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Existem alguns diretores que após alcançarem determinado sucesso financeiro e
reconhecimento por parte do público decidem se aventurarem em projetos que, se
fossem idéias de cineastas menos famosos, provavelmente correriam o risco de serem
arquivados. Classificar tais filmes é um verdadeiro martírio, pois estas produções
costumam ir além de simples elogios ou duras críticas. O mais novo representante
dessa vertente é o já controverso A Dama na Água (Lady in the Water, 2006), do
diretor indiano M. Night Shyamalan, que alcançou fama internacional com O Sexto
Sentido (The Sixth Sense, 1999) e apenas confirmou que ter o seu nome em cima do
cartaz do filme é o melhor merchandising para os produtos lançados por ele. Mesmo
que o resultado divida opiniões.
Antes de qualquer coisa, é preciso esclarecer que A Dama na Água NÃO é um filme de
terror. Não que a produção estivesse sendo “vendida” para o público como sendo do
gênero horror, pois desde que os primeiros trailers começaram a ser exibidos, a
trama foi apresentada como “uma história de ninar” e vai ser dessa forma que o
filme será tratado, com seus acertos e erros. |
A trama de A Dama na Água acompanha a rotina de Cleveland (Paul Giamatti, Planeta
dos Macacos, 2001), que trabalha como zelador de um condomínio de apartamentos. A
vida dele vai mudar drasticamente quando conhece uma garota chamada Story (Bryce
Dallas Howard, A Vila, 2004), que, literalmente, saiu de dentro da piscina do
local. Surpreso, Cleveland descobre que a estranha moça é uma narf, espécie de
ninfa das águas que tem como objetivo ajudar os homens. Porém, o zelador vai
perceber que Story corre perigo mortal, pois está sendo perseguida por uma
criatura maligna, que visa matar a narf.
A primeira observação que deve ser feita é que A Dama na Água não é um filme para
qualquer um, pois a produção percorre um caminho híbrido entre a fantasia e o
suspense, o que já pode não agradar a quem está acostumado com os trabalhos
anteriores do indiano, mais voltados para um suspense forte. A proposta inicial de
Shyamalan foi de realizar um filme que fosse realmente como “uma história de
ninar” e dentro dessa temática, ele procurou trabalhar com um medo mais implícito
dentro de uma narrativa que segue um caminho fantasioso. O filme também aborda, de
forma subliminar, temas como o bem e o mal, verdade e mentira, pecado e redenção,
entre outros, que vão dando o tempero para a união entre a fábula e o mistério.


Outro fator importante está ligado ao fato de Shyamalan sempre ter realizado
trabalhos que tratem do ser humano como tema central das suas histórias, embora
outros elementos, como o suspense, acabem por ficarem sobrepostos a essa proposta.
Como exemplos, basta voltarmos no tempo para perceber que
O Sexto Sentido trabalha
a questão da aceitação, seja da morte ou da paranormalidade. Já
Sinais (Signs,
2002) aborda o drama de um pai e sua ligação com os filhos, enquanto
A Vila faz
uma crítica a mentira coletiva e o fato da ignorância ser considerada por alguns
como uma benção.


Shyamalan continua a trabalhar esse ser humano em
A Dama na Água, ao apresentar um
personagem principal, Cleveland, que possui um passado inconcluso que o impede de
ser feliz. A própria narf vai ser uma espécie de agente reconciliador para os
elementos humanos do filme, que se tornam pessoas melhores após terem contato com
a moça. Aliás, tal ponto é um dos destaques da trama por gerar seqüências que
trabalham com esse lado emocional do personagem sem parecer piegas e conseguindo
atingir o público.


O roteiro do filme foi escrito pelo próprio Shyamalan, que se baseou em histórias
que ele criava ao contar para os filhos. Engana-se quem pensa que a temática dos
contos é novidade para o indiano, que em 1999 foi roteirista do infantil
Stuart
Little. A trama de
A Dama na Água começa de forma agradável desenvolvendo uma
história capaz de despertar a atenção do público. Nesse princípio, somos
apresentados aos moradores do local, conhecemos a rotina de Cleveland e
acompanhamos o surgimento de Story. O diretor evita, nessa primeira parte,
momentos clichês e vai construindo o seu conto de fadas de forma eficiente. No
entanto, será durante esse percurso que Shyamalan vai, infelizmente, perder o
controle da situação e o que poderia render um grande filme, resulta apenas em um
trabalho trivial.

