CUBO: ZERO

Por Felipe M.Guerra

Terceiro filme da série mantém a inteligência e continua explicando pouco.

Confesso que me senti um pouquinho mais burro ao ir até a locadora para pegar o filme CUBO ZERO, o terceiro de uma série iniciada por uma produção independente e inovadora que, originalmente, não deveria ter continuações. Estou falando do excelente CUBO, de Vicenzo Natali, lançado em 1997. O motivo para me achar mais burro é que a fama desta nova seqüência era a de explicar, tintim por tintim, a finalidade da existência do Cubo e as pessoas por trás dele, detalhes que ficaram sem resposta no filme original (e aí reside justamente o charme do filme). Estes mesmos detalhes os produtores tentaram explicar na primeira continuação, CUBO 2: HIPERCUBO, uma porcaria que só serve para confundir ainda mais a cabeça do espectador.
E a própria frase na capinha do DVD/VHS nacional de CUBO ZERO evidencia este caráter didático: à tagline original, que era apenas "Isolamento. Pânico. Terror.", a distribuidora brasileira incluiu a frase: "...E finalmente uma explicação", tentando atrair aquele público que não gostou de CUBO e HIPERCUBO simplesmente porque eles deixavam muitas dúvidas no ar.

Foi com muita satisfação que eu descobri que esta nova seqüência não tenta ser didática e nem pretende explicar tudo por trás do Cubo, como parecia ser a proposta. Tudo porque quando surgiram as primeiras notícias sobre o desenvolvimento do projeto, parecia que a idéia era mostrar, bem mastigadinho, os processos de invenção do Cubo, as pessoas detalhando sobre seu objetivo e detalhes como a localização do experimento, quem financiou o dito cujo, etc, etc. Entretanto, tirando alguns poucos detalhes, como o fato de mostrar operários que trabalham do lado de fora do Cubo, CUBO ZERO explica bem pouca coisa e continua deixando muito no ar. Quem adora ver filmes onde tudo vem bem explicadinho vai novamente se arrancar os cabelos, pois nunca fica claro o propósito do experimento nem quem, afinal, está por trás dele.



Eu continuo até agora pensando que o CUBO original era tão fascinante porque deixava o espectador completamente alucinado sem precisar explicar o que era o Cubo e quem tinha construído aquela monstruosidade. A idéia geral do filme é mostrar como os personagens, mesmo que tenham que juntar forças para fugir do Cubo onde estão presos, não param de brigar e se matar. É uma gigantesca crítica social... dentro de um Cubo! E não importa quem são eles, como foram parar ali, quem fez o Cubo e se existe uma saída, dentro do contexto que o filme original enfoca. Mesmo assim, durante o andamento da história, os personagens do original debatiam suas suposições para a existência do Cubo. Se você não lembra, vamos recapitular:

HIPÓTESE 1: O Cubo teria sido construído pelo governo com o próposito de aprisionar e torturar prisioneiros de guerra.

HIPÓTESE 2: O Cubo seria a invenção de um milionário excêntrico para torturar pessoas comuns enquanto ele as observa, numa espécie de "snuff movie" ao vivo.

HIPÓTESE 3: O Cubo seria alienígena.

HIPÓTESE 4: O Cubo não teria finalidade alguma. Seria um complexo inútil construído sem finalidade por um monte de burocratas, e quando ficou pronto eles resolveram colocar pessoas ali simplesmente para torná-lo útil.

É claro que cada espectador que viu o filme tratou de criar suas próprias teorias sobre ele. Será que todos os prisioneiros sofreram um acidente e estavam, na verdade, mortos? Será que aquilo tudo não representava a fuga de uma dimensão paralela, num esquema meio MATRIX? Enfim, dependendo do espectador, a metáfora por trás do CUBO era lida de alguma forma. Mas estas quatro hipóteses citadas eram aquelas que os próprios personagens do filme consideravam mais corretas. E dentro destas possibilidades, CUBO ZERO parece optar pela primeira, já que nas cenas fora do Cubo vemos dois operadores trabalhando numa sala com computadores e fichários, seguindo ordens superiores (do Exército? do governo? da CIA?) para rastrear e dificultar a vida das pessoas aprisionadas dentro das instalações do Cubo.



