DARK WATERS

por Marcelo Carrard

Por um longo tempo muitos acharam que o Melhor Filme de Horror Europeu dos Anos 90 era Dellamorte Dellamore, de Michele Soavi. Porém, com a redescoberta e revisão de diversos clássicos do gênero através das novas tecnologias como o DVD e a divulgação de obras audiovisuais via internet, uma Obra-Prima admirada apenas por um pequeno grupo de cinéfilos ressurge numa edição histórica em DVD, para fazer justiça a sua grande importância dentro do Horror Cinematográfico Moderno: DARK WATERS aka DEAD WATERS, 1994, do diretor italiano Mariano Baino.
O filme é uma Co-Produção entre Itália, Inglaterra e Rússia. Rodado em locações na Ucrânia e em estúdios de Moscou, DARK WATERS é um filme de imagens poderosas que pode inicialmente ser denominado como uma mistura entre Os Demônios aka The Devils, de Ken Russel, e Suspiria, de Dario Argento. Do filme de Russel vemos a figura das mulheres religiosas, com suas vestimentas medievais vivendo um cotidiano sombrio, isoladas no tempo e no espaço. Do filme de Argento vemos uma protagonista feminina: Elizabeth, que chega nesse lugar misterioso para viver uma experiência de profundo horror e de irreversíveis descobertas sobre o seu passado.

Uma introdução mostra os incidentes macabros ocorridos em um convento isolado em uma ilha, onde surge inicialmente uma circular figura de pedra que representa a face do demônio.
Os cenários interiores são totalmente iluminados por tochas e velas em uma construção de pedra que parece ser um anexo da ilha como um todo, que também é formada basicamente de pedras. Os elementos da água e do fogo estão em constante tensão no filme. Vemos, antes da chegada de Elizabeth, um ritual das freiras em meio ao cenário rochoso do interior do convento onde circula água entre pedras em meio ás velas e o transe das monjas num ritual sangrento de sacrifício humano onde os golpes de uma faca fazem o sangue se misturar com a água, tornando-as escuras, numa referência direta ao título do filme. A composição das freiras, tanto no figurino como na direção e expressão peculiar de seus olhares me remeteu diretamente às figuras infernais das telas de Brughel e suas representações do cotidiano medieval. Os olhos das freiras durante todo o filme são de uma frieza assustadora. Com o sangue misturado com a água uma das freiras pinta imagens demoníacas compondo a atmosfera muito especial presente durante toda a trama.



A chegada de Elizabeth na ilha ocorre, assim como em Suspiria, numa noite de forte chuva. Ela vem do mundo civilizado para penetrar naquela ilha onde o tempo parece ter parado, onde não existe energia elétrica. Para os fãs de filmes de horror com elementos góticos e medievais, Dark Waters é obrigatório. Para chegar até a ilha, Elizabeth contrata os serviços do Dono de um pequeno barco onde testemunha a ação de uma figura grotesca que come vísceras durante a viagem. A excelente direção de fotografia de Alex Howe consegue captar a atmosfera forte de ambientes sombrios iluminados com velas e tochas criando texturas que criam efeitos muito aproximados com a pintura, principalmente nas cenas de interiores. A seqüência da viagem noturna de Elizabeth em meio a chuva é genial e marca a jornada da protagonista.



O encontro de Elizabeth com Sarah, uma das monjas e a posterior reunião com a diabólica Madre Superiora, inaugura uma sucessão de seqüências muito eficientes. As caminhas de Elizabeth e Sarah pelos corredores sombrios do convento, o encontro com a velha cega na praia, a procissão ritualística das freiras segurando cruzes em chamas no topo dos rochedos e nos interiores do convento, enfim, o caminho que Elizabeth percorre na sua jornada de descobertas macabras são muito bem sublinhados pela trilha-sonora 100% eletrônica de Igor Clark. A direção de arte e a montagem completam a construção desse clássico do horror moderno, de uma obra de rara beleza e impressionantes imagens que culminam no apocalíptico confronto entre Elizabeth e a freira que se desnuda diante dela revelando um corpo de repelentes deformidades. A visão final do demônio e as conseqüências daqueles que ficam frente a frente com sua configuração monstruosa brindam o espectador com inesperadas imagens finais de mutilação e canibalismo. As perturbadoras imagens das duas meninas diante de uma imagem do Cristo crucificado que revela uma face aterradora é também um dos grandes momentos de Dark Waters.



O próprio Mariano Baino aparece antes do início do filme segurando uma vela em meio a escuridão, explicando os detalhes da recente edição em DVD Duplo do filme, numa versão sem cortes restaurada e com edição final assinada por ele. Nos extras há cenas deletadas, documentário sobre as filmagens e como brinde macabro uma reprodução da tal imagem circular em pedra com a face demoníaca que ronda esse filme sobre mulheres diante do desejo e da repulsa em confronto com o mal em sua forma mais assustadora.

Marcelo Carrard

DARK WATERS (Dead Waters, Itália, Inglaterra, Rússia, 1994).
Direção: Mariano Baino
Roteiro: Mariano Baino
Direção de Arte: Ivan Pulenko
Edição: Mariano Baino e Rick Litler
Fotografia: Alex Howe
Música: Igor Clark
Figurino: Antonina Petrova
Elenco: Louise Salter (Elizabeth), Venera Simmons (Sarah), Manya Kapnist (Madre Superiora), Alvina Skarga (A Velha Cega), Valeri Bassel (O Pescador), Pavel Sokorov (Dono do Barco), Ana Rose Phipps (Theresa)

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