Antes de traçar uma análise de Delírios de um Anormal, é preciso conhecer um pouco
sobre como era difícil gravar um filme nos anos 60, período no qual os cineastas
lutavam para conseguirem verbas para realizarem seus trabalhos, que quando
prontos, sofriam verdadeiros massacres por causa da Censura Federal. Os órgãos
fiscalizadores exigiam que diversas cenas fossem cortadas da edição final por
conterem mensagens que fossem consideradas contra a ordem ou os bons costumes. Por
fazer produções de terror, Mojica era uma das principais vítimas desta realidade
da época e praticamente todos os filmes do gênero dele precisavam perder diversas
cenas para que fossem aprovados. A Censura Federal era tão severa que, mesmo com
os cortes exigidos, algumas películas acabavam sendo proibidas, como foi o caso de
Ritual de Sádicos (1969), que nunca conseguiu a liberação.
E Mojica, assim como qualquer cineasta, sabia que com cada corte, seus filmes
perdiam parte de sua mensagem, narrativa e estética. Este último item sempre foi
de destaque nas obras do diretor que criava formas próprias de filmar para
conseguir resultados que fossem visualmente positivos. Mesmo com poucos recursos,
Mojica conseguia criar cenas bem trabalhadas como a procissão dos mortos de À Meia
Noite Levarei a Sua Alma ou a descida ao inferno de Esta Noite Encarnarei no Teu
Cadáver (1967). O material cortado geralmente era perdido, pois dificilmente teria
como ser utilizado futuramente, principalmente em uma época tão longínqua do DVD,
que possui extras, cenas delatadas, eliminadas, ensaiadas, comentadas, etc.

Mas Mojica sempre foi um homem de visão e mesmo sem saber o que faria com essas
cenas, resolveu guardá-las para que um dia, de alguma forma, fossem mostradas. E a
oportunidade apareceu no ano de 1978, quando surgiu a idéia para gravar um novo
filme de terror. Mojica estava afastado de terror fazia alguns anos, período no
qual dirigiu e participou de comédias e pornochanchadas e a idéia de voltar ao
personagem
Zé do Caixão lhe encheu de entusiasmo. O novo roteiro, que recebeu o
título de
Delírios de um Anormal, foi escrito pelo amigo e colaborador de longas
datas Rubens Lucchetti, que havia assinado
Exorcismo Negro (1974). Foi justamente
nesse período, no final dos anos 70, com a censura bem menos severa, que Mojica
percebeu que poderia inserir no novo filme algumas cenas não aprovadas dos seus
filmes anteriores. A verba era tão curta que de um total de 86 minutos, Mojica
gravou apenas 35 de cenas inéditas que serviriam para dar um enredo para a nova
história.
Era uma ótima forma de ter cenas visualmente interessantes e assustadoras e
melhor, que já haviam sido gravadas. Porém, existia um problema: como dar nexo a
uma trama feita com as
“sobras” de filmes já existentes, alguns com mais de 10
anos? A solução veio na forma da brilhante edição feita por Nilcemar Leyart, que
foi companheira e colaboradora de Mojica por cerca de 30 anos. Os dois chegaram a
morarem juntos e têm duas filhas. Foi ela quem criou, através das diversas cenas
recuperadas, os
“delírios” que o título anunciava de forma a dar estrutura ao
filme, que no ponto de vista estético, é riquíssimo. Mesmo com as diferenças entre
os
“vários” Zé do Caixão, que hora está mais gordo, ou com as unhas maiores, com a
barba menor. Isso acontece, pois o resultado de
Delírios é a soma de cinco filmes
rodados em anos e situações bem diferentes.
O formato desse filme é o mesmo utilizado por Mojica nas suas demais produções:
atores desconhecidos e exagerados, personagens sem o menor carisma, cenários de
papelão, dublagem mal feita, som precário, figurinos tétricos, além de limitações
técnicas. Então como um filme que reunia essas
“características” fazia sucesso?
Porque Mojica sempre soube, mesmo com verbas quase inexistentes, conduzir de forma
positiva as suas produções. Longe de ser um cineasta que havia freqüentado
faculdades, o eterno
Zé do Caixão fazia filmes por que gostava e em cada novo
trabalho, buscava um resultado melhor que o anterior, mesmo que de forma empírica.
E como os filmes de terror sempre foram a sua verdadeira paixão, havia quase que
um esforço interno para alcançar bons resultados, mesmo com todas as dificuldades
financeiras, que sempre acompanharam Mojica.