Porém, mesmo esta possibilidade é um tanto furada, se analisarmos a fundo. Reflita comigo: se as pessoas no interior do Cubo são prisioneiros de guerra e criminosos dos quais a Sociedade (ou pelo menos os "donos" do Cubo) quer se livrar, por que colocá-los num local com chance de fuga, com pistas para que eles escapem e inclusive providenciando meios para eles fugirem (lembram que no primeiro CUBO cada um dos personagens tinham qualidades que, somadas, lhes permitiam encontrar a saída?)??? Enfim, se a idéia era se livrar destas pessoas, por que não eliminá-las com um simples e rápido tiro na cabeça ao invés de prendê-las num Cubo com chances de escapatória? Porque se o objetivo é transformar o Cubo numa grande prisão ou instrumento de tortura, então ele NÃO DEVERIA TER SAÍDA, pura e simplesmente

Sendo assim, as três hipóteses posteriores (coisa de algum milionário sádico, alienígenas ou ausência de uma finalidade) são as mais corretas, embora eu, pessoalmente, prefira a quarta hipótese, de que o local não tem finalidade alguma e é um enorme elefante-branco construído por meio de formulários e telefonemas. Quando ficou pronto, seus construtores perceberam que torraram milhões ou bilhões de dólares em uma estrutura que não servia para nada, então passaram a "usá-la". Lembram que no primeiro filme um dos personagens, Worth, dizia que tinha projetado a couraça que envolvia o Cubo, mas não sabia para quê servia, apenas cumpria ordens? E no segundo filme outro personagem, Jerry, disse ter desenvolvido os sensores que abriam e fechavam as portas do Cubo, mas também não sabia porquê e para quem trabalhava. É uma verdadeira idéia de pesadelo que se encaixa no mundo moderno, onde projetos top secret são realizados por diferentes empresas sem que uma saiba o que a outra está fazendo, e no fim ninguém nem imagina o que está sendo construído.



Mas voltemos ao CUBO ZERO: o diretor e roteirista Ernie Barbarash (que também escreveu o roteiro de CUBO 2: HIPERCUBO, e assumiu publicamente que o filme era uma bomba) optou por fazer um "prequel", ou seja, uma continuação que conta eventos anteriores às duas primeiras aventuras - moda recente no gênero, como mostra o também recente POSSUÍDA 3 - O INÍCIO. Porém, tirando o fato do Cubo mostrado neste terceiro filme ser um modelo mais antiquado que os demais, e tirando também uma curiosa revelação final, não há nada na história evidenciando que aquilo que estamos vendo acontece antes, durante ou depois dos eventos representados em CUBO ou HIPERCUBO. Jamais vemos, por exemplo, o Cubo sendo construído, como eu imaginei que o filme iria mostrar. Na verdade, quando a história inicia, ele já está pronto e plenamente operacional há vários anos, ao que parece.

CUBO ZERO inicia com uma cena que é praticamente uma recriação do antológico início do CUBO original: um prisioneiro acorda dentro do Cubo, fica naturalmente desorientado, abre uma das portas (agora redondas, e não quadradas, como no original) e cai em outro aposento igual, apenas com a cor diferente. Ali, ele dispara uma das nefastas armadilhas high-tech que existem às pencas no interior da estrutura. Dois dispositivos saem das paredes e atingem o pobre coitado com um banho de jatos de ácido que, a princípio, ele pensa ser água. Mas, lentamente, seu corpo inteiro vai se dissolvendo, com tiras da pele se desgrudando do corpo, até que toda carne e músculos derretam numa massa vermelha, deixando inteiro apenas o esqueleto!



