CONSTANTINE por Felipe M.Guerra
Ele é um mago cínico que não se importa com nada... e é o herói da história!!!
Sem sombra de dúvida, CONSTANTINE é um dos filmes mais bizarros dos últimos tempos. Trata-se de um verdadeiro festival de discrepâncias: é um filme inteligentíssimo, mas também um blockbuster, um filme-pipoca. Tem um roteiro complexo, cheio de filosofia e religião, mas também é divertido e movimentado. É terror, mas não assusta. É aventura, mas não tem tantas cenas de ação assim. É uma adaptação de história em quadrinhos, mas tem pouco a ver com o material em que se inspira. Está cheio de astros, mas parece um filme classe B. E tem anjos que são malvados e demônios que são simpáticos. Pode? E o mais curioso é perceber que toda esta doideira funciona: CONSTANTINE também é, ao seu modo bizarro, um dos melhores filmes do gênero fantástico lançados nos últimos anos, com raros diálogos brilhantes e uma história que deixa você realmente pensando depois de sair do cinema - mesmo que os 20 minutos finais partam para o vale-tudo e para o excesso de efeitos especiais.

CONSTANTINE é baseado numa revista em quadrinhos chamada HELLBLAZER (era para ser HELLRAISER, mas Clive Barker chegou antes e criou sua série com este título). Por sua vez, HELLBLAZER é baseada num personagem secundário criado pelo genial autor inglês Alan Moore (sim, o mesmo que escreveu preciosidades dos quadrinhos, como "Watchmen", "Do Inferno", "V de Vingança", "A Liga dos Cavaleiros Extraordinários" e outras maravilhas) para a revista do MONSTRO DO PÂNTANO, da DC Comics. O nome deste coadjuvante era John Constantine, um mago inglês mal-humorado e cínico, natural de Liverpool, que apareceu pela primeira vez nas páginas da revista em 1985. Naquela época, tentava ajudar o Monstro do Pântano a entender seu passado e seus poderes. O personagem foi criado com a fisionomia do cantor Sting, que fazia muito sucesso à frente da banda The Police.
Anos depois de ser coajuvante do Monstro do Pântano, John Constantine ganhou sua própria revista, HELLBLAZER, dentro do selo Vertigo (as histórias da DC Comics voltadas ao público adulto). Aos poucos, roteiristas talentosos, como Garth Ennis (que anos depois criaria o Preacher, outro personagem polêmico que querem adaptar para o cinema), conceberam toda uma origem e passado para Constantine. O velho mago tinha um passado negro: perdeu vários amigos para demônios que invocou durante suas primeiras experiências com magia, e também estava irremediavelmente condenado ao inferno devido aos seus inúmeros pecados. Por isso, era adepto da filosofia do "foda-se": não se importava com nada nem ninguém, muito menos se arrependia dos seus feitos, preferindo perambular sem rumo pelas ruas de Londres, fumando incansavelmente e bebendo em pubs. Mas sempre arrumando tempo para confrontar as ameaças sobrenaturais que surgiam, claro.

Lendo assim, pode parecer que Constantine é uma espécie de "Dylan Dog", aquele personagem dos quadrinhos italianos que em cada revista combate um monstro ou fantasma diferente. Mas não é: as histórias de Constantine são mais intimistas e dialogadas, sem ação. Às vezes, são feitas unicamente de diálogos, do início ao fim. Ao invés de combater e exorcisar demônios, como vemos na versão cinematográfica, o Constantine dos quadrinhos pode passar uma história inteira só conversando e bebendo cerveja com um velho fantasma dos tempos pagãos, chateado por ter sido esquecido nos tempos atuais (como aconteceu na aventura "O Senhor da Dança"). É isso que torna a revista HELLBLAZER tão especial: o leitor nunca sabe o que vem pela frente - se muita ação, muito terror ou simplesmente muitos diálogos e drama.
Já em CONSTANTINE, o filme, o personagem foi transformado de velho bruxo decadente em um heróico inimigo das trevas, uma espécie de "James Bond religioso", que vive de combater as forças do mal. Suas origens como mago ficam em segundo plano, mas o mal-humor e o cinismo continuam fortes na pele do astro Keanu Reeves, uma escolha que desde o início levantou polêmica para o papel - o próprio Alan Moore reclamou, dizendo que os produtores deveriam ter escolhido o cantor Sting, fonte de inspiração do visual do personagem, para representá-lo no cinema. A ambientação também mudou da Inglaterra para Los Angeles, bem como o visual do mago: de loiro que anda sempre de sobretudo, o Constantine cinematográfico virou americano moreno que passa o filme de terno e gravata - lembrando outro bom filme de Reeves, a obscura ficção científica JOHNNY MNEMONIC. Mas as características principais do personagem continuam: além de não dar a mínima para ninguém, nem para ele mesmo, Constantine continua fumando que nem uma chaminé, acendendo um cigarro na bagana do outro.
Logo no começo de CONSTANTINE, descobrimos que o mago agora americano dedica-se a exterminar demônios e outras pragas nas ruas de Los Angeles. Sua primeira entrada em cena é ajudando uma menina no bairro latino da cidade, que está possuída por um demônio. Cheio da bossa, Constantine entra no quarto da possuída e realiza um exorcismo moderno e estilizado, xingando o demônio e ainda fazendo gestos obscenos para ele, demonstrando desde cedo que é um herói nada convencional. Na verdade, dá a impressão de estar tão acostumado a fazer aquilo que realiza todo o exorcismo sem qualquer emoção, como se já tivesse passado por aquilo um milhão de vezes e estivesse até chateado com a coisa, numa impagável brincadeira com o ritual lento e assustador visto no clássico O EXORCISTA.
 