Quando fez sua estréia, em 1979, o grande marketing feito para divulgação da
produção era que
Delírios de um Anormal utilizava diversas cenas inéditas dos
filmes anteriores de Mojica, no caso
Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver,
O
Estranho Mundo de Zé do Caixão (1968),
Exorcismo Negro (1974) e
Ritual de Sádicos
(1969). O que foi visto como um trabalho de mestre por alguns, foi chamado de
picaretagem por outros. Veja abaixo duas críticas bem opostas referentes ao filme:
“(...) O filme não anda. Os pesadelos se multiplicam, mas em cada um deles as
imagens repetem-se incansavelmente. O tempo parou. O que sobra são efeitos
visuais, cenografia, bichinhos, etc. Algumas dessas imagens são fortes, outras
ridículas, como as desse inferno povoado por chacretes infernais de véus roxos.
Aqui, o inferno está entre o fantástico show da vida e Chacrinha”.
- Jean-Claude Bernardet, Jornal Última Hora
“Delírios de um Anormal é menos (ou mais) que um filme. É um desabafo, um
protesto, um festival.(...) Para os críticos e cineastas aficcionados de Zé do
Caixão e de seu criador, Delírios de um Anormal deve valer por um orgia de
prazeres cinematográficos. (...) Mojica presenteia os aficcionados com visões
infernais temperadas com insólitos de aparições de nus e de muros decorados com
muitos traseiros e seios. Um gênio incompreendido? Há quem responda positivamente”
- Ely Azeredo, O Globo.
- 35 minutos de filme
Em
Delírios de um Anormal, o personagem principal é o Dr Hamilton (Jorge Peres, de
Inferno Carnal, 1977), um famoso psiquiatra que é atormentado por pesadelos nos
quais
Zé do Caixão toma a sua esposa, Tânia (Magna Miller, que só fez este filme)
para ser a mulher que irá gerar o filho perfeito para o coveiro. Os colegas
médicos de Hamilton decidem buscar ajuda para esses pesadelos sem fim do amigo e
entram em contato com o cineasta José Mojica, que tenta fazer com que Hamilton
acredite que
Zé do Caixão é apenas um personagem fictício.
Esse foi o enredo que mistura realidade com ficção ao colocar criador versus
criatura num interessante trabalho de metalinguagem que foi escrito para funcionar
como caminho para a edição das antigas cenas censuradas. As imagens copiladas
serviram para serem mostradas justamente como os delírios de Hamilton, que apenas
observa um estranho mundo semelhante a um inferno e repleto de tortura e seres
bizarros.
Visto hoje por um público acostumado com filmes norte-americanos,
Delírios de um
Anormal causaria vexame pelas suas limitações e condições precárias. Merece
destaque pela forma como foi concebido e pelo conteúdo que lhe deu forma. Não são
apenas os gêneros como drama e aventura que possuem clássicos e mesmo que não seja
o melhor trabalho realizado por Mojica,
Delírios de um Anormal merece ser
conferido justamente por apresentar-se como um museu dos filmes anteriores de
Mojica.
- Origens dos delírios
Conheça abaixo os quatro filmes que tiveram cenas censuradas utilizadas em
Delírios de um Anormal.
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- Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver. Gravado em 1966 e lançado em 1967.
Direção: José Mojica Marins. Elenco: José Mojica Marins, Roque Rodrigues, Nádia
Tell, William Morgan, Tina Wohlers. Seqüência de À Meia Noite Levarei a Sua Alma,
onde o coveiro Zé, após sobreviver ao ataque sobrenatural do final do filme
anterior, continua na busca da mulher ideal para lhe dar o filho perfeito. E para
conseguir alcançar o seu objetivo, seqüestra seis moças do povoado para
submetê-las a terríveis torturas e depois assassinar as que não passarem em seus
testes. |
O filme foi rodado em preto e braço, porém os 10 minutos finais são coloridos e
teve o orçamento três vezes maior do que o
A Meia Noite Levarei a Sua Alma. Foi
quase todo filmado dentro de uma antiga sinagoga que servia como escola de atores
ministrada por Mojica. A idéia inicial era que fossem produzidas mais quatro
seqüências diretas que nunca foram filmadas. Os títulos dos filmes seriam:
A
Encarnação do Demônio,
O Lamento dos Espíritos Errantes,
O Sepulcro do Diabo e
Discípulo de Satanás.
