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA 2, reeditados ou mutilados pela produtora Cannon Pictures). O diretor pensava que se mesmo assim o filme saísse um fiasco, tendo ele o domínio total da obra, pelo menos não poderia botar a culpa em ninguém.
Felizmente, Hooper foi humilde para admitir o erro e não jogar a culpa do fracasso de
COMBUSTÃO ESPONTÂNEA nos outros. Desta vez, o único culpado é ele - até porque história e roteiro também são assinados pelo diretor! Mas a verdade é que o filme não é tão ruim quanto as obras posteriores do cineasta, principalmente
NOITES DE TERROR (aquele com Robert Englund como o Marquês de Sade, feito em 1993),
THE MANGLER e
CROCODILO. Eu inclusive sou um dos mais tolerantes e confesso ter certa simpatia por
COMBUSTÃO ESPONTÂNEA, talvez por ter visto na infância e ele ter se tornado uma espécie de
"guilty pleasure". Mas são raras as críticas positivas ao filme. E o pobre Felipe aqui, como muitos detratores da obra, assume que o resultado final fica muito aquém do que o filme poderia ser. Agora, mesmo que esta obra menos conhecida de Hooper não seja lá uma maravilha, também não é todo esse fiasco que falam.


Eu diria até que
COMBUSTÃO ESPONTÂNEA é um bom filme até os primeiros 60 minutos. O que estraga é a meia hora que vem pela frente. E quando eu digo
"estraga", estou falando de estragar mesmo, de arruinar, de afundar, de destruir o filme. Mesmo se o filme tivesse sido dirigido por um gênio do cinema, como um Orson Welles ou um
Alfred Hitchcock, ainda assim eles não conseguiriam fazer melhor por causa daqueles horrendos, grotescos, ridículos trinta minutos finais. Não sei que diabos passou pela cabeça de Tobe Hooper para terminar o filme do jeito que termina. Mas tenho quase certeza que ele perdeu as cinco últimas páginas do roteiro e decidiu deixar o filme sem conclusão, passando direto para os créditos finais e torcendo para ninguém notar - curiosamente, Hooper fez a mesma coisa no recente
TOOLBOX MURDERS, de 2003, que também simplesmente termina, sem maiores explicações. Nos dois casos, o espectador fica chupando o dedo quando os créditos finais aparecem, restando um milhão de dúvidas e perguntas sem resposta! Acredito que é principalmente por esta atroz metade final que o filme ganhou esta fama de maldito que o acompanha até hoje.
A obra foi lançada no Brasil no começo dos anos 90, pela Look Vídeo, com um título ridículo e inadequado:
CONSPIRAÇÃO ATÔMICA. Claro, podia ser pior: na Itália ele foi batizado de
O FILHO DO FOGO (argh!)!!! Ironicamente, passou na Bandeirantes, no extinto e saudoso Cine Mistério, com a tradução literal do original,
COMBUSTÃO ESPONTÂNEA. Também foi este nome que o selo nacional Works utilizou para relançar a obra recentemente em DVD no Brasil - infelizmente, um disco pobre, com imagem em tela cheia e muito ruim, que parece ter sido capturada direto da fita cassete, embora exista uma edição restaurada nos EUA, lançada pela Anchor Bay, com imagem de primeira e em widescreen (mas também sem extras, infelizmente). O relançamento de
COMBUSTÃO ESPONTÂNEA no Brasil a um preço popular (o DVD pode ser encontrado a R$ 9,90) é oportuno, pois permite uma releitura deste filme tão criticado e malhado. Podemos começar?


