CUT AND RUN

Por Felipe M.Guerra

“Esta é uma notícia que você não vai ver no noticiário da noite!”

Na cena mais emblemática do filme italiano CUT AND RUN, uma jornalista tenta conversar com o misterioso Coronel Brian Horne, interpretado por Richard Lynch. "Eu vi para entrevistá-lo, vim atrás de respostas", diz ela. Deitado em uma rede, acariciando uma cobra venenosa, Horne se limita a responder, de forma pausada, quase filosófica: “Não existem respostas... Apenas ações!”. Pode não fazer sentido assim ao léu, mas é assistir a esta pequena obra-prima de Ruggero Deodato para ver que as palavras do Coronel Horne soam tão sábias quanto o Major Kurtz (Marlon Brando) repetindo “O horror, o horror”, no final do clássico APOCALYPSE NOW, de Francis Ford Coppola. E a comparação não é gratuita: mesmo sendo uma mistura sangrenta de ação e terror, CUT AND RUN tem muito em comum com APOCALYPSE NOW.

A diferença é que a obra de Deodato não é um filme sobre a Guerra do Vietnã, mas sim sobre a mídia e sua capacidade de fabricar notícias. A crítica à mídia existe, praticamente, desde que a própria mídia foi concebida. E não são raros os filmes que traçam um panorama bem pouco simpático sobre jornalistas e repórteres. Alguns são clássicos, como A MONTANHA DOS SETE ABUTRES, filme dos anos 50 estrelado por Kirk Douglas, onde um jornalista, de olho em uma história dramática, mantém preso um mineiro que sofreu um acidente numa caverna, ao invés de tentar salvá-lo. Recentemente, a história ganhou uma nova versão em O QUARTO PODER, de Costa-Gravas, onde o repórter interpretado por Dustin Hoffman praticamente destrói a vida de um homem desesperado (John Travolta), ao criar um verdadeiro circo da mídia ao seu redor, levando-o a uma saída desesperada.



“Mas calma lá, Felipe”, você pode dizer, “Aqui é o site Boca do Inferno e você deveria estar falando sobre filmes de terror, e não fazendo crítica da mídia!!!”. É verdade, talvez eu tenha estendido um pouco a introdução, mas é que realmente fica meio difícil encaixar o clássico do cinema “exploitation” CANNIBAL HOLOCAUST, dirigido pelo italiano Ruggero Deodato em 1979, entre duas produções “sérias” como A MONTANHA DOS SETE ABUTRES e O QUARTO PODER. Pois é isso mesmo: algumas pessoas são curtas e não conseguem enxergar muito à frente. Estes viram em CANNIBAL HOLOCAUST apenas a sangreira e a matança de animais, mas não a seriedade com que Deodato fez uma crítica ferrenha àquela obsessão de muitos jornalistas de “criar” a notícia. No caso, os canibais estão lá no meio da Amazônia, felizes da vida, sem machucar ninguém, até que quatro jornalistas/documentaristas “civilizados” chegam aprontando a maior balbúrdia, tudo em nome do sensacionalismo e do espetáculo. Claro, acabam levando seu merecido castigo. Ao ponto do antropólogo que descobre a verdade comentar, no fim do filme: “Eu me pergunto quem são os verdadeiros canibais...”.

CANNIBAL HOLOCAUST é uma das obras que eu mais respeito e admiro, mesmo sendo tão cercada de controvérsia e polêmica. Então posso dizer que para mim foi uma grande surpresa saber que o mesmo diretor, Deodato, aquele que ficou eternamente preso à sua obra de 1979, lançou uma outra história envolvendo mídia e selvageria em 1985. Esta, meus amigos, se chamava CUT AND RUN, e infelizmente é obscura, pouco comentada e discutida, ficando à sombra da polêmica provocada pela violência explícita de CANNIBAL HOLOCAUST. Mas analisando os dois filmes, percebemos a diferença de Ruggero Deodato para outros cineastas sangüinolentos da Itália da época, tipo Umberto Lenzi, Andrea Bianchi e Bruno Mattei: ao contrário destes todos, Deodato não quer só fazer horror, mas também tem algo a dizer.