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- O Estranho Mundo de Zé do Caixão. Gravado em 1967 e lançado em 1968. Direção:
José Mojica Marins. Elenco: José Mojica Marins, Vany Miller, Verônica Krimann,
Paula Ramos, Esmeralda Ruchel e Osvaldo de Souza. Filme que reuni três
interessantes histórias de terror. Cada conto tem duração média de 25 minutos e
possui formato semelhante ao de história em quadrinhos, sendo que Zé do Caixão
participa como personagem apenas da última. A primeira história, O Fabricantes de
Bonecas, narra as desventuras de um grupo de ladrões que invade a casa de um
velhinho e descobre o terrível segredo que ele utiliza na fabricação de suas
sinistras bonecas. |
>
O segundo conto,
Tara, apresenta o sempre interessante tema de necrofilia, no qual
um pobre vendedor de balões alimenta uma paixão platônica por ume bela moça, porém
o rapaz só vai conseguir realizar seu desejo quando a coitada morre de acidente e
ele resolve fazer uma visita noturna ao cemitério. No último conto,
Ideologia, o
assustador professor Oaxiac Odéz (O próprio
Zé do Caixão) apresenta para seus
convidados um mundo repleto de sadomasoquismo e canibalismo.
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- Exorcismo Negro. Gravado e lançado em 1974. Direção: José Mojica Marins. Elenco:
José Mojica Marins, Jofre Soares, Walter Stuart, Geórgia Gomide e Wanda Kosmo.
Interpretando a si próprio, Mojica está passando as férias na casa de campo de um
amigo com a família deste quando estranhos acontecimentos começam a apavorar a
todos. Logo Mojica vai descobrir que é o próprio Zé do Caixão quem está por trás
das assombrações e vai precisar enfrentar a sua criação que pretende matar a
todos.
A idéia para realizar Exorcismo Negro surgiu após a grande expectativa diante da
estréia no Brasil de O Exorcista (The Exorcist, 1973). A idéia original era que
Exorcismo Negro fosse lançado na mesma época do filme norte-americana, mas por
problemas financeiros, a produção atrasou em quase um ano. |
Na época da estréia de
O Exorcista, Mojica comparecia nas filas dos cinemas que estavam exibindo a
produção para dizer que o
“diabo brasileiro era muito mais assustador e
aterrorizante do que o gringo”.
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- Ritual de Sádicos. Produzido em 1969 e exibido pela primeira vez em um festival
de cinema de São Paulo apenas em 1983. Direção: José Mojica Marins. Elenco: José
Mojica Marins, Sérgio Hingst, Ozualdo Candeias, Andréia Bryan e Lurdes Ribas. Um
psiquiatra injeta LSD em quatro voluntários para que os efeitos da droga possam
ser estudados em pessoas diferentes. As alucinações de cada um dos pacientes vai
ser mostrada de forma não linear formando um conjunto de diversas imagens que
misturam sexo, violência, perversão e sadismo e que são assombradas pela figura do
Zé do Caixão.
O filme proibido de Zé do Caixão como ficou conhecido por não ter sido liberado
pela Censura Federal da época. Mesmo com os diversos cortes exigidos pelos órgãos
fiscalizadores, a produção nunca recebeu o aval para ser lançada. |
Foi rebatizado
como
O Despertar da Besta e mesmo assim continuou proibido. Foi exibido pela
primeira vez apenas em um festival de cinema em 1983. Ganhou o prêmio de melhor
roteiro, para Rubens Lucchetti, no
Cine Festival, de 1986.
* Críticas da época do lançamento do filme Delírios de um Anormal foram retiradas
do livro Maldito; A Vida e o Cinema de José Mojica Marins, o Zé do Caixão:
BARCINSKI, André e FINOTTI, Ivan. Editora 34, 1998.