Com os créditos iniciais se desenrolando entre labaredas e explosões,
COMBUSTÃO ESPONTÂNEA já dá o clima do que vem pela frente - pode se preparar, pois o fogo no cinema nunca pareceu tão quente e destruidor quanto aqui. A história começa no deserto de Nevada em 1955, onde dois jovens, Brian (Brian Bremer, de
A SOCIEDADE DOS AMIGOS DO DIABO) e Peggy Bell (Stacy Edwards, de
O MEDO), são submetidos a uma experiência submetida patrocinada por uma poderosa corporação em conjunto com o Exército americano. A experiência consiste no desenvolvimento de uma vacina que torne o ser humano imune à radiação. Lembrem que naquela época o mundo ainda vivia sob o impacto das bombas nucleares lançadas 10 anos antes, pelos americanos, sobre Hiroshima e Nagasaki, no Japão, vaporizando as duas cidades e matando milhares de pessoas. Todo o planeta vivia com medo de novos ataques nucleares - numa paranóia que só encerrou com o fim da Guerra Fria, na década de 80.
Brian e Peggy recebem injeções da tal vacina anti-radiação e são confinados num abrigo subterrâneo no meio do deserto; em seguida, uma bomba nuclear de pequeno porte é detonada sobre o bunker, e, mesmo no subterrâneo, os dois jovens recebem uma violenta carga de radiação. Mas saem aparentemente intactos, comprovando o sucesso da vacina. Ganham uma casa, um carrão e se transformam em heróis nacionais. Fazendo uso criativo daqueles cinejornais em preto-e-branco que eram exibidos nos cinemas nos anos 50, cheios de propaganda nacionalista, Hooper dá detalhes sobre o destino do casal de jovens, numa cena bem sacada. Enfim, tudo é uma maravilha, até que os cientistas por trás do projeto descobrem que Peggy está grávida. Afinal, o que um casal de jovens faria para passar o tempo num abrigo subterrâneo sem TV, não é verdade? hehehehe. Enfim, os pesquisadores não sabem se devem deixar o bebê nascer, temendo possíveis efeitos colaterais. Porém o grande patrocinador da experiência, o misterioso Lew Orlander (que aparece sempre nas sombras e fumando, tipo o Canceroso de
ARQUIVO X), resolve permitir o nascimento da criança.


David Bell parece um bebê saudável e comum, apesar de uma marca de nascença numa das mãos (um círculo perfeito!) e de apresentar uma pequena febre que nunca passa. Ele nasce no dia exato do aniversário de 10 anos da explosão nuclear em Hiroshima. Brian e Peggy são só sorrisos, ao som de sua música predileta - ironicamente, uma balada chamada
"I Don't Want to Set the World on Fire", ou
"Eu Não Quero Incendiar o Mundo". Mas a felicidade logo se transforma em pesadelo quando, repentinamente, ambos começam a incendiar, de dentro para fora, sendo destruídos em segundos pelas violentas labaredas, ainda no quarto do hospital onde Peggy se recuperava do parto. Os cientistas acreditam que o casal foi vitimado pela CEH (a Combustão Espontânea Humana), comprovando que a vacina anti-radiação é ineficaz. A experiência é então supostamente abandonada e o pequeno David acaba adotado pelo poderoso empresário Orlander para levar uma vida normal, sem saber absolutamente nada sobre o seu passado. Ou, pelo menos, é assim que parece.
A história então corta para Trinidad Beach, no tempo atual (no caso, 1989), no dia do aniversário de 34 anos de David, que foi rebatizado Sam após a tragédia. Ele é interpretado pelo excelente Brad Dourif, especializado em papéis de vilões no cinema de horror. Ainda sem saber qualquer coisa do seu passado - tudo que lhe disseram é que seus pais, ironicamente, teriam morrido afogados quando ele ainda era bebê -, Sam é um professor universitário que leva uma vida comum, protesta contra uma usina nuclear que será reaberta na cidade e namora uma bonita jovem, Lisa Wilcox (Cynthia Bain, de
PUMPKINHEAD). Como curiosidade,
"Lisa Wilcox" é o nome da jovem atriz que interpretou Alice Johnson em
A HORA DO PESADELO partes 4 e
5! Não se sabe se foi uma homenagem de Hooper ou uma simples coincidência.


