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A adolescente Rosaleen passa a ser atormentada por pesadelos violentos e sensuais após testemunhar a morte da irmã. Os sonhos se intensificam, tornando quase impossível distinguir o que é ou não realidade.
Mesmo depois de amadurecida, Rosaleen não consegue esquecer as velhas histórias que lhe contavam, sobre lobisomens e os perigos escondidos na floresta. Quando vai visitar a avó, segue à risca as recomendações de sua mãe para manter-se no caminho. Durante a viagem encontra um jovem caçador. Ele é tão bonito que Rosaleen nem percebe que suas sobrancelhas se encontram. Ele se vangloria afirmando que consegue chegar antes de Rosaleen até a cabana onde mora sua avó. Os dois fazem uma aposta e se o caçador ganhar, o prêmio será um beijo. Mas no mundo de Rosaleen nada é o que parece ser.
Uma jornada visual e onírica, cheia de simbolismo. Um dos melhores filmes de horror/fantasia da década de oitenta. |
Com roteiro inspirado na fábula Chapeuzinho Vermelho, o longa narra de forma simbólica os desejos, a culpa e as dúvidas surgidas na adolescência. Pesadelos e realidade se misturam, sempre tendo como ponto em comum os lobisomens. Seriam estes lobos, que rasgam os peitos dos homens e "devoram" garotinhas, o "sexo"? O filme é aberto a diversas interpretações e cada detalhe tem um significado, o vermelho do sangue é o mesmo vermelho do "desejo"?
O irlandês Neil Jordan (de "Entrevista com Vampiro" e “Traídos pelo Desejo”) realiza seu primeiro grande filme, que abocanhou prêmios merecidos por todo canto do mundo onde foi exibido. O cineasta também assina o roteiro, adaptando o conto da britânica Ângela Carter, presente no livro The Bloody Chamber. O grande mérito da trama é não ter apenas transformado uma fábula infantil em uma história de horror. O enredo se constrói de forma desconexa e perturbadora num novo universo, fascinante e alegórico.


Outra grande virtude de “
A Companhia dos Lobos” é o visual exuberante. Os cenários, propositalmente
“artificiais”, criam uma atmosfera de sonho/pesadelo (vale lembrar aqui que por limitações financeiras o filme foi quase todo rodado em estúdio). A fotografia, carregada de detalhes em vermelho, soma-se aos ótimos efeitos visuais e de maquiagem. O filme ainda inova na transformação dos lobisomens: ao invés de lentamente crescerem unhas, dentes e pêlos, os lobos rasgam violentamente o peito de seus
“hospedeiros”.
O elenco é encabeçado pela desconhecida Sarah Patterson, como a
“Chapeuzinho” Rosaleen (curioso que, entre os poucos papéis que interpretou no cinema está uma
Branca de Neve, numa produção musical de 1987). O elenco conta ainda com a presença do talentoso Stephen Rea, (ator preferido de Jordan, presente em
“Traídos Pelo Desejo”, “
Entrevista Com Vampiro”,
“Nó na Garganta”, entre outros) e a participação especial de Terence Stamp (o Chanceler Valorum, de “
Guerra nas Estrelas: A Ameaça Fantasma”), como o diabo.
Finalizando, a lúdica e marcante trilha sonora composta por George Fenton afina estreitamente com o visual barroco e a abordagem subjetiva do roteiro. O resultado é um filme de horror pouco convencional, um saboroso exercício para a mente e para os olhos.
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Como já foi afirmado no texto, “A Companhia dos Lobos” é uma obra que possibilita diversas interpretações. Estes últimos parágrafos dão algumas dicas, em forma de SPOILERS, de possíveis leituras dos personagens e acontecimentos. Como foi dito antes, o filme é uma releitura do conto Chapeuzinho vermelho. Todos os elementos da fábula são apresentados no filme de Jordan: o Lobo Mau substituído pelo lobisomem, a Chapeuzinho representada por Rosaleen (a garota realmente usa uma roupa de lã com touca vermelha), os morangos silvestres, a vovó e o caçador. Até mesmo o diálogo mais famoso entre a Chapeuzinho e lobo fantasiado de vovó está presente: “para que esses olhos tão grandes?” pergunta a pobre Rosaleen. O Lobisomem, prestes a devorá-la, responde: “Para te ver melhor.”
O despertar sexual da adolescente Rosaleen parece ser o eixo dos acontecimentos. A avó Grannie (Angela Lansbury) representaria a família tradicional repressora, que tenta afastar a jovem de seus impulsos sexuais. Logo no início do filme, a velha conta uma história fantástica sobre homens maus e sedutores, com sobrancelhas grossas que se encontram. Ainda define os homens como lobos “peludos por dentro”.
A figura dos lobisomens pode representar o sexo ou o desejo sexual (daí ele literalmente saírem de dentro dos homens). |
O sexo é então associado à natureza animal, ou irracional do ser humano (
“o lobo que cada um carrega dentro de si, tanto homens quanto mulheres”). Os detalhes em vermelho representariam a paixão ou o pecado.
Premiações:
Festival de Cinema Fantástico de Avoriaz (França, 1985) - vencedor do Prêmio Especial do Júri e indicado para o Grande Prêmio (o vencedor foi “
O Exterminador do Futuro”).
Bafta - British Academy of Film and Television Arts Awards (Inglaterra, 1985) - indicado aos prêmios de Melhor Maquiagem, Melhor Produção/Direção de Arte e Melhores Efeitos Visuais.
Fantafestival (Itália, 1985) – menção especial para o diretor Neil Jordan.
Fantasporto (Portugal, 1985) – vencedor dos prêmios Escolha da Crítica, Escolha do Público, Melhores Efeitos Especiais e Melhor Filme.
London Critics Circle Film Awards (Inglaterra, 1985) – diretor do ano: Neil Jordan.



Sitges - Catalonian International Film Festival (Espanha, 1985) – Melhor Filme, Melhores Efeitos Especiais e Prêmio da Crítica Internacional.
Para comentar o texto e entrar em contato com João Pires Neto:
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A COMPANHIA DOS LOBOS (The Company of Wolves, Inglaterra, 1984).
Direção: Neil Jordan.
Roteiro: Neil Jordan, baseado no conto de Angela Carter.
Produção: Chris Brown.
Fotografia: Bryan Loftus.
Música: George Fenton.
Edição: Rodney Holland.
Figurino: Elizabeth Waller.
Elenco: JSarah Patterson (Rosaleen), Angela Lansbury (Granny), David Warner (Pai), Graham Crowden (Padre), Georgia Slowe (Alice), Kathryn Pogson (Noiva), Stephen Rea (Noivo), Tusse Silberg (Mãe), Terence Stamp (Diabo) e Micha Bergese (Caçador).
Distribuição: Em DVD pela Flashstar e pela Works Filmes.
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