DAMA NA ÁGUA, A

por Filipe Falcão

Existem alguns diretores que após alcançarem determinado sucesso financeiro e reconhecimento por parte do público decidem se aventurarem em projetos que, se fossem idéias de cineastas menos famosos, provavelmente correriam o risco de serem arquivados. Classificar tais filmes é um verdadeiro martírio, pois estas produções costumam ir além de simples elogios ou duras críticas. O mais novo representante dessa vertente é o já controverso A Dama na Água (Lady in the Water, 2006), do diretor indiano M. Night Shyamalan, que alcançou fama internacional com O Sexto Sentido (The Sixth Sense, 1999) e apenas confirmou que ter o seu nome em cima do cartaz do filme é o melhor merchandising para os produtos lançados por ele. Mesmo que o resultado divida opiniões.

Antes de qualquer coisa, é preciso esclarecer que A Dama na Água NÃO é um filme de terror. Não que a produção estivesse sendo “vendida” para o público como sendo do gênero horror, pois desde que os primeiros trailers começaram a ser exibidos, a trama foi apresentada como “uma história de ninar” e vai ser dessa forma que o filme será tratado, com seus acertos e erros.
A trama de A Dama na Água acompanha a rotina de Cleveland (Paul Giamatti, Planeta dos Macacos, 2001), que trabalha como zelador de um condomínio de apartamentos. A vida dele vai mudar drasticamente quando conhece uma garota chamada Story (Bryce Dallas Howard, A Vila, 2004), que, literalmente, saiu de dentro da piscina do local. Surpreso, Cleveland descobre que a estranha moça é uma narf, espécie de ninfa das águas que tem como objetivo ajudar os homens. Porém, o zelador vai perceber que Story corre perigo mortal, pois está sendo perseguida por uma criatura maligna, que visa matar a narf.

A primeira observação que deve ser feita é que A Dama na Água não é um filme para qualquer um, pois a produção percorre um caminho híbrido entre a fantasia e o suspense, o que já pode não agradar a quem está acostumado com os trabalhos anteriores do indiano, mais voltados para um suspense forte. A proposta inicial de Shyamalan foi de realizar um filme que fosse realmente como “uma história de ninar” e dentro dessa temática, ele procurou trabalhar com um medo mais implícito dentro de uma narrativa que segue um caminho fantasioso. O filme também aborda, de forma subliminar, temas como o bem e o mal, verdade e mentira, pecado e redenção, entre outros, que vão dando o tempero para a união entre a fábula e o mistério.



Outro fator importante está ligado ao fato de Shyamalan sempre ter realizado trabalhos que tratem do ser humano como tema central das suas histórias, embora outros elementos, como o suspense, acabem por ficarem sobrepostos a essa proposta. Como exemplos, basta voltarmos no tempo para perceber que O Sexto Sentido trabalha a questão da aceitação, seja da morte ou da paranormalidade. Já Sinais (Signs, 2002) aborda o drama de um pai e sua ligação com os filhos, enquanto A Vila faz uma crítica a mentira coletiva e o fato da ignorância ser considerada por alguns como uma benção.



Shyamalan continua a trabalhar esse ser humano em A Dama na Água, ao apresentar um personagem principal, Cleveland, que possui um passado inconcluso que o impede de ser feliz. A própria narf vai ser uma espécie de agente reconciliador para os elementos humanos do filme, que se tornam pessoas melhores após terem contato com a moça. Aliás, tal ponto é um dos destaques da trama por gerar seqüências que trabalham com esse lado emocional do personagem sem parecer piegas e conseguindo atingir o público.



O roteiro do filme foi escrito pelo próprio Shyamalan, que se baseou em histórias que ele criava ao contar para os filhos. Engana-se quem pensa que a temática dos contos é novidade para o indiano, que em 1999 foi roteirista do infantil Stuart Little. A trama de A Dama na Água começa de forma agradável desenvolvendo uma história capaz de despertar a atenção do público. Nesse princípio, somos apresentados aos moradores do local, conhecemos a rotina de Cleveland e acompanhamos o surgimento de Story. O diretor evita, nessa primeira parte, momentos clichês e vai construindo o seu conto de fadas de forma eficiente. No entanto, será durante esse percurso que Shyamalan vai, infelizmente, perder o controle da situação e o que poderia render um grande filme, resulta apenas em um trabalho trivial.