O dia do aniversário de Sam começa mal, pois ele tem um encontro nada amigável com sua ex-esposa, a pouco simpática Rachel (Dey Young, que trabalhou com Wes Craven em
A MALDIÇÃO DOS MORTOS-VIVOS), que é neta de Orlander. Ela está almoçando com seu novo companheiro, o dr. Marsh (Jon Cypher), e dá más notícias ao ex: uma amiga de Sam, com quem ele havia discutido na noite anterior, amanheceu morta, queimada viva, e os especialistas suspeitavam de combustão espontânea. Atordoado com a notícia, pois havia sido o último a ver a amiga com vida, e ao mesmo tempo furioso com o descaso da ex-mulher, Sam surpreende-se ao ver uma labareda de fogo sair da ponta de seu dedo. Assustado, resolve ir ao hospital, onde é atendido pelo incompetente dr. Simpson (Mark Roberts), que faz de tudo, menos ajudar. Sam então se despede:
"Obrigado, dr. Simpson, por nada, novamente". No mesmo dia, o médico também aparece morto queimado, por combustão espontânea.
Neste momento, Sam começa a desconfiar que há algo de errado acontecendo com ele. Vai procurar a namorada Lisa e descobre, no apartamento da garota, um ramalhete de flores com um cartão assinado por Lew Orlander. Como ele nem imaginava que Lisa conhecia Lew, e nenhum dos dois havia tocado no assunto antes, Sam sente-se traído e enganado; quando fica nervoso, mais uma vez, sua fúria faz com que ele solte chamas incontroláveis. No auge da raiva, seu braço explode, abrindo um buraco de onde saem labaredas de fogo, como se o interior de seu braço estivesse literalmente incendiando. E estas chamas não se apagam nem quando Sam mergulha o braço na banheira. Ele tenta telefonar para um médium que estava justamente falando sobre combustão espontânea no rádio momentos antes de seu ataque, mas acaba sendo atendido pelo funcionário burocrático da emissora - interpretado pelo cineasta John Landis, de
UM LOBISOMEM AMERICANO EM LONDRES. Furioso com o descaso do homem, Sam faz com que ele incendeie apenas com a força do pensamento, liberando uma violenta labareda pelo telefone, fazendo Landis queimar até a morte!


Depois de
"desabafar", as chamas saindo do braço do rapaz param. Lisa leva Sam ao hospital e o sinistro dr. Marsh entra em cena. Sam descobre, então, que anda sendo monitorado pelo médico, ao encontrar em sua mesa um dossiê contendo fotos e diversas informações sobre a sua infância, como se fosse espionado desde que era bebê. Desconfiando que ao invés de curá-lo os médicos querem é destruí-lo, ele foge deixando um rastro de destruição e pessoas incendiadas. O problema é que Sam não consegue controlar seus poderes, e a emissão das chamas vai desgastando e destruindo o corpo do rapaz. Se a menina da história
"A Incendiária", de King, gerava incêndios com a força da mente, Sam, por outro lado, gera o fogo do próprio corpo, e acaba ficando violentamente queimado e deformado no processo - além de sentir muita, mas muita dor ao soltar as chamas. A degeneração física do anti-herói é progressiva e garante as melhores cenas do filme. À medida que Sam vai juntando o quebra-cabeça sobre a sua infância e descobrindo o motivo da sua existência,
COMBUSTÃO ESPONTÂNEA vai gradualmente afundando e se transformando numa grande bobagem.
Vamos dizer que a história funciona perfeitamente até o momento em que Sam resolve libertar seus poderes, incendiando os inimigos mesmo que a emissão das chamas vá lentamente destruindo seu próprio corpo. Com isso, a partir dos trinta minutos finais, quando pipocam revelações sobre o verdadeiro objetivo do experimento com o casal Bell e a verdade sobre nascimento de Sam, o roteiro perde completamente o rumo e ainda descamba para o sobrenatural, transformando Sam numa espécie de
"criatura de energia" (argh!). A última cena do filme é uma prova irrefutável de que Tobe Hooper não sabia como terminar a história e colocou aquilo ali só para dar um ponto final na trama, porém sem propriamente explicar muita coisa. Um fiasco, que deixa o espectador boiando sem entender o que aconteceu com os personagens. Outras coisas também ficam inexplicadas, como o motivo pelo qual a marca de nascença de Sam triplica de tamanho quando ele começa a manifestar seus poderes, e o verdadeiro papel de sua namorada Lisa na conspiração.


