GRITOS MORTAIS

por por João Pires Neto

No século VI acreditava-se que os espíritos dos mortos falavam através da região abdominal dos vivos. Do latim VENTER de ''estômago'' e LOQUI de ''falar''. Esta é a origem da palavra "Ventriloquismo".

No pequeno povoado de Ravens Fair todos conhecem a lenda da ventríloqua Mary Shaw, que teria enlouquecido e matado uma criança. A população ensandecida a perseguiu e a assassinou, cortando sua língua e a enterrando com seus bonecos, os quais ela tratava como filhos quando viva.

Tempos depois do terrível incidente, os moradores da região começaram a sofrer mortes misteriosas onde suas línguas eram arrancadas, ao mesmo tempo em que os bonecos de Mary Shaw sumiam de suas covas.

Muito tempo depois, o jovem Jamie Ashen tem sua esposa brutalmente assassinada no mesmo dia em que recebe uma entrega anônima contendo um estranho boneco. Principal suspeito do assassinato e inconformado com a tragédia, Jamie regressa à sua terra natal, Ravens Fair, a fim de provar sua inocência e punir os culpados pela morte
de sua amada.

Quando, em 2004, James Wan e Leigh Whannell rodaram, com pouco mais de U$ 1 milhão e pouco menos de um mês, “Jogos Mortais” (Saw), talvez não imaginassem que estavam realizando o que seria um dos melhores e mais bem sucedidos suspenses de toda uma década. O êxito comercial permitiu aos jovens a produção, com um orçamento bem mais avantajado, de duas novas seqüências. Mais caprichadas tecnicamente, tanto a segunda quanto a terceira parte (dirigidas por Darren Lynn Bousman) foram sucessos absolutos de público, o que acabou projetando o personagem Jigsaw (interpretado brilhantemente por Tobin Bell) como o primeiro grande vilão do cinema de horror deste milênio. A dupla James e Leigh enchia os bolsos de dinheiro e tornava-se cada vez mais poderosa em Hollywood, o que dava-lhes liberdade criativa e financeira para o que seria seu próximo projeto: “Dead Silence” (enquanto a soma dos orçamentos dos três primeiros filmes da franquia “Jogos Mortais” foi de aproximadamente U$ 17 milhões e meio, os recursos disponíveis à dupla em sua nova investida ultrapassou os U$ 20 milhões).



Por tudo isso, criou-se grande expectativa em torno do lançamento de “Dead Silence”. O roteiro original é desenvolvido pelos próprios James Wan e Leigh Whannell, e de acordo com a definição dos próprios autores, se aproxima mais do horror clássico, e seria ainda inspirado nas produções da lendária Hammer (produtora inglesa responsável pelas primeiras adaptações coloridas de “Drácula” e “Frankenstein”). Portanto, a trama desenvolveria muito mais a atmosfera e exploraria menos a violência do que “Jogos Mortais”. Entretanto, apesar do empenho da dupla em realizar um filme “definitivo” sobre ventriloquismo (novamente palavra dos autores), “Dead Silence” comete alguns deslizes que acabaram condenando uma boa idéia a um relativo fracasso, pelo menos nos cinemas norte-americanos.

O próprio roteiro cria algumas situações pouco verossímeis, como o esposo “vingador”, que parece mais interessado em desvendar o mistério do estranho boneco, do que sofrer pela morte violenta da esposa recém assassinada ou o policial que persegue um suspeito de assassinato sem nenhum empenho real em prendê-lo. Talvez a pouca credibilidade dos personagens seja em grande parte responsabilidade do elenco escolhido. O protagonista é interpretado pelo novato Ryan Kwanten, cujo currículo conta apenas com algumas participações em séries de TV pouco conhecidas no Brasil além do drama “Flicka” (Flicka, EUA, 2006). Já o seu perseguidor, o Detetive Jim Lipton, é representado pelo ex-New Kids on the Block Donnie Wahlberg (e de quebra irmão do astro Mark Wahlberg, de “O Planeta dos Macacos”). Donnie já havia trabalhado com a dupla de produtores no segundo e terceiro capítulo da série “Jogos Mortais”, também como um detetive (no caso chamado Eric Mason). A trama macabra e a atmosfera carregada de “Dead Silence” acabaram exigindo um empenho e talento dos atores que não foi correspondido em momento algum. A limitação dos mesmos em demonstrar emoção acaba tornando “Dead Silence” um filme apático em quase todos os seus 90 minutos de exibição. O elenco conta ainda com uma pequena participação do ótimo Bob Gunton (o diretor do presídio em “Um Sonho de Liberdade”).