O filme então corta imediatamente para fora do Cubo, no "mundo real", porém em um cenário tão apertado e claustrofóbico quanto o Cubo em si. Trata-se de um escuro escritório subterrâneo onde trabalham dois burocratas, provavelmente a serviço dos criadores do Cubo (seja o governo, o exército, ou quem for). Eles monitoram, por meio de telas, o progresso das pessoas dentro do Cubo e suas mortes, além de poderem agir, por ordens superiores, para matar instantaneamente qualquer um dos prisioneiros, por meio de um único comando em seu teclado. Sentiu o drama? E olha que nos outros dois filmes da série ninguém imaginou que os coitados no interior do Cubo estavam sendo monitorados...

Um dos funcionários do lado de fora do Cubo é o veterano Dodd (David Huband, que interpretou o policial que leva uma flechada no olho em PÂNICO NA FLORESTA). Aparentemente há anos naquela função, ele já aprendeu a encarar tudo como um trabalho. O outro é o jovem Wynn (o ótimo Zachary Bennett, que rouba o filme), uma espécie de geniozinho capaz de vislumbrar em poucos segundos milhares de combinações para jogadas de xadrez e de fazer cálculos matemáticos com a velocidade do pensamento. Dodd e Wynn tinham dois outros colegas de repartição que desapareceram misteriosamente - e provavelmente foram parar dentro do Cubo também, o que aumenta a paranóia da dupla. Eles trabalham o tempo inteiro monitorando o progresso, ou a morte, das pessoas que estão presas no Cubo, por meio de câmeras instaladas no interior da estrutura. Nunca saem do escritório, comem pílulas de alimentação iguais às dos astronautas e, aparentemente, dormem por ali mesmo. A ambos foi dito que as pessoas estavam no Cubo por livre e espontânea vontade, assinando um formulário de responsabilidade e autorização. Ironicamente, o escritório está coberto de fichários com milhares de documentos e relatórios de vítimas anteriores do Cubo, o que evidencia que o local vem sendo usado há anos.



Enquanto Dodd encara o trabalho sem se envolver, Wynn anda se sentindo culpado por presenciar todo aquele sadismo sem fazer nada para mudar a situação. Essa sensação de revolta fica ainda mais forte quando ele se apaixona por uma mulher aprisionada no Cubo, chamada Cassandra Rains (Stephanie Moore, que se queimou na bomba LENDA URBANA 2). Certo dia, chegam ordens superiores para que a dupla analise os sonhos da moça e apaguem qualquer lembrança que ela por ventura tenha. Sim, porque no mundo do futuro, quando se passa a história, a tecnologia é tão desenvolvida que permite gravar sonhos e apagar a memória das pessoas instantaneamente! Por meio de um aparelho que lembra um grande tentáculo de metal, Wynn "assiste" ao sonho de Cassandra como se fosse um filme. Descobre, então, que ela foi separada da filha pequena por soldados que trabalham para o governo. Logo depois, o rapaz checa a pasta sobre a moça e não encontra a suposta autorização assinada apor ela. Ou seja, seria um erro de alguém, e Cassandra estaria no local contra a vontade. Então, Dodd revela a Wynn que a moça é uma ativista política, certamente presa pelo governo apenas para se livrar de um problema.