O próprio Constantine cinematográfico explica, em determinado momento, que nasceu com a capacidade de enxergar anjos e demônios - o que nos quadrinhos não acontecia bem assim. A coisa funciona da seguinte maneira, no universo de CONSTANTINE: existe céu e existe inferno, como prega a religião católica. Porém, ao contrário do que todos pensamos, eles estão no nosso próprio mundo, só que em planos separados. Ao mesmo tempo, anjos e demônios caminham pela Terra disfarçados. Eles não têm permissão para invadir nosso plano terrestre, como fez aquele demônio desavisado que invadiu o corpo da menininha no início. Mas podem dar "palpites" livremente para tentar influenciar no nosso livre arbítrio. É como se o mundo fosse uma grande brincadeira de Deus e do diabo. Ou, como Constantine explica em uma das frases fortes do filme: "Deus é uma criança brincando com uma fazenda de formigas".
Sempre que um demônio invade o plano terrestre, o anti-herói aparece para despachá-lo de volta à sua dimensão. Isso acontece não porque Constantine seja um herói generoso e nobre, com o propósito de livrar o mundo do mal. Nada disso: acontece que John sabe que está perdido e que vai direto para o inferno quando morrer; por isso, tenta compensar as ruindades da sua vida fazendo o bem, de olho numa possível vaga no céu na hora do "julgamento". A alma do mago já está entregue para o inferno porque, quando jovem, ele não suportou as visões que tinha e tentou o suicídio. Ficou clinicamente morto por alguns minutos e foi para o inferno (local para onde os suicidas vão sem escalas, segundo a fé cristã). Só que ficou tão impressionado com o que viu que decidiu que jamais voltaria para lá.
O roteiro de CONSTANTINE também inclui alguns amigos para o mago-exorcista. Um deles, o taxista Chas (Shia LaBeouf), é um jovem de 19 anos que vê Constantine como ídolo e o acompanha em suas missões, tentando tornar-se também um mago experiente. Este é o único personagem do filme que também é oriundo dos quadrinhos, embora nas páginas de HELLBLAZER Chas seja um taxista adulto e sem qualquer pretensão de tornar-se um "novo Constantine" - muito pelo contrário, está quase sempre enchendo a cara ou brigando com o "amigo". Os outros companheiros do mago no filme não existem nos quadrinhos, são criações originais para o cinema: um é Hennessy (Pruitt Taylor Vince, de A CELA), um padre paranormal e alcoólatra, que ajuda Constantine em seus exorcismos; o outro é Beeman (Max Baker), um estudioso das artes ocultas que tem todo tipo de item mágico ou místico, de "sopro de dragão" a fragmentos das balas que atingiriam o Papa João Paulo II naquele atentado em Roma!!! É Beeman quem fornece os materiais que Constantine utiliza em seus rituais e invocações.
 
Existe ainda no filme a figura de Papa Midnite (Djimon Hounsou, de GLADIADOR), outro que também está nos quadrinhos, mas que no filme ganha uma roupagem bem diferente. Aqui, Midnite é uma espécie de sacerdote vodu que resolveu ficar neutro na guerra entre céu e inferno. Assim, inventou um night club que é o único local na Terra onde anjos e demônios podem se encontrar em paz, onde a entrada de humanos não é permitida. É divertido ver, nas cenas neste clube, os clientes transformando água em vinho, como fazia Jesus Cristo no evangelho, só que de brincadeira! No roteiro original de CONSTANTINE, também havia um outro "amigo", uma demônio chamada Ellie, inspirada em uma personagem dos quadrinhos. Suas cenas chegaram a ser filmadas, com a atriz Michelle Mognahan, mas acabaram no chão da sala de edição e deverão ser incluídas no lançamento em DVD.
Com tantos elementos por si só interessantes e que já renderiam um bom filme, é de surpreender que tenham criado ainda uma trama complicada para amarrar todos os personagens. A introdução mostra um mexicano encontrando a velha "Lança do Destino", roubada pelos nazistas e escondida no México. Trata-se da ponta da lança que perfurou o peito de Cristo quando ele estava na cruz, segundo a crença católica. Por conter o sangue de Jesus, transformou-se em um poderoso artefato místico. E, claro, os demônios a cobiçam, dentro de um plano mirabolante para trazer ao mundo o filho de Lúcifer e destruir a Terra.
Paralelamente, uma policial de Los Angeles chamada Angela Dodson (a bela Rachel Weisz, de A MÚMIA e O RETORNO DA MÚMIA) perde sua irmã gêmea, Isabel (interpretada também por Rachel, claro). A garota se atira do alto do hospital psiquiátrico onde estava internada. Católica fervorosa, Angela se desespera, pois sabe que o destino da irmã é o inferno por ela ter tirado a própria vida. A policial tenta até falar com um padre que é velho amigo da família, pedindo se seria possível fazer algo para livrar Isabel do tormento, mas é inútil. Angela vê, então, uma única solução: convencer Constantine para ajudá-la a salvar a irmã das chamas do inferno.
 