Um dos grandes erros do roteiro, escrito por Hooper em parceria com Howard Goldberg, é a grande conspiração que envolve o personagem principal. À medida que os personagens vão mostrando sua
"verdadeira cara", o filme mais parece um episódio exagerado de
ARQUIVO X, aumentando o nível de paranóia em cem vezes. Por exemplo: descobrimos que toda a vida de Sam foi controlada por Orlander desde bebê até então; a esposa Rachel e a atual namorada Lisa são
"funcionárias" que trabalham para o poderoso empresário (na verdade, o grande vilão da história), com o objetivo de controlar cada passo do rapaz. Para piorar, quase todos os personagens secundários revelam-se assassinos envolvidos com o projeto dos anos 50 e ligados a Orlander, inclusive o dr. Marsh, que parecia apenas um médico e se revela um assassino profissional - argh!!! Nem todas as revelações fazem sentido, e se o objetivo dos vilões era apenas ver como Sam manifestaria seus destruidores poderes, porque esperaram 34 anos ao invés de iniciar a experiência mais cedo? Uma das tantas perguntas sem resposta...
Porém, mesmo que a decepção seja inevitável na conclusão,
COMBUSTÃO ESPONTÂNEA tem um bom desenvolvimento, um tanto lento no início, mas explosivo (literalmente) quando Sam começa a descobrir que pode usar seus novos poderes para machucar os outros. Os efeitos especiais contornam a produção barata e são bem realizados - alguns, também especialmente nojentos. Uma das boas cenas que os fãs de horror não podem perder é aquela em que o braço de Sam se abre para que um jato de chamas saia de dentro dele. Mas os ataques contra os desafetos do anti-herói também rendem alguns momentos bem realizadas, onde as vítimas tostam vivas em questão de segundos, inclusive com closes em rostos e mãos pegando fogo! Hooper chega a lembrar os bons tempos de
O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA e
EATEN ALIVE em alguns momentos mais criativos, como o personagem de John Landis levando uma labareda de fogo direto na boca ou uma mulher tendo a mão atravessada pela enorme agulha de uma seringa, tudo isso mostrado on-screen. Como eu disse no começo, o fogo nunca pareceu tão destruidor e perigoso quanto neste filme, e basta ver as vítimas se debatendo em explosões de chamas para perceber o poder destruidor que Sam tem nas mãos.


É uma pena que o roteiro seja tão fraco e sem objetivo. Leva mais de 50 minutos para Sam começar a exibir seus poderes destruidores; o problema é que, neste tempo todo, os roteiristas não foram capazes de criar personagens antagonistas ao anti-herói. Em
"A Incendiária", a menininha piromaníaca pelo menos era perseguida por uma agência do governo, quando tinha vários rivais à disposição para matar com fogo. Já em
COMBUSTÃO ESPONTÂNEA, mesmo com tantas possibilidades para a história de um homem capaz de incendiar coisas e pessoas apenas com a raiva, os roteiristas não tiveram a mínima criatividade para pensar em nada melhor, colocando Sam para lutar contra alguns policiais e confrontar o mentor de todo projeto, Orlander, que nem ao menos representa uma ameaça pois é um velhote numa cadeira-de-rodas! Sam podia muito bem ter se transformado num grande perigo para tudo e todos, mas no roteiro fraco acaba dirigindo sua raiva aos poucos inimigos que encontra pela frente... Uma pena.


Entre mortos e queimados, quem brilha é Brad Dourif. Ele é um eterno coadjuvante em produções de primeira linha (de
UM ESTRANHO NO NINHO à trilogia
O SENHOR DOS ANÉIS) ou mesmo em filmes bagaceiros, tipo
CRIATURAS 4 e
A CRIATURA DO CEMITÉRIO. Até sua voz faz sucesso - Dourif dubla o boneco Chucky, da série
BRINQUEDO ASSASSINO. No cinema, já apareceu em mais de 90 filmes, mas
COMBUSTÃO ESPONTÂNEA é um dos seus raros papéis principais. Ele é mais conhecido em papéis de vilão, por isso não convence quando tenta se passar por cara legal no começo da história - sua interpretação até soa forçada quando ele busca parecer simpático. É somente quando Sam sai do controle e se transforma num poderoso assassino incendiário que Dourif realmente brilha, numa interpretação furiosa e exagerada. O ator representa Sam com uma mistura de extrema fúria e descontrole (por ter descoberto que sua vida era uma mentira e que há uma conspiração ao seu redor), somada à dor que o personagem sente por causa das chamas que libera do próprio corpo. Chega a ser impressionante a expressão de raiva do ator ao incendiar um policial que lhe deu um tiro e gritar, com os dentes cerrados:
"Queime, seu bastardo, queime!". O cara parece estar realmente furioso e malucão!!!
Mesmo sendo uma produção mais modesta,
COMBUSTÃO ESPONTÂNEA tem um time de especialistas na equipe técnica. Os bons efeitos especiais têm o dedo do mestre John Dykstra (aquele que revolucionou o mundo da ficção científica ao trabalhar em
STAR WARS). Ele e Hooper já haviam realizado conjuntamente o mal-sucedido
FORÇA SINISTRA, e neste novo filme Dykstra é creditado como
"consultor de efeitos especiais". A trilha sonora, exagerada e apocalíptica - tem até um trecho
"demoníaco" que lembra
"Ave Satani", composta por Jerry Goldsmith para a trilha de
A PROFECIA -, é assinada por outro mestre, Graeme Revell, em um de seus primeiros trabalhos cinematográficos. Depois ele faria excelente trilhas para filmes como
UM DRINK NO INFERNO e
DEMOLIDOR.