Este fato, somado a outro episódio onde Wynn é obrigado a matar um dos prisioneiros que consegue chegar à saída do Cubo, fazem com que o rapaz se revolte contra toda aquela hierarquia e resolva entrar no Cubo para resgatar os prisioneiros, principalmente Cassandra. Além dela, o grupo preso no local inclui um soldado negro, Haskell (Martin Roach), o gordão Meyerhold (Mike Nahrgang), o covarde Bartok (Richard McMillan) e a histérica Jellico (Terri Hawkes, que é a dubladora em inglês dos desenhos da SAILOR MOON!!!). Sem o consentimento de Dodd, Wynn invade o elevador que leva para o subsolo e entra no complexo do Cubo. Usando seu cérebro privilegiado, ele logo faz os cálculos necessários e descobre onde estão os sobreviventes do grupo. O problema é que os responsáveis pelo Cubo descobrem e mandam três "resolvedores de problema", liderados pelo cínico Mister Jax (Michael Riley), para acabar com os rebeldes e não permitir que saiam do Cubo - inclusive apagando as poucas pistas que dariam ao menos uma chance para Wynn liderar seus novos amigos até a saída do local.



Como o espectador pode perceber, não há grandes novidades em relação aos outros dois filmes da "série". A situação básica continua a mesma: há pessoas presas no Cubo sem saber como foram parar ali, mas que tentam a todo custo sair. A novidade é o fato da ação se desenrolar tanto dentro quanto fora do Cubo, e este é um detalhe positivo e negativo ao mesmo tempo. Positivo porque, afinal, é a forma encontrada para mudar um pouco a trama, e o roteiro se abstém de mostrar o "mundo real", ficando dividido entre o interior do Cubo e o interior do escritório subterrâneo onde trabalham Dodd e Wynn (e que, talvez, seja ainda mais sinistro e assustador do que o próprio Cubo!). O ponto negativo de dividir a ação entre "dentro e fora" (sem malícias, por favor) é que qualquer tentativa de criar um clima de claustrofobia, como o dos filmes anteriores, falha completamente. Num momento, por exemplo, o espectador está desesperado acompanhando o progresso dos prisioneiros no Cubo, e então o filme corta para uma cena do lado de fora, mostrando os vilões operando os sistemas de rastreamento e armadilhas, eliminando o suspense. Isso sem contar que o número de cenas "dentro do Cubo" é bem menor do que as que se passam do lado de fora, no escritório de Dodd e Wynn.

O próprio drama de um novo grupo aprisionado no interior do Cubo é praticamente um repeteco sem grandes novidades dos filmes anteriores. A ativista política Cassandra é a personagem mais forte no interior do Cubo, mas foi meio forçado transformar o soldado negro em vilão, numa cópia xerox do personagem Quentin, do filme original, que também era negro (será um toque de racismo dos produtores?). Para piorar, lá pelas tantas os vilões do lado de fora do Cubo acessam um microchip que todos os soldados, como Haskell, têm implantado no cérebro, transformando-no numa espécie de super-homem indestrutível, imune à dor, para perseguir Wynn e Cassandra pelos corredores do Cubo. Já os outros personagens são inferiores e só estão ali dentro para morrer, mesmo.



Se em HIPERCUBO os produtores "esqueceram" que uma das grandes qualidades do primeiro filme eram as criativas e violentas cenas de mortes nas armadilhas espalhadas pelo interior do Cubo, neste terceiro filme os mesmos produtores resolveram pegar mais pesado e compor algumas das mortes mais sangrentas da série. Uma cena violentíssima envolve um personagem que é agarrado por vários fios de arame fino e então lentamente cortado em pedaços, numa cena que lembra a primeira morte do CUBO original, quando um prisioneiro era cortado em cubinhos por uma grade. E os fãs do primeiro filme vão lembrar dele com saudades nas cenas em que Wynn, já no interior do Cubo, joga suas botinas para testar os aposentos em busca de armadilhas e dispara vários mecanismos que eram mostrados também em CUBO, como a tal grade que corta os prisioneiros em cubinhos e também dois lança-chamas. Este novo filme também revela outro detalhe interessante: o que existe na sala branca por onde Kazaan sai no final do primeiro CUBO. E, principalmente, o que provavelmente aconteceu com Kazaan ao entrar na tal sala. Não vou contar o que existe ali, mas vou deixar uma dúvida para quando você for ver o filme: o que aconteceria se você acreditasse em Deus???