Bem, agora vem o que realmente me surpreendeu - e prepare-se para o choque. Este ano finalmente recebi meu DVD importado de CUT AND RUN, em versão totalmente sem cortes (apelidada de UNCUT AND RUN!!!). Isso porque antes do lançamento deste disco, em 2001, a única forma de ver a obra de Deodato era a versão altamente cortada, que transformou o filme em uma aventura comum, sem grandes novidades. Ao rodar aquele disquinho fantástico no meu DVD player, percebi que estava diante de um dos melhores filmes de exploitation/gorefest/horror dos anos 80. Uma preciosidade injustamente esquecida e ignorada e, acredite se quiser, capaz de ficar pau a pau com CANNIBAL HOLOCAUST!!!



Na verdade nem tem comparação, porque a produção de CUT AND RUN é infinitamente melhor do que a do filme anterior de Deodato. Uma distribuidora americana (a New World Pictures) injetou grana e o diretor pôde fazer tudo melhor, inclusive contratar um excelente elenco de atores americanos conhecidos. A forma de contar a história é mais convencional, sem as idas, vindas e filmagens amadoras de CANNIBAL HOLOCAUST, mas o roteiro (que mescla tráfico de drogas com ataques sangrentos de selvagens, uma seita no coração da Amazônia e repórteres em busca de um jovem desaparecido) é infinitamente mais complexo e envolvente que o de CANNIBAL HOLOCAUST. Pode-se dizer, até, que é brilhante, com personagens fantásticos, que poderiam ficar em cena por mais de três horas e você nem veria o tempo passar. Confesso que fiquei triste quando o filme acabou. Queria mais.

Mas vamos ao que interessa: as cenas de violência. Achei que nunca mais iria ver nada tão sangrento quanto as decapitações e castrações de HOLOCAUST, embora chocantes mesmo sejam aquelas matanças reais de animais, como a gigantesca tartaruga esquartejada em frente às câmeras. Bem, CUT AND RUN não apela para bichos sendo assassinados on-screen, mas em compensação dizima sem pena seu elenco humano. Poderia até dizer que o filme é muito, mas muito mais sangrento que CANNIBAL HOLOCAUST. Com belíssimos, bem-feitos e sangrentos efeitos, mostra cabeças decepadas, um cara lentamente rasgado ao meio (uma das mortes mais horríveis e gráficas que o cinema já mostrou), tripas saindo para fora de barrigas cortadas, pessoas atravessadas por machetes, urubus devorando cadáveres e toda sorte de barbáries, inclusive violentos estupros! Enfim, definitivamente, um filme que não pode ser visto com a mãe na sala!

O mais incrível mesmo é como Deodato praticamente expande os conceitos que ele mesmo lançou em CANNIBAL HOLOCAUST. Se houvesse cenas de canibalismo (o que NÃO há!), poderíamos até chamar CUT AND RUN de CANNIBAL HOLOCAUST 2. Por sorte, Deodato resistiu aos apelos dos produtores, que queriam realmente uma seqüência do seu sucesso, e resolveu fazer uma obra diferente, mais complexa que o clássico, um pouco difícil até de ser explicada. Para melhor definir DCUT AND RUN, vamos dizer que se você colocar QUADRILHA DE SÁDICOS, CANNIBAL HOLOCAUST e APOCALYPSE NOW (!!!) num liquidificador e misturar bem, acrescentando ainda toques de filmes policiais dos anos 80, vai chegar a um resultado bem próximo desta produção de Ruggero Deodato.



O roteiro de Dardano Sacchetti e Cesare Frugoni (mais Luciano Vincenzoni, que não ganhou crédito) foi inicialmente oferecido pelos produtores a um outro diretor bem mais famoso que Deodato: WES CRAVEN! Não o Craven bundão dos dias atuais, da trilogia PÂNICO, mas aquele Craven demente dos tempos de LAST HOUSE ON THE LEFT e QUADRILHA DE SÁDICOS. O produtor de CUT AND RUN, Alessandro Fracassi, um grande fã de filmes de horror, gostou dos trabalhos anteriores do diretor americano e convidou-o a dirigir o roteiro de Sacchetti e Frugoni. Mas Wes não pôde porque, naquela época (junho de 1984), estava envolvido com as filmagens de outra produção. Sabe qual? Uma com um cara queimado usando uma luva de navalhas. Pois é: se Craven tivesse ido para o set de CUT AND RUN, talvez hoje não existisse A HORA DO PESADELO...