Porém, o próprio Constantine tem grandes problemas para se preocupar: além dos demônios que continuam invadindo o nosso plano, obrigando-o a celebrar os exorcismos para que voltem ao seu lugar de origem, ele passa mal freqüentemente e acaba escarrando sangue na pia do banheiro. Ao procurar um médico, descobre que está com câncer terminal nos pulmões, resultado de uma vida inteira fumando 30 cigarros por dia. Este é o toque irônico do roteiro: sem medo de enfrentar demônios e de descer ao inferno como se estivesse passeando no parque, Constantine acaba vendo num "simples" câncer a maior ameaça à sua existência! Também é interessante observar que, quando ele é procurado por Angela e descobre todo o plano para trazer o filho de Lúcifer para a Terra, Constantine prontamente resolve ajudar, mas não por estar preocupado com o futuro do planeta ou para ajudar o próximo, e sim de olho numa tentativa de salvar a própria pele!
Este é John Constantine: um filha da puta egoísta e canalha, que só pensa nele mesmo. E isso que o roteiro do filme ainda deu uma suavizada no personagem, inclusive transformando-o num "cara legal" e heróico na parte final. E é justamente na parte final que CONSTANTINE perde um pouco o tom, ao se entregar freneticamente a um festival de efeitos especiais e cenas de ação desnecessárias - como aquela em que o anti-herói enfrenta um exercito de demônios dando porradas e tiros com uma espingarda em forma de cruz!
Também têm papel fundamental na história dois soldados do céu e do inferno, respectivamente. O das forças do paraíso é o anjo Gabriel, representado como uma figura andrógina, de terno e gravata, pela atriz inglesa Tilda Swinton (de ADAPTAÇÃO e VANILLA SKY). Para quem não vai muito à missa, Gabriel é um dos principais anjos a serviço de Deus, tendo pessoalmente expulsado Adão e Eva do Paraíso após o episódio do Pecado Original, e tendo também anunciado à Virgem Maria que ela estava grávida de Jesus Cristo. Constantine vai encontrá-lo tentando fazer um acordo para escapar das chamas do inferno; quando o anjo diz que, pela sua vida pecadora, ele está condenado ao inferno, o mago fica furioso, questiona a justiça divina e ainda atira uma Bíblia no chão entre blasfêmias (e isso, surpreendentemente, foi produzido por um grande estúdio!!!). Já o peão das forças infernais é Balthazar (Gavin Rossdale, da banda Bush), representado na pele de um poderoso executivo, também de terno e gravata, mas vestido como um mafioso italiano.
 
É um verdadeiro milagre que um filme como CONSTANTINE tenha sido produzido por um grande estúdio. Acontece que mesmo sendo um filme-pipoca, com bastante ação e efeitos especiais, o roteiro tem uma temática delicada (a briga entre céu e inferno; questionamentos sobre a religião). Por muito menos, filmes que mexeram com algumas destas questões foram defenestrados pelos católicos e acabaram cercados de polêmica, como a comédia DOGMA, de Kevin Smith, que quase foi banida por apresentar Deus na figura de uma mulher (a cantora Alanis Morrisette). Pois CONSTANTINE, mesmo pegando muito mais pesado que DOGMA, passou sem grandes polêmicas.
Por outro lado, o roteiro do filme foi uma verdadeira novela. Quando o projeto se iniciou, há cerca de sete anos, a produção ainda se chamava HELLBLAZER, como nos quadrinhos, e Constantine seria interpretado por... Nicolas Cage! A primeira versão do script era de Kevin Brodpin, que só tinha como crédito o péssimo GLIMMER MAN, suspense/policial com Steven Seagal, seguido por MINDHUNTERS, suspense obscuro dirigido por Renny Harlin. Esta primeira versão do roteiro já apresentava Constantine como um americano vivendo em Los Angeles - uma exigência dos produtores para fazer o filme. Porém, inicialmente, a idéia era adaptar à risca uma das minisséries mais importantes do personagem nos quadrinhos, chamada "Hábitos Perigosos", e escrita por Garth Ennis. Muitos dos detalhes do filme (veja mais no texto abaixo) vieram desta minissérie, como Constantine descobrindo que está com câncer terminal, a forma como ele escapa da doença e o irônico diálogo com o anjo Gabriel.
Porém, os produtores achavam que a história ainda não estava "fantástica" o suficiente. Contrataram então Frank A. Cappello (diretor de AMERICAN YAKUZA) para dar uma mexida no roteiro, acrescentando mais ação e efeitos. Aparentemente, foi na versão de Cappello para o roteiro que entraram elementos como a policial Angela e a Lança do Destino, além da trama sobre o nascimento do filho de Satã. Pessoalmente, eu preferia uma adaptação mais fiel de "Hábitos Perigosos", uma história que já tem um potencial excelente para virar filme. Mas é claro que os executivos da Warner, de olho em mais uma série cinematográfica à la MATRIX, quiseram aproveitar a presença do astro Keanu Reeves para transformar John Constantine em um herói diferente e, quem sabe, iniciar uma nova franquia.