Eu, pessoalmente, não gostei do fato de a história de CUBO ZERO se passar num futuro não muito distante, numa sociedade autoritária semelhante àquela representada no livro 1984, de George Orwell. No primeiro e no segundo filmes, nunca fica claro se as histórias se passam no presente ou no futuro, e isso torna tudo ainda mais assustador - imaginar que algo como o Cubo possa estar sendo desenvolvido neste exato momento por algum poderoso governo mundial não é um pensamento muito agradável. E existe algo que eu não consigo entender: se na sociedade do futuro os administradores do Cubo, sejam eles quem forem, contam com tecnologia para apagar a memória das pessoas e até gravar sonhos, qual o objetivo de trancafiar seus prisioneiros no interior do Cubo? Não é mais fácil você pegar o preso político e apagar a memória dele, simplesmente?



Já um detalhe interessante é que o Cubo de CUBO ZERO tem apenas 25 salas, só que sua configuração pode ser reordenada a qualquer momento pelos operários fora da prisão - como vemos na cena em que Wynn está dentro do Cubo e Jax, do lado de fora, consegue reconfigurar as salas limítrofes àquela em que os heróis estão, enchendo-as de armadilhas, deixando os prisioneiros sem fuga. Outro detalhe curioso é que pode-se cortar a "energia" do Cubo pelo lado de fora, e, neste caso, as armadilhas não funcionam. O problema é que quando a energia volta, o Cubo automaticamente faz um "reboot", ou seja, uma limpeza interna, incinerando qualquer prisioneiro que ainda esteja lá dentro de um prazo de 15 minutos! Para completar, ao invés de números, as pistas espalhadas pelo Cubo agora são conjuntos de três letras - uma combinação que só faz sentido para o geniozinho Wynn, é claro.

O diretor e roteirista Barbarash faz um belo e vigoroso trabalho atrás das câmeras - nem parece que este é só o primeiro filme que ele dirige. A história flui naturalmente e sempre mantendo a atenção do espectador, mesmo que tenha muitos tempos-mortos nas cenas que se passam do lado de fora do Cubo. O que parece, também, é que Barbarash quis fazer um filme inteligentíssimo, como era o primeiro, só que respeitando os fãs de horror e adicionando uma boa dose de suspense e violência, coisa que CUBO 2, também roteirizado por ele, não tinha - a história deste segundo filme é tão complexa que é preciso entender muito de geometria e física quântica para pegar os detalhes, e mesmo assim ficam muitas perguntas no final.



Ao invés de responder a tudo didaticamente, Barbarash aproveita para lançar novas dúvidas, sem nunca deixar claro quem está por trás do Cubo. Pode ser o governo, pode ser o exército ou até alienígenas, considerando que em vários momentos do filme vemos cartões e inscrições num alfabeto muito esquisito. Então, CUBO ZERO não se preocupa em explicar muita coisa, mas apenas em mostrar que há, sim, um propósito naquilo tudo e pessoas por trás do Cubo que administram o que acontece em seu interior.

O diretor também se mostra um grande fã da obra-prima BRAZIL - O FILME, de Terry Gilliam, pois os dois filmes são bem parecidos. Em BRAZIL também existe um funcionário burocrata de uma sociedade futurista que se apaixona por uma prisioneira política e enfrenta o "sistema" para ajudá-la. Além disso, tanto em CUBO ZERO quanto em BRAZIL as pessoas vivem e trabalham em ambientes claustrofóbicos, apertadíssimos e escuros, repletos de computadores e máquinas, um ambiente de pesadelo para qualquer pessoa normal!!! Quem gostar de CUBO ZERO não pode perder a chance de procurar também por BRAZIL nas locadoras (o filme recentemente foi lançado em DVD).