Com o dedo (e o dinheiro) de uma produtora americana no rolo, Deodato contou não só com uma produção infinitamente melhor do que a de seus filmes anteriores (inclusive CANNIBAL HOLOCAUST), mas também com a oportunidade de trabalhar com mais atores americanos, ao invés de usar apenas a tradicional mão-de-obra italiana. CUT AND RUN tem Lisa Blount (que depois faria O ANIQUILADOR e O PRÍNCIPE DAS SOMBRAS, de John Carpenter), Willie Aames (que era popular por estrelar séries de TV nos Estados Unidos naquela época, e também por dublar Hank no desenho CAVERNA DO DRAGÃO), o eterno vilão Richard Lynch, Richard Bright (o Al Neri da trilogia O PODEROSO CHEFÃO), o esquisito e feioso Michael Berryman (QUADRILHA DE SÁDICOS) e Karen Black (que já fez 136 filmes!!!).

Claro que se percebe que muitos destes atores estão desconfortáveis atuando numa produção barata e "exploitation" feita por italianos, principalmente a gatinha Lisa Blount (no documentário que acompanha o DVD americano de CUT AND RUN, o diretor Deodato confessa que ela foi profissional, mas não gostou nada de fazer o filme), seguida pelo "galãzinho" da época Willie Aames, cuja interpretação é lastimável. Já Bright, que tinha problemas com alcoolismo, enfureceu várias vezes o diretor ao fazer cenas completamente chumbado, levando Deodato a expulsá-lo do set de filmagens algumas vezes!!! Uma coisa que os atores americanos não conseguiam acompanhar era a necessidade de improvisar. Isso porque eles decoravam suas falas como estava no roteiro, mas na hora de filmar, várias vezes, Deodato mudava tudo, deixando os atores completamente perdidos - enquanto os italianos estavam acostumados com isso.



CUT AND RUN começa com tomadas no meio da selva colombiana (mas as filmagens foram feitas na Venezuela), ao som da trilha sonora fantástica composta pelo brasileiro Claudio Simonetti, ex-Goblin - acredite, você vai ficar cantarolando o tema do filme por dias a fio! Ali existe uma refinaria de cocaína, onde traficantes trabalham na separação e embalamento do "produto". Isso até o monstruoso Michael Berryman sair da água de repente e agarrar um deles pelo pescoço, iniciando um ataque de nativos à instalação. Todos os traficantes são violentamente aniquilados por Berryman e seu grupo. As mulheres que viviam no local são estupradas de forma bárbara, tendo as pernas atravessadas por lanças para não poderem fechá-las, sendo no fim decapitadas pelo líder dos invasores - no IMDB, o nome do personagem é citado como "Quecho", mas como ninguém nunca diz seu nome no filme, vamos continuar chamando-o de "o personagem de Michael Berryman". Ao fim do massacre, um avião pousa e de dentro sai um misterioso homem (Richard Lynch), que aparentemente lidera os selvagens, e faz com que carreguem toda a cocaína para o avião.

Corta para Miami, nos Estados Unidos. Rita (Barbara Magnolfi, de SUSPIRIA) é a "mula" de um grupo de traficantes, que trouxe cocaína da Colômbia escondida dentro de uma boneca imitando um bebê. Ela segue para o apartamento da quadrilha, onde a mercadoria será desovada, sem saber que nas redondezas está um casal de repórteres de uma rede de TV a cabo, Fran Hudson (Lisa Blount) e seu cameraman Mark Ludman (Leonard Mann, o clone de Luke Skywalker no filme O HUMANÓIDE). A dupla está esperando pela chegada da polícia, que sabe da movimentação dos traficantes, para poder filmar a prisão em primeira mão. Entretanto, antes da polícia aparecer, percebem que algo de estranho aconteceu e vão checar. Encontram o apartamento dos traficantes todo revirado, e os bandidos mortos violentamente - Rita com canivetes enfiados nas pernas abertas, como as mulheres estupradas anteriormente na Colômbia.