Portanto, para encarar CONSTANTINE do jeito como se deve, é importante esquecer qualquer semelhança do John cinematográfico com o John dos quadrinhos. É como se fossem personagens completamente diferentes: o herói interpretado por Keanu é apenas "inspirado" naquele da HQ. Só assim para engolir cenas como as que o Constantine do filme usa armas sagradas (uma soqueira com crucifixos entalhados e uma espingarda em forma de cruz!!!) para destruir um montão de demônios. É algo que não se encaixa de forma alguma no universo dos quadrinhos, mas que faz sentido dentro da forma anárquica como Constantine foi adaptado para o cinema. O personagem dos quadrinhos também não tem aquelas tatuagens que Keanu Reeves traz nos pulsos, e que representam um símbolo alquímico de proteção contra maus espíritos. Entretanto, como a maioria dos brasileiros NÃO conhece os quadrinhos (que foram muito pessimamente lançados por aqui), não haverá qualquer problema para encarar esta adaptação. Confesso que eu mesmo critiquei duramente a produção ao ver o trailer e perceber que não tinha nada em comum com HELLBLAZER. Porém, basta encarar o filme como se fosse uma produção independente dos quadrinhos para divertir-se sem problemas.
Infelizmente, eu não concordei com a forma como John Constantine passou de "o maior FDP do planeta" a uma quase redenção no final. Foi praticamente um processo de "beatificação" do mago para transformá-lo em herói, e não num anti-herói. Isso força um pouco a barra, ainda mais quando lembramos do Constantine dos quadrinhos, que não tinha escrúpulos em mandar o anjo Gabriel "enfiar no c..." os 10 Mandamentos e nem tinha medo de mostrar o dedo médio para Satanás em pessoa. Esta escrotice do personagem foi abrandada no final do filme, que não deverá ter uma continuação tão cedo - foi um fracasso de bilheteria, tendo custado 100 milhões de dólares e arrecadado, até o início de abril, pálidos 73 milhões nas bilheterias americanas!
Outro detalhe que fica perdido no roteiro é o câncer terminal de Constantine. Se na minissérie "Hábitos Perigosos" ele aparecia visivelmente acabado pela doença, no filme, apesar de cuspir sangue e tossir o tempo inteiro, o herói jamais demonstra muitos sintomas de estar com uma doença terminal. Inclusive parece bastante saudável quando sai dando tiros e socos nos demônios. Este detalhe de que o herói está nas últimas e com os dias contados podia ter sido melhor representado, pois acaba até esquecido depois da meia hora inicial.
O que mais surpreende é o trabalho do diretor Francis Lawrence, mais um videoclipeiro a estrear como cineasta. Este é seu primeiro filme, após dirigir clips para Aerosmith, Will Smith e até Britney Spears. Ele segura bem a função e consegue compor cenas macabras usando como cenário apenas a arquitetura decadente de Los Angeles. Também acerta ao enfocar o inferno não como uma caverna subterrânea cheia de fogo e pessoas queimando em caldeirões (como prega o folclore popular), mas sim como uma versão devastada e incendiada do nosso próprio mundo. O cara tem talento, imprime ritmo à narrativa e provavelmente tenha futuro no cinema. Ainda ganha méritos por ter brigado com os produtores, que queriam "suavizar" um pouco o filme, conseguindo manter sua visão mesmo que a obra ganhasse uma censura maior nos cinemas americanos.

