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"Não é possível que seja uma obra de Stephen King!!!". A exclamação é quase certa vinda de quem assiste ao filme Conta Comigo (Stand By Me, 1986). Adaptado de um conto do autor, que através de seus trabalhos literários ficou conhecido como o mestre do suspense e do sobrenatural, Conta Comigo pode causar tal espanto por ser classificado pela indústria cinematográfica como um drama que aborda temas como amizade, lealdade, crescimento pessoal e sentimentos de perda, entre outros. Porém, com uma analise mais detalhada da trama, percebe-se que a mesma também trabalha com um fator sempre presente nas obras de King: o medo e as formas nas quais ele se manifesta. A diferença é que em Conta Comigo, tal sentimento consegue ser mostrado de uma forma mais próxima do cotidiano, conseguindo por isso ser real e de certa forma, poética, dentro de uma narrativa quase autobiográfica do autor. |
Stephen King tinha apenas 12 anos quando voltava para casa ao lado de um amigo, durante uma caminhada pelas áreas florestais do Estado norte-americano do Maine, quando encontrou o cadáver de um rapaz da região, que havia desaparecido dias antes. Como um primeiro contato real com a morte, o fato marcou a vida do futuro escritor, que na idade adulta, adaptou tal acontecimento, no formato de conto, chamado "Outono da Inocência: O Corpo" (The Body), lançando no livro As Quatro Estações (Different Seasons, 1982). Tal obra é marcada por trazer histórias mais voltadas para o drama e questões existencialistas do homem, deixando um pouco de lado temas sobrenaturais. A versão para o cinema de Conta Comigo viria quatro anos mais tarde, sob o comando do diretor Rob Reiner (Lembranças de Hollywood, 1990) e está, até hoje, como uma das melhores adaptações baseadas na obra de King feitas para a tela grande.
No filme, conhecemos quatro amigos tipicamente adolescentes que aproveitam como podem o final das férias escolares durante a década de 60. O grupo é formado pelo rebelde Chris (River Phoenix, de Garotos de Programa, 1991), o introspectivo Gordie (Wil Wheaton, de A Última Prostituta, 1991), o explosivo Teddy (Corey Feldman, Sexta-feira 13 - Parte 4, 1984) e o nerd Vern (Jerry O'Connell, Pânico 2, 1997). Tudo vai dentro da normalidade, até que Vern descobre que um garoto da vizinhança morreu atropelado por um trem e que ninguém sabe exatamente o local onde o corpo está. Como uma aventura, os quatro amigos deixam suas casas para passar o fim de semana na floresta movidos pela idéia de ver um homem morto.


O filme nos conduz quase como um quinto integrante do grupo, que passamos a conhecer cada vez mais durante o percurso. Com o desenrolar da trama, vamos perceber que a vida não tem sido fácil para nenhum deles, que se apegam como podem aos momentos finais de uma infância que parece não querê-los mais, ao mesmo tempo em que começam a perceber a chegada de um mundo adulto bastante temido. Trata-se da mais forte metáfora que King nos apresenta sobre o medo que vem com o fim da infância. Em qualquer filme, ou produção literária que tenha como finalidade de provocar medo, tal sentimento é transmitido por estímulos externos, como um assassino, um monstro ou algum evento sobrenatural. Em
Conta Comigo, que voltando a lembrar, possui uma história voltada para o drama, existe o medo de algo inevitável e do qual não se pode fugir: crescer e aceitar a vida como ela é.
Os garotos percebem isso empiricamente e mesmo que tentem se mostrar fortes, são na realidade fracos e não sabem como lidar com tais acontecimentos. O filme possui momentos que exemplificam isso através de cada um dos personagens e seus temores interiores. Chris é o jovem rebelde da trama, mas que durante uma conversa noturna com seu amigo Gordie, retira todas as máscaras e chora compulsivamente, de raiva dos adultos e de como é fraco diante de um. O mesmo Gordie vive com o peso da morte do irmão, que para a família era o filho preferido.