Filipe Falcão
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DELÍRIOS DE UM ANORMAL (Idem, Brasil, 1978) Duração 86 minutos
Direção: José Mojica Marins
Roteiro: Rubens Francisco Luchetti
e José Mojica Marins
Produção: José Mojica Marins
Música: Clayber de Souza
Fotografia: Giorgio Attili
Figurino: Nilcemar Leyart
Edição: Nilcemar Leyart
Maquiagem: Nilcemar Leyart
Elenco: José Mojica Marins (ele mesmo/Zé do Caixão); Jorge Peres (Dr. Hamilton); Magna Miller (Tânia, a esposa do Dr.Hamilton); Jaime Cortez; Natalina Barbosa; Lirio Bertelli; Alexa Brandwira; Andreia Bryan; João da Cruz; Anadir Goe; Elza Perreira; João Paulo Ramalho (voz do Zé do Caixão); Valter Setembro
|
FILMOGRAFIA COMPLETA
José Mojica Marins como ator
2005 – A Marca do Terrir
2004 - Fim (curta-metragem)
2004 - Um Show de Verão
2002 - Samba Canção
2002 - A Lasanha Assassina
2001 - Dr. Bartolomeu e a Clínica do Sexo
2001 - Maldito - O Estranho Mundo de José Mojica Marins
2000 - Tortura Selvagem - A Grade
1997 - Contos de Horror
1997 - Ed Mort
1997 - Homens Sem Terra
1994 - Demônios e Maravilhas
1990 - O Gato de Botas Extra-Terrestre
1989 - Dama de Paus
1988 - Olho por Olho (novela)
1987 - Demons and Wonders
1987 - Quarenta e Oito Horas de Sexo Alucinante
1986 - As Belas da Billings
1986 - A Hora do Medo
1984 - A Quinta Dimensão do Sexo
1984 - Padre Pedro e a Revolta das Crianças
1983 - Horas Fatais - Cabeças Trocadas
1981 - O Segredo da Múmia
1981 - Chapeuzinho Vermelho do Sexo
1981 - A Encarnação do Demônio
1978 - Mundo-mercado do Sexo
1978 – Perversão
1978 - O Abismo
1978 - A Deusa de Mármore
1977 - Inferno Carnal
1977 - Estranha Hospedaria dos Prazeres
1977 - Delírios de um Anormal
1977 - O Vampiro da Cinemateca
1976 - Mulheres do Sexo Violento
1974 - Exorcismo Negro
1972 - Sexo e Sangue na Trilha do Tesouro
1971 - Quando os Deuses Adormecem
1971 - Finis Hominis
1970 - Audácia - A Fúria dos Desejos
1970 - Fracasso de um Homem em Duas Noites de Núpcias
1970 - Ritual de Sádicos
1969 - O Profeta da Fome
1969 - O Cangaceiro Sem Deus
1968 - Por Exemplo Butantã
1967 - O Estranho Mundo de Zé do Caixão
1966 - Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver
1965 - O Diabo de Vila Velha
1963 - À Meia-Noite Levarei Sua Alma
1962 - Meu Destino em Tuas Mãos
1958 - Éramos Irmãos
1958 - Sina de Aventureiro
1955 - Sentença de Deus (inacabado)
1948 - A Voz do Coveiro
1947 - Sonhos de Vagabundo
1946 - Beijos à Granel
1945 - A Mágica do Mágico
José Mojica Marins como diretor
2004 - Fim (curta-metragem)
1996 - Adolescência Em Transe
1994 - Demônios e Maravilhas
1987 - Quarenta e Oito Horas de Sexo Alucinante
1986 - Dr. Frank na Clínica das Taras
1983 - Horas Fatais - Cabeças Trocadas
1981 - A Encarnação do Demônio
1980 - A Praga
1978 - Mundo-mercado do Sexo
1978 - Perversão
1977 - A Mulher Que Põe a Pomba no Ar
1977 - Inferno Carnal
1977 - Estranha Hospedaria dos Prazeres
1977 - Delírios de um Anormal
1976 - Como Consolar Viúvas
1976 - Mulheres do Sexo Violento
1974 - Exorcismo Negro
1974 - A Virgem e o Machão
1972 - Quando os Deuses Adormecem
1972 - Dgajão Mata para Vingar
1972 - Sexo e Sangue na Trilha do Tesouro
1971 - Finis Hominis
1970 - Ritual de Sádicos
1968 - Trilogia do Terror
1967 - O Estranho Mundo de Zé do Caixão
1966 - Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver
1965 - O Diabo de Vila Velha
1963 - À Meia-Noite Levarei Sua Alma
1962 - Meu Destino em Tuas Mãos
1958 - Sina de Aventureiro
1955 - Sentença de Deus (inacabado)
1948 - A Voz do Coveiro
1947 - Sonhos de Vagabundo
1946 - Beijos à Granel
1945 - A Mágica do Mágico | | | | | | | | | | | | | | 






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