

Mesmo visto várias vezes, "
Demons" mantém suas surpresas. Trata-se, na verdade, de uma verdadeira brincadeira com o cinema do horror, em que Bava usa de metalinguagem (filme dentro de filme) para criar uma verdadeira orgia de sangue e mutilações. O roteiro excelente foi escrito pela gema do horror italiano: Bava,
Dario Argento, Franco Ferrini e Dardano Sacchetti (autor da idéia).
Tudo começa numa estação de metrô, ao som de uma clássica (para adoradores de horror) trilha sonora de Claudio Simonetti, que tornou-se tão famosa quanto o filme. Para quem não sabe, Simonetti era integrante do Grupo Goblin, especializado em trilhas sonoras para filmes de horror - fizeram, por exemplo, a música sinistra de "
Dawn of the Dead", de George A. Romero.
No prólogo, Cheryl (Natasha Hovey) desembarca em um ponto deserto da estação de metrô e se assusta com a presença de uma figura ameaçadora, vestida de negro e usando uma arrepiante máscara prateada. Ao perceber que o desconhecido está lhe seguindo, ela corre... mas o homem a alcança quando ela menos espera!


Não, não é um serial killer. Na verdade, o misterioso personagem (interpretado por
Michele Soavi, diretor de segunda unidade do filme que estrearia como cineasta em 1987, como "
O Pássaro Sangrento") está distribuindo convites para a reinauguração de um velho cinema, o Metropol. Cheryl consegue convencer uma amiga, Kathy (Paola Cozzo), a lhe acompanhar até o cinema, onde um variado grupo de pessoas já está esperando pelo início da sessão.
No saguão, somos apresentados aos personagens principais: os amigos George (Urbano Barberini, que depois apareceria em "
Terror na Ópera", de
Dario Argento) e Ken (Karl Zinny); o cafetão Tony (Bobby Rhodes, de
"Apocalypse 2", divertidíssimo em seu tradicional papel de
"macho man") acompanhado de duas prostitutas, casais de namorados e até um senhor cego (foi fazer o quê no cinema, caramba????), acompanhado pela infiel esposa - que lhe trai no primeiro momento, no escurinho do cinema.
No mesmo saguão há a escultura de uma figura oriental, sobre uma motocicleta, com um sabre ninja em uma das mãos e uma misteriosa máscara metálica na outra. O cego sente estranhas vibrações vindas da máscara, mas é tarde demais: uma das prostitutas já a pegou para assustar a amiga. Ao retirá-la, porém, arranha o rosto.


A sessão começa: o filme, claro, é de horror. Imagens do filme que está sendo exibido se misturam com as do filme que nós, espectadores reais, estamos assistindo. No roteiro exibido na telinha do cinema, um grupo de amigos visita as ruínas de um castelo e encontra o túmulo do profeta Nostradamus. Detalhe: um dos amigos é interpretado por
Michele Soavi, em seu segundo papel no filme!

No túmulo de Nostradamus, os rapazes encontram o fragmento de uma profecia:
"Eles farão dos cemitério as suas catedrais, e das cidades os seus túmulos" (a frase virou tagline do filme e foi parar no cartaz). Um dos amigos encontra também uma misteriosa máscara e, ao colocá-la, também se fere no rosto, como tinha acontecido com a prostituta no saguão!
Enquanto no filme projetado o rapaz ferido se transforma em demônio, a moça ferida na platéia também começa a se sentir mal. No banheiro, começam os efeitos melequentos de Sergio Stivaletti: ao se olhar no espelho, a ferida no rosto incha e explode, liberando um jorro de sangue e pus. Em segundos, a garota se transforma no primeiro demônio (demon) do cinema, mas certamente não o único: arranhões ou mordidas vão espalhando o contágio (como acontece nos filmes de zumbis), e em breve um grupo de poucos sobreviventes terá que buscar uma fuga e combater o número crescente de demônios. Mas portas do cinema estão misteriosamente trancadas e parece não haver fuga...


Se a situação em si já é macabra, Bava ainda consegue jogar o espectador em uma situação de enorme suspense, com os heróis ficando confinados em espaços cada vez mais fechados (como John Carpenter fez em "Halloween"), de onde parece não haver escapatória, deixando a chance de uma salvação cada vez mais distante.
"
Demons", no fundo, é uma revitalização dos filmes sobre mortos-vivos, que faziam sucesso nos anos 70, mas estavam em declínio na década de 80. Até então, George A. Romero tinha filmado o fim de sua trilogia sobre zumbis, "
O Dia dos Mortos", e Dan O'Bannon dirigido seu
"clássico" terrir "
A Volta dos Mortos-Vivos". Mas o gênero estava em decadência, principalmente pelo grande número de títulos feitos na Itália por Lucio Fulci,
Bruno Mattei, Umberto Lenzi e outros malucos. Portanto, ao invés de simplesmente fazer mais um filme com mortos cambaleantes levando tiros na testa, Bava resolveu optar por demônios que, ao contrário dos mortos-vivos tradicionais, têm enorme velocidade e agilidade, tornando a fuga ainda mais difícil. É quando os poucos sobreviventes do filme resolvem arregaçar as mangas e lutar, com as armas que têm à mão. Mas a resistência é inútil, pois a praga já se espalhou por toda a cidade. O final, obviamente, deixa pouca esperança, tanto ao espectador quanto aos personagens.