Embora seja freqüentemente citado entre os filmes ruins da carreira de Tobe Hooper, a verdade é que este é, talvez, o último filme mediano do cineasta durante um bom tempo. Ele em seguida faria a fraca produção para a TV chamada
A MORTE VESTE VERMELHO e uma seqüência lamentável de porcarias, começando com
NOITES DE TERROR até o infame
CROCODILO. A década de 90 foi ingrata e ridícula para o cineasta, que mostrou uma faceta preguiçosa e desleixada, perdendo-se em filmes horrorosos e jogando o próprio nome na lama. Por isso, é impossível não notar que Hooper conduz
COMBUSTÃO ESPONTÂNEA com bastante energia e criatividade, só perdendo a mão no final ridículo. Há alguns tropeços aqui e ali - repare que a máscara de proteção dos olhos que o dr. Marsh usa ao examinar Sam, em certo momento, desaparece e reaparece misteriosamente, num grotesco erro de continuidade. Mas talvez este seja um filme injustiçado, que merece uma segunda chance.
Para terminar, permitam-me usar alguns trocadilhos à la Revista SET: embora
COMBUSTÃO ESPONTÂNEA não seja um filme tão
quente quanto poderia ser, já que a história
nega fogo no final, não há motivos para não arriscar uma sessão com a cabeça mais aberta. E digo, sem medo de
queimar a língua, que os bons efeitos e as furiosas cenas de morte com fogo valem pelo menos uma locação do filme. Fãs de filmes classe B e esquisitos, principalmente, poderão apreciar o programa no
calor do momento. Acredite: talvez você nem fique tão
queimado de raiva ao final e ainda encontre alguns pontos positivos no filme, como eu fiz. Experimente!
Felipe M.Guerra
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COMBUSTÃO ESPONTÂNEA(Spontaneous Combustion, EUA, 1990). 97 minutos
Direção: Tobe Hooper
Roteiro: Tobe Hooper; Howard Goldberg
Produção: Jim Rogers
Produção Executiva: Henry Bushkin; Arthur M. Sarkissian
Música: Graeme Revell
Fotografia: Levie Isaacks
Edição: David Kern
Desenho de Produção: Gene Abel
Direção de Arte: Richard N. McGuire
Maquiagem: Tony Hooper; Michael R. Jones; Eric H. Lasher; Bill Miller-Jones; Steve Neill
Efeitos Especiais: John Dykstra; Eric H. Lasher
Efeitos Visuais: Michael Douglas Middleton; Stephen David Brooks; Tony Hooper
Elenco: Brad Dourif (Sam); Cynthia Bain (Lisa Wilcox); Jon Cypher (Dr. Marsh); William Prince (Lew Orlander); Melinda Dillon (Nina); Dey Young (Rachel); Tegan West (Springer); Michael Keys Hall (Dr. Cagney); Dale Dye (General); Dick Butkus; André De Toth; Joe Mays (Dr. Persons); Stacy Edwards (Peggy Bell); Brian Bremer (Brian Bell); Frank Whiteman; Judy Prescott; Judy Behr
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