Então se você, como eu, é um fã apaixonado pelo CUBO original, pode ir à locadora e pegar CUBO ZERO sem medo. O filme respeita a inteligência do espectador e não cai na burrice de tentar encontrar explicações fáceis para tudo - por isso, acredito que a promessa da capinha nacional do filme, "Finalmente uma explicação", está equivocada e pedante, porque esta seqüência termina deixando novas dúvidas além daquelas que naturalmente persistem. Esta decisão do diretor e roteirista é acertada, pois assim não acabou com a magia do original, uma das obras-primas dos tempos modernos justamente pela sua capacidade de fazer o espectador pensar - algo raro no cinema atual. E prepara-se para uma bem-bolada e surpreendente homenagem ao primeiro filme no final, que certamente vai deixar muita gente abobada com o respeito que Barbarash teve às origens, ou seja, ao conceito original de CUBO. Uma rara continuação boa num universo de produções oportunistas...
POR DENTRO DOS MISTÉRIOS DO CUBO

ATENÇÃO: Não leia o texto abaixo se você ainda não viu CUBO ZERO!!!


o QUEM, AFINAL, CONTROLA O CUBO?
Esta questão nunca fica bem explicada. No final de CUBO 2 - HIPERCUBO, quando a única sobrevivente sai do interior do Cubo, é recepcionada por militares e soldados armados. Em CUBO ZERO, toda vez que Dodd e Wynn atendem ao telefone, eles respondem: "Sim, senhor!", "Claro, senhor!", "Com certeza, senhor!", como se estivessem falando com um militar de alta patente. Então, a resposta mais óbvia para o mistério é que o exército administre o Cubo, mas a estrutura também pode estar ligado ao governo e até a alienígenas, considerando que mensagens internas trocadas pelos funcionários do Cubo são escritas em um estranho idioma, com caracteres diferentes de qualquer alfabeto existente no planeta.



o POR QUE O CUBO EXISTE?
Aparentemente, o Cubo é uma espécie de "pena de morte alternativa" para prisioneiros ou pessoas de quem o governo ou o exército querem se livrar. Seria muito mais fácil dar um tiro na cabeça deles, mas os responsáveis pelo Cubo preferem jogar seus prisioneiros no interior da estrutura para ver como eles se saem, monitorando todo seu progresso e inclusive suas mortes - numa operação totalmente sádica e desumana.

o POR QUE DODD E WYNN USAM UNIFORMES IDÊNTICOS AOS USADOS PELOS PRISIONEIROS NO INTERIOR DO CUBO?
Talvez porque eles sejam tão dispensáveis quanto os próprios prisioneiros. E, a qualquer momento, podem também terminar dentro do Cubo, caso comecem a fazer perguntas demais ou se não realizarem um bom trabalho. Quando CUBO ZERO começa, Wynn salienta que antes eles trabalhavam em quatro no departamento e dois desapareceram há dias - porque foram parar no interior do Cubo, como o filme mostra mais tarde. Em outra cena, bem no início, Wynn confidencia a Dodd que não conseguiu dormir direito porque ouviu barulhos à noite, e então ambos se lembram que os prisioneiros do Cubo são normalmente agarrados à noite e acordam no interior da estrutura sem saber o que aconteceu.



o POR QUE OS PRISIONEIROS DO CUBO NÃO LEMBRAM COMO FORAM PARAR LÁ?
Porque, ao serem aprisionados, passam por uma operação onde sua memória recente é completamente apagada, conforme mostrado em CUBO ZERO. É por isso que nos três filmes da série os prisioneiros nunca sabem como foram parar no interior do Cubo.

o O QUE SIGNIFICAM AS LETRAS NO INTERIOR DO CUBO?
Como os números-primos no CUBO original, as combinações de três letras em CUBO ZERO indicam as salas onde existem armadilhas e também o caminho para a saída. Acontece que o alfabeto tem 26 letras. O Cubo de CUBO ZERO tem 25 salas apenas. Logo, conforme descobre Wynn, a sala "móvel" do Cubo, que fica se movimentando e funciona como "ponte" para a saída da estrutura, é a única que tem a letra Z (a 26ª letra do alfabeto).