Mesmo chocada com a barbárie, Fran filma uma chamada falando sobre a chacina. Antes de saírem do apartamento, ela encontra na mala de Rita uma foto mostrando um grupo de desconhecidos e um pequeno avião. É o mesmo avião mostrado no início do filme. Achando que é uma pista útil (sabe-se lá porquê!), Fran leva o retrato e começa a investigar, descobrindo duas coisas importantíssimas. A primeira é que um dos jovens que está colocando a carga dentro do avião é Tommy Allo (Aames), filho do proprietário da emissora de TV onde eles trabalham, o ricaço Bob Allo (Bright). O garoto foi para a América do Sul em busca de aventuras e está desaparecido há vários anos. A segunda informação importante quem passa para a repórter é o cafetão Fargas, interpretado por Eriq La Salle, em um de seus primeiros papéis - depois ele faria sucesso na série televisiva PLANTÃO MÉDICO. Ele identifica um dos homens na foto como sendo o Coronel Brian Horne (Lynch). O mistério é que o Coronel Horne deveria estar morto há sete anos, junto com os seguidores do líder religioso Jim Jones, em Jonestown, na Guiana.

Neste ponto, torna-se necessário uma intervenção histórica, especialmente para os leitores mais novos: o massacre de Jonestown aconteceu mesmo, e sua citação no roteiro do filme é interessante. Jim Jones foi o fundador de uma seita religiosa chamada "Templo do Povo", que congregou muitos adeptos nos anos 70. Dono de um enorme carisma, conseguia exercer surpreendente devoção sobre seus seguidores. Mudou-se dos Estados Unidos para a Guiana, onde fundou a cidade de Jonestown. Ali moravam cerca de mil pessoas, todas seguidores de Jones. Entretanto, nos Estados Unidos, falava-se de práticas pouco ortodoxas na comunidade, como terrorismo, drogas, lavagem cerebral e sexo grupal. Em 1978, o deputado americano Leo Ryan e três jornalistas foram até a Guiana para investigar o culto. Os jornalistas fizeram pessoalmente uma entrevista com Jones, e este dizia que só queria ser deixado em paz. Quando estavam na pista de decolagem, prontos para voltar aos EUA, o deputado Ryan e seus acompanhantes foram mortos a tiros por seguidores da seita. Um dos jornalistas deixou a câmera rodando e filmou sua morte e a dos companheiros. Estas cenas reais são mostradas rapidamente em CUT AND RUN: tanto um trecho da entrevista de Jim Jones como a câmera tombada no chão filmando os seguidores de Jonestown dando tiros. Talvez, até, estas cenas reais tenham influenciado Deodato a fazer CANNIBAL HOLOCAUST. Ah sim, toda a história teve um final triste, que a maioria deve conhecer: temendo represálias do governo americano pelo assassinato dos jornalistas e do político, Jim Jones mandou seus adeptos cometerem suicídio coletivo, tomando veneno. Quem se recusava, era morto a tiros. No total, 914 pessoas morreram, ou por suicídio, ou assassinadas por se recusarem a tomar veneno. O próprio Jim Jones se deu um tiro na cabeça. O filme EATEN ALIVE, de Umberto Lenzi, é baseado no massacre de Jonestown.

Voltando ao CUT AND RUN: ao ver a foto com seu filho, o milionário Bob fica com lágrimas nos olhos e resolve enviar Fran e Mark para a Colômbia (onde eles descobriram que foi feita a fotografia), com a missão de investigar o paradeiro do rapaz e, se possível, encontrar e entrevistar o Coronel Horne - uma subtrama que lembra diretamente o livro O CORAÇÃO DAS TREVAS, de Joseph Conrad, e o filme APOCALYPSE NOW. E, ainda, descobrir quem está por trás do massacre dos traficantes, já que muitos outros bandidos têm sido chacinados nos últimos dias em diversas cidades americanas. Assim, os dois intrépidos repórteres partem para as selvas latino-americanas, armados apenas com uma câmera e uma conexão móvel via satélite, para poderem transmitir ao vivo.