Os efeitos especiais são excelentes: há uma famosa cena onde os demônios caminham por um dos corredores escuros do cinema, com os olhos iluminados - de tão boa, a cena foi parar no cartaz do filme. A transformação de pessoas em demônios é o ponto alto, com ótima maquiagem e cenas de nojo explícito. Stivaletti faz uma ponta como uma das vítimas do cinema. O splatter também corre solto, com muito sangue jorrando e membros decepados, ao som do har rock de Billy Idol, Mötley Crue e outras bandas famosas dos anos 80. Um dos melhores momentos é quando George, sai pilotando uma motocicleta em alta velocidade pelo interior do cinema enquanto decepa cabeças e braços dos demônios com uma espada samurai - cena que seria repetida depois, de forma bem mais exagerada, no final de "
Fome Animal", quando o herói combate zumbis com um cortador de grama, também cortando cabeças e braços.


O filme é simplesmente o melhor da filmografia de Bava (repare na sua aparição relâmpago à la Hitchcock, na cena do metrô). Ele atualmente está sumido, devido à decadência do cinema classe B made in Italy. O pobre coitado resume-se a dirigir produções para a TV, sem grandes obras para destacar. Nascido em 1944, ele é filho do lendário diretor Mario Bava, um dos mestres do cinema de horror italiano - "
Banho de Sangue", feito nos anos 60, influenciou os slasher movies americanos, como "
Sexta-feira 13". Lamberto dirigiu 31 filmes, contando as bobagens feitas para a TV, e estreou na direção na metade dos anos 70. Antes, porém, fez uma espécie de "estágio", trabalhando como diretor de segunda unidade em alguns clássicos do horror italiano, como "
Cannibal Holocaust", de Ruggero Deodato, e
"Inferno" de
Dario Argento. Foi trabalhando em "
Inferno" que começou a amizade entre os dois, amizade esta que gerou "
Demons" - não se sabe se foi Bava ou Argento que mais influenciaram o filme, mas vale ressaltar que, sem contar os dois "
Demons", a filmografia de Lamberto é muito pobre, com bobagens como "
Banquete com o Vampiro" e "
O Terror Não Tira Férias".
Outro detalhe fundamental: "
Demons" também tem suas seqüências
"esquisitas" ou mal-explicadas, aliás, como a maioria dos filmes de horror italianos. O roteiro deixa algumas pontas soltas - também, foi escrito por quatro caras! Por exemplo: desde o início fica claro que o cinema é, na verdade, uma armadilha para os espectadores. Mas nunca fica claro quem está por trás disso e por quê. Enquanto o rapaz que distribui ingressos (
Soavi) se revela um dos vilões, inclusive atacando os heróis no final, uma misteriosa funcionária do cinema, que parece a par da trama - ela olha de forma sinistra para a prostituta quando esta se machuca com a máscara que dá origem à toda confusão -, se torna uma das vítimas dos demônios.


Mas são detalhes que não desmerecem em nenhum momento a diversão de assistir a este excelente espetáculo, obrigatório para fãs do gênero e simplesmente um dos melhores filmes de horror italianos do período. Infelizmente, depois deste sucesso, Lamberto Bava nunca mais fez um filme que prestasse: ele praticamente copiou o enredo na seqüência picareta, "
Demons 2", lançada no ano seguinte (com roteiro escrito novamente pelo quarteto Bava, Argento, Ferrini e Sacchetti), e em seguida se perdeu fazendo filmes menores, acabando a carreira na direção de filmes infantis e as tais produções para a TV. Um fim inglório para um mestre, que ainda tentou uma virada no final dos anos 80, refilmando, sem melhores resultados, um clássico dirigido por seu pai na década de 60, "
A Máscara do Demônio". Não fez diferença: ninguém viu e ninguém quis ver.
O problema: como a maioria dos filmes lançados na década de 80, "
Demons" já saiu de catálogo há muito tempo e, infelizmente, apenas locadoras com um bom acervo e colecionadores possuem esta fita fundamental. Por aqui o filme ainda não saiu em DVD, e é desnecessário dizer que dificilmente sairá, levando em conta que as distribuidoras têm privilegiado lançamentos ou filmes americanos mais famosos. Portanto, o negócio é garimpar: revendas e grandes locadoras são alguns dos locais onde pode ser possível encontrar esta obra-prima. Vale a pena.
Felipe M.Guerra
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DEMONS (Demons, Itália, 1985). Columbia / Screen Gems, 96 minutos
Direção: Lamberto Bava
Roteiro: Lamberto Bava, Dario Argento, Franco Ferrini e Dardano Sacchetti
Produção: Dario Argento
Fotografia: Gianlorenzo Battaglia
Edição: Piero Bozza e Franco Fraticelli
Desenho de Produção: Davide Bassan
Efeitos Especiais: Angelo Mattei e Sergio Stivaletti
Elenco: Urbano Barberini (George); Natasha Hovey (Cheryl); Karl Zinny (Ken); Fiore Argento (Hannah); Paola Cozzo (Kathy); Fabiola Toledo (Carmen); Nicoletta Elmi (Ingrid); Stelio Candelli (Frank); Nicole Tessier (Ruth); Geretta Geretta (Rosemary); Bobby Rhodes (Tony); Guido Baldi (Tommy); Bettina Ciampolini (Nina); Sally Day (Carla); Jasmine Maimone (Nancy - no filme); Marcello Modugno (Bob - no filme); Michele Soavi (Homem de preto/ Jerry - no filme); Lamberto Bava (primeiro homem, saindo do trem)
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