o QUAL O SENTIDO DA SALA BRANCA NA SAÍDA DO CUBO?
Pelo que se percebe, se o objetivo do Cubo é livrar-se dos prisioneiros de uma forma sádica, não existe uma saída do local. A sala branca por onde Owen sai em CUBO ZERO leva a uma última armadilha preparada pelos criadores do Cubo. A vítima é amarrada e interrogada pelos funcionários do lado de fora da estrutura, que pergunta se ela "Acredita em Deus?". Quando Owen responde que não, é incinerado ainda vivo com um único comando de Dodd e Wynn. Mas se ele respondesse que sim, provavelmente teria um destino igual ou semelhante, considerando que os administradores do Cubo certamente não querem que ninguém saia de lá vivo para ficar contando seus segredos do lado de fora. E provavelmente este foi o mesmo final de Kazzan ao sair para a sala branca na conclusão do CUBO original. Mas, aparentemente, existe uma saída secundária, por onde Wynn e Cassandra fogem no final de CUBO ZERO.

o MAS SE A IDÉIA É MATAR AS PESSOAS NO INTERIOR DO CUBO, POR QUE COLOCAR PISTAS QUE LEVAM PARA A SAÍDA?
Boa pergunta...



o O QUE ACONTECEU COM WYNN NO FINAL? ELE NA VERDADE É O KAZZAN DO PRIMEIRO FILME?
Ao ser agarrado após escapar do Cubo, Wynn passou por uma lobotomia antes de voltar para o interior da estrutura. Ou seja, por meio de uma operação em seu cérebro, sua vontade foi completamente eliminada, transformando-o numa espécie de vegetal, quase um autista. CUBO ZERO termina com Wynn agindo exatamente como Kazzan no filme original, com o mesmo movimento de mão e repetindo a mesma frase: "Eu quero voltar para a sala azul" (pois, mesmo operado, instintivamente ele ainda lembra que a sala azul é a "ponte" que leva para a saída do Cubo). Isso quer dizer que Wynn é Kazzan??? Bem, isso fica meio no ar. Mas eu acho que não, considerando que seu uniforme continua com o nome "Wynn" escrito, e não Kazzan. O mais provável é que o Kazaan de CUBO seja uma outra pessoa que tinha um trabalho semelhante ao de Wynn e que também foi aprisionado por um motivo ou outro e sofreu uma lobotomia, mas, como Wynn, manteve o instinto básico e a capacidade de fazer, de cabeça, complicados cálculos matemáticos. Tire você mesmo as suas conclusões!

Felipe M.Guerra


CUBO ZERO (Cube Zero, Canadá, 2004) 97 minutos
Direção: Ernie Barbarash
Roteiro: Ernie Barbarash
Produção: Suzanne Colvin; Jon P. Goulding
Produção Executiva: Ernie Barbarash; Peter Block; Michael Paseornek
Fotografia: François Dagenais
Música: Norman Orenstein
Edição: Mitch Lackie; Mark Sanders
Desenho de Produção: Jon P. Goulding
Efeitos Especiais: A. Scott Hamilton; Maya Kulenovic; Rob Huot
Figurino: Donna Wong
Elenco: Zachary Bennett (Eric Wynn); Stephanie Moore (Cassandra Rains); Michael Riley (Jax); Martin Roach (Haskell); David Huband (Dodd); Mike 'Nug' Nahrgang (Meyerhold); Richard McMillan (Bartok); Terri Hawkes (Jellico); Tony Munch (Owen); Jasmin Geljo (Ryjkin); Diego Klattenhoff (Quigley); Alexia Filippeos; Fernando Cursione; Araxi Arslanian; Joshua Peace; Sandy Ross; Dino Bellissario; Ashley James



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