Paralelamente, descobrimos que o jovem Tommy é "funcionário", à força, de um sádico traficante chamado Vlado (o malvado John Steiner, vilão habitual dos filmes italianos). Ele já tentou fugir várias vezes do acampamento de Vlado, que fica no meio da selva colombiana, mas foi sempre recapturado e agredido pelos homens do chefão. Ali também vive Ana (a linda Valentina Forte, que na época era namorada do diretor). O casal de jovens está apaixonado e busca uma forma de escapar. Única mulher no acampamento, Ana come o pão que o diabo amassou, servindo de diversão para o líder do grupo e seus amigos, que a estupram o tempo todo. Deodato faz questão de mostrar a submissão de Ana em uma grotesca cena de estupro, onde ela é abusada por um parceiro do traficante, Manuel (Gabriele Tinti, o marido de Laura Gemser e astro de vários filmes da série EMANUELLE, morto em 1991).

Naquelas coincidências que acontecem o tempo inteiro nos filmes, o avião de Fran e Mark pousa no acampamento de Vlado na mesma noite em que os traficantes estão sendo atacados por Michael Berryman e seu grupo de selvagens. O ataque é caótico e devastador, lembrando os filmes de zumbis: os nativos aparecem de todos os lados, armados com machetes e zarabatanas, esquartejando, desmembrando e decapitando os traficantes. Um pequeno grupo se esconde em uma das cabanas, mas mais e mais inimigos vêm aparecendo. Berryman protagoniza pessoalmente uma das cenas mais violentas, enfiando uma longa seta de madeira no pescoço de um vigia e depois abrindo seu peito com um faconaço, fazendo as tripas lentamente deslizarem para fora numa cachoeira de sangue! No final, apenas a dupla de repórteres, mais Tommy e Ana, sobrevivem ao massacre.



Sem transporte e sem guia, resta ao grupo tentar sobreviver às tradicionais provações da selva (cobras, jacarés, índios selvagens) e chegar até um acampamento próximo. Mas o caminho até lá não será fácil, pois serão obsessivamente perseguidos pelo personagem de Michael Berryman, que aparece a todo momento de surpresa, vindo de trás de árvores ou saltando de baixo d'água, sempre dando o maior susto nos heróis (e no espectador). No fim, o grupo acaba chegando ao acampamento e descobrindo que ali existe um culto à la Jonestown, onde centenas de nativos idolatram o Coronel Horne - outra citação direta a APOCALYPSE NOW, inclusive com o personagem de Richard Lynch lembrando muito o Major Kurtz, interpretado por Marlon Brando, sempre falando por enigmas e metáforas.

CUT AND RUN é um filme simplesmente fascinante, em parte pela sua mistura de gêneros: é uma história de canibais à la CANNIBAL HOLOCAUST (embora aqui os índios não comam ninguém literalmente, apenas eroticamente), é uma história de aventura na selva, é um terror sangrento (com dezenas de atos de violência dos mais gráficos e detalhados), e ainda acaba um tanto filosófico com as cenas no acampamento do Coronel Horne. É quase um épico, com excelentes cenas na selva, muitos figurantes, ataques de helicópteros, aviões, enfim, um filme mais ambicioso, muito acima das outras produções italianas da mesma época, e que por isso mesmo enfrentou muitas dificuldades.

Para começar, os americanos só viram CUT AND RUN na íntegra em 2001, quando a distribuidora Anchor Bay finalmente lançou a versão "uncut". Desde 1985 até então, quem via o filme de Deodato encontrava apenas uma aventura rápida e rasteira na selva, pois a maioria das cenas de violência, estupro e depravação foram cortadas na edição - de 90 minutos, a duração desta versão censurada passou a 83. No documentário que acompanha o filme no DVD, o próprio Deodato explica que precisou filmar algumas cenas cruciais de CUT AND RUN em duas versões: uma mais violenta e sangrenta, para os mercados europeu e japonês, e outra mais "soft", para os mercados americano e inglês, onde a tesourinha da censura comia solta. Já no Brasil, o filme continua inédito.