Vai ser na metade da trama que o diretor vai ficar na dúvida com relação ao caminho que deve seguir para concluir o seu trabalho, que a partir de então fica adulto demais para soar como um conto de fadas ao mesmo tempo em que se mostra por demais infantil para interessar ao público crescido. Tal crítica é perceptível em vários momentos, como quando o filme começa a trabalhar com as habilidades das pessoas escolhidas para ajudar Story no retorno para o seu mundo, quando tudo soa muito cômico e improvável demais, mesmo dentro de uma fábula. Um dos momentos mais absurdos é quando os moradores descobrem que existe um garoto que consegue ler mensagens subliminares em caixas de cereais. Imagina a confusão na cabeça desse guri quando ele está no supermercado na sessão desse produto?



Ao mesmo tempo, existe uma perigosa criatura, uma versão digital do lobo G'mork, de A História Sem Fim (The NeverEnding Story, 1984), que surge ao redor do condomínio para dar cabo da pobre Story. Tal vilão não funciona dentro do enredo e acaba sendo mais um monstro digital como tantos outros já vistos. Indefinido, a produção segue esse caminho híbrido até o previsível final sem maiores novidades. Outro ponto que atrapalha um maior interesse pela ação são os personagens secundários e apesar dos dois principais, Cleveland e Story, serem bastante interessantes, o restante dos moradores do condomínio são estereotipados e acabam com qualquer possibilidade de uma boa crítica para a trama. Entre os habitantes do prédio existe um rapaz que faz musculação apenas com um lado do corpo, uma chinesa idosa, que faz a linha velha escandalosa que não fala inglês, um casal de latinos com cinco filhas e por aí vai.



Ainda no quesito personagens, existem dois outros que são, além de tudo, mal concebidos. O primeiro é um tal de Vick, interpretado pelo próprio Shyamalan e que, por algum motivo estranho, tem destaque dentre os demais coadjuvantes. A grande observação é que como ator, o diretor poderia muito bem se aposentar, pois até uma árvore seca consegue ter mais expressão artística do que ele. Outro personagem que poderia ter ficado de fora da trama é o do crítico de cinema que é um dos moradores do condomínio. De comportamento chato e sempre falando de como produções cinematográficas são previsíveis, fracas e ruins, a idéia de Shyamalan seria de fazer uma referência com a exigência dos profissionais que escrevem sobre filmes e que nem sempre agradam aos realizadores da película. Pois o tal crítico não acrescenta em nada para a história, sua participação é dispensável e o final dele está mais para picaretagem do diretor como se quisesse dizer para o público do cinema: olhem como eu sou um cara engraçado.



O mais curioso é pensar que tais pontos negativos, como a indecisão que o filme percorre a partir da sua metade, um final extremamente óbvio, ter que agüentar Shyamalan como ator, além de outros pequenos deslizes, poderiam ter sido retirados, pois a história em si é interessante. Fica a boa intensão desta obra realizada por um homem que sabe que possui poder para pegar qualquer história e transformar em filme, até mesmo uma de ninar.

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A DAMA NA ÁGUA (Lady in the Water, EUA, 2006). 110 minutos
Direção: M. Night Shyamalan
Roteiro: M. Night Shyamalan
Produção: M. Night Shyamalan e Sam Mercer
Fotografia: Christopher Doyle
Música: James Newton Howard
Edição: Barbara Tulliver
Desenho de Produção: Martin Childs
Figurino: Betsy Heimann
Direção de Arte: Stefan Dechant e Christina Ann Wilson
Maquiagem: Steven E. Anderson, Jason Barnett, Roland Blancaflor; Don Kozma; Bernadette Mazur
Elenco: Paul Giamatti (Cleveland Heep); Bryce Dallas Howard (Story); Jeffrey Wright (Mr. Dury); Bob Balaban (Mr. Farber); Sarita Choudhury (Anna Ran); Cindy Cheung (Young Soon); M. Night Shyamalan (Vick); Freddy Rodríguez (Reggie); Bill Irwin (Mr. Leeds); Mary Beth Hurt (Mrs. Bell); Noah Gray-Cabey (Joey Dury); Joseph D. Reitman; Jared Harris; Grant Monohon; John Boyd; Ethan Cohn; June Kyoto Lu; Tovah Feldshuh; Tom Mardirosian


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