Apesar de certo abuso nos efeitos especiais (principalmente na cena em que o herói enfrenta um demônio cujo corpo é feito de moscas e insetos), CONSTANTINE é um excelente filme-pipoca. E, como eu disse, um dos roteiros mais inteligentes em um blockbuster americano nos últimos anos. Tanto que, ao final da sessão de cinema que acompanhei, cerca de 80% do público não havia entendido bulhufas do roteiro. Pessoas saíam da sala na metade e uma mulher sentada ao meu lado chegou a pensar que Lúcifer (que faz uma participação especial no fim, na pele do ator Peter Stormare) era Deus, só porque ele estava vestido de branco!!! Talvez se ele aparecesse com chifrinhos e rabo pontudo, segurando um tridente em uma das mãos, fosse mais "simples" para o público entender, não é? Outros ainda reclamaram que não entenderam o final (mais precisamente a solução encontrada por Constantine para escapar do inferno), sendo que este é exatamente o ponto alto do roteiro. É uma pena que certos espectadores tenham preguiça de pensar e critiquem um filme como CONSTANTINE apenas porque ele não entrega tudo mastigadinho.
No fim, CONSTANTINE ainda consegue ser mais eficaz ao abordar elementos do céu e do inferno do que muita aula de catequese e sermão de missa de domingo que se vê por aí...
O CONSTANTINE DOS QUADRINHOS
John Constantine, em tradução literal para o português, viraria "João Constatino". E é por aí mesmo: ao criar o personagem, na metade dos anos 80, como coajuvante nos gibis da DC Comics, o autor inglês Alan Moore pensou em nomes marcantes dentro da religião católica. O nome John veio de João, um dos principais apóstolos de Jesus, e Constantine é em "homenagem" ao imperador romano Constantino, o primeiro a ser convertido ao cristianismo e declarar liberdade de religião a todos os romanos, numa época negra em que os primeiros cristãos eram perseguidos pelas forças do Império Romano, sendo presos e atirados às feras no Coliseu.
Tendo um nome tão místico, é claro que John Constantine só podia ser, também, um cara místico. Nos quadrinhos do Monstro do Pântano, quando fez sua estréia oficial (em julho de 1985, na edição nº 37 da revista MONSTRO DO PÂNTANO), ele era um mago inglês que ajudava a criatura a conhecer melhor seus poderes e sua verdadeira natureza. Nesta fase, as vendas da revista praticamente quadruplicaram nos Estados Unidos, graças à qualidade do texto, fazendo com que Alan Moore passasse cinco anos no comando das histórias. No Brasil, a revista chegou a ser lançada em formatinho de gibi, mas nunca teve o mesmo sucesso, numa época em que não se falava de "quadrinhos adultos". Algumas das histórias de Moore foram polêmicas. Uma das capas da revista, que mostrava o Monstro do Pântano crucificado, como se fosse Jesus, acabou sendo censurada, provocando discussões entre o autor e a DC Comics.
 
Nesta primeira fase, entretanto, não se sabia muito sobre o passado de John Constantine. Uma das únicas informações que o leitor recebeu era que a namorada do mago havia sido morta por um demônio. Moore acreditou que John Constantine tinha potencial para ser um personagem principal, e não um coadjuvante. Com a ajuda do amigo roteirista Jamie Delano, criou toda uma história para o passado de Constantine, em Liverpool. Ele teria começado a mexer com magia ainda adolescente, nos liberais anos 70. Entupido de drogas como maconha e cocaína, o mago era líder de uma banda punk chamada Membrana Mucosa, cruzando a Inglaterra com um grupo de amigos. Até que, em Newcastle, Constantine abriu pela primeira vez as portas do inferno, mudando sua vida para sempre.
A partir deste fato traumático, onde a alma de uma garota inocente acabou indo parar no inferno devido à sua inexperiência, Constantine passou a levar uma vida nebulosa, sempre apelando para a magia do caos (espécie de mistura entre todas as artes mágicas existentes), vendo seus amigos morrerem um por um, abandonados por ele quando mais precisavam. Já adulto e quarentão, Constantine tornou-se ainda mais solitário e mal-humorado. Chegou a ser internado por anos num hospício. A verdade é que quem vê o filme CONSTANTINE não consegue entender porquê, exatamente, o anti-herói está tão irremediavelmente condenado ao inferno. Parece que é só pelo fato de ter tantado o suicídio na infância, mas nos quadrinhos o buraco é mais embaixo: John, na verdade, sempre foi mais malvado do que bonzinho. Quando ainda estava na barriga da mãe, ele matou seu irmão gêmeo, sufocando-o com o próprio cordão umbilical. Depois, anda tentou matar o pai. No filme, Constantine desenvolveu na infância o dom de enxergar anjos e demônios, mas nos quadrinhos só ganhou este poder ao receber, contra a sua vontade, uma transfusão do sangue de um demônio chamado Nergal (o mesmo demônio que ele invocou em Newcastle, iniciando sua "carreira").
 