Por causa destas "duas versões", dependendo de qual delas você vê, na cena em que os nativos estupram as garotas no início, por exemplo, não vai ter nem as moças peladas nem as lanças cravadas nas suas pernas - esta é a versão censurada. Outro momento bem diferente entre as duas versões é aquele em que Fran e Mark estão filmando no apartamento onde os traficantes foram massacrados: existe uma versão onde o cadáver de Rita está vestido (a versão soft), e outro onde está totalmente nu e com as facas cravadas nas pernas (a versão uncut). Quase todas as cenas de morte foram diminuídas ou excluídas, de forma que quem viu a versão cortada nem soube o que aconteceu, por exemplo, com o personagem Vlado.

E é de Vlado a morte mais violenta do filme. Confesso, até, que é uma das cenas mais sangrentas e bem realizadas que já vi. Preso a uma armadilha no meio da selva, o traficante interpretado por John Steiner tem as duas pernas amarradas a cordas separadas. Depois, um peso na ponta de cada uma das cordas começa a puxá-las uma para cada lado, abrindo, literalmente, as pernas da vítima até rasgar o corpo inteiro no meio. Tudo isso é mostrado explicitamente, de forma muito violenta, inclusive com todos os órgãos internos de Vlado se espalhando pelo chão! O diretor disse ter se inspirado nas armadilhas feitas pelos vietcongues durante a Guerra do Vietnã. Esta e outras tantas cenas onde o sangue flui generosamente já transformam CUT AND RUN em filme obrigatório para fãs de filmes extremos, ainda mais para quem gostou de CANNIBAL HOLOCAUST. E pensar que tem gente que acha PÂNICO violento...

Não bastasse o eclético e interessante elenco americano, Ruggero Deodato também teve a sorte de contar com um elenco dos sonhos para realizadores italianos daquela época, cheio de caras conhecidas e nomes talentosos do cinemão "classe B" europeu. Além do eterno vilão Steiner (que fez mais de 70 filmes, de TENEBRE, de Dario Argento, a SALON KITTY, de Tinto Brass), CUT AND RUN tem a presença simpática de Gabriele Tinti (quase uma participação especial, com pouco tempo em cena); do uruguaio Luca Barbareschi (o Mark, de CANNIBAL HOLOCAUST), interpretando um alucinado piloto de helicóptero chamado Bud; e de Ottaviano Dell'Acqua (habituè nos filmes de Bruno Mattei, que interpretou um morto-vivo em ZOMBIE, de Fulci), aqui em seu melhor papel no cinema, como Steve, o braço-direito do Coronel Horne, que acaba decapitando dois personagens importantes do filme! O próprio diretor Deodato faz sua costumeira participação especial, numa das cenas de arquivo mostrando Jonestown, aparecendo ao lado do Coronel Horne.

Uma boa coisa a respeito de CUT AND RUN é que o diretor se absteve de usar as cenas reais de matança de animais, tão freqüentes nas produções italianas sobre canibalismo, inclusive as duas dirigidas pelo próprio Deodato (O ÚLTIMO MUNDO CANIBAL e CANNIBAL HOLOCAUST). O máximo de violência contra animais existente em CUT AND RUN é a cena em que os heróis estão escapando numa canoa e Mark precisa acertar um jacaré no focinho com seu remo (aparentemente, um verdadeiro jacaré levou a porrada, mas nada muito grave). Em compensação, se não há violência animal, as agressões contra mulheres marcam o filme inteiro. Apesar de uma das heroínas ser mulher, todas as outras estão na história apenas para morrerem violentamente, para serem estupradas e/ou agredidas... O próprio Deodato joga lenha na fogueira, enchendo o filme com cenas gratuitas de nudez - até sua namorada, Valentina Forte, brinda os espectadores com uma cena de banho filmada em detalhes.