Mas nem tudo é decepção em “Dead Silence”: a concepção artística do “boneco assassino” (embora os produtores jurassem que o filme não seria sobre “bonecos assassinos”) e os efeitos especiais são bem convincentes (o visual macabro do boneco chega a ser perturbador em determinados momentos).

O desfecho do enredo, se não é tão arrebatador quanto em “Jogos Mortais”, é inteligente e assustador. Apenas o modo como é revelado que não inova, já que repete o estilo “flashback-explica-tudo” (como em “Jogos Mortais”).



A direção do malaio James Wan, apesar de convencional, é competente. Entretanto, ainda que o diretor afirme que, a princípio, “Dead Silence” seria uma tentativa de sair da sombra de “Jogos Mortais” e que gostaria de evitar comparações, o resultado final remete inevitavelmente aos primeiros trabalhos do diretor. Parecia o mais provável, já que ambos os filmes foram realizados praticamente pela mesma equipe. Foram os mesmos roteiristas, produtores, compositor, diretor e ator (Donnie Wahlberg), além do desfecho ao estilo flashback-explica-tudo.

O título nacional numa tradução literal seria algo como “Silêncio Mortal”, que acabaria sendo pertinente, mas pouco original. No entanto, a escolha da distribuidora foi pelo caminho inverso: “Gritos Mortais”. O próprio título em inglês permaneceu uma incógnita durante muito tempo até ser definido “Dead Silence”, entre os “títulos temporários” foram divulgados: “Shhhhh”, “Silence” e até mesmo “The Doll”.



Como curiosidade, existem algumas referências propositais à série “Jogos Mortais” em “Dead Silence”. O boneco principal de Mary Shaw (o que está no pôster oficial) é chamado de Billy, o mesmo nome do boneco de Jigsaw, que sempre aparece explicando as regras de suas armadilhas. Embora ele não tenha sido citado diretamente como Billy em nenhuma cena da série “Jogos Mortais”, ele sempre foi chamado assim pelos roteiristas/diretores/produtores em entrevistas ou bastidores. O próprio boneco aparece numa cena em “Dead Silence”, aos exatos 1:13:50, no canto direito da tela, encostado em um pilar.

Os créditos finais de “Dead Silence” dedicam o filme à memória de Gregg Hoffman, um dos produtores dos três filmes da franquia “Jogos Mortais”, falecido em 4 de dezembro de 2005.



Filmes de bonecos “endemoniados” não são exatamente uma novidade, basta lembrarmos as cine-séries “Brinquedo Assassino” (Child’s Play, EUA, 1988), “Bonecos da Morte” (Puppet Master, EUA, 1989) ou “Brinquedos Diabólicos” (Demoniac Toys, EUA, 1992), mas bonecos e ventríloquos são até raros. O filme mais conhecido com temática parecida é “Magia Negra” (Magic, EUA, 1978). Neste filme, o ventríloquo vivido por Anthony Hopkins sente que progressivamente é dominado por seu boneco. Uma grande curiosidade sobre este longa é que ele foi baseado no episódio final do suspense “Na Solidão da Noite” (Dead of Night, Inglaterra, 1945), dirigido pelo brasileiro Alberto Cavalcanti.

Enfim, “Dead Silence”, apesar de suas limitações, pode agradar aos menos exigentes pela trama pouco comum e os bons efeitos dos bonecos. Mas é só isso, e está muito aquém da capacidade dos criadores de “Jogos Mortais”.



João Pires Neto

GRITOS MORTAIS (Dead Silence, EUA, 2007).
Direção: James Wan
Roteiro: James Wan e Leigh Whannell.
Produção: Mark Burg, Gregg Hoffman e Oren Koules.
Fotografia: John R. Leonetti.
Desenho de Produção: Julie Berghoff.
Efeitos Especiais: Warren Appleby.
Música: Charlie Clouser.
Edição: Michael N. Knue.
Elenco: Ryan Kwanten (Jamie Ashen), Amber Valletta (Ella Ashen), Donnie Wahlberg (Det. Jim Lipton), Michael Fairman (Henry Walker), Joan Heney (Marion Walker), Bob Gunton (Edward Ashen) e Judith Roberts (Mary Shaw).


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