No final dos anos 80, Alan Moore abandonou as histórias de Constantine depois de brigar com a DC Comics, supostamente por problemas com os direitos autorais de outra de suas criações, a extraordinária minissérie "Watchmen". Jamie Delano bancou sozinho, então, as primeiras edições da nova revista HELLBLAZER, cujas histórias tinham John Constantine como personagem principal, e não mais secundário. A estréia foi em janeiro de 1988, com argumento de Delano e desenhos de John Ridgway, lançando a nova cara do personagem: um mago urbano, que andava sempre de sobretudo e fumava, em média, 30 cigarros por dia. Vivia aventuras nas ruas inglesas, onde raramente apareciam supervilões. Na verdade, raramente acontecia alguma coisa: em várias das "aventuras", as tramas se desenvolviam entre conversas e recordações da juventude de Constantine! E nem por isso eram menos eletrizantes ou interessantes...
Outros roteiristas talentosos foram entrando na revista com o passar dos anos. O segundo foi o brilhante Garth Ennis (o mesmo que agora vem provocando furor ao revitalizar o Justiceiro, da Marvel). De cara, Ennis criou uma das grandes histórias do herói, "Hábitos Perigosos", que inspirou a maior parte do filme CONSTANTINE (veja mais no texto abaixo). Ele ficou quatro anos roteirizando as aventuras em HELLBLAZER. Durante esta fase, a revista passou a fazer parte do selo VERTIGO, da DC Comics. Ennis abandonou a revista matando todos os personagens que ele havia criado, para que os autores posteriores tivessem total liberdade de criação. Pode isso? Pois é só uma amostra do universo de John Constantine, que teria ainda outros autores talentosos, como Paul Jenkins, Neil Gaiman, Grant Morrison e Warren Ellis - este último pulou fora quando a editora resolveu não publicar uma história sua, chamada "Shoot" e baseada no massacre de estudantes em Columbine, que depois renderia o premiado documentário TIROS EM COLUMBINE, de Michael Moore. Quem quiser ler esta polêmica história, que continua inédita em todo o mundo, pode encontrá-la na íntegra no seguinte link: www.hellblazerbrasil.net/revistas/shoot.html.
 
Atualmente, as aventuras de Constantine continuam sendo publicadas na revista HELLBLAZER, que já passou do número 200 nos Estados Unidos. Por aqui, as primeiras tentativas de publicar o material foram pelas mãos da Editora Abril, que em 1995 lançou a revista VERTIGO, trazendo, nas três primeiras edições, a minissérie "Hábitos Perigosos" na íntegra. Só que a revista foi cancelada após 12 números e, a partir de então, diversas outras editoras menores iniciaram a publicação de HELLBLAZER no Brasil, porém sempre sem fazer jus ao material que tinham em mãos. As aventuras de Constantine passaram, entre outras, pelas editoras Metal Pesado, Atitude e Tudo em Quadrinhos, que sempre iam à falência após publicar uns poucos números da revista, simplesmente enlouquecendo quem tentava colecionar ou simplesmente acompanhar as histórias. Graças a uma distribuição irregular, somente as grandes capitais brasileiras recebem a revista hoje em dia - que está sendo publicada pela Editora Brainstorm, embora eu confesse não saber se HELLBLAZER continua circulando no país... Bem que alguém podia investir em edições encadernadas das grandes aventuras de Constantine, como já existe nos Estados Unidos, acabando com a bagunça que estas editoras amadoras fizeram na cronologia do personagem. Sonhar é preciso, claro.
Para quem quiser saber mais sobre a vida e a carreira de John Constantine, seus principais roteiristas e desenhistas, principais aventuras, enfim, TUDO sobre o personagem, recomendo uma visita ao excelente site nacional Hellblazer Brasil, totalmente em português, no endereço www.hellblazerbrasil.net. Além de bonito, o site é uma rica fonte de informações sobre a carreira deste inglês maluco. Ali existe até uma seção "FAQ", com respostas para as perguntas mais freqüentes dos não-iniciados no universo do mago. Confira que vale a pena, e nunca é tarde para deixar-se hipnotizar por HELLBLAZER!
OS VERDADEIROS "HÁBITOS PERIGOSOS"
Atenção: Não leia se ainda não tiver visto o filme CONSTANTINE, ou se não quiser saber como é a história em quadrinhos que deu origem ao roteiro cinematográfico.
O roteiro de CONSTANTINE, o filme, inspirou-se principalmente em uma minissérie chamada "Hábitos Perigosos", escrita por Garth Ennis e desenhada por Will Simpson. Nos Estados Unidos, foi publicada em seis capítulos. Já no Brasil acabou saindo nos três primeiros números da extinta revista VERTIGO, lançada pela Editora Abril em 1995 (a excelente revista durou apenas um ano, ou 12 números). Cada edição tinha dois capítulos normais da minissérie. Foi a iniciação de muita gente - a minha, inclusive - no universo de HELLBLAZER, transformando-me irremediavelmente em fã de John Constantine.