CUT AND RUN é uma pequena obra-prima, talvez o filme mais ambicioso de Deodato, principalmente na sua relação com a história de O CORAÇÃO DAS TREVAS. Este detalhe torna a obra infinitamente mais interessante que as produções canibalísticas do período - cujo roteiro era lastimável. Além disso, CUT AND RUN certamente tem mais conteúdo do que qualquer outra coisa que o diretor fez em toda a sua carreira. Isso que um dos roteiristas, Dardano Sacchetti, em entrevista no documentário que acompanha o DVD, disse que filme sofreu problemas de diferenças criativas, porque cada um dos envolvidos queria fazer uma coisa diferente: Deodato queria algo em estilo mais documental, tipo CANNIBAL HOLOCAUST; o próprio Sacchetti queria dar ênfase à ação e à aventura, e Frugoni preferiu abordar as estranhas relações entre seus personagens, criando a situação à la O CORAÇÃO DAS TREVAS. Uma mistura excêntrica, mas eficaz. Parece três filmes em um!!!

Vale ressaltar um detalhe muito interessante do roteiro, que situa CUT AND RUN acima da média comum do gênero: a motivação do “vilão”, o Coronel Horne. Ele na verdade está exterminando os traficantes não para ser o único distribuidor de cocaína da região, mas sim para tentar eliminar de uma vez a droga e os distribuidores - um objetivo louvável, diga-se de passagem. Por outro lado, os “heróis” jornalistas têm uma intenção bem menos nobre, e ainda desencadeiam o inferno na comunidade criada por Horne, de forma que no final nos perguntamos quem são os verdadeiros vilões da história.

O roteiro ainda é atual no enfoque sensacionalista da imprensa. Os jornalistas são mostrados como pessoas com sede de sangue e absolutamente fascinados por violência, que não deixam de filmar cadáveres despedaçados em busca de uma maior audiência - tal qual os “Cidade Alerta” e “Linha Direta” da vida... Deodato já tinha feito algo semelhante em CANNIBAL HOLOCAUST, mas a mensagem está bem mais clara e atualizada em CUT AND RUN, onde fica evidente o fascínio que o diretor tem pela forma como a imprensa, às vezes, cria as notícias.

Difícil é imaginar que título o filme teria se lançado no Brasil. CUT AND RUN, em tradução literal, seria CORTE E CORRA (argh!). Mas, na Itália, o nome é outro: INFERNO IN DIRETTA, ou “Direto para o Inferno“. Existe ainda um título alternativo: AMAZON: SAVAGE ADVENTURE (“Amazônia: Aventura Selvagem”). Se bem que com a tradicional má vontade das distribuidoras nacionais, nem adianta sonhar muito com o lançamento deste filme violentíssimo por aqui... ainda mais considerando que CANNIBAL HOLOCAUST, muito mais famoso e conhecido, também nem deu as caras nas locadoras brasileiras ainda!

Para completar o programa, é genial a frase irônica no cartaz de cinema de CUT AND RUN, que resume bem a temática do filme: “Esta é uma notícia que você não vai ver no noticiário das 18 horas”. Não vai mesmo. E, infelizmente, nem nas locadoras brasileiras!

Felipe M.Guerra


CUT AND RUN (Cut and Run, Itália, 1985). 99 minutos.
Direção: Ruggero Deodato
Roteiro: Dardano Sacchetti; Cesare Frugoni; Luciano Vincenzoni (não creditado)
Produção: Alessandro Fracassi
Fotografia: Alberto Spagnoli
Edição: Mario Morra
Música: Claudio Simonetti
Efeitos Visuais: Paolo Ricci
Direção de Arte: Claudio Cinini
Desenho de Produção: Francesca Panicali
Elenco: Lisa Blount (Fran Hudson); Leonard Mann (Mark Ludman); Willie Aames (Tommy Allo); Richard Lynch (Colonel Brian Horne); Richard Bright (Bob Allo); Michael Berryman (Quecho); Eriq La Salle (Fargas); Gabriele Tinti (Manuel); Valentina Forte (Ana); John Steiner (Vlado); Karen Black (Karin); Barbara Magnolfi (Rita); Penny Brown (Lucy)




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