Afirmar que o medo mostrado pelos personagens de
Conta Comigo seja o principal pilar de sustentação da obra seria completamente falso. Trata-se apenas de um dos elementos da trama, mas que por ser trabalhado e apresentado dentro de uma forma poética, quase lúdica, acaba passando desapercebido, diluindo-se dentro da narrativa. Principalmente porquê o filme trabalha de forma magistral elementos nobres como a própria perda da inocência, o valor da amizade e a importância dos momentos que marcam as pessoas.
O diretor Reiner conduz de forma brilhante a trama, alternando belos momentos de poesia com fortes seqüências de forte apelo emocional. O elenco também possui grande mérito no resultado final do filme graças aos quatro garotos que estão muito bem nos seus respectivos papéis gerando naturalidade e ajudando o interesse pela trama. Aliás, King consegue criar excelentes histórias envolvendo crianças e adolescentes, como nos sucessos
O Iluminado (The Shining, 1980), It (It, 1990) e
O Aprendiz (Apt Pupil, 1998). Este último também possuindo grande apelo dramático.
A parte técnica do filme é impecavelmente bem produzida retratando com fidelidade os anos 60 e seus hábitos e costumes. A trilha sonora é um quesito especial em
Conta Comigo, repleto de hits da época, que conta ainda com a canção que leva o título do filme,
Stand By Me, de John Lennon, na voz de Ben E. King.

Ao final do filme, quando os jovens encontram o cadáver, uma outra metáfora de King é mostrada através do sentimento de perda visto em cada um dos meninos durante o filme e da forma como eles agem perante o corpo morto sendo na verdade um momento de transformação. O epílogo do filme é brilhante, e mostra justamente como um dos valores tidos como mais sólidos da trama, a amizade, também se perde quando o companheirismo da infância, tido como mais verdadeiro e leal, deixa de existir na fase adulta por diversos motivos. E King entrega essa conclusão para o telespectador questionando qual adulto tem amigos como os quais tinha na infância. Em uma das frases mais marcantes do filme, o então adulto Gordie (Richard Dreyfuss,
Contatos Imediatos do Terceiro Grau, 1977) relembrando da infância reflete.
"Amigos nas nossas vidas são como garçons em restaurantes. Sempre passam, porém, alguns demoram mais do que outros". Temos então mais uma análise de sentimento de perda e a confirmação de que algumas experiências são únicas e o medo é algo implícito em todas as pessoas, assim como demais sentimentos, sejam positivos ou negativos.
Fica então a pergunta. Por quê você, fã de filmes de mistérios, sobrenaturais, terror e suspense deve assistir
Conta Comigo? Simples, pelo motivo de além de ter uma excelente história, também consegue trabalhar de forma real o medo empírico que habita em cada um de nós. Além de ser uma produção que possui vários significados e diferentes leituras conseguindo por isso agradar a diversos tipos de públicos. Trata-se de um filme humano, sobre valores humanos reais e referentes aos caminhos que devem ser percorridos durante o período de vida de uma pessoa, onde o medo faz parte das transformações que acontecem durante estas jornadas.
Filipe Falcão
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CONTA COMIGO (Stand by Me, Estados Unidos, 1986). 89 minutos
Direção: Rob Reiner
Roteiro: Raynold Gideon; Bruce A. Evans; baseado num texto de Stephen King
Produção: Bruce A. Evans; Raynold Gideon; Andrew Scheinman
Fotografia: Thomas Del Ruth
Música: The Chordettes; Buddy Holly; Jerry Leiber; Jack Nitzsche
Edição: Robert Leighton Desenhos de Produção: J. Dennis Washington
Elenco: Wil Wheaton (Gordie Lachance); River Phoenix (Chris Chambers); Corey Feldman (Teddy Duchamp); Jerry O'Connell (Vern Tessio); Kiefer Sutherland (Ace Merrill); Casey Siemaszko (Billy Tessio); Gary Riley (Charlie Hogan); Bradley Gregg (Eyeball Chambers); Richard Dreyfuss (O escritor); John Cusack (Denny Lachance)
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