A história começa com nosso amargurado anti-herói num pub (como sempre, diga-se de passagem), narrando a história em primeira pessoa, em "off". Ele diz: "Primavera. Todas as coisas continuam vivendo. Tudo menos eu... Eu vou morrer!". John conta, então, como acordou se sentindo mal após uma noite de excessos e vomitou o pedaço de um de seus órgãos internos na pia do banheiro - cena adaptada, porém suavizada, no filme CONSTANTINE.
O velho mago procura um médico e descobre que está com câncer terminal nos pulmões. E tem, provavelmente, apenas mais algumas semanas de vida (cena também usada no filme). Ironicamente, Constantine sai do consultório e acende mais um cigarro. Depois de ter pesadelos com seus amigos mortos, que querem vingar-se por terem perdido a vida por culpa indireta de Constantine, o moribundo chega a visitar um centro de tratamento de câncer, onde os doentes terminais passam os últimos dias de vida. Ali, faz amizade com um deles, Matt, um verdadeiro esqueleto humano, a quem o mago chega a dar um cigarro!
Constantine percebe que precisará de magia para escapar da morte, e por isso resolve procurar um velho amigo chamado Brendan Finn, que mora sozinho num velho farol. Ele pensa que Finn pode ajudá-lo, mas se desespera ao descobrir que o parceiro também está morrendo, só que de câncer no fígado, de tanto beber. Constantine e Finn decidem acabar com tudo num último porre. Acontece que Brendan tem, no porão da sua casa, um velho poço benzido por São Patrício na Antigüidade. Ou seja, um poço particular de água benta!!! Usando uma magia arcana, Finn transforma a água benta em cerveja (pode???), e bebe com Constantine a noite inteira. Uma "santa cerveja"!!!
Logo no início da madrugada, John se despede do amigo bebum e vai até a porta. Lá, encontra um vulto vestido de negro. É Lúcifer em pessoa. O cramulhão está procurando por Finn, que acabou de morrer, porque ele havia feito um pacto com o demo para ter a maior adega de vinhos da Inglaterra!!! Entretanto, existe uma cláusula no contrato dizendo que se o diabo não levar a alma do falecido até a meia-noite, ela irá direto para o céu. Claro que Constantine aproveita estas letrinhas miúdas no contrato para salvar seu amigo de uma eternidade de torturas: ele serve um copo de cerveja a Lúcifer e, quando o demônio bebe, Constantine desfaz o encantamento, transformando a cerveja de volta em água benta, e fazendo com que o diabo literalmente derreta. Para arrematar, o mago ainda retalha o rosto de Lúcifer com uma garrafa quebrada!
 
Resultado: a alma de Finn está salva, mas Constantine está literalmente fodido. "Ele vai ficar furioso lá embaixo, e nem quero pensar no que vai fazer comigo quando eu aparecer", pensa o anti-herói. Pois ele sabe que, devido aos inúmeros pecados da sua vida, vai direto ao inferno no momento que parar de respirar. Mesmo assim, aproveita seus últimos momentos para tentar negociar uma saída com representantes dos dois lados. Primeiro ele fala com Ellie, uma amiga que é um demônio do inferno (cujas cenas foram cortadas na versão cinematográfica de CONSTANTINE). Ela confirma as suspeitas de Constantine, dizendo: "Você deixou o chefe tão puto que dá medo. Toda a fúria acumulada em milênios com todos esses santos, mártires e malditos samaritanos que escaparam da mão dele... O homem vai descontar em você, John!".
Como do lado do inferno ele não encontrou uma saída, John resolve procurar pelo "Esnobe", apelido do anjo Gabriel, que passa seus dias num clube de grã-finos. Constantine e o anjo têm um quebra-pau feio, que foi parcialmente adaptado para o filme, mas as melhores frases ficaram mesmo nos quadrinhos. Entre os momentos cínicos está o seguinte diálogo:
- GABRIEL: Você está morrendo de câncer pulmonar porque fuma 30 cigarros por dia desde os 17 anos. E vai para o inferno por causa dos males que causou. Você tentou matar seu pai, entre outras coisas. Usou seus amigos como proteção, depois abandonou todos quando estavam arruinados. Abusou de magia e feitiçaria quando era proibido... Os 10 Mandamentos não passam de uma piada para você!
- CONSTANTINE: Os 10 Mandamentos? Eu não acredito que estou ouvindo isso... Deus do céu...
- GABRIEL: Você desobedeceu as regras, Constantine. Só isso...
- CONSTANTINE: Regras? REGRAS? Fodam-se as suas regras! Enfia no cu! E o que me diz de todo o bem que eu fiz, hein? O que me diz?
- GABRIEL: Há mais mal em sua vida do que bem, Constantine. Muito mais...
- CONSTANTINE: Ahhh, entendi... Tem um babaca em algum lugar segurando uma balança, pesando os quilos de bem e mal? Esse é o problema de vocês! Todo o seu bando anda por aí, como um monte de babacas, vendo tudo em preto e branco. É verdade, vocês não entendem nada sobre nós. E digo mais: vocês são o problema, não nós. Foram vocês que armaram esse monte de regras pra nossa vida e nem entendem a gente!
- GABRIEL: Apesar de todos os seus protestos e arrogância, você está condenado, porque o inferno reivindicou sua alma. E é para o inferno que você irá...
 
