A ficção científica norte-americana dos anos 50, além de mostrar futuros terríveis com a destruição da Terra por armas nucleares, também mostrou seres do espaço pouco amistosos, sempre tentando impor aos terráqueos seus modos de vida. Uma grande parte destas produções aproveitou-se do momento político do pós-Segunda Guerra: a Guerra Fria, uma guerra de posições entre o lado democrático (defendido pelos Estados Unidos) e o lado comunista (defendido pela União Soviética).
Do ponto de vista norte-americano, os soviéticos procuravam impor sua dominação através da infiltração de seus agentes e, conseqüentemente, dos seus ideais políticos dentro do país, destruindo a individualidade e os valores sociais da democracia - temáticas recorrentes dos filmes de ficção-científica do momento. Para combater esta "infiltração" na sociedade norte-americana, surgiu um dos movimentos mais polêmicos da sua História: o Marcatismo.
Ainda sob os reflexos da explosão da bomba atômica soviética, da "perda da China" e do início da Guerra da Coréia, fatos acontecidos no período de 1949-1950, a sociedade norte-americana sofreria outro "choque": o senador republicano Joseph McCarthy anunciou possuir uma lista de 205 comunistas "fichados" trabalhando no Departamento de Estado. Logo, o senador seria nomeado como o presidente do Comitê de Investigação de Atividades Anti-Norte-Americanas, dando início a uma série de inquéritos para denunciar os "comunistas". Era o início do "terror" norte-americano.


Apresentado através dos jornais, dos rádios e da televisão, o Macartismo envolveu a todos nos Estados Unidos. A presença maciça da mídia, em particular da televisão, estendeu os inquéritos, processos e julgamentos a um público gigantesco até então. O próprio McCarthy utilizou-se da televisão com maestria, o que demonstra que o meio estava ganhando importância na vida dos norte-americanos no começo da década de 50. McCarthy não tinha lista alguma, mas, na frente das câmeras, seu discurso soou como a mais sólida realidade e uma parte expressiva do povo norte-americano acreditou nesta realidade.
Por atingir tal público, a propaganda tornou-se peça fundamental das relações de poder, aproveitando-se e, ao mesmo tempo, impondo o medo. Como a intensa propaganda dos processos, a população norte-americana acabou sendo envolvida pelo seu próprio medo do comunismo. Muitos filmes de ficção científica mostrando seres sem alma tentando dominar os humanos surgiram neste momento.
Além disso, o
"inimigo comunista" era invariavelmente apresentado como um ente traiçoeiro, ardiloso e sempre agindo nas sombras e na escuridão. Qualquer um poderia ser um agente
"comunista", aumentando ainda mais o medo e o isolamento entre as pessoas - ninguém confiava em ninguém. Aproveitando-se desse medo, partidários do Macartismo iriam instalar-se no poder de forma autoritária, mesmo que não chegando a assumir o poder executivo. Neste sentido, o senador McCarthy chegou a ser uma figura tão intocável quanto o próprio presidente Harry Truman.
O Macartismo também caracterizou-se por apresentar uma postura arbitrária dos investigadores em relação aos investigados. O próprio McCarthy, o então senador Richard Nixon e o advogado Roy Cohn, três dos mais famosos acusadores, praticamente impunham a
"culpa" aos acusados ou obrigavam-nos a acusarem outros supostos
"comunistas", sendo que muitas pessoas foram "denunciadas" desta forma e acabariam perdendo seus empregos e sofrendo humilhações públicas. A denúncia do inimigo invisível era uma das armas mais poderosas do Macartismo.

O Macartismo começou a declinar durante a presidência de Dwight D. Eisenhower, ou seja, a partir de 1953. Curiosamente, uma das fontes da propaganda do Macartismo também iria ajudar a precipitar o seu fim: a televisão. O jornalista e ex-radialista Edward Murrow apresentava um programa de reportagens na televisão, o
See It Now, e, numa das suas reportagens, Murrow denunciou que um dos condenados pelo senador McCarthy, o tenente da aeronáutica Milo Radulovich, era inocente das acusações. Tal reportagem foi uma das mais contundentes críticas ao Macartismo até aquele momento e a repercussão positiva do programa junto ao público telespectador estimulou o apresentador a prosseguir com essa linha editorial. Logo, o programa criticaria diretamente o próprio McCarthy.
O programa recebeu pesadas críticas e retaliações do senador, mas, naquele momento, os exageros do Macartismo já eram visíveis por uma parte expressiva da população e, depois de quase quatro anos, a opinião pública norte-americana ficou contra o senador e a favor do enfoque crítico do programa. O
"dique" do Macartismo encontrou os seus primeiros
"vazamentos".
Logo, McCarthy iria tentar impor o seu
"terror" nas forças armadas, que não iriam aceitar esse tipo de interferência. Num julgamento público, o advogado das forças armadas, Joseph Welch, humilhou o senador em público em 1954. O Macartismo estava encerrado.
Logicamente que nem toda a produção de ficção científica da época estava ligada à idéia de
"infiltração" comunista ligada ao Macartismo, como indica o clássico
O Dia em que a Terra Parou (The Day the Earth Stood Still, 1951), dirigido por Robert Wise, que apresenta um drama político de fundo pacifista - onde os dois lados deveriam se comunicar melhor para poder existir, na Terra, uma vida melhor para todos.
Mas é a associação entre a
"infiltração" comunista e a vida norte-americana que, ainda hoje, é feita sobre outro clássico da época,
Vampiros de Almas (Invasion of the Body Snatchers, 1956), de Don Siegel, onde as vagens seriam comunistas infiltrados na sociedade norte-americana, vagens estas que copiam as pessoas, surgindo, assim, seres sem sentimentos e sem alma. O próprio Siegel já desmentiu esta metáfora. Na verdade, a idéia do filme é mostrar os males de uma
"vida vegetativa" de um modo geral - e não são necessários comunistas ou extraterrenos para que os terráqueos desperdicem sua vida em
"estado vegetativo".
Orivaldo Leme Biagi
Orivaldo Leme Biagi, Doutor em História pela UNICAMP, Professor da FAAT e Membro da Academia Literária Atibaiense (ALA).