Vai ser na metade da trama que o diretor vai ficar na dúvida com relação ao
caminho que deve seguir para concluir o seu trabalho, que a partir de então fica
adulto demais para soar como um conto de fadas ao mesmo tempo em que se mostra por
demais infantil para interessar ao público crescido. Tal crítica é perceptível em
vários momentos, como quando o filme começa a trabalhar com as habilidades das
pessoas escolhidas para ajudar Story no retorno para o seu mundo, quando tudo soa
muito cômico e improvável demais, mesmo dentro de uma fábula. Um dos momentos mais
absurdos é quando os moradores descobrem que existe um garoto que consegue ler
mensagens subliminares em caixas de cereais. Imagina a confusão na cabeça desse
guri quando ele está no supermercado na sessão desse produto?


Ao mesmo tempo, existe uma perigosa criatura, uma versão digital do lobo G'mork,
de
A História Sem Fim (The NeverEnding Story, 1984), que surge ao redor do
condomínio para dar cabo da pobre Story. Tal vilão não funciona dentro do enredo e
acaba sendo mais um monstro digital como tantos outros já vistos. Indefinido, a
produção segue esse caminho híbrido até o previsível final sem maiores novidades.
Outro ponto que atrapalha um maior interesse pela ação são os personagens
secundários e apesar dos dois principais, Cleveland e Story, serem bastante
interessantes, o restante dos moradores do condomínio são estereotipados e acabam
com qualquer possibilidade de uma boa crítica para a trama. Entre os habitantes do
prédio existe um rapaz que faz musculação apenas com um lado do corpo, uma chinesa
idosa, que faz a linha velha escandalosa que não fala inglês, um casal de latinos
com cinco filhas e por aí vai.


Ainda no quesito personagens, existem dois outros que são, além de tudo, mal
concebidos. O primeiro é um tal de Vick, interpretado pelo próprio Shyamalan e
que, por algum motivo estranho, tem destaque dentre os demais coadjuvantes. A
grande observação é que como ator, o diretor poderia muito bem se aposentar, pois
até uma árvore seca consegue ter mais expressão artística do que ele. Outro
personagem que poderia ter ficado de fora da trama é o do crítico de cinema que é
um dos moradores do condomínio. De comportamento chato e sempre falando de como
produções cinematográficas são previsíveis, fracas e ruins, a idéia de Shyamalan
seria de fazer uma referência com a exigência dos profissionais que escrevem sobre
filmes e que nem sempre agradam aos realizadores da película. Pois o tal crítico
não acrescenta em nada para a história, sua participação é dispensável e o final
dele está mais para picaretagem do diretor como se quisesse dizer para o público
do cinema: olhem como eu
sou um cara engraçado.


O mais curioso é pensar que tais pontos negativos, como a indecisão que o filme
percorre a partir da sua metade, um final extremamente óbvio, ter que agüentar
Shyamalan como ator, além de outros pequenos deslizes, poderiam ter sido
retirados, pois a história em si é interessante. Fica a boa intensão desta obra
realizada por um homem que sabe que possui poder para pegar qualquer história e
transformar em filme, até mesmo uma de ninar.
Para comentar o texto e entrar em contato com Filipe Falcão:
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A DAMA NA ÁGUA (Lady in the Water, EUA, 2006). 110 minutos
Direção: M. Night Shyamalan
Roteiro: M. Night Shyamalan
Produção: M. Night Shyamalan e Sam Mercer
Fotografia: Christopher Doyle
Música: James Newton Howard
Edição: Barbara Tulliver
Desenho de Produção: Martin Childs Figurino: Betsy Heimann
Direção de Arte: Stefan Dechant e Christina Ann Wilson
Maquiagem: Steven E. Anderson, Jason Barnett, Roland Blancaflor; Don Kozma; Bernadette Mazur
Elenco: Paul Giamatti (Cleveland Heep); Bryce Dallas Howard (Story); Jeffrey Wright (Mr. Dury); Bob Balaban (Mr. Farber); Sarita Choudhury (Anna Ran); Cindy Cheung (Young Soon); M. Night Shyamalan (Vick); Freddy Rodríguez (Reggie); Bill Irwin (Mr. Leeds); Mary Beth Hurt (Mrs. Bell); Noah Gray-Cabey (Joey Dury); Joseph D. Reitman; Jared Harris; Grant Monohon; John Boyd; Ethan Cohn; June Kyoto Lu; Tovah Feldshuh; Tom Mardirosian
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