Brilhante, não? Pois logo depois do bate-boca com o anjo, Constantine percebe que não há muito a fazer além de tentar uma última e desesperada cartada. Ele então se despede da irmã, do amigo Chas, do moribundo Matt, e parte para um plano mirabolante visando enganar o inferno. Ele se refugia em um velho prédio de apartamentos onde realiza um ritual satânico, chamando das trevas o segundo dos três governantes do inferno (o primeiro é o próprio Lúcifer). Constantine vende sua alma para este demônio. E, no momento seguinte, chama e vende a alma também para o terceiro dos três. Ou seja: as três lideranças infernais agora possuem oficialmente a alma do odiado Constantine para fazer o que bem entenderem!
O velho mago não é bobo nem nada e sabe que isso vai provocar uma grande briga entre os três irmãos infernais. Por isso, se suicida logo depois de selar os pactos, cortando os pulsos. Enquanto a vida se esvai em sangue, Lúcifer aparece salivando de vontade de torturar Constantine, pela humilhação passada ao beber água benta. "Eu vou matar você uma vez por minuto todos os dias, Constantine... Várias e várias vezes...", ameaça Satanás, furioso. Mas logo aparecem os outros dois irmãos infernais, todos cobrando pela alma do quase morto Constantine!
Após uma rápida discussão, eles chegam à conclusão de que o inglês bastardo não pode morrer. Pois, se isso acontecer, a alma dele terá que ficar sob a responsabilidade de um dos três... mas todos querem reclamar o direito sob ela, o que pode iniciar uma briga com poder suficiente para destruir o inferno para sempre! Por isso, Lúcifer cura o anti-herói do câncer, abrindo seu peito com as mãos (outra cena suavizada na versão cinematográfica); depois, cauteriza os ferimentos nos pulsos. É como se Constantine renascesse, completamente saudável. "Eu derrotei o diabo, derrotei os três filhos da puta e, de quebra, consegui curar o meu câncer!", comemora o mago, com seus botões. Mas o diabo está furioso. Segue-se outro diálogo genial escrito por um inspiradíssimo Garth Ennis:
- LÚCIFER: Constantine! Mais do que tudo que eu quis, mais do que o coração do Nazareno numa bandeja de prata, mais do que me banhar em sangue de anjos enquanto o senhor celestial se afoga em excrementos de abutres, eu quero VOCÊ, Constantine. Vou matar você um bilhão de vezes!
- CONSTANTINE: Não, não vai. Você não vai me matar nem uma vezinha. Na verdade, imagino que vai dar o melhor de si para me manter intacto. Assim que eu morrer, a velha alma vai ser cobrada, não? Por isso, no minuto que eu bater as botas, vocês três vão lutar, gostem ou não... E todos vão perder!

Acendendo mais um cigarro, já que está com os pulmões novinhos em folha, zero quilômetro, e não precisa mais se preocupar com o câncer, o renascido Constantine ainda caçoa dos três poderosos demônios, fazendo um gesto obsceno com o dedo médio e dizendo: "A vida vai ser moleza com vocês três tomando conta de mim!".
"Hábitos Perigosos" é uma verdadeira obra-prima da fina ironia e do absurdo, que merecia uma bela adaptação literal para o cinema. Como isso provavelmente jamais vai acontecer, porque o mundo não é nem nunca vai ser um lugar justo, não descanse até não encontrar estes três números da revista VERTIGO e ter em sua coleção esta que é uma das grandes minisséries dos quadrinhos de todos os tempos!
Algum tempo depois, quando Ennis já havia saído do quadro de autores da revista, o roteirista australiano Paul Jenkins entrou para o time de HELLBLAZER e criou a surpreendente revanche de Lúcifer pela humilhação que John lhe fez passar em "Hábitos Perigosos". Mas aí já é outra história...
Felipe M.Guerra
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CONSTANTINE (Constantine, EUA, 2001). 121 minutos
Direção: Francis Lawrence
Roteiro: Kevin Brodbin; Frank A. Cappello, baseado numa revista de Jamie Delano e Garth Ennis
Produção: Lorenzo DiBonaventura; Akiva Goldsman; Benjamin Melniker; Lauren Shuler Donner; Erwin Stoff; Michael E. Uslan
Música: Klaus Badelt; Brian Tyler
Fotografia: Jeff Cutter; Philippe Rousselot
Edição: Wayne Wahrman; Nicholas Hasson
Desenho de Produção: Naomi Shohan
Direção de Arte: David Lazan
Maquiagem: Barney Burman; Joel Harlow; Christopher Allen Nelson; Stan Winston
Elenco: Keanu Reeves (Constantine); Rachel Weisz (Angela Dodson/Isabel Dodson); Shia LaBeouf (Chas); Djimon Hounsou (Midnite); Max Baker (Beeman); Pruitt Taylor Vince (Padre Hennessy); Gavin Rossdale (Balthazar); Tilda Swinton (Gabriel); Peter Stormare (Lucifer); Jesse Ramirez; José Zúñiga; Francis Guinan; Larry Cedar; April Grace; Suzanne Whang; Johanna Trias; Alice Lo
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